Pé-de-meia reduz 25% do problema da evasão escolar, por Laura Muller Machado

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Proposta brasileira está em linha com os resultados mundiais, mas pode ser fortalecida com melhoria na educação

Laura Muller Machado, Mestre em Economia Aplicada pela USP, é professora do Insper e foi secretária de Desenvolvimento Social do Estado de São Paulo

Folha de São Paulo, 22/03/2025

O Pé-de-Meia, a partir de um incentivo financeiro-educacional mensal e de uma poupança condicionada para os jovens, tem como objetivo promover a permanência e a conclusão escolar de alunos matriculados no ensino médio público. O programa prevê o pagamento de uma bolsa de estudos com menos de meio salário-mínimo per capita a inscritos no cadastro único.

Os pagamentos são de 10 parcelas mensais de incentivo de R$ 200, que podem ser sacados em qualquer momento desde que comprovada a frequência de 80%, além de três depósitos de R$ 1.000 ao final de cada ano concluído, que só poderão ser retirados da poupança após a conclusão do ano letivo. Os valores chegam a até R$ 9.200 por aluno ao longo do ensino médio, desde que o estudante frequente e seja aprovado em todas as etapas.

Sabemos, a partir do estudo “Consequências da violação do direito à educação”, de Ricardo Paes de Barros, que os jovens que não concluem a educação básica irão incorrer em uma perda de R$ 395 mil ao longo da vida toda devido a perdas, não apenas envolvendo remuneração, mas também longevidade, externalidades econômicas e episódios de violência.

Isso quer dizer que, a cada cinco jovens que não evadem, deixamos de perder R$ 2 milhões. O custo da não conclusão da educação básica é muito alto, tanto para quem deixa a escola como para toda a sociedade brasileira.

Espera-se que uma bolsa de estudo seja um instrumento mais eficaz quando a razão para a evasão é a falta de renda para frequentar a escola, e menos eficaz em casos nos quais o jovem tem condições, mas não percebe a escola como um investimento produtivo para seu tempo.

Uma bolsa de estudo deve ter mais impacto quando o motivo da evasão é a pobreza e a necessidade de trabalhar do que a baixa qualidade da educação oferecida. O Pé-de-Meia será um bom instrumento para combater a evasão por motivo de ausência de recursos financeiros. Mas para ser mais impactante, o programa precisa de um complemento: a educação de qualidade.

A partir de dados da Pnad e do Inep de 2019, o Centro de Evidências da Educação Integral do Insper desenvolveu um simulador, uma avaliação ex-ante, para estimar seu impacto. O resultado mostra que, considerando todas as séries, a taxa de evasão no ensino médio para os beneficiários do programa sem o Pé-de-Meia é da ordem de 28%, enquanto com o Pé-de-Meia, de 21%, uma redução de 7 pontos percentuais. Portanto, o programa é capaz de equacionar um quarto da evasão.

Muitos países têm programas como o brasileiro. Foram publicados em torno de 104 estudos sobre esses incentivos educacionais ao redor do mundo. A literatura aponta para um impacto de redução de evasão de 2 a 9 pontos percentuais em programas similares. Portanto, a proposta brasileira está em linha com os resultados mundiais.

Apesar de promissor, fica evidente que a bolsa não é a solução completa do combate à evasão, um dos maiores desafios do ensino médio. Em especial, a ciência indica que o programa será enriquecido quanto mais robusto for a educação.  No Canadá, por exemplo, o incentivo equivalente é disponibilizado em conjunto com um plano de aperfeiçoamento de educação na escola beneficiada.

Sem dúvida, estamos todos gratos e animados com a bolsa de estudos para os mais vulneráveis poderem estudar. No entanto, sabemos que o Pé-de-Meia poderia alcançar resultados maiores e ser mais potente em um cenário de melhoria da qualidade da educação.

 

Adeus ao mundo eurocêntrico? Entrevista com Walden Bello

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Um pensador destacado do altermundismo sustenta: o poder do Ocidente nunca foi tão frágil. É possível esperar um novo Sul Global? Por que a China é muito diferente da antiga URSS? Que esperar dela numa nova ordem mundial?

Walden Bello, entrevistado a Néstor Restivo, em Tektónicos 

Tradução: Antonio Martins – OUTRAS PALAVRAS – 13/09/2024

A primeira vez que encontrei Walden Bello foi no verão de 2001, em Porto Alegre. Por ocasião do primeiro Fórum Social Mundial (FSM), há mais de duas décadas, esse sociólogo das Filipinas, ex-membro do parlamento de seu país viajou para o sul do Brasil como tantos ativistas, líderes e acadêmicos ou pesquisadores que esperavam que esse fórum, e os que o seguiram por vários anos, se consolidasse como uma tribuna internacionalista de resistência ao neoliberalismo – então em seu momento de expansão – e, ao mesmo tempo, uma plataforma para ideias alternativas. Bello, pouco conhecido na América do Sul, já era presença importante nos movimentos “altermundistas”. Dirigia uma rede de organizações sul-asiáticas denominada Focus on the Global South, cujo nome me chamou atenção.

O termo “Sul Global” apareceu pela primeira vez em 1969, quando o professor e ativista norte-americano Carl Oglesby escreveu um artigo sobre a Guerra do Vietnã no qual mencionou a “dominação do Norte sobre o Sul Global” — causa, segundo ele, de uma “ordem social intolerável”.

“Certamente não fomos os inventores nem os pioneiros em falar do ‘Sul Global’””, diz Walden Bello na Casa de las Madres de Plaza de Mayo, no inverno de 2024 em Buenos Aires, uma cidade que ele está visitando pela primeira vez. Ele conta que a Focus on the Global South foi estabelecida em Bangkok, Tailândia, em 1995, acrescentando: “de qualquer forma, adotamos esse nome, sintonizando-nos no momento certo com o que estava começando a acontecer no mundo”.

Walden Bello visitou à capital argentina (e não deixou de observar com perplexidade tudo o que emerge do governo de Javier Milei) a convite do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (CLACSO) e da Fundação para a Pesquisa Social e Política (FISYP). Palestrou sobre o “Impacto e oportunidades da crise da hegemonia dos EUA” e conversou com a Tektónikos sobre esse tema.

O que o Sul Global significa para você hoje?

– O que chamamos de países em desenvolvimento, subdesenvolvidos ou colonizados costumava ser chamado de “Terceiro Mundo”. Mas a União Soviética e a Europa Oriental entraram em colapso, entre 1989 e 91. Isso pôs fim à ideia de que havia um “segundo mundo”, um mundo comunista. Ficou difícil manter estes termos. Então, o termo Sul Global, que já havia sido inventado, ressurgiu como uma ideia na década de 1990, sob a premissa de reivindicar o fim de sua dominação.

Quais foram os principais desafios — e quais ainda são agora — nesse novo mundo em formação?

Continuam a ser o fim da dominação econômica e política dos Estados Unidos e de suas potências aliadas no Ocidente. São forças estruturais que dominaram o mundo por 500 anos, um cenário que, no entanto, está sendo questionado neste século XXI. Isso se dá principalmente por causa do surgimento de um grande ator como a China. Isso criou algum espaço para que o Sul Global pudesse se distanciar do Ocidente, tramar seu próprio desenvolvimento, ensaiar políticas autônomas – e não continuar a ser dominado por uma força ocidental liderada pelos Estados Unidos. A disputa da União Soviética com os EUA abriu espaço de manobra para o Terceiro Mundo. Mas a diferença é que agora a China possibilita outro cenário: é uma grande potência econômica e política de uma forma que a URSS não era – ou era apenas militarmente, mas não em outros níveis. Em outras palavras, agora a China tem grandes recursos econômicos e pode cooperar muito melhor com o mundo em desenvolvimento. Essas são condições muito diferentes daquelas da Guerra Fria.

Qual é o papel do BRICS?

É uma nova formação importante, hoje já com 10 países que se juntaram ao chamado BRICS+. Isso significa que não apenas os quatro e depois cinco fundadores do início (Brasil, Rússia, Índia, China e depois África do Sul), mas agora o dobro de nações (Egito, Irã, Etiópia, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos se juntaram desde 2024). Além disso, outros países querem aderir. Em outras palavras, agora temos um nível maior de recursos que podem ser usados para o desenvolvimento do Sul Global. Em segundo lugar, e talvez o mais importante, temos a China novamente, não apenas como uma potência econômica, mas oferecendo um modelo bem-sucedido de desenvolvimento liderado pelo Estado, em contraste com o que o FMI ou o Banco Mundial vêm defendendo há décadas, com seu foco no mercado como condutor. E, em terceiro lugar, o peso político dos BRICS é muito importante para fornecer recursos, espaço e margem de manobra, além de crédito para o Sul Global. Os BRICS também oferecem diversidade, pois em muitos aspectos os parceiros são diferentes uns dos outros (Brasil da Arábia Saudita ou Rússia do Irã etc.). Ainda assim, o importante é que o grupo agora ampliado não pode mais, devido ao seu tamanho e peso, ser dominado pelas potências ocidentais.

E quanto ao papel da China em particular, sendo a mais poderosa desse grupo?

É claro que a China lidera o grupo, é a principal fornecedora de recursos e impulsionadora dos bancos de desenvolvimento que estão sendo criados nesse ambiente, dos fundos de contingência, que têm formatos e exigências diferentes dos esquemas do FMI (o que mostra uma alternativa em potencial à ordem multilateral existente). A liderança da China é muito interessante. Pequim forneceu uma quantidade impressionante de recursos aos países do Sul Global e é um modelo, insisto nisso, em que o Estado controla as forças de mercado. Cada vez mais países estão olhando para isso como uma alternativa às economias orientadas pelo mercado. E, por fim, há o peso político e militar da China, embora ainda seja muito menor do que o dos EUA. A China tem muito cuidado para não se apresentar como um substituto dos EUA e disse explicitamente que bancos como o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) ou o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB) não querem substituir o sistema de Bretton Woods. Entretanto, os EUA afirmam que a China é uma potência revisionista e ambiciosa, que quer ser a número um, substituir tudo, não se integrar ao capitalismo e que representa um desafio. Na verdade, essa é uma tentativa de justificar o primeiro objetivo dos EUA, que é conter a China com uma postura muito agressiva, presente em especial no governo Biden, que está saindo.

A guerra interna imperial

O Ocidente está inevitavelmente entrando em guerra ou há setores que querem negociar algum tipo de transição?

Acho que a Europa está sendo arrastada pelos EUA nesse objetivo de conter a China. Ela foi fortemente influenciada e isso levou à expansão da OTAN para o leste e para a Ásia. Por meios econômicos, diplomáticos e militares, os EUA têm procurado conter a China durante todos esses anos e o Partido Democrata (PD) deu sinais muito claros aos seus militares de que é isso que eles querem em relação à China. O número de missões e bases dos comandos militares dos EUA no Pacífico foi aumentado e as forças armadas receberam sinal verde para isso. O comandante da Força Aérea, Mike Minihan, chegou a ser citado como tendo falado sobre a possibilidade de entrar em guerra contra a China em 2025.

A posição da extrema direita e do Partido Republicano em geral nos Estados Unidos é menos clara, você não acha?

Vamos examinar isso com atenção. A candidata democrata Kamala Harris e os líderes democratas gostariam de manter o papel do “livre comércio”, a hegemonia dos EUA, o uso de órgãos multilaterais que controlam e o fluxo “livre” de capital. Mas basicamente essa é a velha ordem. O presidente Biden e outros disseram que os EUA são os únicos capazes de preservar tudo isso, as instituições do domínio ocidental em seu conjunto, etc. Eles também acreditam que o desafiante republicano, Donald Trump, não faria isso. Com relação a Trump, acho que ele não está tão interessado em expandir o poder econômico dos EUA no Sul Global — nem no fluxo de capitais, nem na promoção de uma economia global ou transfronteiriça. Pense que, em seu primeiro governo, uma das ações imediatas de seu governo, em janeiro de 2017, foi retirar-se da Parceria Transpacífica (TPP). Isso é muito diferente do que o Partido Democrata quer. A mesma coisa aconteceu com a forma diferente de lidar com a ocupação do Afeganistão durante a mudança de governo de Trump para Biden. Acho que Trump está basicamente interessado em trazer o capital de volta para os EUA, o chamado reshoring, porque ele acusa as corporações de levar empregos para fora do país. Toda essa ideia de colocar os “Estados Unidos em primeiro lugar” é seu ponto de apoio. E seus apoiadores odeiam as grandes empresas de tecnologia do Vale do Silício e de Wall Street. Embora o próprio Trump seja obviamente um grande capitalista, ele explora esses sentimentos contra o grande capital. Entretanto, sua ideia não é tanto expandir os EUA, mas priorizar o mercado doméstico.

Será que o trumpismo se posiciona como completamente alheio aos problemas globais?

Eu diria que, em geral, sim, embora obviamente preservando o poder unilateral em questões mundiais. Ele é claramente anti-imigração. Em termos militares, eu o vejo mais comprometido e interessado em ter um país poderoso em si mesmo novamente, não um país de alianças como a OTAN, pois ele não gosta disso. Em resumo, vejo uma perspectiva diferente da dos democratas. Há diferenças reais entre os dois candidatos e os dois projetos. A pergunta que faço é se nós, no Sul Global, devemos escolher uma dessas duas opções. Minha resposta é que não precisamos fazer isso, não temos interesse na ordem liberal ou na ordem “América em primeiro lugar”. Mas precisamos prestar atenção em qual das duas posições prevalece e tentar tirar proveito dessas contradições.

Olhando das Filipinas, qual é o papel do Sudeste Asiático na reconfiguração global em andamento?

Há muitas contradições. O Vietnã e as Filipinas são muito críticos em relação à China pelo mesmo motivo: a disputa de limites no Mar do Sul da China, onde a China assumiu unilateralmente uma posição. É um mar com seis países reivindicantes e a China estabeleceu unilateralmente que 90% dele lhe pertence. Pode-se entender que a razão chinesa não é expansionista, mas defensiva – porque o Sudeste Asiático está muito próximo do núcleo industrial da China (Xangai, Guangzhou, suas áreas adjacentes etc.) e a ideia é que ela precisa proteger ou impedir um ataque dos EUA à sua infraestrutura produtiva. Em um cenário de guerra, isso é fundamental para a China, e os norte-americanos têm muitos ativos militares na área. Isso é compreensível do lado chinês, o que não é compreensível foi seu método unilateral de dizer “isso é nosso e, por ser nosso, vamos desenvolvê-lo de tal maneira”. A China deveria ter negociado isso com os outros países. Então, talvez fosse possível avançar na desmilitarização da área. É por isso, entre outros motivos, que o Vietnã critica a China nesse ponto. O país tem uma política externa independente. Como você sabe, já lutou no passado contra os norte-americanos e os franceses e exerce neutralidade diplomática.

E quanto ao seu país?

As Filipinas são diferentes. São totalmente aliadas militarmente aos EUA com o atual presidente Ferdinand Marcos Jr. Os norte-americanos têm nove bases militares e Marcos não tem nenhum senso de nacionalismo. Ele não se importa, só se preocupa com a fortuna de sua família, seu grupo central de pessoas próximas, a dinastia, seus investimentos milionários nos EUA e em outros países ocidentais, que podem ser facilmente expropriados se ele não fizer o que Washington quer. O governo de Marcos está completamente vendido aos EUA e não tem controle sobre a política de defesa.

E quanto ao cenário global, o restante das nações do Sudeste Asiático?

O restante da ASEAN, a associação que integra todas essas nações, é diversificado, mas a maioria da população tem uma opinião melhor sobre a China do que sobre os Estados Unidos, especialmente na Tailândia, no Camboja, na Indonésia e na Malásia. A maioria prefere a China como parceira aos EUA, de acordo com relatórios recentes. Os únicos dois países que se opõem a isso são, não surpreendentemente pelo que expliquei, embora por motivos diferentes, o Vietnã e as Filipinas. Essa é a situação atual na região, que se tornou decisiva no tabuleiro de xadrez global.

 

A Europa se prepara para a guerra, por Flávio Aguiar

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Flávio Aguiar – A Terra é Redonda – 18/03/2025

Sempre que os países da Europa prepararam-se para uma guerra, a guerra aconteceu. E este continente propiciou as duas guerras que em toda a história humana ganharam o triste título de “mundiais”

Há sinais de fumaça no horizonte de que os países europeus preparam-se para a guerra. Que guerra? Contra a Rússia.

Tomemos a Alemanha como exemplo.

Primeiro exemplo: a Volkswagen, empresa que há quase um século está vinculada à identidade nacional alemã, vai fechar três de suas fábricas, devido à crise econômica que assola o país e o continente. Mas há uma empresa interessada na compra das três. Qual? a Rheinmetall, uma das principais produtoras de armamentos na Alemanha. Por quê? Porque seus diretores prevêem uma margem de lucro considerável, graças ao anúncio, por parte da presidenta da Comissão Europeia, Úrsula von der Leyen, de que a União vai investir 800 bilhões de euros em armamentos para incrementar a defesa do continente.

Exemplo 2: paradoxalmente, o diretor de uma das agências do serviço secreto alemão, Bruno Kahl, do Bundesnachrichtendienst, manifestou, em entrevista à Deutsche Welle, em 03/03/2025, a preocupação com a possibilidade de que a guerra na Ucrânia tenha um “fim rápido”. Por quê? Segundo ele, porque isto liberaria a Rússia para ameaçar o restante da Europa antes de 2029 ou 2030, isto é, antes de que os outros países do continente estejam preparados para enfrentar o “inimigo”. A afirmativa, que provocou indignação em Kiev, mostra que há uma estratégia pensada a respeito da possibilidade e previsão da guerra.

E a indústria da guerra parece ser um dos vetores mais importantes para a recuperação econômica da Alemanha e do continente.

A Alemanha ocupa o quinto lugar entre os maiores exportadores de armas do mundo. São eles, em ordem crescente, segundo o Instituto Internacional de Investigação para a Paz, sediado em Estocolmo: Israel, Coreia do Sul, Espanha, Reino Unido, Alemanha, China, França e Rússia praticamente empatadas, e Estados Unidos.

Há duas enormes discrepâncias entre estes países. Primeira: de Israel à China, o percentual de participação nas exportações mundiais de armas fica em um dígito, de 1 a 5%. Com Rússia e França, o índice dá um salto, para 10,5 e 10,9%, respectivamente, sendo que a França superou a Rússia porque as exportações desta caíram, graças à guerra com a Ucrânia e os aliados que a apoiam.

Com os Estados Unidos, o salto é maior ainda: o índice de sua participação é de 40% do mercado mundial.

Segunda discrepância: nos últimos dez anos o valor destas exportações caiu, em oito dos dez países. As duas grandes exceções são a França e os Estados Unidos. No caso destes, o aumento foi de 24%.

Das 100 maiores empresas g“`privadas de produção de armamentos, 41 são norte-americanas, e 27 europeias, excluindo-se a Rússia, que tem apenas 2 empresas entre elas.

Invertendo-se a perspectiva, verifica-se que o país que mais importa armas no mundo é a Ucrânia, com quase 9% do setor. E seus principais fornecedores são os Estados Unidos, a Alemanha e a Polônia.

Assinale-se uma curiosidade: nenhum país da América Latina figura entre os principais exportadores ou importadores de armas.

Aqueles números acima mostram que, como no passado, infelizmente a guerra ou sua perspectiva permanecem sendo um bom negócio para afastar o fantasma de recessões econômicas para quem produza armas, não para quem suporte seus efeitos.

Como afirmei no começo, há sinais de fumaça no horizonte apontando na direção de uma guerra. Sabe-se que onde há fumaça, há fogo. Sempre que os países da Europa se prepararam para uma guerra, a guerra aconteceu. E este continente propiciou as duas guerras que em toda a história humana ganharam o triste título de “mundiais”.

Flávio Aguiar, jornalista e escritor, é professor aposentado de literatura brasileira na USP. Autor, entre outros livros, de Crônicas do mundo ao revés (Boitempo).

 

Paulo Francis anteviu em 1972 cisão nos EUA que levaria a Trump, por Gabriel Trigueiro

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Reportagens compiladas em livro trazem valiosas lições a políticos e eleitores democratas

Gabriel Trigueiro, Doutor em história comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro

Folha de São Paulo, 23/02/2025

Paulo Francis publicou em 1972 o livro “Nixon x McGovern: As Duas Américas”, reunião de reportagens sobre a eleição nos EUA naquela mesmo ano. Lido agora, na volta de Trump à Presidência, a obra soa profética ao antecipar a virada populista na direita americana, a divisão profunda entre as elites culturais e econômicas e a “maioria silenciosa”, a idealização provinciana de uma “América real” e as estratégias de comunicação para descredibilizar as instituições e toda espécie de crítica.

Em 1972, durante as eleições presidenciais dos EUA, a melhor cobertura não foi feita por um americano, mas sim por um brasileiro: o jornalista e crítico cultural Paulo Francis. Em sua obra “Nixon x McGovern: As Duas Américas”, cada capítulo foi escrito durante um momento diferente da campanha, o que deu urgência e dinamismo à sua análise.

Mesmo quem não se interessa em acompanhar a vida política norte-americana pode se divertir com a leitura do livro, já que o texto de Francis é escrito à moda de um thriller político com leveza e ritmo ágil. Seu estilo tinha algo de Bernard Shaw: frases curtas e economia de conectivos, deixando o leitor quase sem fôlego no virar da página.

Publicado no início dos anos 1970, “Nixon x McGovern” nos dá perspectivas sobre algumas disputas políticas norte-americanas contemporâneas. Os dois principais partidos, Republicano e Democrata, são duas máquinas de arrecadação e propaganda. É nesses termos que devem ser compreendidos.

“Nixon x McGovern” é um livro que anteviu o trumpismo. Traçando a origem de algumas estratégias utilizadas por Donald Trump, especialmente no âmbito da comunicação, encontraremos suas raízes na virada populista que Richard Nixon imprimiu na década de 1970 ao movimento conservador.

Afinal, Nixon foi eleito pelos descontentes com a “contracultura” e “os hippies”, da mesma maneira como o atual presidente dos EUA foi eleito ao se contrapor à “cultura woke” e à “esquerda radical”: termos imprecisos e vagos, mas úteis na elaboração de seu discurso como um “americano comum”. E como construir esse representante da “América real”?

Política populista x política aspiracional

No sucesso da campanha de Nixon para a Presidência americana em 1972, foi proveitoso o conceito de “maioria silenciosa”: uma expressão antiga popularizada com um novo sentido pelo seu redator de discursos, Patrick Buchanan.

Foi vendida a ideia de que qualquer posição crítica aos EUA (normalmente associada à esquerda, intelectuais e a grupos como negros, gays etc.) não representava a “América real”, nem o “americano médio”. Embora pertencesse a um grupo majoritário, esse “americano médio” estaria em silêncio e sem a representatividade institucional adequada. Nixon tinha a pretensão de falar por essa América sem voz.

Esse é um momento de virada nos EUA: a ascensão do populismo, uma corrente antiga no país, mas que desta vez estava adaptada às novas formas de comunicação, e fazia oposição a uma tradição aspiracional e quase aristocrática da política norte-americana. Francis constrói uma radiografia precisa dessa guinada.

Ambas as escolas de pensamento, definindo-as aqui como “populista” e “aspiracional”, existem nos EUA e disputam o poder pelo menos desde a independência do país.

A diferença é que durante o processo eleitoral de 1972 esse negócio ganhou uma roupagem contemporânea, irrigada com grana do “big business”, verba publicitária nababesca e o uso inédito de meios de comunicação como TV e rádio.

A diferença das duas escolas fica mais evidente quando pensamos em John f. Kennedy e Richard Nixon, que disputaram a Casa Branca em 1960. Segundo Francis, o primeiro exibia “a sofisticação da Costa Leste (centro financeiro e intelectual dos EUA), o sotaque Boston e Harvard”. Foi, por definição, um modelo aspiracional da América educada, de sangue azul e dinheiro antigo. No entanto, isso vinha com um custo alto: “o povo admirava Kennedy, mas o sentia acima das respectivas cabeças”.

Já Nixon “é o que inúmeros americanos são e têm vergonha de ser: o careta preconceituoso, aquisitivo, isento de imaginação e ideias, tão inseguro de si próprio que recebe qualquer crítica aos EUA como uma ofensa pessoal”.

No entanto, a cada vez que gente como Nixon ou, hoje em dia, alguém como Trump, se torna o saco de pancadas da classe intelectual, essa ofensa jamais fica circunscrita ao objeto da crítica: o político conservador da vez. Ela é coletivizada.

O ofendido passa a ser agora o grosso da população, que, repare, não se identifica, e jamais se identificou, com códigos de comportamentos cosmopolitas. Até porque são códigos que podem soar arbitrários, elitistas, exagerados e autoritários.

O partido do rei

Hoje a política norte-americana assumiu a seguinte configuração: o Partido Democrata comporta alas socialistas, passa por liberais, liberais-conservadores, até chegar a conservadores moderados. A orientação partidária Democrata é, no fundo, conservadora —não em questões sociais e de costumes, claro, mas no sentido de que ela é refratária a mudanças e tem uma estrutura interna rígida, hierarquizada e comandada por oligarquias e caciques.

O Partido Republicano, em contraste, virou o partido do rei. É composto por gente que acredita, ou finge acreditar, que Donald Trump é uma espécie de imperador que teve o seu “direito de sucessão” usurpado por falsos postulantes, e que agora tem o dever de restaurar as glórias perdidas da antiga América, corrigindo os excessos liberais e constitucionais de uma República em decadência.

Muitos analistas, inclusive eu mesmo nesta Folha, subestimaram a capacidade de adesão radical à ideologia trumpista. O fato é que o Partido Republicano se tornou, pelo menos desde 2016, o que os britânicos do século 17 chamariam de “loyalist” —sua agenda está subordinada à vontade do rei. É como se Trump reiteradamente dissesse: “O partido sou eu”. E todo mundo comprasse a ideia.

Em 1972, Francis declarou: “A diferença entre as convenções democrata e republicana é a democracia para ditadura. Toda a gama de opiniões nos EUA apareceu com os democratas. Louvaminhas a Nixon consumiram tudo na republicana. Esta parecia um congresso do PC stalinista, onde o líder é o ‘deus ex-machina'”. Já estava lá o alerta para esse modo de operar totalitário que Nixon estabelecia dentro do partido.

“Certos animais comem o próprio vômito”

Durante as eleições de 2016, Trump era considerado uma figura política desagregadora, que iria fraturar não apenas o seu partido, mas o próprio movimento conservador. No entanto, tão logo foi eleito, e mesmo após sua derrota de 2020, houve uma reconfiguração de forças: um processo revolucionário envolvendo a máquina Republicana e os intelectuais que a orbitavam, com a pretensão de se tornarem conselheiros e amigos do rei.

Gente como Marco Rúbio, ex-senador pelo Estado da Flórida e atual Secretário de Estado desse segundo mandato presidencial, bem como o próprio vice J.D. Vance —ambos foram quadros políticos e intelectuais que no início se opuseram com veemência à ascensão de Trump, mas que logo em seguida já estavam na fila para lhe bajular.

Acompanhando a eleição de 1972, Francis destacava o adesismo de Nelson Rockefeller a Nixon. “Nelson Rockefeller, a quem Nixon venceu e humilhou em 1960, 1964 e 1968, fez o discurso de saudação ao candidato. Certos animais comem o próprio vômito. Certos humanos também, pelo visto.” Nada de novo sob o sol, repare.

O ataque à “mídia liberal”

Na campanha de Nixon, seu discurso parecia vindo da linguagem publicitária criada para a TV. Francis escreve: “Nixon é um admirador profundo das técnicas de vendas de detergentes, mata-ratos, pastas de dentes, sprays vaginais e outros produtos que infestam o vídeo americano. Constantemente, usa slogans reminiscentes dos ditos em discursos eleitorais”.

Não custa lembrar que Trump obteve fama nacional como figura midiática associada um reality show televisivo, “O aprendiz”. Durante os quase 15 anos em que esteve no ar, aprimorou o tino para uma linguagem que se comunica com públicos amplos e aprendeu o alfabeto das métricas de audiência.

Se Trump observou Nixon com o caderninho de anotações em mãos, certamente notou que seu vice, Spiro Agnew, atacava aquilo que, anos depois, recebeu o apelido entre os conservadores de “liberal media”. E estabeleceu desse modo o tom da maioria dos políticos de direita subsequentes, até que isso culminasse na sua versão mais predatória: o trumpismo. Não custa lembrar da declaração, ainda na primeira coletiva de seu primeiro governo, em 2017, de que a imprensa seria tratada como “o partido de oposição”.

Ataques à imprensa eram uma estratégia de apelo popular, porque eram baseados na ideia de que os comentaristas da TV e os editores desses jornais fossem um bando de intelectuais elitistas, apartados do resto da sociedade e do americano médio em gostos e costumes.

Mas Francis arrematou: “Para um político matuto como Agnew, a linguagem de Times e Post, ou da CBS, deve soar elitista. Certamente é superior ao nível de Jararaca e Ratinho a que ele está habituado”.

Francis percebia que descredibilizar os veículos de jornalismo era uma tática de longo prazo que visava criar desconfiança em qualquer informação apurada e publicada e, portanto, borrar as fronteiras do que são fatos ou apenas narrativas inventadas. Se remete a alguma técnica empregada em 2025, não é mera coincidência.

Alguns nomes da nova direita brasileira gostam de invocar Paulo Francis como um antecedente intelectual e uma genealogia respeitável de seus próprios argumentos e posição política. O Francis a que se referem é o defensor da alta cultura, o antipetista antes de isso ser modinha, o autor que sempre tinha à mão algum deboche sobre a esquerda.

No entanto, a realidade é mais complexa. Foi o sujeito, afinal, que argumentou que “(…) o liberalismo americano, se deseja fazer justiça ao nome, precisa evoluir para uma forma de socialismo, democrática e em outros respeitos compatíveis com as tradições do país”.

Voltando aos EUA, de lá para cá liberais e democratas não parecem ter aprendido muita coisa. Não lhes faria mal ler o livro desse brasileiro escrito no distante ano de 1972, mas com uma ou outra lição valiosa a ensiná-los sobre a política de seu próprio país.

 

O império da lei sob ataque, por Oscar Vilhena Vieira

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Suprema Corte terá a resiliência demonstrada pelo STF?

Folha de São Paulo, 21/03/2025

Oscar Vilhena Vieira, Professor da FGV Direito SP, mestre em direito pela Universidade Columbia (EUA) e doutor em ciência política pela USP. Autor de “Constituição e sua Reserva de Justiça” (Martins Fontes, 2023)

Subjugar o Poder Judiciário é um passo essencial na cartilha do populismo autoritário. Foi assim na Venezuela, de Chávez, na Rússia, de Putin, na Hungria, de Orbán, e na Turquia, de Erdogan. Em todos esses países a erosão do império da lei passou por ataques ao sistema de Justiça, seguidos da captura e subordinação dos tribunais pelo poder político.

A escala de ataques a juízes federais nos Estados Unidos não é um bom presságio. O atual governo está não apenas seguindo a malfadada cartilha populista como ampliando o seu repertório ao ameaçar escritórios de advocacia que estejam patrocinando ações contrárias aos interesses do governo, alerta Steven Levitski, autor de “Como as Democracias Morrem”.

A partir de uma interpretação cesarista das prerrogativas do Poder Executivo, ideólogos do presidente têm proposto uma verdadeira subversão do sistema de freios e contrapesos estabelecido pela Constituição, buscando afastar do legislador e, sobretudo, dos juízes a competência para controlar os atos do Executivo.

As ameaças de impeachment têm sido empregadas como um instrumento de intimidação dos magistrados, não apenas pelo presidente. Elon Musk lançou uma campanha pública e fez doações para membros do Congresso dispostos a promover o impeachment de juízes que se oponham ao governo. Isso levou o recatado e conservador John Roberts, presidente da Suprema Corte, a emitir nota afirmando que “o impeachment não é uma resposta apropriada quando se discorda de decisões judiciais”.

Difícil prever se o Judiciário norte-americano, tido como um dos mais independentes e poderosos do mundo, terá a resiliência demonstrada pelo Supremo Tribunal Federal brasileiro ou pela Suprema Corte de Israel, que sobreviveram às investidas de Bolsonaro e Netanyahu.

Como nos lembra Alexander Hamilton, um dos pais fundadores da Constituição norte-americana, o Judiciário não tem nem a bolsa nem a espada para se impor. Conta apenas com a autoridade de suas decisões e com a lealdade dos atores políticos e cidadãos para sobreviver.

Se é verdade que o eleitor tradicionalmente tende a punir políticos que descumpram decisões judiciais ou ameacem a independência dos tribunais, a última eleição norte-americana pode estar estabelecendo um novo paradigma na medida em que o confronto com o Judiciário constituiu parte explícita da agenda premiada pelo eleitor.

Essa nova dinâmica incorporada ao projeto de subversão do Estado de Direito tem levado algumas democracias, como a alemã, a fortalecerem as barreiras de proteção aos seus tribunais.

No Brasil, onde os ataques também têm escalado, é imperativo que o próprio sistema de Justiça reduza suas vulnerabilidades, aumentando a eficiência, a integridade e a imparcialidade na aplicação da lei, assim como reduzindo privilégios corporativos inaceitáveis.

Na esfera do Supremo, o mais urgente seria reduzir radicalmente as decisões monocráticas. O emprego abusivo dessas decisões cria enorme instabilidade e grave insegurança jurídica. O Supremo também precisa adotar um código de conduta que contribua para a preservação de sua autoridade e integridade. O STF também tem o desafio de não errar no julgamento daquele que quis subjugá-lo.

A cartilha do populismo autoritário, atualizada por Trump, certamente inspirará políticos ambiciosos e oportunistas a aumentar os ataques ao Judiciário ao redor do mundo.

Não há por que acreditar que aqui será diferente.

 

Donald Trump conseguirá fortalecer os Estados Unidos? Paulo Nogueira Batista Júnior

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Paulo Nogueira Batista Júnior – A Terra é Redonda – 21/03/2025

O slogan MAGA é revelador do que está acontecendo com os EUA: uma perda progressiva de expressão relativa, em termos econômicos, populacionais e políticos

Donald Trump conseguirá fortalecer os Estados Unidos? Conseguirá, pelo menos, deter o seu declínio relativo? Ou irá acelerar a decadência do Império? Transcorridos apenas dois meses desde a sua posse, falta evidentemente a famosa perspectiva história. Mas questões candentes nunca esperam essa perspectiva. Para elas, vale sempre o ante mortem, não o post mortem.

Feita essa ressalva, antecipo a conclusão do artigo: Donald Trump não só será incapaz de deter o declínio dos EUA, como irá apressá-lo. Em vez de Make America Great Again (MAGA), ele deve Make America Weaker Still (MAWS). (Em vez de fortalecer os EUA, deve torná-los mais fracos.)

O seu slogan MAGA é revelador do que está acontecendo com os EUA: uma perda progressiva de expressão relativa, em termos econômicos, populacionais e políticos. O plano trumpista é restabelecer a hegemonia americana no mundo, custe o que custar.  Mas isso é mais um sonho do que um plano realista, como tentarei argumentar.

Em primeiro lugar, a herança geopolítica que o novo governo americano recebe é altamente problemática. Superestimando o próprio poder e subestimando o de outros países, os americanos se meteram em uma guerra em três frentes.

Pareceu-lhes uma boa ideia hostilizar simultaneamente a Rússia e a China, o que aproximou esses dois gigantes como nunca. A guerra econômica e tecnológica contra a China atrapalhou, mas não conseguiu parar o avanço chinês. A guerra na Ucrânia e as sanções econômicas e financeiras aplicadas contra a Rússia não tiveram o efeito pretendido. Apesar delas e do apoio maciço do Ocidente à Ucrânia, a Rússia vem levando a melhor no campo de batalha.

Para completar o quadro, os EUA carregam o peso econômico e moral de apoiar o genocídio praticado por Israel. A força do lobby judaico converteu o Império americano num instrumento dos planos israelenses, o que desmoraliza por completo os valores humanitários proclamados pelos EUA e demais países do Ocidente.

Como Donald Trump pretende lidar com essa herança? Em relação a Israel, a sua política consegue ser uma versão piorada do que já vinha sendo feito por Joe Biden, uma vez que proporciona apoio ainda mais enfático aos crimes de Israel. E pior: ele dá sinais de que pretende ser mais agressivo com o Irã, não descartando uma guerra aberta contra o país. Em vez de pacificar uma das três frentes herdadas de Joe Biden, Donald Trump pretende ao que parece aprofundar o conflito no Oriente Médio. Só um país se beneficia disso: Israel.

Todos os esforços iniciais de Donald Trump se concentraram em uma tentativa arrojada de encerrar a guerra na Ucrânia e pacificar a relação com a Rússia. Terá sucesso? Cedo para dizer, evidentemente, mas alguns pontos parecem claros. A pacificação implica reconhecer a vitória da Rússia, que terá suas principais reivindicações atendidas, entre elas o reconhecimento de que algo como 20 a 25% do território ucraniano serão parte permanente da Rússia e a neutralidade da Ucrânia, que será obrigada a abandonar qualquer intenção de entrar para a OTAN.

Donald Trump afirma, com razão, que a guerra na Ucrânia não é obra sua. Permanece, entretanto, o fato de que a vitória da Rússia representa uma derrota para os Estados Unidos e seus aliados europeus. Derrota para o Ocidente; vitória para o mundo multipolar.

Quanto à China, os planos de Donald Trump ainda não estão totalmente claros. Mas uma hipótese bem plausível é que ele pretende redobrar os esforços de conter a ascensão da China, tentativa que tem amplo apoio bipartidário nos EUA e que vem sendo perseguida em todas as administrações desde o final do governo de Barack Obama, inclusive de modo vigoroso no primeiro governo de Donald Trump. A pacificação com a Rússia teria como objetivo quebrar, ou pelo menos enfraquecer, a aliança entre russos e chineses.

Outra indicação desses planos anti-China talvez sejam as relações cordiais com a Índia e o Japão, tradicionais adversários da China na Ásia. A boa-vontade com a Índia, aliás, ajuda a enfraquecer os BRICS, na medida em que reforça as tradicionais resistências de Nova Dehli a avanços do grupo, em especial no que tange à desdolarização, tema que desperta, como se sabe, a fúria do novo presidente dos EUA.

Donald Trump poupa a Índia e o Japão da sua metralhadora giratória, mas não alguns outros dos aliados históricos dos EUA, notadamente os canadenses e os europeus, inclusive a Inglaterra. Faz isso de duas formas. Exclui os europeus das fases decisivas da sua negociação com a Rússia. E aplica tarifas de importação pesadas sobre produtos europeus e canadenses, algo especialmente problemático para o Canadá, cuja economia por razões geográficas e históricas é profundamente integrada à dos EUA.

Esses países parecem ter sido pegos de surpresa pela agressividade do novo governo americano. Já contavam com relações mais difíceis, mas como antecipar um movimento de tanta hostilidade contra aliados tradicionais? Aliados, não. Talvez seja melhor referir-se a eles como satélites. O Canadá e o Reino Unido, em especial, têm sido leais vassalos dos EUA desde a Segunda Guerra Mundial. Que sentido faz atacá-los econômica e politicamente? Difícil entender de que maneira isso colabora para a estratégia de fortalecimento mundial dos EUA.

Repare, leitor, que Donald Trump não só não resolve vários dos problemas internacionais herdados de Joe Biden, como os agrava em sua maioria. E abre novas frentes de conflito, aprofundando provavelmente a tendência de isolamento dos EUA. Distancia-se dos parceiros tradicionais do Atlântico Norte e piora a situação no Oriente Médio, radicalizando a política pró-Israel e ameaçando o Irã. E deve aumentar as pressões sobre a China.

Os planos de intensificar a confrontação com a China dificilmente alcançarão o seu objetivo estratégico. Parece tarde demais para bloquear a ascensão econômica e comercial da China, que se tornou a fábrica do mundo à custa da desindustrialização de vários países, inclusive os EUA e o Brasil. O máximo que se conseguirá é desacelerar o crescimento economia e do comércio exterior da China, não sem pagar o preço de gerar tarifas retaliatórias e perder mercados para os exportadores americanos.

O que se quer, fundamentalmente, é deter a perda de expressão econômica dos EUA e refazer a indústria o país. O objetivo é válido por vários motivos, inclusive porque, no longo prazo, não há segurança nacional e poder militar sem base industrial no país. Contudo, as medidas econômicas iniciais não convencem.

A aplicação mais ou menos indiscriminada de tarifas de importação é uma faca de dois gumes. Por um lado, pode reforçar a produção industrial no país e trazer indústrias de volta; pode, também, forçar outros países a abrir mais espaço para as exportações americanas. Por outro lado, gera aumento da inflação para os consumidores e custos mais elevados para setores que usam insumos importados. E provocam tarifas retaliatórias em mercados tradicionais dos EUA.

Com essa inevitável ambiguidade, é pouco provável que as tarifas de importação tenham o impacto salvador com que sonha Donald Trump. Além disso, a deportação em massa de imigrantes e restrições severas à sua entrada nos EUA diminuem a oferta de trabalhadores menos qualificados e solapam a competitividade de empresas mais intensivas em mão-de-obra. Por sua vez, os cortes drásticos de gastos e fechamentos de agências do governo podem desarticular a atuação do Estado americano.

Por esses e outros motivos, a economia dos EUA deve continuar a trajetória de declínio relativo que marcou as décadas recentes, não se devendo excluir a possibilidade de que esse declínio venha a se intensificar com as políticas adotadas pelo novo governo.

A melhora nas relações com a Rússia, se acontecer de fato, não deve provocar distanciamento real entre a Rússia e a China. Vladimir Putin, um estrategista muito superior a Donald Trump, a Joe Biden e a qualquer outro presidente americano recente, tira partido das iniciativas de paz dos EUA e está, tudo indica, interessado na paz.

Mas alguém acredita, em sã consciência, que ele irá romper, ou mesmo enfraquecer, as suas relações estratégicas com Xi Jinping? Os americanos, inclusive o errático Donald Trump, merecem confiança? Putin certamente não esqueceu as diversas ocasiões em que a Rússia foi enganada, desde o colapso da União Soviética, por gestos e promessas do Ocidente, sempre liderados pelos EUA. Deve continuar colocando o grosso das suas fichas na aliança com a China.

“Nunca interrompa seu inimigo enquanto ele estiver cometendo um erro”, dizia Napoleão Bonaparte. Os chineses observam cuidadosamente as trapalhadas dos EUA e, com a sua típica paciência estratégica, vem se preparando para a tempestade que se avizinha. Preferem a paz e a continuação da sua ascensão econômica pacífica, mas estão se armando, com sucesso até agora, para a confrontação econômica e tecnológica com os EUA. E não descartam nenhum tipo de guerra com os americanos, como disse recentemente um porta-voz do governo chinês. Não serão intimidados.

Em suma, pelo que se pode depreender desses dois primeiros meses de governo, Donald Trump não conseguirá interromper a decadência dos EUA. Ele próprio, grosseiro e prepotente, despreparado e arrogante, é um sintoma dessa decadência. Como nas tragédias gregas, as tentativas de escapar do destino leva a comportamentos que aceleram a sua realização.

O que temos é MAWS,e não MAGA.

Paulo Nogueira Batista Jr. é economista. Foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS. Autor, entre livros, de Estilhaços (Contracorrente)

 

Sobre os críticos de “Ainda estou aqui”, por Lúcio Verçoza

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Lúcio Verçoza – a Terra é Redonda – 05/03/2025

A capacidade do cinema de Walter Salles de adentrar os raquíticos fios do debate público no Brasil – ou da opinião publicada

O filme Ainda estou aqui circula. Prossegue circulando. E sua circulação não é como a de um ventilador de padaria: que gira, gira e permanece no mesmo lugar – soprando pouco vento. O começo da circulação da película se deu, sobretudo, na pele e nos pelos das pessoas que saíram de casa para ir ao cinema.

O segundo circuito de circulação, que é um desdobramento do primeiro, está na capacidade do cinema de Walter Salles de adentrar os raquíticos fios do debate público no Brasil – ou da opinião publicada. Logo, nessa segunda esfera da circulação, não tardou para que os autores de resenhas alimentassem os blogsYouTubeInstagramTikTok e páginas da grande mídia – tanto com análises elogiosas, quanto implacáveis.

Dentre as críticas mais duras, gostaria de sublinhar o texto de Raul Arthuso, divulgado recentemente no jornal Folha de S. Paulo. O escrito tem sua relevância, pois desloca a discussão para o campo da estética. Porém, no afã de sustentar a tese na qual o filme de Walter Salles seria um passo atrás no contexto do cinema nacional contemporâneo, o autor contorce o argumento, rebaixando o peso político de Ainda Estou Aqui.

Numa rápida análise, é possível destacar trechos nos quais Raul Arthuso carrega excessivamente nas tintas – fazendo com que o filme analisado pareça outro: “sua ênfase está na narrativa íntima, na memória, nas relações pessoais em detrimento da história e da realidade social, mesmo que isso esteja presente como pano de fundo difuso.” “[…] a realidade política é só um detalhe na trama.” “[…] não consegue construir um mundo ficcional que diga algo para a nossa realidade.” “[…] produzir efeitos de emoções, sem agredir ou tensionar questões locais”.

Toda essa linha argumentativa leva à construção de um retrato de filme que seria politicamente minúsculo e quase irrelevante: “que pouco tem a dizer sobre a nossa realidade”; no entanto, se trata do inverso: pela via da estética do detalhe íntimo, Walter Salles conseguiu atar um nó que liga o passado ao presente – fazendo o espectador sentir o passado como algo que diz respeito ao que está em nossa frente. E esse traço, de conseguir reavivar a memória por meio da arte, tem uma enorme potência política.

Tanto os críticos que gostariam que o filme fosse algo próximo de um panfleto (a exemplo das análises de viés excessivamente programático de Jones Manoel, ou do Chavoso da USP), quanto os que exigem uma estética de vanguarda, desconsideram que o forte impacto político do longa decorre de uma abordagem que toca na grande política pela chave da sutileza do detalhe e da micro-história.

A obra forma uma espécie de nó artístico – sem adotar uma linguagem explicitamente herdeira do Cinema Novo dos anos 1960, nem das vanguardas recentes do mangue ou dos sertões nordestinos –; um nó que não escreve um tratado da política econômica dos governos da ditadura militar, nem da luta sindical (como reivindicaram os críticos programáticos).

Todavia, é um nó ainda mais arguto, pois liga a ponta do passado à do presente em frente aos olhos e ouvidos do grande público: dando um tapa simbólico no rosto e na máscara do bolsonarismo. E, faz isso, sem dizer explicitamente o que faz. E faz isso construindo uma estética que sintoniza muito bem a forma ao conteúdo – sem pertencer às vanguardas da forma, e sem conceder a patrulha estreita dos que exigiram um filme-panfleto.

Talvez o grande acerto do filme esteja justamente nisso: em captar uma forma de pertencer a um tempo pelo 3×4 de uma família. E o faz sem a pretensão de lançar um tratado. E o faz demonstrando que uma linguagem aparentemente simples (em termos de inovação) pode ser sutil e profunda. A plateia, por diferentes caminhos, sacou o que estava na tela e sentiu, por alguns minutos, o sentimento do mundo. E o sentimento do mundo é ambíguo: carregado de choro, fúria, esperança, aplauso e memória.

Lúcio Verçoza é professor de sociologia na Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

 

Confusão e ameaças

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Nos últimos sessenta dias a comunidade internacional vem passando por grandes controvérsias econômicas e políticas, com confusões variadas e preocupações crescentes, motivadas pelas políticas equivocadas implementadas pela nova administração dos Estados Unidos da América, espalhando críticas imediatas na comunidade internacional, aumentando o ódio e o ressentimento entre adversários e, pasmem, até mesmo estas políticas estão afetando os aliados, criando pânico, revolta e desconfiança.

Neste período, o governo norte-americano vem adotando políticas fortemente unilaterais, impondo tarifas comerciais e medidas protecionistas para todos os parceiros, apresentando desejo de anexar territórios externos, gerando preocupações para toda a comunidade internacional, impactando sobre acordos comerciais assinados anteriormente, prejudicando as estratégias de empresas nacionais e internacionais e criando um clima de insegurança, incertezas e preocupações sobre os rumos dos negócios na economia internacional.

Das medidas destacamos os confrontos crescentes com aliados históricos dos Estados Unidos, como a Europa Ocidental, levando seus governos a alterarem suas políticas de defesa nacional e, desta forma, a União Europeia está se preparando para uma verdadeira escalada militar, num projeto ambicioso e orçado em quase 1 trilhão de euros, recursos inexistentes atualmente no bloco e que tendem a criar novos descontentamentos com a população, servindo de um verdadeiro combustível para o crescimento da extrema direita. Neste cenário de grandes incertezas na União Europeia, onde os governos nacionais europeus vão levantar recursos para a indústria da defesa? A pergunta é intrigante e urgente, mas a resposta passa pelas políticas do Estado do Bem-estar Social que devem minguar para financiar os fabulosos gastos bélicos e militares, contribuindo efetivamente para espalhar em toda a região, misérias, pobrezas e indignidades.

As políticas implementadas pelo governo norte-americano estão gerando calafrios para os aliados do norte da América, levando países como o México e o Canadá a estudarem e, posteriormente, adotarem como forma de defenderem seus setores produtivos e seus interesses nacionais, protegendo as suas empresas e toda economia, defendendo seus trabalhadores e garantindo seu mercado interno. 

As medidas implementadas pelo governo de Donald Trump estão criando novos constrangimentos na comunidade internacional, levando inúmeros países a recorrerem a Organização Mundial do Comércio (OMC), buscando a mediação de organismos mundiais para evitar o crescimento do protecionismo global, cujos impactos tendem a ser devastadores para o comércio global, levando as nações a aumentarem o isolacionismo.

Numa sociedade centrada no imediatismo, no individualismo, no narcisismo e na busca frenética pelo lucro monetário, onde os atores econômicos e produtivos olham apenas para o curto prazo e pelos ganhos imediatos, os confrontos crescem fortemente na seara do comércio internacional e na geopolítica tendem a se espalhar para todas as áreas da comunidade global, aumentando as tensões entre as nações, com o incremento dos investimentos bélicos e militares e a redução sistemática dos gastos sociais e das políticas públicas que beneficiam a maioria da população, desta forma, estamos caminhando a passos largos para uma destruição total e inimaginável, atuando como seres humanos irracionais e individualistas, nos distanciando rapidamente do comportamento daqueles que chamamos de animais.

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Especialista em Sociologia do Trabalho e Exclusão Social, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário.

 

Como vai a Europa pagar por sua própria defesa? por Rui Tavares.

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Problema nunca foi de falta de recursos, mas de vontade política; quando é para sobreviver, a vontade política aparece

Rui Tavares, Historiador, deputado na Assembleia da República de Portugal e ex-deputado no Parlamento Europeu; autor de ‘Agora, Agora e Mais Agora’

Folha de São Paulo, 19/03/2025

A opinião convencional dominante nos dias que correm parece ser que a Europa deixou de cuidar da sua defesa após a Segunda Guerra Mundial, delegando essa função aos Estados Unidos e praticamente não gastando dinheiro em armamento. A mesma opinião sustenta agora que a Europa ficou desorientada perante a guinada geopolítica de Donald Trump e que não terá chance de defender-se perante Vladimir Putin.

Essa opinião convencional está errada.

A Europa nunca gastou propriamente pouco em defesa. O Reino Unido e a França são potências nucleares, e os gastos acumulados dos países-membros da União Europeia foram no ano passado bem superiores a € 300 bilhões, não tão longe da Rússia e da China.

A questão na Europa nunca foi gastar pouco em defesa, mas antes gastar sem visão de conjunto e comprando grande parte do seu material dos EUA. É isso que vai mudar agora. Trump conseguiu quebrar os laços de confiança entre europeus e americanos e com isso deu um novo foco estratégico à Europa, e em particular à UE.

A União Europeia irá com toda a probabilidade avançar para a compra conjunta de armamento, repetindo o mecanismo que provou ser um grande sucesso com a compra de vacinas pelo bloco, assegurando ganhos de escala e baixando custos. E o material será produzido na Europa, para ajudar na reindustrialização do continente e para evitar a utilização de caríssimo armamento dos EUA (como os famosos caças F-35) que se suspeita que possa ser desativado à distância.

Além disso, há países-membros da UE que têm capacidade para gastar mais, e o caso mais relevante agora é o da Alemanha, que já aprovou alterações à sua legislação para possibilitar mais gastos em defesa.

Mesmo assim, há investimentos iniciais que precisarão de somas mais avultadas nos primeiros anos. Têm feito debate aqui no continente as declarações do secretário-geral da Otan, Mark Rutte, que sugeriu que os europeus deveriam ter de prescindir do seu estado social para investir na defesa.

A União Europeia pode lançar os chamados eurobonds, títulos de dívida emitidos em nome da União como um todo, não dos seus Estados-membros. A dívida da UE, bem como o seu orçamento, representa pouco mais de 1% do PIB da União. Há espaço mais do que suficiente para emitir dívida, há interesse dos mercados globais em comprá-la, e o momento é o mais oportuno, num momento em que Trump lança a economia dos EUA na turbulência e os investidores procuram outros portos seguros.

Em segundo lugar, a União Europeia (ou apenas os Estados que o desejarem) pode lançar um imposto comum de apenas 2% sobre fortunas acima de € 1 milhão. Nos cálculos do economista Gabriel Zucmán, isso daria mais de € 60 bilhões por ano.

Em terceiro lugar, há € 300 bilhões em ativos russos congelados, que podem ser confiscados e usados na reconstrução da Ucrânia.

O problema da Europa nunca foi de falta de recursos, mas de falta de vontade política. Quando é para sobreviver, a vontade política aparece.

 

Liberou geral? por Candido Bracher

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Estaríamos agindo como o personagem da música ‘E o Tal do Mundo Não Se Acabou’, interpretada por Carmem Miranda?

Candido Bracher, Administrador de Empresas formado pela FGV. Foi executivo do setor financeiro por 40 anos.

Folha de São Paulo, 16/03/2025

A leitura da seção de Clima e Meio Ambiente dos jornais internacionais nos últimos dois meses certamente causaria surpresa e desconforto às mentes cartesianas acostumadas a estabelecer relações lógicas entre os fatos.

Além da confirmação de que 2024 foi o ano mais quente já registrado, o leitor encontraria manchetes como: “Janeiro mais quente já registrado choca cientistas” (Financial Times, 6/2), “Janeiro mais quente já registrado intriga cientistas do clima” (The Guardian 6/2), “Este foi o janeiro mais quente já registrado, segundo cientistas” (The New York Times, 6/2).

A leitura dos artigos explicaria que a surpresa decorre da permanência de temperaturas recordes, a despeito do resfriamento do oceano Pacífico, decorrente do fenômeno La Nina.

Outras manchetes teriam o mesmo tom: “Renomado cientista do clima adverte que o objetivo de (limitar o aquecimento a) 2ºC está morto” (The Guardian 4/2), “Geleiras da Europa encolheram 40% desde 2000” (Financial Times, 20/2), “Califórnia enfrenta seca agravada, apesar de temporais recentes” (The Guardian, 24/2), “No estado do hóquei, mudanças climáticas reduzem o número de ringues de patinação” (The Washington Post, 24/2), “A corrida de trenós puxados por cães mais famosa do mundo está com falta de neve” (The Wall Street Journal, 4/3).

No mesmo período e nos mesmos jornais, outras manchetes diriam: “Earth Fund com US$ 10 bilhões de Jeff Bezos corta vínculos com agência de clima” (Financial Times, 6/2), “UE exagera nas regras verdes, alerta chefe da Siemens Energy” (Financial Times, 12/2), “Suspensão de regra da SEC é presente antecipado para os apoiadores de Trump do setor de óleo e gás” (The Washington Post, 17/2), “Big Techs aprendem a compartilhar o entusiasmo de Trump pelos combustíveis fósseis” (The Washington Post, 23/2), “Eleições alemãs mostram o quanto a onda verde recuou na Europa” (The Guardian 24/2), “BP deve abandonar meta de renováveis e voltar a focar em combustíveis fósseis” (The Guardian 24/2), “Bancos rebaixam cargos de sustentabilidade” (Financial Times, 24/2), “Como Trump sabotou a política climática americana” (The New York Times, 2/3) e “Autoridades do governo Trump destroem proteções climáticas e consideram ocultar descobertas-chave sobre gases de efeito estufa” (Guardian, 13/03).

Procurando ater-se à racionalidade, esse leitor poderia supor que tais retrocessos decorrem da descrença honesta de certas pessoas nas projeções científicas, acreditando que as “mudanças climáticas” são uma farsa engendrada pela esquerda.

Afinal, não seria a primeira vez que previsões apocalípticas se mostrariam infundadas. Gosto da definição de Idade Média que Rui Tavares oferece em seu admirável “Agora. Agora e Mais Agora”: “Cerca de mil anos em que o fim do mundo estava para breve”.

Outras previsões também falharam: o cometa Halley, em 1910, a crise dos mísseis em Cuba, em 1962, a previsão de Nostradamus para 1999 e mesmo a pandemia de Covid, em 2020. Não seria assim inverossímil que pessoas bem-intencionadas manifestassem uma descrença atávica em teorias de colapso.

Nosso leitor cartesiano poderia, porém, achar improvável que pessoas bem formadas, com vasto acesso a informações, simplesmente desconsiderem a abundância de evidências científicas do aquecimento global e todas as suas consequências desastrosas.

Nesse caso, poderia atribuir a intensificação da exploração e uso de combustíveis fósseis ao fenômeno, que também tem precedentes históricos, da adoção de atitudes tresloucadas diante da certeza do ocaso.

Como ilustração, em vez de recorrer à história, prefiro lembrar a música “E o Tal do Mundo Não Se Acabou”, interpretada por Carmem Miranda, na qual a personagem diz: “Acreditei nessa conversa mole/pensei que o mundo ia se acabar/e fui tratando de me despedir/e sem demora fui tratando de aproveitar”.

Uma última hipótese a considerar seria a de que os responsáveis pelo aumento de emissões de carbono, embora não desacreditem das previsões científicas, creiam que algo acontecerá —uma nova tecnologia, possivelmente— de modo a evitar o apocalipse.

Nosso leitor, porém, duvidaria da honestidade dessa crença, por ser demasiadamente autoindulgente, e a enquadraria juntamente com a simples indiferença egoísta diante do destino da humanidade. Irracional, porém humano.

Seja como for, esse comportamento deletério, além dos efeitos diretos sobre o aquecimento, tem consequências ainda mais graves. Refiro-me ao desalento resultante da percepção de uma situação de “liberou geral”, de “passagem da boiada”, diante da qual é inútil resistir.

É importante termos presente que será nesse cenário conflagrado que em novembro se realizará a COP 30, em Belém. Não devemos nos sentir desestimulados por isso, ao contrário, mas deixar de reconhecer dificuldades nunca foi bom método para as superar.

Caberá à coordenação da reunião, em vez de ceder às pressões contrárias, usá-las como elemento promotor da união entre países e agentes privados comprometidos com o combate ao aquecimento.

Entre os objetivos a serem perseguidos, podemos enumerar a costura de uma aliança entre países interessados em desenvolver um mercado comum de carbono; redobrar esforços para atingir a meta de financiamento de US$ 1,3 trilhão; avançar na discussão sobre uso da terra, tão relevante para a agricultura e para a promoção dos biocombustíveis; buscar estabelecer critérios globais para a mensuração do conteúdo de carbono dos diversos produtos e estimular a China a ocupar o espaço deixado pelos EUA.

Sabemos que nossa equipe, chefiada pelo embaixador André Corrêa do Lago, já está empenhada na articulação de diversos desses objetivos; sabemos também que a tarefa é extremamente árdua e desafiadora.

É importante termos presente que o combate ao aquecimento global é um processo longo e descontínuo; uma maratona, não uma corrida de 100 metros. Cada passo dado é importante, ainda que o efeito seja apenas o de fazer uma profissão de fé e denunciar aqueles que sabotam o esforço.

A verdade dessa afirmação pode ser aferida ao pensarmos no papel singular que teve a anticandidatura de Ulysses Guimarães, em 1974, no também longo processo do Brasil em direção à democracia. Em seu discurso diante do Colégio Eleitoral que confirmou a vitória do general Ernesto Geisel, tomou emprestada de Fernando Pessoa a frase que designa o combate pelas boas causas, que agora aplico também à resistência que a COP30 exercerá contra um cenário adverso: “Navegar é preciso, viver não é preciso”.