As tarifas de Donald Trump, por Eduardo Vasco

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Eduardo Vasco – A Terra é Redonda – 26/12/2024


As ameaças de Donald Trump, se aplicadas, podem ter resultados positivos para o Brasil. O governo brasileiro pode retaliar e impor tarifas recíprocas às importações provenientes dos EUA

1.

As relações do Brasil com os Estados Unidos tendem a observar uma piora significativa a partir da posse de Donald Trump. E não apenas do presidente Lula ou de seu governo com o republicano e seu governo, mas também da própria burguesia nacional brasileira com a norte-americana.

A balança comercial de Brasília com Washington (nosso segundo maior parceiro comercial) é deficitária. Entre janeiro e novembro, nossas exportações alcançaram o valor de R$ 221,26 bilhões (US$ 36,57 bilhões), enquanto as importações chegaram a R$ 226 bilhões (US$ 37,36 bilhões). Tivemos um prejuízo de R$ 4,8 bilhões (US$ 790 milhões).

Até a implantação e consolidação do regime neoliberal no Brasil, na década de 1990, o comércio com os Estados Unidos havia sido superavitário. Porém, a partir de 1995 passamos a importar mais e exportar menos aos norte-americanos, sendo o comércio deficitário entre 1995 e 1999, no auge das privatizações e entrega das grandes propriedades nacionais ao capital estrangeiro.

Em 2000 a balança voltou a ser positiva, mas a partir de 2009 – e desde então, ou seja, há 15 anos – tivemos novamente déficit atrás de déficit comercial com os EUA. O nosso déficit acumulado, nesses últimos 15 anos, é de R$ 231,4 bilhões (US$ 67,9 bilhões).

A razão disso é que o caráter do comércio bilateral é, a rigor, semicolonial. Nesses últimos 15 anos, nós vendemos aos EUA basicamente petróleo bruto e combustíveis, produtos agrícolas e alimentícios para que depois os norte-americanos os refinassem e nos vendessem de volta, com um alto valor agregado, junto com adubos e fertilizantes.

O que salva são as exportações de aeronaves e equipamentos de alta tecnologia, mas também compramos máquinas e equipamentos industriais. Para variar, como toda relação entre um país desenvolvido e um país atrasado, os EUA compram de nós, majoritariamente, commodities (de baixo valor agregado) e nos vendem manufaturados (de alto valor agregado).

Donald Trump vai manter essa tradição e já anunciou que quer aplicar tarifas contra produtos brasileiros. No dia 16 de dezembro, ele citou o Brasil nominalmente como exemplo de país que sofrerá novas taxas. “Quem nos taxar, taxaremos de volta”, disse.

Mas os EUA já taxam uma série de produtos do Brasil. Em 2023, o valor de produtos brasileiros importados pelos EUA que ficaram sujeitos a sobretaxa de importações foi de US$ 233 milhões. E há uma pressão nas grandes companhias siderúrgicas contra a revogação do direito antidumping sobre a importação de determinados tipos de aço brasileiros, feita no início de 2024 – após 32 anos. Os EUA já são o país com mais medidas protecionistas contra o Brasil e, em 2018, Donald Trump classificou nossas exportações de aço como uma “ameaça à segurança nacional dos EUA”.

Após ser eleito pela segunda vez presidente dos Estados Unidos, Donald Trump também anunciou a intenção de impor tarifas de 100% aos produtos importados dos países do BRICS, caso eles concretizem as ideias de desdolarização de suas transações comerciais.

2.

As ameaças de Donald Trump, contudo, se aplicadas, poderiam ter resultados positivos para o Brasil. O governo brasileiro provavelmente retaliaria e imporia tarifas recíprocas às importações provenientes dos EUA. Além disso, o dólar valorizado em relação ao real encarece ainda mais as nossas importações.

É uma chance de investir na produção doméstica e colocar efetivamente em prática o plano de reindustrialização de Lula, que ainda deixa muito a desejar e não pretende, de fato, reverter a destruição histórica da indústria nacional pela implantação do neoliberalismo – que segue sendo o pilar da estrutura econômica brasileira. O incentivo do Estado ao mercado interno também poderia contrabalançar as vantagens dos produtores locais em exportar com o dólar mais caro, para que comercializem mais dentro do Brasil e não aumentem os preços para os consumidores brasileiros.

Além disso, é uma chance para elevar o nível da diversificação das relações comerciais do Brasil. Os países BRICS são parceiros com os quais boa parte do comércio com os EUA, desigual há anos e afetado pelas medidas de Donald Trump, poderia ser substituída. O Mercosul e os demais vizinhos também poderiam cumprir um papel importante nessa diversificação, bem como as nações asiáticas, levando em consideração que o porto de Chancay, no Peru, já está em funcionamento, e que ele poderia ser ligado por trem e rodovias com o porto de Santos.

Se o acordo Mercosul-UE não tivesse o mesmo caráter das relações históricas com as potências capitalistas, também poderia servir ao Brasil para reduzir a dependência dos EUA. Analistas consultados pelos jornais brasileiros têm mesmo previsto que vários produtos que até agora são vendidos aos EUA deverão ser destinados à China e à Europa.

No mesmo período (2009-2024) em que teve um déficit de quase US$ 70 bilhões com os EUA, o Brasil teve com a China um superávit de mais de US$ 300 bilhões. Em 2019, o saldo comercial com a China chegou a representar 83% do saldo total do Brasil em sua balança comercial com o mundo, conforme estudo de Pedro Garrido da Costa Lima para a Câmara dos Deputados.

Porém, devido à implantação do neoliberalismo, a qualidade das exportações caiu (74% eram produtos da indústria de transformação em 1997, mas em 2022 eram apenas 22,5% do total, com mais de 37% sendo da agropecuária e 40% da indústria extrativa). Por isso a urgência da reindustrialização, a fim de que não apenas haja uma diversificação de parceiros, mas também uma qualificação do comércio.

Mais do que tudo, no entanto, a diversificação e qualificação das relações comerciais tem um papel estratégico na geopolítica brasileira. Os EUA sempre trataram o Brasil – bem como toda a América Latina, mais ainda do que o resto do mundo – como uma colônia. Não só do ponto de vista comercial, senão também político e cultural. Mas isso só é possível porque dominam as nossas relações econômicas.

Se o Brasil quiser ser um país realmente independente, precisa necessariamente deixar para trás essa relação de subordinação econômica com os Estados Unidos.

*Eduardo Vasco é jornalista. Autor, entre outros livros, de O povo esquecido: uma história de genocídio e resistência no Donbass.

 

A cultura (não) importa? por Michael França

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Limitações na forma de pensar podem ser tão restritivas quanto a falta de recursos

Michael França, Ciclista, vencedor do Prêmio Jabuti Acadêmico, economista pela USP e pesquisador do Insper. Foi visiting scholar nas universidades de Columbia e Stanford.

Folha de São Paulo – 24/12/2024

A cultura molda não apenas quem somos mas como vemos o mundo e como tomamos decisões. Ela não se limita a tradições, mas também reflete o conjunto de valores, expectativas e maneiras de pensar que são transmitidos de uma geração para outra.

Ela representa um senso de identidade e de pertencimento que dá aos indivíduos um significado. Ao mesmo tempo, ela também pode moldar nossas decisões de uma forma que nos impeça de avançar em certos caminhos. Isso tende a ser particularmente impactante para aqueles que vivem em comunidades marginalizadas, lugares onde o peso de uma história de exclusão se faz presente a todo momento.

É um peso que sussurra a todo momento em seus ouvidos: “Conforme-se com sua realidade, é assim que é a vida”. “Pessoas como nós nasceram para ficar à margem.” “Não seja ambicioso para não se frustrar.” “Não vale a pena tentar. Isso não é para você.” “Você não é digna de valor e respeito.” “Você tem a cor da servidão.”

Nesse contexto, tem-se que, quando uma pessoa cresce ouvindo que certos caminhos “não são para ela”, a cultura se torna um eco de nossas barreiras estruturais, refletindo-se em uma fonte psicológica de limitações que, em muitos casos, tende a ser até mais poderosa do que as restrições de recursos.

Talvez você faça parte do seleto grupo de nossa sociedade que não tenha ouvido, ano após ano, mensagens limitantes semelhantes, e tudo bem. Você não tem culpa de ter ganhado na loteria do nascimento.

Entretanto, quero que você compreenda que, quando mensagens desse tipo se repetem e quando crenças negativas se enraízam, não é difícil imaginar como isso vai afetar as escolhas. E aqui também não se trata de culpar a cultura pela pobreza ou pela desigualdade, mas de entender como estruturas profundamente arraigadas, como o racismo, o machismo e a negligência institucional, moldam e perpetuam a própria cultura.

Essas estruturas não operam isoladamente. Elas influenciam valores, comportamentos e até mesmo as narrativas que valorizamos e que contamos sobre nós mesmos e sobre o mundo ao nosso redor. No fundo, tem-se que o que uma pessoa almeja não surge do nada, mas representa o fruto de uma construção forjada pelas expectativas que ela ouve desde a infância, pelos exemplos que observa em sua comunidade e pela maneira como o mundo ao seu redor valida ou invalida suas ambições.

As conversas que temos, os gestos que nos são mostrados e os modelos sociais a que temos acesso criam as bases sobre as quais construímos nossos ideais de possibilidades e limites. Uma criança que cresce em um lugar onde o sucesso é visível, alcançável e incentivado tende a acreditar mais em si mesma e visualizar que seus sonhos podem se realizar. Entretanto, aquelas que são expostas constantemente a mensagens de fracasso, exclusão ou desvalorização tendem a internalizar a ideia de que seus desejos não são alcançáveis ou até mesmo que são irrelevantes.

A história das aspirações humanas é também a história das oportunidades que lhes são negadas ou permitidas. Em um país em que, para muitos, as oportunidades são escassas, tem-se que milhares aprenderam apenas a se adaptar ao contexto.

 

As perdas e os danos do pacote fiscal, por Adriana Fernandes

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O que o Executivo quis era insuficiente, o Congresso achou muito duro e reduziu as medidas, o Judiciário não fez nada

Adriana Fernandes, Jornalista em Brasília, onde acompanha os principais acontecimentos econômicos e políticos há mais de 25 anos

Folha de São Paulo -24/12/2024

O mercado financeiro queria muito mais do que o governo Lula apresentou no pacote de contenção de gastos. O que o Executivo quis era insuficiente. O Congresso achou muito duro o que o governo apresentou e reduziu as medidas. O Judiciário não fez nada e disse nem vem não tem.

Esse é o balanço final da tentativa da equipe econômica de buscar uma solução para a crise de crescimento da política fiscal brasileira com medidas de redução do crescimento das despesas.

A votação do pacote de contenção de gastos escancarou como nunca o impasse que vive a sociedade brasileira e mostrou que, sem um amplo diálogo em 2025, o Brasil não sai da crise.

A cotação do dólar pode até recuar um pouco, mas o problema continuará como um fantasma a ameaçar a continuidade do crescimento da economia brasileira de forma sustentável e sem taxas de juros exorbitantes para controlar a alta da inflação.

O ministro Fernando Haddad (Fazenda) retratou a situação como uma disputa entre a direita, que não quer pagar o imposto que deve, e a esquerda, que não quer cortar gastos.

“Como é que fecha a conta?”, questionou ele, na sexta-feira (20), quando procurou mostrar que brigou para o Congresso não desidratar o pacote. O dilema, porém, é maior do que essa polarização também no campo das contas públicas.

A direita também não quis aprovar, por exemplo, medidas duras no BPC (Benefício de Prestação Continuada) para idosos e pessoas com deficiência —uma pauta da esquerda. Já a esquerda descartou medidas de retirada de gastos tributários que acabam beneficiando grupos privilegiados que estão na direita.

O impasse mostrou que existem outras vertentes sobre a agenda de corte de gastos, além da resistência da ala do governo que derrubou as medidas mais duras de Haddad.

Enquanto o Executivo entregou um projeto mal comunicado, misturado com várias coisas e tido como insuficiente, o Congresso e o Judiciário mostraram que não têm nenhuma predisposição ou tolerância para fazer alguma coisa mais forte.

Ninguém no governo Lula vai ter coragem de falar isso em voz alta, mas o Judiciário foi coagido a dar sua contribuição —ao final, porém, fez pressão corpo a corpo no plenário do Congresso para que as medidas de restrição ao supersalários fosse esvaziada.

Os parlamentares, que estavam com raiva do STF (Supremo Tribunal Federal) em razão das emendas parlamentares, aceitaram. A medida dos supersalários, que era uma agenda moralizadora e apoiada pela sociedade civil, caiu por terra mais uma vez no plenário do Congresso. Por que será?

É curioso que o país tenha chegado a uma situação de deterioração tamanha do preço dos ativos e as respostas não tenham sido dadas por quem estava cobrado. No passado, não foi assim nos momentos mais difíceis. Houve reação.

Há um negacionismo da crise pela falta de compreensão do que está acontecendo na economia. O preço atual dos ativos não é bom para a população, a atividade econômica e as principais empresas do setor real. Não é bom nem para os bancos.

Se não existir algum tipo de acordo em resposta à crise, o impasse continuará e o cenário poderá piorar.

 

Ainda há lugar para a esperança? por Leonardo Boff

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 Leonardo Boff – A Terra é Redonda – 21/12/2024

A vida visível, assim como a conhecemos, corre risco de desaparecer, à semelhança das grandes dizimações do passado

Considerando os pronunciamentos do Secretário Geral da ONU, António Gutérrez, percebemos que em todos os grandes encontros com autoridades estatais e empresários, está mais e mais agravando os tons sombrios de suas advertências: chama atenção de que ou assumimos todos a nossa responsabilidade comum, face à degradação ecológica do planeta ou então conheceremos um suicídio coletivo.

Suas palavras carregam especial peso, pois, por sua função diante de um organismo mundial, acompanha o dia a dia do curso do mundo e a gravidade dos problemas. Dá-se conta, com clara consciência, de que não estamos, como coletividade, fazendo o suficiente e o necessário para enfrentarmos as mudanças que estão ocorrendo no planeta Terra. Como nunca antes na história, o destino está em nossas mãos. Não que a Terra vai acabar. Poderá acabar ou ser letalmente afetado o milagre maior da evolução, a vida em sua imensa diversidade, a nossa incluída.

A vida visível, assim como a conhecemos, corre risco de desaparecer, à semelhança das grandes dizimações do passado quando entre 75-90% da carga biótica desapareceu. Mas nós não estávamos lá. Somente milhões de anos após entramos no cenário da história evolutiva. Agora a crise é planetária. Estamos profundamente metidos na extinção em massa de organismos vivos, nós incluídos. Fala-se de uma nova era geológica, a do antropoceno, do necroceno e, por fim, do piroceno.

A mim impressionam os testemunhos de duas figuras da maior seriedade científica. O primeiro é de Max Weber (1864-1920) pouco tempo antes de sua morte. Exímio conhecedor de como funcionam as sociedades, por fim, ao confrontar-se com o conjunto de sua obra e com algumas intuições do marxismo (em fim), nos advertiu: “O que nos aguarda não é o florescimento do outono, nos aguarda uma noite polar, gélida, sombria e árdua”.[1] Ele cunhou a expressão forte que atinge o coração do capitalismo: ele esta encerrado numa “jaula de ferro”(Stahlhartes Gehäuse) que ele mesmo não consegue romper e, por isso, nos pode levar a uma grande catástrofe.[2]

O outro testemunho nos vem de um dos maiores historiadores do século XX. Eric Hobsbawn (1917-2012) em seu conhecido livro-síntese A Era dos Extremos concluindo suas reflexões pondera: “O futuro não pode ser a continuação do passado… Nosso mundo corre o risco de explosão e implosão… Não sabemos para onde estamos indo. Contudo uma coisa é clara. Se a humanidade quer ter um futuro que vale a pena, não pode ser pelo prolongamento do passado ou do presente. Se tentarmos construir o terceiro milênio sobre esta base iremos fracassar. E o preço do fracasso ou seja, a alternativa para a mudança da sociedade é a escuridão” (p.562). Não estamos operando nenhuma mudança paradigmática da sociedade.

Convenhamos: tais juízos de pessoas altamente responsáveis devem ser ouvidas. Com acerto asseverou o Papa Francisco em sua encíclica dirigida a toda a humanidade e não só aos cristãos, Sobre o cuidado da Casa Comum (2015): “as previsões catastróficas já não se podem olhar com desprezo e ironia. Às próximas gerações, poderemos deixar demasiadas ruínas, desertos e lixo… nosso estilo de vida atual, por ser insustentável, pode desembocar em catástrofes” (n.161). Na encíclica Fratelli tutti (2020) radicaliza sua advertência ao afirmar: “estamos todos no mesmo barco; ou nos salvamos todos ou ninguém se salva” (n.34). E não há um barco paralelo para o qual pular e nos salvar.

Neste contexto sinistro foram elaborados, entre outros menores, três documentos que procuram, no meio da obscuridade, nos infundir uma luz de esperança: a Carta da Terra (2000), as encíclicas do Papa Francisco Sobre o cuidado da Casa Comum (2015) e a outra Fratelli tutti (2020).

Carta da Terra, fruto de uma ampla consulta mundial, sobre valores e princípios, capazes de nos garantir a vida no futuro, afirma com esperança: “Nossos desafios ambientais, econômicos, políticos, sociais e espirituais estão interligados e juntos podemos forjar soluções includentes (Preâmbulo d). E aponta caminhos e meios de salvamento.

Na encíclica Sobre o cuidado da Casa Comum o Papa nos lembra que somos Terra (n.2), com o imperativo ético de ouvir simultaneamente o grito da Terra e o grito do pobre (n.49); nossa obrigação é comprometermo-nos na preservação e na regeneração do planeta, pois “tudo está relacionado e todos nós, seres humanos, caminhamos juntos como irmãos e irmãs numa peregrinação maravilhosa que nos une também com terna afeição ao irmão sol, à irmã lua, ao irmão rio e à Mãe Terra” (n,92). Nossa missão é guardar e cuidar desta herança sagrada, hoje ameaçada.

Na encíclica Fratelli tutti confronta dois paradigmas, o do dominus (dono) com o do frater (irmão/irmã)Pelo dominus, o ser humano, se entende fora e acima da natureza, como senhor e dono dela; usando o poder da tecno-ciência tornou mais confortável a vida, mas ao mesmo tempo, levou à atual crise devastadora dos ecossistemas e ao princípio de autodestruição com armas, capazes de liquidar a vida na Terra.

A este paradigma o Papa apresenta na encíclica Fratelli tutti, o da “fraternidade universal”: com todos os seres da natureza, criados pela Mãe Terra e entre nós seres humanos, irmãos e irmãs junto com os da natureza e no meio dela, cuidando-a e garantido sua regeneração e perpetuidade em benefício das presentes e futuras gerações. Essa fraternidade universal se constrói de forma sustentável a partir do território (bioregionalismo), portanto, debaixo para cima, garantindo algo novo e alternativo ao sistema dominante que, a partir de cima, impõe uma dupla injustiça, contra a natureza devastando-a e contra os seres humanos, relegando-os em sua grande maioria na pobreza e na miséria.

Isso garante um lugar para a esperança? É o que cremos e esperamos. Mas o fato doloroso é que, como dizia Hegel (1770-1831), aprendemos da história que não aprendemos nada da história, mas aprendemos tudo do sofrimento.

Prefiro a sabedoria do africano Santo Agostinho (354-430): a vida nos dá duas lições: uma severa, do sofrimento e outra agraciada, do amor que nos leva fazer atos criativos e inusitados. Provavelmente iremos aprender do sofrimento que virá, mas muito mais do amor que “move o céu e todas as estrelas” (Dante Alignieri) e nossos corações. A esperança não nos defraudará assim nos prometeu São Paulo (Rom 5,5).

*Leonardo Boff é ecoteólogo, filósofo e escritor. Autor, entre outros livros, de Cuidar da Casa comum: pistas para protelar o fim do mundo (Vozes).

Notas

[1] Le savant et le politique, p. 194.

[2] Cf. a pertinente análise de M.Löwy, La jaula de hierro: Max Weber y el marxismo weberiana, México, 2017.

 

‘Claramente, há uma reação exagerada do mercado financeiro’, afirma Eduardo Giannetti

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Economista e filósofo diz que números fiscais do Brasil são preocupantes, mas não calamitosos; ele critica alta dos juros e ‘dominância que o mercado financeiro exerce na formação das expectativas’

Luiz Guilherme Gerbelli – O Estado de São Paulo – 23/12/2024

O economista e filósofo Eduardo Giannetti avalia que há uma reação exagerada do mercado financeiro com os números da economia brasileira. No fim deste ano, a incerteza sobre o futuro das contas públicas do País levou o dólar para a casa de R$ 6,30 e fez os juros futuros dispararem.

“Claramente, há uma reação exagerada do mercado financeiro”, afirma. “Os indicadores fiscais brasileiros, embora preocupantes, não são calamitosos. Longe disso. Nós não estamos na beira de nenhum precipício fiscal.”

Em entrevista ao Estadão, Giannetti critica a alta dos juros ― em seu último encontro, o Comitê de Política Monetária (Copom) aumentou a Selic em 1 ponto porcentual ― e avalia que o País enfrenta uma dominância do mercado financeiro “na formação das expectativas e no ambiente do debate público brasileiro”.

“O mercado financeiro é extremamente exigente quando se trata de pedir cortes de gasto primário, mas ele é completamente omisso quando se trata de trazer à tona o custo fiscal de um aumento extravagante de juros como esse que nós estamos vivendo no Brasil”, diz.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Como o sr. analisa essa piora dos ativos e até onde essa piora pode chegar?

Quando a gente conversou no ano passado, a minha avaliação era a de que o governo Lula tinha ganho a batalha das expectativas do primeiro ano do mandato. Podemos dizer, agora, que o governo Lula perdeu a batalha das expectativas no segundo ano do mandato. O termômetro dessas expectativas no regime de macroeconomia, como nós temos hoje no Brasil, é a taxa de câmbio. Quando as expectativas se deterioram, o real desvaloriza. Quando as expectativas melhoram, o real valoriza. Os milhares de agentes econômicos compram ou vendem papéis denominados em real dependendo do estado das expectativas. E as expectativas se deterioraram, especialmente, no segundo semestre de 2024.

Na avaliação do sr., o que motivou essa deterioração?

É uma conjunção de muitos fatores que se combinam. É fato que o dólar se valorizou em todo mundo, especialmente nos mercados emergentes. Portanto, o ambiente externo não foi benéfico, embora, no ano passado, mesmo com os juros americanos mais altos, nós tenhamos assistido a uma apreciação do real, porque o governo foi bem ao apresentar o arcabouço fiscal e a proposta de reforma tributária. Mas o fato também é que a desvalorização do real este ano foi muito além do que aconteceu com as outras moedas relevantes do mundo emergente. Nós vivemos uma desvalorização do real que extrapolou muito o padrão do mundo. E aí nós temos que obrigatoriamente olhar para fatores domésticos, exacerbado nesse movimento.

E o sr. poderia detalhar esses fatores domésticos?

Um fator de primeiríssima ordem, sem dúvida, é o desapontamento com a proposta de corte de gastos apresentada pelo governo. Houve vários problemas. O primeiro e grave é que o governo tentou escamotear o corte de gastos com apresentação de cunho ― e eu posso dizer ― político-eleitoral da proposta de reforma do Imposto de Renda com a exceção para quem ganha até R$ 5 mil. O problema dessa proposta, entre outros, é que, se o lado da isenção é líquido e certo, o lado da arrecadação compensatória dessa isenção é extremamente complicado de implementar. Ficou uma assimetria que gera muito ruído. Mas isso é uma parte. A outra parte é que o que o Haddad apresentou, embora correto, é claramente insuficiente para endereçar a questão do cumprimento do arcabouço fiscal nos próximos anos. Ele anunciou medidas muito pontuais, quase conjunturais. Não disse nada a respeito dos problemas de fundo do nosso desequilíbrio estrutural.

Quais são esses problemas de fundo?

São, essencialmente, três. A vinculação de todas as despesas sociais ao reajuste do salário mínimo, que tem um impacto automático de enorme magnitude nos gastos públicos, ainda mais num governo que não abre mão de uma política de valorização do salário mínimo, que, em si, me parece até justificável. Mas atrelar isso a toda família de benefícios sociais e previdenciários é devastador para as contas públicas. São também as despesas obrigatórias, especialmente, saúde e educação, que crescem também de acordo com a arrecadação e tem um crescimento orgânico. Por fim, os gastos tributários, as isenções que o governo oferece para grupos que se beneficiam de regimes tributários especiais. Se nós não endereçarmos essas três questões, o problema estrutural das contas públicas continuará na corda bamba. E a cada ano nós vamos ter de fazer medidas duvidosas e muito sofridas em alguns casos para conseguir manter minimamente uma expectativa de que o arcabouço fiscal vai ser cumprido.

O arcabouço perdeu credibilidade?

Eu não acho que o arcabouço fiscal está terminado e enterrado, como foram enterrados a Lei de Responsabilidade Fiscal e o teto de gastos, mas eu diria que está na UTI, respirando por aparelhos. E o governo vai ter de apresentar alguma coisa mais consistente para recuperar a credibilidade desse arcabouço fiscal. Agora, vamos colocar as coisas em perspectiva. Claramente, há uma reação exagerada do mercado financeiro.

Por que o sr. vê um exagero?

Entra nisso um elemento especulativo. Agentes poderosos do mercado financeiro adoram volatilidade, porque é dessa forma que ganham dinheiro. Os indicadores fiscais brasileiros, embora preocupantes, não são calamitosos. Longe disso. Nós não estamos na beira de nenhum precipício fiscal. Eu acho que houve também um fato que o presidente do Banco Central (Roberto Campos Neto) apontou e é relevante: o movimento intenso de remessa de dividendos das empresas transnacionais que atuam no Brasil para suas matrizes. O que não deixa de representar um fato positivo, que é o fato de que elas tiveram bons resultados no Brasil este ano. Estão podendo mandar dinheiro para as matrizes. Isso também pressionou o câmbio.

E se a gente olhar para a economia real, os indicadores deste ano são positivos. Tivemos um crescimento do PIB da ordem de 3,5%, sendo que, no início do ano, a previsão era de 1%, 1,5%. Veja como o mercado financeiro erra para mais ou para menos nas suas projeções, nas suas expectativas. Criamos 3 milhões de empregos. Metades dos quais na economia formal. As nossas contas externas permanecem muito sólidas e equilibradas, tanto pelo resultado da balança comercial como pelo investimento direto estrangeiro. Não temos, portanto, nenhum tipo de vulnerabilidade externa. O que me causa uma certa estranheza é a dominância que o mercado financeiro exerce na formação das expectativas e no ambiente do debate público brasileiro, o que acaba exacerbando esses movimentos.

Como o País sai dessa situação, então?

Primeiro, o governo deixando de dar informações desencontradas e unindo o discurso. Eu acho que está mais do que na hora de o presidente da República fazer um pronunciamento sólido de que a questão fiscal não será desconsiderada e que o compromisso é sério. E que, se for o caso, existem instrumentos de contingenciamento que permitem cumprir o arcabouço fiscal nos próximos dois anos. E isso tem de ficar muito claro que será implementado. Eu acredito também que está na hora de começarmos a discutir mais seriamente os três temas que eu mencionei que endereçam de maneira mais permanente o desequilíbrio fiscal brasileiro. Era tabu discutir a reforma da Previdência no Brasil. Essa discussão amadureceu e a reforma acabou sendo aprovada ― ainda que não seja suficiente para um tempo indefinido ― de maneira amadurecida. Nós não podemos interditar o debate em torno dos três temas estruturais.

Mas o que vimos foi o cenário de crise econômica. Os indicadores da economia real estão bons, mas os indicadores dos mercados apontaram para um cenário difícil, com a disparada do dólar e dos juros futuros. Qual é o cenário que o sr. vê daqui em diante?

Ninguém tem como antever mercados que são tão volúveis como são os mercados de alta frequência, o mercado de câmbio, o mercado de Bolsa, o mercado de títulos e de juro futuro. Eu tendo a crer que, se prevalecer um mínimo de bom senso, teremos uma acomodação. Agora, uma coisa eu digo: esse juro no patamar em que está não pode permanecer por muito tempo, porque ele leva a nossa dívida pública para um caminho insustentável e explosivo. Eu acho que faltou muito, no debate, um ponto ― e aí eu lembro aquele meu ponto da dominância do mercado financeiro na formação das crenças em relação à economia ― de enfatizar a extravagância fiscal que um aumento da Selic e no patamar em que está e o que representa.

Qual é o custo fiscal desse aumento?

É um número que não é fácil de estimar e a gente tem ouvido informações muito desencontradas. Quanto custa para os cofres públicos o aumento de 1 ponto porcentual na Selic se ele for mantido durante um ano? Não é o número simples, porque não é todo o estoque da dívida pública que é remunerado pela taxa Selic. É apenas uma fração. Numa estimativa conservadora, nós estamos falando de um valor ao redor de R$ 30 bilhões por ano. Veja só: em uma reunião do Copom, o gasto público aumenta um montante equivalente a toda promessa de contenção de gastos daquele pacote tão sofrido que o Fernando Haddad anunciou. O aumento de juros primários no Brasil, de agosto para cá, supera em termos de gasto público largamente o valor total previsto de contenção nos próximos dois anos anunciado pelo governo.

Agora, nessa hora ninguém lembra. O mercado financeiro é extremamente exigente quando se trata de pedir cortes de gasto primário, mas ele é completamente omisso quando se trata de trazer à tona o custo fiscal de um aumento extravagante de juros como esse que nós estamos vivendo no Brasil. Hoje, estamos gastando algo em torno de 6% do PIB, 7% do PIB com juros. Nenhum país sustenta e aguenta por muito tempo uma conta dessa. Sem falar do impacto altamente regressivo na distribuição de renda, que significa uma transferência de um valor dessa ordem para quem tem poupança financeira neste país.

O sr., então, acha que seria possível não aumentar tanto os juros como o Banco Central está subindo e indicando?

Existem dois tipos de erro na condução da política monetária. Um é o erro de sinal, e o outro é o erro de dosagem. No período recente, o erro mais inequívoco de sinal foi no governo Dilma. Por influência política da Dilma, numa época em que o Banco Central não era formalmente independente, o governo e o Banco Central reduziram os juros quando precisavam aumentar. Isso é um erro de sinal, e as consequências nós vimos. A inflação brasileira subiu às alturas, o governo meteu os pés pelas mãos tentando controlar preços e foi aquele festival de horrores do final do governo Dilma.

Eu acredito que hoje há um erro de dosagem. Nós aumentamos demais o juro, depois demoramos para reduzir o juro e, quando reduzimos, reduzimos menos do que poderíamos ter reduzido. E agora, na minha opinião, estamos sendo mais realistas que o rei. Esse último momento de juro do Banco Central surpreendeu o próprio mercado financeiro, que estava com uma expectativa um pouco menor.

Agora, aí é um jogo de credibilidade. Colocando-me do lado do Banco Central, eu posso interpretar como uma tentativa de estabelecer uma credibilidade que lhe permita, um pouco mais à frente, voltar a ter uma política monetária menos agressiva.

O sr. disse da necessidade de novas medidas adicionais, mas há uma leitura de enfraquecimento do ministro Haddad. Essas medidas são possíveis ainda?

A minha leitura é de que o Haddad não está enfraquecido e não vai se enfraquecer. Eu acho que o presidente Lula tem plena ciência de que, se a situação já está difícil com o Haddad, ela vai piorar ainda mais sem o Haddad. E ele é um laço, um fiador de algum grau de compromisso com a responsabilidade fiscal no Brasil. O que seria uma alternativa à equipe do Haddad no governo Lula hoje? Seria o PT. E aí, apertem os cintos, a Argentina é logo ali.

Muitos analistas têm comparado este governo do Lula com a gestão Dilma. No mundo real, o sr. acha que este governo é parecido com Lula 1, Lula 2, Dilma 1 ou Dilma 2?

No primeiro ano, eu acho que o governo ganhou a batalha das expectativas. A reforma tributária é um feito importantíssimo e a gente não pode subestimar isso. Estamos há mais de 30 anos discutindo a reforma tributária no Brasil. O governo Bolsonaro passou inteiro sem que sequer apresentasse uma proposta de reforma tributária, e o governo Lula, no primeiro ano de mandato, apresentou, negociou e encaminhou ao Congresso uma bela proposta de reforma do imposto sobre o consumo. Temos de reconhecer isso. A paixão partidária não pode prevalecer. Fernando Haddad montou, apresentou e, num primeiro momento, convenceu com o seu arcabouço fiscal. Não é uma coisa heroica. E é bom que não seja, porque, se for muito heroico, sabe-se que não será cumprido, mas encaminhava e mostrava que havia um compromisso com equilíbrio, para que a dívida pública não saísse do controle.

Neste segundo ano, a coisa começou a piorar. Agora, nós estamos muito longe do descalabro que começou no segundo Lula e chegou à plenitude no primeiro governo Dilma. Se o PT assumisse o Ministério da Fazenda, eu acho que nós poderíamos dizer, agora, que estamos de volta ao governo Dilma. E quem conspira contra Fernando Haddad ― ou, pelo menos, desejaria vê-lo enfraquecido ― saiba que está aproximando para uma eventual recaída na aventura que a equipe econômica da Dilma colocou o País. E foi de uma incompetência épica. Eu não economizo adjetivos para descrever a gravidade dos erros, que, de certa maneira, prepararam o terreno para a ascensão do Bolsonaro. O descalabro da Dilma foi o território que deu ao Bolsonaro um caminho para ele chegar aonde chegou.

O sr. citou a necessidade de o Brasil endereçar questões mais de fundo. Até quando o País aguenta não discutir e resolver a questão das contas públicas de uma vez?

Tem dois caminhos. Ou nós precisaríamos de uma gravíssima crise financeira para a ficha cair. É o caminho da dor. Ou nós teremos maturidade para entender que essa é uma realidade que se impõe. Nós não podemos estar em um sistema em que o dinheiro público é gasto antes de ser arrecadado, em que a margem de manobra do gasto discricionário do governo tende a zero nos próximos anos. Não vai ter dinheiro para investir. Vai haver uma arrecadação para imediatamente entregar o dinheiro já gasto na outra ponta. Não precisa mais de governo. Nós temos de amadurecer essa questão no Brasil. Tem o exemplo da reforma da Previdência. Era um tabu. Foi trazida, foi discutida. É certo que precisou de uma grande crise para ela entrar na pauta, mas a crise aconteceu e ela entrou na pauta. E, quando foi aprovada, havia, na opinião pública, entendimento e aprovação da reforma previdenciária. Isso é raro em qualquer país do mundo. Não dá para continuar com um Orçamento tão absurdamente engessado, rígido e carimbado como a gente tem hoje no Brasil e com tantos privilégios, inclusive, no Congresso e no Judiciário, que ficam totalmente à margem do debate sobre gasto público. Se for mantido o patamar de juros que está telegrafado ao longo do próximo ano, a gente vai para uma situação muito delicada. É um sistema de retroalimentação.

Como assim?

A desconfiança leva à desvalorização, a desvalorização leva à inflação, e a inflação obriga a aumentar os juros. O nome disso é dominância fiscal. Em vez de tranquilizar, o aumento dos juros piora a expectativa, inclusive, a de inflação. Tem um outro ponto, não é uma ação de governo, mas todos nós temos de refletir. É exagerada a presença da visão financeira e de mercado financeiro no debate público brasileiro. Esse aumento de juros que nós vivemos recentemente prejudica enormemente o setor real da economia. E isso passa batido. As empresas que estão endividadas hoje e pagam juros estão tendo perdas, às vezes, por resultado de um enorme esforço de produção e rentabilidade apenas por conta de uma reunião do Copom. Muitas delas vão ter dificuldade para honrar compromissos financeiros. E isso passa batido. O setor real da economia não tem voz no debate brasileiro. O mercado financeiro tem uma dominância e uma hegemonia impressionante na formação de expectativas e no encaminhamento do debate público.

Por que isso ocorre?

O fato é que eles contratam os melhores economistas e que têm presença na mídia. A mídia tem uma preferência por ouvir os economistas do mercado financeiro. O Boletim Focus é mercado financeiro na veia e é um grande elemento de formação de expectativas. E o mercado financeiro, por ser muito volátil, naturalmente atrai a atenção dos formadores de opinião, porque ele está lidando com o mercado de alta frequência que chama muita atenção. É por isso que ninguém fala de demografia. É a coisa mais profunda e importante na vida de uma sociedade, mas, como o movimento é muito lento e difuso no tempo, ninguém discute. Agora, uma mudança no juro e uma desvalorização da moeda são manchetes o tempo todo. Mas eu garanto para vocês que a demografia é muito mais importante do que qualquer mudança de juros e câmbio.

 

Instabilidades cambiais

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Nesta semana, a economia brasileira apresentou grandes instabilidades cambiais, com impactos generalizados para todo o sistema econômico e produtivo, com preocupações sobre os níveis de preços e um crescimento inflacionário.

O noticiário nacional foi dominado pelas dificuldades econômicas pelas quais o governo estava vivenciando, nas redes sociais os embates cresceram de forma acelerada, os defensores do governo anterior destacaram os descaminhos da economia nacional, criticando as promessas do presidente Lula e degradando toda a imagem do governo, com falas deprimente e desrespeitosas….

De outro lado, encontramos os defensores do governo do presidente Lula colocando toda a culpa nos barões do mercado financeiro, os financistas e rentistas, que impulsionaram uma degradação da economia nacional, como forma de garantir seus ganhos imediatos e impedir que o presidente Lula cresça e, em 2026, consiga sua reeleição.

Os donos do capital nunca aceitaram Lula como presidente do Brasil, sempre jogaram pesado com seu nome e patrocinaram todos os grupos sociais e políticos que trabalhavam para a degradação de seu partido político, o Partido dos Trabalhadores (PT).

Ao analisar os indicadores macroeconômicos brasileiros teremos dificuldade para compreender os motivos da desvalorização crescente da moeda nacional, afinal, estamos num ambiente com desemprego em níveis menores desde 2014, superávit comercial de quase 100 bilhões de dólares, investimento externo crescente, renda salarial em franco em ascensão e perspectivas de quase 4% de crescimento do produto interno bruto (PIB), inflação controlada com indicadores em torno de 4,7% neste ano, um pouco superior a meta, mas nada preocupante.

A escalado do dólar impacta fortemente sobre a economia brasileira, afinal a moeda norte-americana é responsável por grande parte das negociações internacionais, responsáveis por grande quantidade do comércio global e os preços dos produtos consumidos e produzidos internamente.

O chamado ataque especulativo deve ser visto como uma situação em que os agentes econômicos e financeiros se utilizam de seus instrumentos para fragilizar os instrumentos das autoridades monetárias e ganhar com a movimentação dos preços dos ativos, garantindo ganhos substanciais e, com certeza, aumento nos rendimentos financeiros.

Ataque Especulativo são instrumentos conhecidos e utilizados para seus para incrementar os lucros, cabendo aos governos nacionais utilizarem seus instrumentos para controlar os ataques, evitando ganhos imediatos que garantam ganhos substanciais em detrimento de outros atores do mercado financeiro.

Oficialmente, os agentes econômicos não gostaram do pacote fiscal anunciado pelo governo federal, acreditando que essas medidas eram tímidas e insuficientes para debelar as inquietações fiscais, neste momento, os mercados se utilizaram de seu poder financeiro para pressionar o governo, desvalorizando a moeda nacional, estimulando a desvalorização da moeda nacional, aumentando os custos produtivos e motivando aumento dos preços relativos.

As medidas solicitadas pelos agentes econômicos eram reduzir o aumento do salário mínimo, reduzir os gastos sociais, principalmente no Benefício de Prestação Continuada (BPC) e o Abono salarial, recursos que impactariam grande parte da população mais carente da sociedade brasileira, estes recursos economizados contribuíram para aumentar as expectativas positivas para a economia brasileira e forçaria uma melhora significativa do ambiente macroeconomia nacional.

De outro lado, essas medidas impactariam fortemente sobre setores que votaram no presidente Lula e reduziriam o potencial político na próxima eleição presidencial e inviabilizaria nestes próximos dois anos de governo e, desta forma, pavimentaria novos grupos políticos ou traria setores vinculados ao governo anterior, liderados pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.

Neste momento, nos encontramos numa verdadeira encruzilhada, onde se o governo sinalizar a adoção de medidas dos donos do capital tenderiam a se distanciar dos grupos mais fragilizados da população e os grandes responsáveis pelo retorno do presidente Lula à Presidência da República, uma escolha importante, mas marcada por grandes incertezas e instabilidades.

Nos chamou a atenção a condução da política monetário do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, suas exposições críticas contra a política fiscal do governo federal, suas participações em eventos privados nacionais e internacionais com discursos críticos na condução da política econômica do Ministério da Fazenda, além de posições desconfortáveis nos períodos eleitorais, quando da eleição presidencial de 2022, o presidente da Autoridade Monetário foi votar usando camiseta da seleção brasileira, uma marca muito atrelada ao então governo Bolsonaro e seus posicionamentos com o governador paulista Tarcísio de Freitas, quando se colocou como seu potencial Ministro da Fazenda nas eleições de 2030.

Outro ponto interessante é salientar as atuações do Banco Central do Brasil num momento de desvalorizações cambiais e degradação da moeda nacional, montado em mais de 350 bilhões de dólares a Autoridade Monetário postergou por muito tempo a atuação no mercado de câmbio.

No governo anterior, o mesmo Banco Central atuou no mercado em mais de cem vezes para diminuir as instabilidades cambiais, ao passo que, atualmente, o Banco Central atuou pouquíssimas vezes, até recentemente as atuações ocorreram em apenas uma vez, uma temeridade. Nesta semana, pressionados por grupos mais a esquerda e assustados os impactos negativos para a economia nacional, o Banco Central voltou a atuar no mercado de câmbio e segurando a cotação da moeda nacional.

Estes posicionamentos nos colocam em grandes questionamentos, muitos economistas liberais e ortodoxos defendem a independência do Banco Central, mas uma pergunta que nos parece muitos atual e contemporânea: Independência do Banco Central para quem?

O que percebemos é que a independência do Banco Central está diretamente ligada as questões políticas, pois a independência efetiva nunca se consolidou, o verdadeiro interesse da política de independência da Autoridade Monetária é limitar o poder político dos governos eleitos democraticamente, afinal quem manda e continua mandando são os donos do capital….são eles que empregam posteriormente os atuais diretores do Banco Central, haja vista a origem dos presidentes que sempre vieram da banca privada e posteriormente, retornariam para os postos anteriores, atuando nos bancos Itaú, Santander, Bradesco, Safra….

O ataque especulativo é, na verdade, uma grande política entre os donos do poder econômico e os governantes, neste embate os verdadeiros perdedores são, primeiramente, a população mais pobre e mais desprotegida, depois o governo federal de plantão que percebe sua perda de força política e, os grandes vencedores são sempre os mesmos, os financistas e rentistas. Até quando!!

Ary Ramos da Silva Júnior, Economista, Gestor Financeiro, Mestre, Doutor em Sociologia e Professor Universitário.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Socorristas

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A sociedade internacional nos traz grandes instrumentos de reflexões constantes, vivemos numa comunidade marcada por inúmeras transformações, violências e incertezas, o século XXI está revirando todas as bases sociais, aumentando as incertezas econômicas e confrontos políticos e militares, gerando uma sociedade ingovernável.

Embora saibamos das grandes dificuldades de governar um planeta como a Terra, ainda num momento de transição planetária como a que estamos vivenciando atualmente, precisamos refletir que, ao nos assustarmos com os rumos que a comunidade internacional está passando, precisamos relembrar quem é o verdadeiro governador do planeta Terra, nosso Mestre Jesus. Todas as dificuldades existentes na contemporaneidade, todas as violências em curso, todos os desafios econômicas e sociais, todos eles, são vistos e controlados pelos trabalhadores espirituais liderados pelo nosso governador.

Vivemos numa sociedade centrada por grandes modificações estruturais, a tecnologia nos abre novos horizontes para a comunidade, criando oportunidades, negócios inexistentes anteriormente passaram a moldar a sociedade global, mas ao mesmo tempo estão criando novos constrangimentos no cotidiano, desagregação familiar, medos profissionais, mercados de crenças, picaretagens constantes, violências reais e imaginárias, cobranças crescentes e instabilidades emocionais, tudo isso caracteriza as bases da contemporaneidade.

A palavra socorro nos remete a algumas explicações utilizadas constantemente, no dicionário encontramos como definição aquilo que se dá para auxiliar ou socorrer alguém; esmola, auxílio, benefício, ajuda ou assistência a alguém que se acha em situação de perigo, desamparo, doença etc. Diante destas definições, percebemos que os socorristas são pessoas dotadas de grande solidariedade e que se utilizam de suas capacidades para auxiliar pessoas ou comunidades em momentos de crises, desesperanças ou degradações.

Neste espaço, gostaria de refletir sobre um ator fundamental na comunidade terrestre e espiritual, um ator pouco conhecido pelos indivíduos da sociedade mundial, cujo papel é imprescindível para equilibrar os ambientes dos mundos material e imaterial. Esse ator descrito no artigo é o grupo dos chamados de socorristas, um grupo altamente qualificado que trabalha no entorno da comunidade espiritual prestando socorro para todos os indivíduos ou grupos de indivíduos que passam para o mundo espiritual, no momento de grandes inquietações, medos e dificuldades, esses atores auxiliam as pessoas no momento do desencarne, um momento que todos sabemos que vamos passar, mas não sabemos quando teremos que passar, um momento de incertezas e preocupações crescentes que aumentam com o passar dos anos, muitos acreditam que o momento acontecerá no envelhecimento, mas muitos indivíduos desencarnam em tenras idades ou na meia idade, não temos condições de definir, mas sabemos que todos, todos mesmo, vamos passar no momento correto definido por Deus.

A Doutrina Espírita nos traz grandes reflexões e ensinamentos para compreendermos a vida, a importância do amor e da solidariedade, afinal nascemos em sociedade, vivemos e nos desenvolvemos ao lado de outros seres humanos, ninguém cresce e se desenvolve sem a vivência social com outros indivíduos, neste momento, onde os valores do capitalismo contemporâneo se concentra no imediatismo, no individualismo e no lucro monetário, o Espiritismo deve ser visto como um verdadeiro oásis de reflexão individual e preparação da convivência em comunidade.

Os socorristas nos mostram a importância da solidariedade humana, em momentos de incertezas imediatas seu trabalho é um grande divisor de águas para a comunidade, por isso, sua relevância é tão grande e sua valorização tão importante para compreendermos a coexistência social e espiritual, afinal somos espíritos que estamos em estágio no corpo material.

A Doutrina dos espíritos nos brinda com inúmeros livros, revistas, entrevistas, artigos, filmes e documentários que nos mostram cenas interessantes e situações cotidianas que retratam a vivência no mundo espiritual, cenas de experiências em outras encarnações, os desafios dos seres humanos, os ensinamentos transformadores, os valores mais valorosos e os exemplos trazidos na passagem do Mestre Jesus.

No livro “Memórias de um suicida”, de Yvonne Pereira, encontramos reflexões importantes sobre o trabalho dos socorristas, a obra aborda os trabalhos desenvolvidos pela Legião dos Servos de Maria, trabalhadores do Instituto Correcional Maria de Nazaré, que são responsáveis pelo auxílio dos espíritos trazidos para o instituto, estes espíritos estavam muito comprometidos com energias negativas, trajetórias de grandes equívocos, comportamentos degradantes e dificuldades de compreensão a realidade cotidiana, no momento eram espíritos muito comprometidos com desequilíbrios e o trabalho dos socorristas foi fundamentais para melhorar a compreensão daquele momento marcado por grandes desajustes e negatividades.

Na atuação dos socorristas, percebemos uma personalidade forte e envolvente destes trabalhadores do Instituto Correcional Maria de Nazaré, força física, assertividade, firmeza e empatia são traços sublimes e verdadeiros dos chamados Legião dos Servos de Maria, afinal, muitos dos socorridos eram indivíduos dominados por uma trajetória de rancores, ódios e ressentimentos.

Na obra, a Legião dos Servos de Maria era destacada para monitorar o umbral, local marcado por grandes dores e desequilíbrios, observando o comportamento destes espíritos, monitorando seus passos e atuando no momento que os orientadores do Instituto autorizassem o resgaste, um momento de esperança para muitos e frustrações para outros.

Muitos espíritos estavam revoltados e ao verem as movimentações dos socorristas, acreditavam que seriam resgatados, alguns eram liberados e levados para o Instituto, agora, outros não conseguiam o resgaste, pois não estavam preparados para esta empreitada, não queriam largar suas “liberdades” ilusórias e teimavam em fugir das realidades paralelas que viviam, gostavam de prazeres imediatos, se empanturrando com sexos, alucinógenos, alimentos e paixões descontroladas.

Na contemporaneidade, encontramos inúmeros exemplos de intervenções dos socorristas, atuando fortemente em prol da redução dos desesperos dos espíritos, muitos desesperados no momento da morte, quando se deparam em uma realidade jamais imaginada, indivíduos dotados de grande poder político e econômico, pessoas de posses materiais que nunca vislumbraram a possibilidade da existência de ambientes imaterial ou espiritual, pessoas que acreditavam na existência de um juízo final, um momento onde um Deus juntaria, no mesmo local e na mesma data, todos os seus filhos para um verdadeiro julgamento final, onde os bons seriam levados para um verdadeiro céu, sem maldades e avessos a violências variadas. Aos que não foram aprovados, ou foram reprovados por comportamentos equivocados e distantes dos valores cristãos, seriam levados para uma outra localidade, um verdadeiro inferno, onde teriam oportunidades para purgar seus desequilíbrios mais íntimos e pessoais.

No mundo atual encontramos guerras fratricidas que destroem a humanidade, armas bélicas dotadas de grande capacidade de destruição, além de trilhões de dólares despejados em pesquisas científicas para o desenvolvimento de novos armamentos, drones, caças e softwares destrutivos que espalham mortes e degradações para todas as regiões do mundo. Neste ambiente, marcado por grandes devastações militares, encontramos mais de cem conflitos militares na contemporaneidade, exigindo, dos socorristas uma atenção constante, observando os comportamentos dos combatentes e de seus governos, afinal, num momento de insanidade que perpassam estas nações, uma nova arma ou um novo armamento, podem impulsionar mais destruições, matando milhares de pessoas, destruindo famílias e localidades.

Os responsáveis pelas destruições militares acabam criando um rastro de devastações constantes, espalhando mortes, rancores e ressentimentos generalizados, gerando amarguras, tristezas e violências que se espalham todos os dias. Neste cenário, os grandes ganhadores são aqueles que investem em indústrias militares, seus acionistas e todos que ganham com este mercado da morte e da destruição. Ao chegarem ao mundo espiritual, terão que arcar com suas escolhas, terão ainda que prestar contas a verdadeira justiça, aquela que não protege um ou outro em decorrência dos valores materiais e dos cifrões acumulados no decorrer da experiência no mundo material.

O livro “Memórias de um suicida” nos traz ênfase no trabalho dos socorristas, nos mostrando que o mundo espiritual é dotado de grande organização, com variados grupos e setores que se estruturam para melhor servir os espíritos em desespero, para isso, os socorristas são muito bem-preparados, qualificados, capacitados e supervisionados pelos superiores no mundo espiritual, dando todo o suporte técnico, emocional e espiritual para que desenvolvam seu trabalho.

No momento do socorro espiritual, os socorristas precisam dispor de capacidade técnica, emocional e espiritual para auxiliar aqueles que se encontram em desespero, espíritos que acordam num outro local, sem pessoas conhecidas e sem compreensão das dificuldades imediatas. Como nos disse Francisco Cândido Xavier, grande parte dos indivíduos que desencarnaram ainda não conseguiram compreender a sua nova realidade imediata, entrando em desespero, gritando e bradando contra Deus, terceirizando suas responsabilidades pessoais.

Quantos espíritos, ao se depararem com a chegada do seu desencarne, se dizem surpreendidos na existência da vida espiritual, acreditando na existência de uma única vivência no mundo material e rechaçavam, no mundo material, a possibilidade da chamada reencarnação. Estes espíritos entram em desequilíbrio quando se deparam com uma nova realidade, mais imaterial, mais individual e, ao mesmo tempo, mais consistente e organizada.

Gostaria de destacar, ainda, uma reflexão que faço constantemente em meus estudos e nos meus escritos espíritas, em mais de trinta anos de trabalho sistemático nesta doutrina, poucas vezes eu tive a oportunidade de assistir uma palestra efetiva sobre a importância dos espíritos socorristas, seu papel imprescindível para compreender a justiça, o amor e a solidariedade de Jesus, nosso governador do Planeta Terra, nosso modelo e guia, o espírito mais desenvolvido que encarnou no mundo material.

Embora, percebamos que o papel dos socorristas é imprescindível, percebemos que muitos preferem uma reflexão mais consistente de outros atores mais conhecidos, mais renomados e mais queridos. Neste artigo, gostaria de ressaltar a importância do trabalho dos socorristas, seu trabalho de socorro espiritual é central, afinal, quantos de nós, que vivemos numa sociedade centrada no individualismo, no imediatismo, no narcisismo e no enfoque no lucro, teremos que contar com o auxílio valoroso dos socorristas para nos auxiliarmos no momento do desencarne?

Nestas reflexões e na trajetória de estudos e trabalhos doutrinários, percebemos todos os indivíduos que cultivam o hábito da oração cotidiana, aqueles que trabalham no bem e vivenciam sentimentos bons e elevados, serão constantemente auxiliados pelos espíritos superiores em todos os momentos da vida e, não tenham dúvida, que no momento do passamento, serão muito bem auxiliados, amparados e encaminhados para locais de equilíbrio e refazimentos energético e espiritual.

Os samaritanos eram vistos como os verdadeiros trabalhadores socorristas nos tempos de Jesus, seu papel era fundamental para conduzir indivíduos perdidos ou equivocados, aqueles que, muitas vezes viviam em situações transitórias, onde fizeram alguns males na sociedade da época, pessoas que sentiam dores internas na alma, sentindo mal com suas atitudes anteriores e que queriam buscar um novo caminho, seguir novas trajetórias e construir uma nova conjuntura.

A Doutrina Espírita nos traz novas reflexões sobre o tema, nos mostra novas formas de compreendermos a sociedade, os desafios dos seres humanos e os modelos de vida trazidos pela espiritualidade para auxiliar no desenvolvimento da humanidade. Os socorristas atuam diretamente sobre as dores, as angústias e os medos dos indivíduos, auxiliando nos momentos mais críticos, ajudando no momento do desencarne, contribuindo nas dúvidas mais íntimas e pessoais, muitas das dúvidas deveriam ter sido sanadas no decorrer da reencarnação, mas muitas pessoas se esquecem deliberadamente dos mais sublimes ensinamentos trazidos pelo nosso mestre Jesus, se abraçando a valores materiais, gozos imediatistas e vantagens cotidianas, se esquecendo que somos frutos de inúmeras encarnações, talvez em muitos casos em mais de 800 vidas sucessivas, onde nascemos, crescemos, desencarnamos novamente, chegamos ao mundo espiritual e voltamos novamente para o mundo material….dando sequência no ciclo da vida.

Neste momento de transição planetária, todos os indivíduos encarnados estão precisando de socorros variados, uns passando por momentos de privações materiais, desajustes emocionais ou sentimentais, outros se encontram em momentos de instabilidades espirituais, um momento importante e imprescindível para refletirmos sobre os nossos valores espirituais, nossas crenças mais íntimas, nossas possibilidades pessoais e nossos anseios interiores.

Os socorristas são exemplos sublimes de amor verdadeiro, espíritos que deixam seus afazeres imediatos para auxiliar, acariciar, amparar e confortar todos aqueles que sofrem as mais terríveis dores da alma, suas fragilidades e suas deficiências. Neste momento, passemos a ver com outros olhos, com mais carinho, com mais atenção e com maior solidariedade humana o trabalho dos socorristas, cuja importância para a sociedade é imprescindível, urgente e insubstituível.

Ary Ramos da Silva Júnior, Economia, Mestre, Doutor em Sociologia (Unesp) e Professor Universitário.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Historiador destrincha por que países têm zonas com regras paralelas de impostos

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Joana Cunha – Folha de São Paulo, 21/12/2024

Em ‘Capitalismo Destrutivo’, Quinn Slobodian aborda impacto de zonas de exceção na democracia ao longo dos anosQuantos países existem no mundo hoje, e quantos haverá em 2150? É com essa pergunta provocadora que começa o novo livro do historiador canadense Quinn Slobodian, “Capitalismo Destrutivo – Os Radicais do Mercado e a Ameaça de um Mundo sem Democracia” (Objetiva).

O leitor é instado a responder o número atual sem consultar a internet. O autor retruca que temos cerca de 200 países, mas ressalva que esse número pode ser diferente no futuro.

É que os países, como existem hoje, já abrigam territórios e jurisdições peculiares, paraísos fiscais, zonas francas, distritos isentos de tarifas, impostos alfandegários ou taxas aduaneiras.

Recém-lançado no Brasil, o livro define as zonas como enclaves criados dentro dos limites de uma nação, sem formas comuns de regulamentação, em que os poderes de tributação usuais costumam ser suspensos, dando aos investidores a chance de ditar suas próprias regras.

Podem ser locais de produção de baixa remuneração ou, em outra versão, paraísos fiscais —destinos que abrigam lucr os corporativos com impostos baixos ou nulos, o que custa, só aos EUA, US$ 70 bilhões em receitas tributárias por ano, segundo o autor.

Slobodian cita casos de ilhas do Caribe onde há mais empresas registradas do que pessoas residentes. O mundo tem, hoje, mais de 5.400 zonas, de acordo com o levantamento dele, sendo que a maior parte está na América Latina, na África e na Ásia —aproximadamente metade delas fica na China.

Algumas se assemelham a pequenos galpões instalados no ciclo logístico do mercado global para armazenar ou montar determinados produtos evitando tarifas. Também podem ser megaprojetos urbanos futuristas, como a cidade inteligente de Songdo, na Coreia do Sul, Neom , na Arábia Saudita, ou Fujisawa, no Japão

Embora menos de 10% das zonas estejam localizadas na América do Norte e na Europa, segundo Slobodian, é no Ocidente que estão seus maiores entusiastas, que as defendem como arranjos políticos alternativos em pequena escala e sugerem que a utopia do livre mercado pode ser alcançada por meio de atos de fragmentação, criando territórios livres dentro das nações.

O autor descreve os arranjos como aberturas de buracos no território do Estado, em que se criam zonas de exceção com leis diferentes e em muitos casos sem supervisão democrática, podendo prejudicar as bases do país ao seu redor.

“Defensores dessa perfuração se apresentam como guerrilheiros de direita, reivindicando —e decompondo— o Estado-nação. Tão logo o capital fuja para novas zonas não regulamentadas e com impostos baixos, reza a teoria, as economias que se recusarem a se sujeitar à prática serão forçadas a emular essas anomalias”, diz o autor na introdução.

“Este livro conta a história do que chamo de capitalismo destrutivo. Trata-se, ao mesmo tempo, de uma descrição do mundo que tomou forma nos últimos 40 anos pelos esforços descoordenados de atores privados ávidos por lucro e segurança econômica, o que foi viabilizado por governos solícitos e também da história de uma ideologia deliberada”, completa.

No livro, o canadense reconta a origem de alguns dos destinos mais emblemáticos de sua pesquisa, começando por Hong Kong. Entre os detalhes históricos que dão ritmo à leitura, o autor relembra o papel que teve o neoliberal Milton Friedman ao disseminar, por meio da popular série de televisão “Free to Choose”, no fim dos anos 1970, o modelo praticado na então colônia britânica.

Em entrevista à Folha, Slobodian diz que Hong Kong foi uma escolha óbvia no livro. Além de a China ser mais expressiva em número de zonas econômicas especiais, ele afirma que era preciso registrar a forma como as cidades costeiras do sul do país, especialmente Shenzhen, seguiram o modelo de Hong Kong para se tornarem pequenos espaços com mercados de trabalho e direitos sociais fluidos.

“Era extremamente estranho e atípico no final da década de 1970 ter um lugar que ainda era uma colônia, que era tão pequeno e ainda assim economicamente importante, que não estava se movendo em direção à democracia de forma alguma. Isso era uma espécie de anacronismo, que alguém como Friedman via, paradoxalmente, como um tipo de espaço futurista que poderia ser replicado em outros lugares”, diz o autor.

Ao longo do texto, ele também aborda casos como Liechtenstein, Somália e Singapura. Segundo Slobodian, “Capitalismo Destrutivo” pode ser visto como uma sequência de sua obra anterior, “Globalistas – O Fim do Império e o Nascimento do Neoliberalismo”, lançado em 2018.

“É uma espécie de sequência porque o anterior era uma tentativa de sair do modelo binário de que ou há soberania nacional ou há capitalismo global. Como eu mostro no livro, o capitalismo funciona através das nações. E também funciona através desses enclaves territoriais menores e jurisdições dentro das nações que podem ser frequentemente usados pelos populistas nacionais para seus propósitos”, afirma.

“Eu queria mostrar como grande parte da retórica do nacionalismo que estava sendo usada no retrocesso desde 2016 estava se baseando em algumas das ferramentas mais antiquadas da integração capitalista global. Então, [Giorgia] Meloni ou [Matteo] Salvini, [ Viktor] Orbán ou Boris Johnson, todos abraçam a zonificação e as zonas econômicas especiais, mesmo quando falam uma linguagem de proteção nacional e soberania. Foi uma tentativa de estourar a bolha da retórica populista de direita”, diz ele.

Capitalismo Destrutivo – Os Radicais do Mercado e a Ameaça de um Mundo sem Democracia – Quinn Slobodian, Editora Objetiva

 

Realidade Paralela

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As movimentações na sociedade internacional geradas pelo desenvolvimento da tecnologia e da integração econômica e produtiva estão gerando novas formas de comportamentos nos indivíduos, levando as organizações, em escala global, a buscarem formas de satisfazer os novos anseios dos consumidores, assim como os governos estão se organizando para melhorar os serviços públicos, as regulamentações e novas formas de inclusão dos cidadãos neste ambiente centrado na concorrência e na competição constantes.

Neste cenário, percebemos o crescimento do embate entre os atores sociais e econômicos como forma de perpetuar seus ganhos indiretos, as isenções fiscais e seus benefícios tributários, moldando um grande conflito distributivo nos seios da sociedade contemporânea, cada um está buscando seus ganhos imediatos e se esquecendo da importância de pensarmos como atores integrados e interdependentes, garantindo seus recursos em detrimento de outros setores mais fragilizados, desta forma, contribuem ativamente para o incremento das desigualdades sociais que crescem na sociedade global.

Nesta sociedade, percebemos o crescimento de uma realidade paralela, construída, estruturada e difundida para legitimar interesses mesquinhos, individualistas e imediatistas, onde poucos grupos sociais usufruem diretamente, mas foram construídas de forma altamente profissional, com grandes investimentos financeiros, mesmo sabendo que poucos grupos sociais ganham com estas ideias e pensamentos.

Nesta situação, encontramos grupos econômicos e políticos importantes que investem somas altíssimas de recursos para desacreditar aqueles que combatem as violentas alterações climáticas, rechaçando as transformações no Meio Ambiente e se mobilizam para fragilizar as organizações que trabalham para aumentar a regulamentação governamental e impor mais responsabilidade nos investimentos que podem impactar sobre a natureza e os seres humanos.

Encontramos ainda, grupos econômicos e financeiros dotados de grandes recursos monetários e influência política que usam seus recursos para fortalecer os mercados das armas, das tecnologias militares, das indústrias bélicas e todo um arsenal que fatura bilhões de dólares, empregando pessoas e são responsáveis pela destruição inteira de regiões e nações em todas as partes do mundo, vide o acontecido em nações como o Iraque, a Ucrânia, a Síria, o Líbano, a Palestina, países destruídos pela devastação militar e, ao mesmo tempo, garante o enriquecimento da indústria da morte.

Neste mesmo cenário global, vivenciamos aqui, no Brasil, uma realidade paralela, encontramos nos meios de comunicação e nas universidades discussões secundárias e ultrapassadas, falamos constantemente em corrupção e nos esquecemos das raízes deste fenômeno, nos esquecemos das evasões fiscais, não discutimos nosso sistema tributário regressivo e concentrador e menos ainda, nada falamos de um Congresso turbinado por emendas pouco transparentes, foco constante de corrupção e desperdícios. Falamos das farras fiscais e nos esquecemos dos juros estratosféricos definidos pelo Banco Central que consomem bilhões de reais e aumentam a dívida pública. Criticamos os servidores públicos e degradamos as políticas públicas como ineficientes e nos esquecemos que convivemos com um judiciário caro, lento e ineficiente.

Precisamos urgentemente sair desta realidade paralela, os desafios contemporâneos exigem maturidade, senso de responsabilidade, compreensão do momento atual e forte capacidade de liderança, construindo políticas públicas sólidas e consistentes, vislumbrando uma nação melhor, mais harmônica, com mais oportunidade para os cidadãos e menos parasitas, especuladores, aproveitadores e exploradores.

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas, Mestre, Doutor em Sociologia e Professor Universitário.

A cultura dos juros altos, por Luiz Carlos Bresser Pereira

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 Luiz Carlos Bresser Pereira – A Terra é Redonda – 19/12/2024

A economia brasileira está presa em círculo vicioso da quase estagnação

Um dia desses, um dos meus filhos me perguntou por que o governo Lula estava privatizando estradas de rodagem que são monopolistas e, por isso, não devem ser privatizadas. Não seria esse governo neoliberal? Ou neoliberal progressista, acrescentei parafraseando a filósofa americana Nancy Fraser.

Não, o presente governo é social-progressista e desenvolvimentista: defende uma diminuição da desigualdade e a intervenção do Estado na economia para aumentar o investimento público e promover o investimento privado. Não obstante, esse governo não tem alternativa senão privatizar as rodovias que exigem investimentos para os quais não tem recursos. O Brasil está preso no círculo vicioso da quase estagnação.

Entendo por quase estagnação o fato de um país não realizar o “catch-up” – o fato de seu crescimento per capita ser quase sempre inferior aos dos Estados Unidos, de forma que o padrão médio de vida dos brasileiros se afasta cada vez mais do padrão americano. Apesar de um desempenho econômico razoável neste ano e nos dois últimos anos, nada aconteceu de novo na economia brasileira que nos permita afirmar que escapamos da quase estagnação, inclusive porque a taxa de investimento continua muito baixa.

A economia brasileira está quase estagnada desde 1980. Hoje, a distância em relação aos Estados Unidos é maior do que era em 1980. A causa direta dessa quase estagnação é a taxa de investimento muito baixa. Tanto o investimento privado quanto o público é sistematicamente inferior a 17% quando deveria girar em torno de 25% do PIB. Sete pontos percentuais é uma diferença muito grande.

Se compararmos a presente situação com meados dos anos 1970 (a última década em que o Brasil cresceu satisfatoriamente e estava realizando o “catch-up“), veremos que o investimento privado, que naquela década estava em torno de 15% do PIB, se manteve nesse nível, embora devesse ter crescido devido às privatizações – deveria ter crescido para pelo menos 20% do PIB.

Já o investimento público, que deveria ter caído um pouco devido às mesmas privatizações, caiu muito; correspondia a aproximadamente 8% do PIB, agora está em torno de 2,5%. Em consequência, o investimento total caiu de 23% para aproximadamente 16% do PIB, e a taxa de crescimento caiu correspondentemente.

A primeira razão para isso é a taxa de juros exorbitante que existe no Brasil desde a abertura financeira (1992). A taxa de juros real vem sendo desde então em média cerca de 6% a 7% ao ano, quando deveria se manter em torno de 3% ao ano, ou seja, igual a taxa de juros real internacional mais um adicional que dê conta do risco dos brasileiros em investir no Brasil (não dos estrangeiros), que eu estimo ser de aproximadamente 1%.

Duas vezes menor, portanto, que a taxa real que o Banco Central tem praticado e, portanto, uma taxa que desestimula o investimento. Eu falei em risco dos brasileiros, que deve ser menor que o risco Brasil, calculado pelos mercados internacionais para investidores fora do país aqui investirem, que é maior de cerca de 2,5%.

A segunda razão é a tendência de apreciação da taxa de câmbio no Brasil, que tem por trás quatro motivos: (i) porque a taxa de juros é alta para poder atrair capitais; (ii) porque o Brasil incorre sistematicamente em déficits na conta corrente de aproximadamente 2% do PIB, quando deveria mantê-los em torno de zero; (iii) porque o Brasil não reconhece e não neutraliza a doença holandesa, não tendo, portanto, uma política que evite que a taxa de câmbio se torne valorizada para as empresas industriais, a qual reduz a competitividade internacional dessas empresas; e (iv) porque a taxa de poupança no Brasil é muito baixa, não sendo por isso compensada pelo recurso a financiamento interno ou externo.

Os atores

Para sabermos o porquê das três primeiras razões, precisamos considerar os atores que causam a baixa taxa de investimento e o círculo vicioso da quase estagnação. São eles os capitalistas rentistas e seus financistas, o agronegócio, o Norte Global ao qual os dois primeiros grupos estão associados, os empresários industriais, os eleitores e os políticos. Todos são responsáveis pela taxa de câmbio apreciada, a baixa taxa de investimento e a quase estagnação do Brasil.

Os rentistas e financistas, que são dominantes, querem uma taxa de juros real (descontada a inflação) alta e uma taxa de inflação baixa (para garantir o objetivo anterior). Os dois grupos são liberais: não querem que o Estado invista ou intervenha na economia; não querem, por exemplo, que o Estado tenha uma política cambial que estabilize a taxa de câmbio e evite que ela seja apreciada.

Assim, estão felizes com um déficit na conta corrente em torno de 2% do PIB e não querem saber da doença holandesa, embora esta surja quando o preço das commodities exportadas pelo Brasil sobe e torna as empresas industriais não competitivas, ainda que sejam competitivas no plano técnico.

Rentistas e financistas estão satisfeitos. Eles têm poder suficiente sobre a sociedade brasileira para capturar indevidamente cerca de 3% do PIB graças à diferença entre a taxa de juros média razoável (de 3% ao ano, como vimos acima) para a taxa praticada de 6% ao ano. Esses juros altos naturalmente desestimulam o investimento, a não ser que a taxa de lucro esperada seja alta e a desigualdade econômica, acentuada.

O agronegócio, embora recebendo altos subsídios do Estado, se afirma liberal e, como os dois grupos anteriores, não quer saber de uma política de neutralização da doença holandesa; quer realizar lucros extraordinários quando há um boom de commodities.

A doença holandesa é uma apreciação de longo prazo e cíclica da taxa de câmbio para a indústria causada por um substancial aumento de preços das commodities exportadas pelo país, que causa uma apreciação da taxa de câmbio geral ou corrente. Enquanto, para o setor exportador de bens primários (agronegócio e exportador de minérios e petróleo), essa taxa de câmbio mais apreciada é satisfatória porque o aumento de seus preços compensa a valorização da moeda nacional, para a indústria essa apreciação é desastrosa. É papel do Estado garantir uma taxa de câmbio competitiva para a indústria.

Nos países exportadores de commodities, a taxa de câmbio é cíclica porque os preços das commodities também tendem a ser cíclicos: ela se deprecia fortemente quando há uma crise financeira e depois se aprecia, chega à taxa de equilíbrio geral (que equilibra a conta corrente do país) e afinal se torna mais apreciada à medida que o déficit na conta corrente aumenta devido à política que os países adotam equivocadamente de incorrer em déficits na conta corrente (“poupança externa”). Começa então o endividamento externo que, afinal, levará o país a nova crise de balanço de pagamentos e a nova depreciação violenta da taxa de câmbio, encerrando-se assim o ciclo.

O Norte Global (o conjunto dos países ricos liderados pelos Estados Unidos) não tem qualquer interesse em uma taxa de investimento alta na sua periferia. Pelo contrário, visa evitar que os países em desenvolvimento se industrializem, porque não querem concorrência no futuro.

Para isso, além de nos recomendarem que tenhamos déficits na conta corrente desde que esses não levem o país a uma crise de balanço de pagamentos, buscam manter economicamente abertos os países em desenvolvimento para a exportar capitais (investimentos diretos e empréstimos) e para manter a troca desigual – a troca entre bens tecnologicamente sofisticados, que pagam bons salários e lucros, e bens pouco sofisticados que se caracterizam por baixo valor adicionado per capita.

As empresas industriais, que não precisam de proteção com base no argumento da indústria infante, precisam dramaticamente de proteção contra a doença holandesa que, em boom de commodities, as tornam não competitivas. Não obstante, seus dirigentes ou empresários não sabem ou não querem saber o que é a doença holandesa, que pode ser mortal para eles.

O setor interno de serviços, muito amplo e diversificado, quer que a taxa de juros seja baixa, mas seus dirigentes não têm poder político capaz de influenciar o Banco Central. Ao contrário, eles acabam sendo corresponsáveis pelos altos juros porque as associações que os representam são ocupadas por economistas neoliberais.

Os eleitores, principalmente a classe trabalhadora e de empregados, criticam a taxa de juros elevada, mas estão satisfeitos com uma taxa de câmbio apreciada que aumenta o poder aquisitivo de seus salários e demais rendimentos.

Os políticos, finalmente, acompanham seus eleitores e estão felizes com uma taxa de câmbio apreciada que facilita sua reeleição.

Os déficits na conta corrente e os investimentos privados

Os liberais afirmam que o principal problema da economia brasileira é o déficit público que causa aumento da dívida pública em relação ao PIB e causaria inflação. De fato, manter o equilíbrio fiscal é importante, mas mais importante é manter a conta corrente do país (a conta externa comercial mais os serviços) equilibrada, algo que só acontece raramente.

Na verdade, rentistas, financistas, agronegócio, interesses estrangeiros, eleitores e os políticos estão todos satisfeitos com um déficit na conta corrente moderado, porque esses déficits aumentam o poder aquisitivo dos seus rendimentos e mantêm tudo como está, inclusive a quase estagnação.

Ora, uma das características do populismo é procurar dar rendimentos artificiais aos eleitores que são, afinal, prejudiciais ao país. Ao aceitarem como bons os déficits na conta corrente (porque implicam acesso à poupança externa), nossos atores são todos populistas. Mas não teriam eles razão? Afinal, seria mais que natural que os países ricos em capitais transfiram seus capitais para países pobres em capitais como é o Brasil.

Não, a política de crescimento com poupança externa ou de déficits na conta corrente é uma política que contém a causa do seu fracasso). Ao incorrer em déficit na conta corrente, as entradas de capitais são maiores que as saídas, a taxa de câmbio se aprecia e, além de estimular indevidamente o consumo, desencoraja o investimento.

Esse caráter auto fracassante da política de crescimento com endividamento externo deixa de sê-lo se o país adota uma política cambial capaz de compensar o excesso de entradas de capitais. Tudo, portanto parece desestimular o investimento privado que, por isso, não aumentou sua participação no PIB como seria de se esperar.

Finalmente, é preciso considerar que a poupança brasileira é muito baixa e, ainda que esse fato possa ser superado pelo recurso ao financiamento interno (por isso Keynes e Kalecki disseram nos anos 1930 que o investimento precede a poupança), ela precisa ser considerada. A poupança deveria ser, em princípio, quase igual aos lucros, os quais, para os empresários industriais, são necessariamente baixos, dada a taxa de juros alta e a taxa de câmbio apreciada.

Eles, portanto, não têm recursos necessários para financiar os investimentos de modernização de suas fábricas e de expandir sua produção, o que leva à desindustrialização. Além disso, ao não investirem, ficam atrasados tecnologicamente e a produtividade da economia permanece estagnada.

Já o agronegócio realiza lucros elevados, mas seus empresários investem na própria agricultura e pecuária e se opõem a qualquer política industrial e de neutralização da doença holandesa. Os rentistas e financistas, por sua vez, recebem juros e aluguéis elevados, mas não investem na indústria porque ela não dá o retorno que desejam. Preferem investir seu dinheiro no mercado financeiro e seus altos juros ou em imóveis que rendem bons aluguéis e se valorizam.

Em síntese, a taxa de investimento na indústria em relação ao PIB não aumentou apesar das privatizações que ocorreram desde os anos 1970. Em todo o período, os investimentos foram fortemente desestimulados porque apresentaram uma taxa esperada de lucro insatisfatória, incapaz de motivar os investimentos, dada a taxa elevada de juros que desde 1992 caracteriza a economia brasileira. Foram, portanto, claramente insuficientes para que o país retome o desenvolvimento e volte a realizar o “catch-up“.

A cultura dos juros altos

Além de rentistas e financistas defenderem juros altos e estes serem necessários para atrair capitais que financiem um déficit na conta corrente que não deveria existir, há uma causa subjacente para os juros serem altos: a cultura de juros altos, a acomodação de todos com os juros altos, que decorre do poder estrutural do capital e de um hábito cultural existente há muitos anos.

Duas indicações desse fato. Em 1964, já no quadro do regime militar, garantiu-se para as cadernetas de poupança, além da correção monetária, uma taxa de juros real de 6% ao ano. Em 1988, a nova Constituição limitou a 12% a taxa de juros real. Um limite muito alto, mas foi tanta a pressão do capital contra esse dispositivo que o STF decidiu depender de lei complementar do sistema financeiro internacional. Assim, a Constituição se tornou letra-morta nesse ponto, enquanto o Congresso não se move para discutir a lei necessária.

A falta de poupança pública e o investimento público

Voltando à comparação entre os anos 1970 (a última década em que o crescimento foi satisfatório no Brasil) e o presente, foram os investimentos do setor público que mais sofreram na virada dos anos 1970 para os anos 1980. A poupança pública que girava em torno de 4% do PIB caiu de repente para -2%, uma diferença de seis pontos percentuais.

Dois fatores foram determinantes da queda da poupança pública e do investimento público: a crise da dívida externa e a crise fiscal do Estado, que estudei bastante naquela época. Pergunto agora: seria possível o Estado voltar a realizar uma poupança pública e recuperar pelo menos uma parte daqueles seis pontos percentuais? Isto não parece provável. O Brasil continua com uma poupança pública negativa e a possibilidade de voltar a ter uma poupança pública positiva parece impossível.

Para aumentar a poupança pública, a maneira mais óbvia seria aumentar impostos para, assim, compensar o excesso de juros que são pagos aos rentistas locais e aos do Norte Global. Como vimos que esse excesso é de 3% do PIB, a carga tributária em relação ao PIB deveria aumentar na mesma proporção, mas ninguém quer pagar mais impostos.

A solução dada por rentistas e financistas ou, mais amplamente pelos, neoliberais é reduzir as despesas do Estado exceto os juros. Vimos que os investimentos públicos já foram reduzidos ao mínimo. Quanto às despesas sociais, é impossível reduzi-las. Seria, sim, possível reduzir os penduricalhos que a burocracia pública logra incluir em seus salários. O atual governo vem tentando fazer alguma coisa em relação a esse problema.

Seria também possível reduzir os incríveis e absurdos subsídios e isenções de impostos, como vem tentando o atual ministro da Fazenda, mas além de ter de neutralizar o lobby dos interessados nos subsídios e nas isenções, o Ministério da Fazenda tem que convencer muitos dos próprios membros do governo, que se julgam representantes dos interesses de suas áreas, e o próprio presidente da República que deve ser reeleito. Nessa área, como na dos juros, há bilhões a ser economizados, mas os interesses contrários são poderosos.

Demitir funcionários? No plano federal, não há excesso de servidores públicos. Nos governos estaduais e municipais, o excesso deve ser pequeno e o problema precisa ser enfrentado, mas não fará grande diferença. Onde faria uma grande diferença seria a redução da despesa com juros, que se obteria com a baixa da taxa para um nível civilizado e perfeitamente compatível com o controle da inflação. Mas quem será capaz de dobrar os rentistas e os financistas?

Assim, sem poder reduzir significativamente as despesas e sem conseguir aumentar os impostos para financiar essas despesas, o Estado não consegue realizar a poupança pública que seria necessária para financiar os investimentos públicos, que compensariam o não aumento do investimento do setor privado. Na verdade, o país não consegue zerar seu déficit público, que lhe permitiria realizar alguma poupança pública, a qual permanece negativa.

Os rentistas e financistas, porém, estão satisfeitos, porque não querem que o Estado invista – o que eles denominam “estatização”. Os rentistas e financistas (o “mercado financeiro”) querem que o Estado realize o superávit primário, uma métrica que lhes agrada porque exclui (esconde) os juros e, não obstante, garante que a dívida pública em relação ao PIB não aumente. Mas mesmo esse superávit o governo tem grande dificuldade de conseguir.

O círculo vicioso se fecha

Em consequência de tudo isso, o Brasil está preso no círculo vicioso da quase estagnação. Um círculo que tem alguma semelhança com o fluxo secular de Joseph Schumpeter, definido em 1911. Nesse fluxo circular, que decorre da lógica da teoria econômica neoclássica ou ortodoxa e do seu ideal de concorrência perfeita, não há lucros (existe apenas o lucro normal, igual à taxa de juros), os investimentos são iguais à depreciação efetivamente ocorrida e não há crescimento.

Já no caso do círculo vicioso da quase estagnação brasileira, há lucros, mas são baixos para a indústria de transformação; há investimentos e há crescimento porque setores do agronegócio, da indústria e o setor de serviços investem, mas esses são poucos, insuficientes para que o país saia da quase estagnação em que está mergulhado desde os anos 1980.

Por outro lado, o Estado não tem recursos para complementar o setor privado. Nos anos 1970, investia cerca de 8% do PIB. Hoje, investe apenas cerca de 2%. Não consegue nem sequer financiar os investimentos públicos em infraestrutura que são necessários para o país crescer. A solução proposta pela ortodoxia liberal é privatizar. Os governos vêm seguindo essa trilha, mas os resultados são parcos. O apetite e as possibilidades do setor privado são restritos.

Entretanto, alguns investimentos em infraestrutura, cujos lucros são certos, como nas concessões de rodovias, atraem muitos os rentistas e financistas e são relativamente necessários. O governo Lula, portanto, avança nas concessões por falta de alternativa.

Já outros investimentos muito necessários em infraestrutura não atraem o setor privado, a não ser que o Estado subsidie seus investimentos (parcerias público-privadas). A potencialidade dessas parcerias, porém, é limitada porque envolve gastos do Estado, o qual é mantido no nível de subsistência.

Há 20 anos, afirmo que a economia brasileira está presa na armadilha dos juros altos e do câmbio apreciado. Hoje, apoiado na teoria novo-desenvolvimentista, posso acrescentar que o Brasil está preso ao círculo vicioso da quase estagnação. Um círculo que se fecha com a impotência do Estado de rompê-la.

Ao apresentar o Brasil, sua economia e sua política de uma maneira nova, na qual podemos ver como os diversos atores tratam de manter a economia brasileira presa a esse círculo, sou obrigado a me mostrar pessimista quanto ao futuro do Brasil e do seu povo.

*Luiz Carlos Bresser-Pereira é professor Emérito da Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP). Autor, entre outros livros, de Em busca do desenvolvimento perdido: um projeto novo-desenvolvimentista para o Brasil (Editora FGV)