Mercados reemergentes

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Autor: Marcos Troyjo – FSP – TENDÊNCIAS/DEBATES

Emergente ou desenvolvido, ganhará o país que abandonar a certeza do “automatismo inevitável” de sua ascensão e incrementar a inovação.

O conceito de “mercados emergentes” surgiu nos últimos anos como ideia associada ao desenho do futuro.

Demografia, escala territorial, baixos custos de produção, acesso privilegiado a commodities –vetores de uma mudança no eixo da geoeconomia.

Nações como os Brics (Brasil, Rússia, Índia e China) alcançaram status de “usinas de crescimento”. Expansão liderada por exportações na China; “economia em transição” para o mercado na Rússia; “outsourcing” e empreendedorismo tecnológico na Índia, e “substituição de importações 2.0” no Brasil mantiveram a economia aquecida –e tensões sociais arrefecidas.

Adaptaram-se com sucesso à “globalização profunda” radicalizada pelo fim da Guerra Fria, ou à “desglobalização” –lógica do cada um por si que influencia o comportamento internacional desde a crise de 2008.

Esse contexto levou a uma ingênua projeção. Os Brics estariam fadados a, inercialmente, liderar um processo de convergência dos emergentes rumo aos padrões de desenvolvimento das economias mais maduras. No advento de crises, observaríamos um desejado “decoupling” –o descolamento entre o imobilismo dos desenvolvidos e o dinamismo dos emergentes.

Nos últimos meses, no entanto, a lua de mel com os emergentes se desgastou. Suas economias desaceleraram. Em contraste, Estados Unidos e Japão se recuperam. A Europa, ainda que lentamente, está saindo da recessão. Alterou-se o panorama dos fluxos internacionais de liquidez.
Isso tem levado a um novo e apressado prognóstico. Nada mais de convergência ou “decoupling”. Estaríamos de regresso à engessada hierarquia Norte-Sul.

Na realidade, o desempenho ao longo dos próximos anos estará menos relacionado ao que hoje se rotulam economias avançadas ou emergentes e mais à capacidade de se moldarem competitivamente à “reglobalização” em curso.

Ao contrário de um novo “mundo plano”, a reglobalização não trará uma verticalização aguda das dinâmicas supranacionais de integração regional, política e jurídica.

Não ambicionará a comunhão de visões de mundo. Não florescerá de um grande pacto global costurado por todas as nações num palco como a ONU (Organização das Nações Unidas) ou a OMC (Organização Mundial do Comércio).

A reglobalização será mais “superficial” –concentrada em comércio, investimento e fortalecimento de redes produtivas. E “seletiva” –resultará de acordos envolvendo, por um lado, EUA e Europa, e, por outro, EUA e países banhados pelo Pacífico nas Américas, Ásia e Oceania.
Será ainda modelada pelo sucesso ou fracasso da China em converter-se numa economia de consumo e elevado valor agregado.

Nela, terá pouco espaço o neomercantilismo asiático, como o praticado pela China desde que Deng Xiaoping estipulou não importar a cor do gato, mas apanhar o rato. Tampouco impressionará a envergadura de projetos de associação regional-ideológica ou de neodesenvolvimentismo autárquico de países como o Brasil.

Assim, os que hoje classificamos como emergentes podem estagnar-se. Porém, o mesmo também é verdade em relação a economias maduras que deixaram de lado os imperativos do trabalho duro e da constante reinvenção.

Escassearão as chances de nações que, por integrarem um quadro comunitário, deram-se ao luxo da irresponsabilidade fiscal e da concessão de benefícios trabalhistas e previdenciários não sustentados pela produtividade de suas economias. É bem o caso da Europa mediterrânea e o severo ajuste a que tem de submeter-se.

A reglobalização pertencerá àquelas nações que privilegiarem ambientes amigáveis aos negócios, regras do jogo bem estabelecidas e integração a cadeias produtivas transnacionais.

Entre os atuais emergentes ou desenvolvidos, ganharão os que abandonarem a certeza do “automatismo inevitável” de sua ascensão e redirecionarem excedentes para o incremento da inovação.

Esses países, ainda que pertençam originalmente a um ou outro polo da antiga geografia Norte-Sul, serão os verdadeiros “mercados reemergentes”.

MARCOS TROYJO, 46, economista e cientista social, é professor do Ibmec (Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais) e diretor do BRICLab na Universidade Columbia

Wallerstein: Levantes aqui, ali e em toda parte

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Autor: Immanuel Wallerstein

O levante, agora persistente, na Turquia foi seguido por uma revolta ainda maior no Brasil, que por sua vez foi acompanhada por manifestações menos noticiadas, mas não menos reais, na Bulgária. Obviamente, esses protestos não foram os primeiros, e muito menos os últimos de uma série realmente mundial de revoltas nos últimos anos. Há muitas maneiras de analisar este fenômeno. Eu o vejo como um processo contínuo de algo que começou com a revolução mundial de 1968.

É claro que todas as revoltas são particulares em seus detalhes e na correlação de forças interna em cada país. Mas existem certas similaridades que devem ser notadas, se quisermos dar sentido ao que está acontecendo e decidir o que todos nós, como indivíduos e como grupos, deveríamos fazer.

A primeira característica em comum é que todas as revoltas tendem a começar muito pequenas — um punhado de pessoas corajosas manifestando-se sobre algo. E então, se elas “pegam”, coisa que é muito imprevisível, tornam-se maciças. De repente, não apenas o governo está sob ataque, mas, em alguma extensão, o Estado enquanto tal. Esses levantes reúnem tanto aqueles que querem a substituição do governo por outro melhor quanto os que questionam a própria legitimidade do Estado. Ambos grupos invocam o tema da democracia e dos direitos humanos, embora sejam variadas as definições que dão a esses dois termos. No conjunto, o tom dessas manifestações começa do lado esquerdo do espectro político.

O governo no poder reage, obviamente. Ou ele tenta reprimir as revoltas; ou tenta abrandá-las com algumas concessões; ou faz ambas as coisas. A repressão normalmente funciona, mas algumas vezes é contraproducente para o governo no poder, trazendo ainda mais pessoas às ruas. Concessões geralmente funcionam, mas algumas vezes podem ser ruins para o governo, levando as pessoas a ampliar suas demandas. De modo geral, os governos recorrem à repressão com mais frequência que às concessões. E, também grosso modo, a repressão tende a funcionar em um relativo curto prazo.

A segunda característica comum dessas revoltas é que nenhuma delas continua na velocidade máxima por muito tempo. Muitos manifestantes dão-se por vencidos após medidas repressivas. Ou são de alguma maneira cooptados pelo governo. Ou ficam cansados por causa do enorme esforço que as manifestações frequentes requerem. Essa diminuição da intensidade dos protestos é absolutamente normal. Ela não indica uma derrota.

Esse é o terceiro fator em comum, nos levantes. Embora terminem, deixam um legado. Mudam algo na política de seus países, e quase sempre para melhor. Forçam a entrada de alguma questão principal — por exemplo, as desigualdades — na agenda pública. Ou fazem crescer o senso de dignidade entre os extratos inferiores da população. Ou ampliam o ceticismo diante da retórica com a qual os governos tendem a encobrir suas políticas.

A quarta característica em comum é que, em cada onda de protestos, muitos que se unem ao movimento (especialmente os mais tardios) não chegam para reforçar os objetivos iniciais, mas para pervertê-los — ou para tentar conduzir ao poder político grupos de direita que são distintos daqueles que estão atualmente no poder, mas de maneira alguma mais democráticos ou preocupados com os direitos humanos.

O quinto traço em comum é que todos eles acabam envolvidos no jogo geopolítico. Governos poderosos, de fora do país nos quais os tumultos estão ocorrendo, trabalham intensamente (embora nem sempre com sucesso), para ajudar grupos aliados a seus interesses a alcançar o poder. Isso acontece tão frequentemente que uma das questões imediatas sobre cada movimento específico é sempre — ou deveria ser — saber quais suas consequências, em termos do sistema mundial como um todo. Isso é muito difícil, já que os desdobramentos geopolíticos potenciais podem levar alguns a desejar rumos opostos às intenções antiautoritárias originais do movimento.

Finalmente, devemos lembrar a respeito deste tema, e de tudo que está acontecendo agora, que estamos no meio de uma transição estrutural: de uma economia mundial capitalista que está se esgotando para um novo tipo de sistema. Mas ele pode ser melhor ou pior. Essa é a batalha real dos próximos vinte a quarenta anos. E a posição a assumir aqui, ali e em qualquer lugar deve ser decidida em função desta grande batalha política mundial.

*Publicado originalmente em iwallerstein.com, em 1 de julho de 2013. A tradução é de Gabriela Leite para o OutrasPalavras.

Desenvolvimento e ciências humanas

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Autor: Gustavo Lins Ribeiro | Valor Econômico – 28/06/2013

A exclusão das ciências sociais e humanas do programa Ciência sem Fronteiras torna necessário explicitar sua importância estratégica. Desenvolvimento é promessa de bem-estar e corrida competitiva. Claro que para estarmos bem necessitamos de condições materiais adequadas. Talvez por isso sempre que se fale de desenvolvimento se pense, primeiro, em condições materiais e, depois, em saúde. Mas, como o desenvolvimento sempre se dá de forma desigual e combinada, é comum existirem lugares que proveem melhor bem-estar material e saúde do que outros. Dessa forma, se deseja aquilo que foi feito em algum outro local para que possamos igualar-nos em uma competição que parece não ter fim. As engenharias, com seu interesse imediato voltado ao tecnológico e ao mundo das coisas e seu funcionamento, assim como as ciências da vida e da terra, estão diretamente relacionadas a tais desideratos.

Mas de que valem saúde e infraestrutura invejáveis se as pessoas não se localizarem no mundo em que vivem, se não souberem o que fazer de suas condições imediatas? Pior ainda, como chegar a esse mundo supostamente aconchegante e perfeito se não tivermos pessoas que consigam operá-lo, criticá-lo e contribuir para o seu aperfeiçoamento? Afinal, “desenvolvimento” ocorre em situações específicas, em lugares com pessoas, histórias e culturas concretas. Operar (n)esse mundo, vivê-lo, imaginá-lo para aperfeiçoá-lo, não são tarefas redutíveis às técnicas e aos laboratórios. Inovação e criação implicam condições sociais e subjetivas incapazes de ser determinadas por fórmulas ou por tabelas de elementos químicos.

Desenvolvimento é um objetivo mundial. Mas, pela via pacífica e democrática, como alcançá-lo sem conhecer a cultura, as relações sociais, econômicas, a política e a história do povo que deve abraçá-lo? Aqui, não adianta chamar engenheiros, biólogos, matemáticos, químicos ou físicos. É óbvio que a vida social, cultural, política e psíquica, com sua imensa complexidade, não se reduz a átomos, a estradas, portos, hidrelétricas ou estádios. O desenvolvimento de um país, de suas diferentes regiões ou de uma localidade não pode ser pensado apenas como um problema de engenharia, de biologia ou de agronomia. Se assim o fosse, ao lado de cada grande projeto de desenvolvimento ou de cada grande plantação de soja engenheirada haveria um paraíso.

Momentos de crises políticas como o que atravessamos tornam óbvia a necessidade por pensadores do social
As ciências sociais e humanas – e também as artes – são fundamentais para o desenvolvimento, porque ele envolve múltiplas dimensões do humano, da nossa experiência com os outros, do nosso entendimento do que é a boa vida, do que é o certo e errado no coletivo político e social, das normas que implementamos para lidar com as nossas diferenças e com os conflitos internos e externos ao país. Um país sem história, sem memória, sem literatura, sem arte, sem intérpretes de suas características culturais, sociais, econômicas, jurídicas, psicológicas, seria apenas uma colônia dos pensamentos de outrem. Em tal cenário, não pode haver inovação, porque aqueles que não pensam coletiva e diferenciadamente por si mesmos nada criarão.

Na verdade, “desenvolvimento” enquanto categoria fundamental da vida política situa-se plenamente no reino das humanidades. Quando se trata de transformar e aperfeiçoar o conteúdo da ideia de desenvolvimento enquanto discurso programático a ser implementado por todos, Estado e sociedade civil, a capacidade de inovação vem das ciências sociais e humanas, com seus compromissos com a igualdade e o bem-estar coletivo, como provam reiteradamente os debates sobre inclusão social que terminam por se concretizar em experiências como o Bolsa Família ou em posicionamentos sobre a necessidade de distribuição de renda, de respeito à diferença e defesa do ambiente.

Como “desenvolvimento” não paira acima da vida social, é afetado profundamente pelas ideologias e utopias do seu tempo e, aqui, de novo, as humanidades cristalizam e operacionalizam novas formulações, como ilustram as concepções de desenvolvimento humano, de desenvolvimento como liberdade e as lutas por direitos humanos.

Não resta dúvida de que desenvolvimento implica transformações e aperfeiçoamentos materiais e que o país precisa de mais cientistas e engenheiros. Mas mudanças nas subjetividades, nos contextos e relações sociais; aperfeiçoamentos institucionais, normativos; o aumento do entendimento da complexidade lógica, estética, cultural, econômica e política do mundo contemporâneo são tão importantes quanto transformações materiais.

O que seria de um país “desenvolvido” sem antropólogos e sociólogos para compreender suas desigualdades, suas diferenças, seus contrastes, formular imagens, narrativas e soluções para nós mesmos? Sem cientistas políticos que discutam a vida política e institucional? Sem pesquisadores de relações internacionais que debatam as novas inserções no mundo globalizado? Imaginem se não houvesse advogados para manter e aperfeiçoar o estado de direito, economistas e administradores para compreender e gerir a vida econômica e institucional, historiadores que perscrutassem nosso passado, psicólogos que se dedicassem à nossa saúde mental, estudiosos da literatura, jornalistas, geógrafos, linguistas, músicos, pintores, atores.

A lista é extensa e poderia em muito ser ampliada. Ao mesmo tempo, é preciso rever a concepção de inovação como um fenômeno exclusivamente restrito ao laboratório. Inovação depende de uma economia criativa, na qual a intelectualidade e os artistas, os especialistas do humano e da imaginação, têm papel central.

O Brasil certamente seria um país menor, menos imaginativo, sem Joaquim Nabuco, Gilberto Freyre, Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Júnior, Josué de Castro, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Jorge Amado, Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira, Cora Coralina, Celso Furtado, Sobral Pinto, Nise da Silveira, Florestan Fernandes, Milton Santos, para mencionar uns poucos entre os nossos mais brilhantes intelectuais já mortos.

Momentos de crises políticas como o que atravessamos tornam óbvia a necessidade por pensadores do social. Um país sem inteligência nas áreas de humanas se reduz a uma visão material que, ainda que necessária, sozinha é pobre e está longe de esgotar qualquer concepção de bem-estar social e felicidade que inclua as pessoas e a vida social como totalidades complexas.

Gustavo Lins Ribeiro é presidente da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs)

Tentativa de compreensão

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Autor: Ferreira Gular

Talvez que, para melhor entender o atual neopopulismo que chegou ao governo de alguns países latino-americanos, convenha lembrar o que ocorreu antes, logo após a Revolução Cubana, de 1959.

A tomada do poder pelos guerrilheiros de Fidel Castro levou alguns setores da esquerda latino-americana a embarcar na aventura da luta armada, de desastrosas consequências. Os Estados Unidos, que haviam aprendido a lição cubana, trataram de induzir os militares da região a substituir governos eleitos por ditaduras militares.

Nesse quadro, a exceção foi a chegada ao poder, pelo voto, de um partido de esquerda, elegendo Salvador Allende, no Chile, com o apoio da Democracia Cristã, que dele se afastou quando o viu refém da extrema esquerda.

O resultado disso foi o que se conhece: Allende foi deposto e morto, dando lugar à ditadura de Augusto Pinochet. Todos os movimentos guerrilheiros foram sistematicamente dizimados nos diversos países onde surgiram, e com eles a esquerda moderada.

As ditaduras militares, durante décadas, lançando mão da tortura e eliminação física dos adversários, tornaram inviável a vida democrática nesses países. Mas se desgastaram e tiveram que, finalmente, devolver o poder aos civis.

Em cada país isso ocorreu em momentos diversos e com características próprias. No Brasil, por exemplo, essa passagem se fez mediante um acordo que resultou em anistia geral e irrestrita, o que, sem dúvida, facilitou a reimplantação do regime democrático.

Não obstante, aqui como noutros países, esse retorno à democracia não significou o abandono, por todos, dos propósitos revolucionários.

Em alguns deles, os antigos guerrilheiros se reorganizaram em partidos que, implícita ou explicitamente, ainda que disputando eleições, visavam a implantação do regime socialista a que, antes, tentaram alcançar pelas armas.
Esse é um fenômeno curioso, especialmente porque se manteve mesmo após a derrocada do sistema socialista mundial e quando, com o fim da União Soviética, o regime cubano entrou em visível decadência e passou a fazer concessões ao capital norte-americano, que, então, voltou a explorar a hotelaria e o turismo, o que, para os revolucionários de 59, havia transformado Cuba num prostíbulo.

Mas esse revolucionarismo retardado, na maioria dos países, foi uma fantasia passageira, uma vez que, na disputa eleitoral, ficou provado que a maioria da opinião pública rejeitava as palavras de ordem radicais.

No Brasil, após várias derrotas, Lula exigiu que o PT abrisse mão do radicalismo, ou ele não se candidataria mais. Sem outra alternativa, o partido o atendeu e publicou uma Carta ao Povo Brasileiro, em que abria mão do revolucionarismo de palavra e, graças a isso, conseguiu ganhar as eleições de 2002.

Mas não parou aí, pois, para governar, Lula teve que aliar-se até com os evangélicos, numa total negação de seus princípios ideológicos. Claro que, para aparentar fidelidade a suas origens e satisfazer discordâncias internas, estatizou tudo o que pode, enquanto usava o dinheiro público, por meio do BNDES, para financiar grandes empresas privadas.

Esse é o dilema dos neopopulistas latino-americanos: usam discurso de esquerda e governam fazendo acordos e concessões que sempre condenaram. No discurso de Hugo Chávez, por exemplo, os Estados Unidos apareciam como o capeta, mas é para eles que a Venezuela vende quase todo o seu petróleo.

Sei que é impossível fazer política sem fazer concessões. Não é isso que critico, portanto. O que pretendo mostrar é como a esquerda, que se dizia radicalmente comprometida com os princípios anticapitalistas, ao perceber a inviabilidade de seu projeto ideológico, converteu-se, na prática, em seu contrário, mantendo, não obstante, o mesmo discurso de antes.

O mais patético exemplo disso é mesmo o chavismo, que, agora sem o Chávez, deve tomar um rumo imprevisível.

É certo, também, que o neopopulismo, valendo-se do assistencialismo e do discurso esquerdista, inviabilizou a esquerda moderada, que ficou sem discurso. O Brasil é exemplo disso. Lula se apropriou dos programas sociais e econômicos do governo anterior, contra os quais lutara ferozmente, e ainda os qualificou de herança maldita.

Bento XVI: Crise e exaustão conservadora

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Autor: Saul Leblon

Dinheiro, poder e sabotagens. Corrupção, espionagem, escândalos sexuais.

A presença ostensiva desses ingredientes de filme B no noticiário do Vaticano ganhou notável regularidade nos últimos tempos.

A frequência e a intensidade anunciavam algo nem sempre inteligível ao mundo exterior: o acirramento da disputa sucessória de Bento XVI nos bastidores da Santa Sé.

Desta vez, mais que nunca, a fumaça que anunciará o ‘habemus papam’ refletirá o desfecho de uma fritura política de vida ou morte entre grupos radicais de direita na alta burocracia católica.

Mais que as razões de saúde, existiriam razões de Estado que teriam levado Bento XVI a anunciar a renúncia de seu papado, nesta 2ª feira.

A verdade é que a direita formada pelos grupos ‘Opus Dei’ (de forte presença em fileiras do tucanato paulista; veja obs. ao final dessa nota), ‘Legionários’ e ‘Comunhão e Libertação’ (este último ligado ao berlusconismo) já havia precipitado fim do seu papado nos bastidores do Vaticano.

Sua desistência oficializa a entrega de um comando de que já não dispunha.

Devorado pelos grupos que inicialmente tentou vocalizar e controlar, Bento XVI jogou a toalha.

O gesto evidencia a exaustão histórica de uma burocracia planetária, incapaz de escrutinar democraticamente suas divergências. E cada vez mais afunilada pela disputa de poder entre cepas direitistas, cuja real distinção resume-se ao calibre das armas disponíveis na guerra de posições.

Ironicamente, Ratzinger foi a expressão brilhante e implacável dessa engrenagem comprometida.

Quadro ecumênico da teologia, inicialmente um simpatizante das elaborações reformistas de pensadores como Hans Küng (leia seu perfil elaborado por José Luís Fiori, nesta pág.), Joseph Ratzinger escolheu o corrimão da direita para galgar os degraus do poder interno no Vaticano.

Estabeleceu-se entre o intelectual promissor e a beligerância conservadora uma endogamia de propósito específico: exterminar as ideias marxistas dentro do catolicismo.

Em meados dos anos 70/80 ele consolidaria essa comunhão emprestando seu vigor intelectual para se transformar em uma espécie de Joseph McCarty da fé.

Foi assim que exerceu o comando da temível Congregação para a Doutrina da Fé.

À frente desse sucedâneo da Santa Inquisição, Ratzinger foi diretamente responsável pelo desmonte da Teologia da Libertação.

O teólogo brasileiro Leonardo Boff, um dos intelectuais mais prestigiados desse grupo, dentro e fora da igreja, esteve entre as suas presas.

Advertido, punido e desautorizado, seus textos foram interditados e proscritos. Por ordem direta do futuro papa.

Antes de assumir o cargo supremo da hierarquia, Ratzinger ‘entregou o serviço’ cobrado pelo conservadorismo.

Tornou-se mais uma peça da alavanca movida por gigantescas massas de forças que decretariam a supremacia dos livres mercados nos anos 80; a derrota do Estado do Bem Estar Social; o fim do comunismo e a ascensão dos governos neoliberais em todo o planeta.

Não bastava conquistar Estados, capturar bancos centrais, agências reguladoras e mercados financeiros.

Era necessário colonizar corações e mentes para a nova era.

Sob a inspiração de Ratzinger, seu antecessor João Paulo II liquidou a rede de dioceses progressistas no Brasil, por exemplo.

As pastorais católicas de forte presença no movimento de massas foram emasculadas em sua agenda ‘profana’. A capilaridade das comunidades eclesiais de base da igreja foi tangida de volta ao catecismo convencional.

Ratzinger recebeu o Anel do Pescador em 2005, no apogeu do ciclo histórico que ajudou a implantar.

Durou pouco.

Três anos depois, em setembro de 2008, o fastígio das finanças e do conservadorismo sofreria um abalo do qual não mais se recuperou.

Avulta desde então a imensa máquina de desumanidade que o Vaticano ajudou a lubrificar neste ciclo (como já havia feito em outros também).

Fome, exclusão social, desolação juvenil não são mais ecos de um mundo distante. Formam a realidade cotidiana no quintal do Vaticano, em uma Europa conflagrada e para a qual a Igreja Católica não tem nada a dizer.

Sua tentativa de dar uma dimensão terrena ao credo conservador perdeu aderência em todos os sentidos com o agigantamento de uma crise social esmagadora.

O intelectual da ortodoxia termina seu ciclo deixando como legado um catolicismo apequenado; um imenso poder autodestrutivo embutido no canibalismo das falanges adversárias dentro da direita católica. E uma legião de almas penadas a migrar de um catolicismo etéreo para outras profissões de fé não menos conservadoras, mas legitimadas em seu pragmatismo pela eutanásia da espiritualidade social irradiada do Vaticano.

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Obs.

Simpatizantes do PSDB, como o jurista Ives Gandra, e militantes, como o jornalista Carlos Alberto di Franco,entre outros, são reconhecidos como membros da Opus Dei no Brasil. Di Franco teria sido o mentor do governador Geraldo Alckmin na organização. O falecido bispo de Guarulhos, D Luiz Bergonzini, que serviu como cabeça-de -turco de Serra na campanha de 2010, acusando Dilma de ‘aborteira’ em planfletos com assinatura falsa da CNBB, era igualmente vinculado à extrema direita católica. O ex- chefe da Casa Civil do governo de SP, Sidney Beraldo,agora no TCE, foi apontado então como um tucano com fortes vínculos junto a D Bergonzini; ambos eram conterrâneos de São João da Boa Vista, onde Beraldo foi prefeito e Bergonzini nasceu e atuou. A revista ‘Época’, pertencente às Organizações Globo, documentou em reportagem intitulada ‘O governador e a Obra’, o ‘noviciato’ do tucano Geraldo Alckmin na Opus Dei. A revista ‘IstoÉ’ fez um pedagógico mapeamento dos vínculos entre tucanos e os responsáveis pelo panfleto anti-aborto da extrema direita religiosa, em 2010.

Bônus e Remuneração no mundo espiritual

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É sabido por todos que o processo de remuneração é bastante diferente quando comparamos o mundo material com o mundo espiritual, ambos apresentam instrumentos bastante diferentes e conflitantes, que mostram como as sociedades se apresentam em graus e estágios de evolução diferentes, uns primando pelos valores do imediatismo e do material, enquanto outros se mostram mais atrelados a valores sublimes e espiritualizados, uma boa forma de identificarmos o quanto temos que evoluir é que, todos que nos encontramos no meio físico, estamos muito calcados nos valores da aparência e nas convenções sociais, deixando, de lado, sentimentos e emoções mais sublimes e espiritualizadas.

No mundo material os indivíduos recebem de acordo com sua produtividade, somos impulsionados ao cumprimento de metas cada vez mais irreais que nos obrigam a mergulharmos no trabalho remunerado, ganhamos e somos vistos nesta sociedade por tudo que temos, ou melhor, como vivemos em uma sociedade marcada pela aparência, somos visto como aparentamos ser, por isso estamos constantemente querendo mostrar que somos o que, na verdade, não somos, é o mundo da aparência, do imediatismo e dos prazeres da sensualidade e do dinheiro, que nos prendem a uma sociedade marcada pela ilusão e pela imagem do belo e do novo, mesmo que estes sejam cada vez mais transitórios.

O mundo da matéria nos obriga a estarmos em constante atualização, se não o fizermos estamos condenados ao ostracismo social, ser bem sucedido nesta sociedade é termos um emprego bem remunerado, marcado pelo status e pelo acúmulo de bens materiais, nesta sociedade deixamos de lado aqueles que se entregam aos trabalhos mais simples e pouco remunerados, vendo-os como seres humanos menores, sem glamour e sem condições de inserção neste mundo marcado pelo poder de compra, onde a acumulação do poderio financeiro se transformou no objetivo de vida de muitos indivíduos, que se entregam ao trabalho remunerado como se este fosse seu único intuito na vida, deixando de lado outros setores e atividades tão importantes quanto o trabalho material, onde podemos destacar o trabalho espiritual e dos momentos sublimes de convivência com os familiares e com os grupos de amigos, numa troca constante de experiências e valores, fundamentais para o crescimento e o desenvolvimento do espírito.

O bônus-hora nos foi revelado por André Luiz, quando da publicação da obra Nosso Lar, um dos mais importantes livros publicados pela lavra de Francisco Cândido Xavier, por este instrumento passamos a compreender como se remunera os trabalhos na colônia espiritual, onde cada pessoa recebe de acordo com os trabalhos desempenhados, uns acumulam com as visitas assistenciais, outros se destacam na limpeza, alguns espíritos são responsáveis por questões burocráticas, escolas, hospitais, etc. O trabalho como lei universal existe para todos os indivíduos, querendo trabalhar todos encontram trabalho, recebendo recursos, os chamados bônus-hora, que podemos descrever como um determinado crédito que cada indivíduo tem depois de desempenhar atividades edificantes no plano espiritual, que podem ser utilizados para adquirir uma casa, mas cada pessoa só pode adquirir uma única residência, neste local não é possível comprar mais de uma residência como se faz aqui, quando encontramos pessoas que adquirem várias casas e utilizam-na como instrumento de especulação e acumulação de recursos financeiros e monetários.

Se analisarmos com calma e refletirmos intensamente sobre os dois mundos percebemos que nós, hoje vivendo no mundo material, estamos muito longe dos ensinamentos do mestre Jesus, o dinheiro é utilizado muito mais para satisfazer nossos desejos imediatos, utilizando-o para nossos gozos tresloucados e interesses vis do que para melhorar as condições de vida da população mundial, atualmente encontramos metade da população do globo vivendo com uma renda diária de até US$ 2,00, um mundo onde, segundo a revista Forbes, as quatrocentas famílias mais ricas do mundo possuem um patrimônio de US$ 1,8 trilhão, um número estarrecedor quando visto em perspectiva histórica, ha trinta anos quando a mesma revista começou a mensurar as riquezas das famílias a situação era outra, bem diferente, as mesmas quatrocentas famílias detinham uma renda de US$ 90 bilhões.

O dinheiro tem um papel central na sociedade, nasceu para circular, dinheiro parado causa constrangimentos para todos os setores sociais, em tempos de degradação do meio ambiente, onde o mundo se encontra bastante maltratado por desmandos constantes dos setores mais aquinhoados financeiramente, é impossível dar a cada cidadão mundial uma renda igual a dos Estados Unidos, US$ 50 mil, para que isso acontecesse teríamos que ter outro planeta Terra, agora, é neste momento que precisamos encontrar uma fórmula ética e moralmente aceitável para que todos os cidadãos do mundo tenham uma renda média de US$ 10 mil, atendendo, com isso, suas necessidades básicas de alimentação, educação, saúde, vestuário e acesso aos bens culturais, tão importantes para o desenvolvimento intelectivo dos seres humanos e que, durante tantos séculos, foram omitidos de grande parte da sociedade mundial, deixando-os marginalizados e presos a um universo materializado e centrado nos interesses financeiros mesquinhos.

A relação do ser humano com o dinheiro é sempre algo perturbador e constrangedor, causa de vícios e quedas de muitos espíritos, uma parcela considerável dos espíritos que ora encontramos no orbe terrestre teve sua queda atrelada a questões financeiras ou a sedução da sensualidade, quedas que deixaram rastros terríveis para o ser humano, desastres morais que perturbam suas mentes e sentimentos, tudo isso, obrigando as pessoas a buscarem uma relação nova e diferente com o dinheiro, evitando, com isso, novos desequilíbrios no campo da moral.

A colônia Nosso Lar nos mostra novas formas de remuneração pelo trabalho, este paradigma do mundo dos espíritos pode nos ser muito útil como forma de transformar a relação capital trabalho reinante no mundo material, servindo como um grande desafio para todos os homens e mulheres de bem que buscam o aperfeiçoamento coletivo de nosso planeta, o trabalho é árduo e cheio de entraves, são muitos os indivíduos e instituições que se comprazem com o modelo atual, que ganham com esta forma de remuneração, estes grupos, muito bem organizados e estruturados, vão se utilizar de seus poderes para impedir toda e qualquer mudança que venha, pensam eles, os prejudicar, mas sabemos todos, que quando chega a hora e o momento exato, quando as transformações precisam acontecer, as forças da mudanças passam a ser guiadas por uma mão invisível, que a conduzem para a renovação e para o surgimento de um novo mundo, marcado por uma solidariedade maior e um progresso centrado nos ideais e sentimentos sublimes do Cristo, distante, pode ser, mas o começo desta mudança já teve início, e tomara que nós nos organizemos para fazermos parte desta mudança sob pena de vivermos anos de expurgos, medos e desesperanças.

Sarney e Collor: o velho Brasil

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No mês de fevereiro de 2009, o Congresso Nacional Brasileiro elegeu para sua presidência o Senador José Sarney, homem público por mais de 50 anos, ex-Presidente da República, Senador por várias legislaturas Sarneu representa forças das mais atrasadas que este país conhece, caudilho maranhense e um dos responsáveis pelo atraso deste estado, um dos mais precários socialmente e culturalmente, sua eleição representa uma grande derrota para todoue sonham com um país melhor e com maior desenvolvimento e inclusão social. E para piorar a calamitosa situação política do país, mais recentemente elegeram o ex-Presidente Fernando Collor como gerente do PAC, o senador alagoano vai fiscalizar a Comissão de Infra-estrutura do Congresso, uma pena, politicamente estamos indo para o lugar contrário, o que será do país? Para piorar, um dos responsáveis foi o atual Presidente Lula, que articulou as eleições como forma de barganha para a próxima eleição presidencial, estamos mesmo em péssima condição política…

O verdadeiro comércio com a China

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Autor: IVAN RAMALHO – FSP

O comércio exterior brasileiro apresentou grande crescimento nos últimos dez anos. A corrente de comércio, que em 2000 havia somado US$ 110 bilhões, alcançou US$ 383 bilhões em 2010. No presente ano, vai se aproximar de meio trilhão de dólares. Muitas foram as razões para esse crescimento. Mas não há dúvida de que uma das principais foi a aproximação do Brasil com a China. No período de uma década, o comércio com a China saltou de US$ 2 bilhões (2000) para US$ 56 bilhões (2010).

Somente no primeiro semestre deste ano, o comércio com a China chegou a US$ 34,7 bilhões, com exportações de US$ 20 bilhões e importações de US$ 14,7 bilhões -saldo favorável de US$ 5,3 bilhões para o Brasil.
Como o atual crescimento, da ordem de 40%, deverá ser mantido neste ano, é certo que o comércio bilateral ao fim de 2011 terá sido da ordem de US$ 80 bilhões.

Apesar do forte crescimento, as relações comerciais do Brasil com a China constituem alvo de constantes críticas, em especial daqueles que representam a indústria brasileira. É natural que elas ocorram, já que as exportações para o país asiático estão concentradas em produtos básicos: dos US$ 20 bilhões vendidos no primeiro semestre deste ano, US$ 17,7 bilhões foram de básicos, especialmente minério de ferro e soja. A participação da indústria foi de apenas US$ 2,3 bilhões.

Essa pequena presença mostra que existe ainda longo caminho a percorrer visando diversificar as vendas para o mercado chinês. Um passo bastante importante foi dado quando a Apex Brasil inaugurou um moderno escritório em Pequim para a promoção de produtos brasileiros.
São enormes as possibilidades de ampliação de nossas exportações de manufaturados ao país oriental. A China é uma das maiores importadoras mundiais, com compras anuais na faixa de US$ 1 trilhão. E suas importações não se limitam a produtos básicos. Pelo contrário, no mercado interno chinês, há ampla oferta de manufaturados de alto valor agregado de diferentes origens. O crescimento das importações contribui para a diversificação e para o incremento das vendas a novos fornecedores.

Não há outro caminho que não o do aumento das iniciativas de promoção comercial e do número de missões à China, com estímulo aos fabricantes de manufaturados. O produto brasileiro tem qualidade que permite a penetração em muitos países, mesmo com a sobrevalorização do real. Com a redução da carga tributária prevista no plano Brasil Maior, melhores condições ao financiamento da produção e ação mais robusta de promoção comercial, é possível atingir de forma mais agressiva o mercado chinês.

O Brasil compra da China majoritariamente produtos complementares à nossa produção. Na pauta de importação brasileira daquele país, prevalecem partes, peças, componentes, circuitos e produtos que se destinam a linhas de manufaturados daqui. Na relação dos 51 principais produtos chineses importados pelo Brasil no primeiro semestre, apenas nove são bens de consumo. A ampla maioria (42, ou cerca de 80%) é formada por variada gama de produtos destinados às nossas fábricas.

Dada a escala de produção chinesa, a maioria dessas importa- ções contribui para que o produto final montado no Brasil se mantenha competitivo. Há muitos pontos positivos no intercâmbio com a China. Com os resultados deste ano, a posição da China como maior parceira comercial brasileira parece definitivamente consolidada, e serão cada vez maiores as oportunidades para as empresas que iniciem ou ampliem seus negócios com aquele país.

IVAN RAMALHO é economista, ex-secretário executivo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior e presidente da Associação Brasileira das Empresas de Comércio Exterior (Abece).

Zygmunt Bauman – Fronteiras do Pensamento

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Zygmunt Bauman, filósofo polonês, reflete sobre a individualização da sociedade contemporânea em entrevista exclusiva concedida a Fernando Schüler e Mário Mazzilli na Inglaterra. Democracia, laços sociais, comunidade, rede, pós-modernidade, dentre outros tópicos analisados por uma das grandes mentes da contemporaneidade. Conferencista do Fronteiras do Pensamento 2011.

Fronteiras do Pensamento | Produção Telos Cultural | Produção Audiovisual Mango Films | Montagem Tokyo Filmes | Edição Pedro Zimmermann | Finalização Marcelo Allgayer | Tradução Wilney Ferreira Giozza

Governo Lula

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Depois de 8 anos de governo o presidente Luís Inácio Lula da Silva deixa o cargo com um legado considerável, neste período o país acumulou um crescimento médio de 4,6% ao ano com melhorias constantes na distribuição da renda, depois do início da estabilização econômica dos anos 90, o governo atual consegue manter uma taxa razoável de crescimento e inclusão social.

Mesmo com estes indicadores positivos o governo sofre grandes rejeições em alguns grupos sociais, porque será que isto acontece?

Ameaças e desafios para a economia brasileira: Inflação, desindustrialização e “doença” holandesa.

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Nos últimos meses a economia brasileira se encontra envolta em duas grandes discussões importantes e estratégicas, o incremento da inflação que suscita lembranças amargas e desagradáveis e a questão cambial, que pode gerar uma desindustrialização do país com graves constrangimentos para os setores produtivos nacionais, para a geração de empregos e para a sociedade de uma forma geral.

Ambas as questões são complexas e exigem uma atenção bastante especial, pois podem geram graves constrangimentos para o país nos próximos anos, retirando do Brasil as expectativas favoráveis para as próximas décadas, os investimentos estrangeiros e as avaliações positivas das agências de classificação de risco internacionais que abrem espaços salutares para o país na economia internacional, num período onde os países emergentes são os grandes responsáveis pelo crescimento e pelo fomento dos setores produtivos.

O combate à inflação impacta sobre o crescimento, a literatura econômica nos mostra de forma clara e incisiva, adotar políticas de controle de preços gera efeitos imediatos sobre o crescimento da economia, a geração de emprego e o incremento da renda agregada, acreditar que se pode conseguir o controle dos preços e o incremento da economia é uma grande e terrível ilusão, gera expectativas falsas e pode postergar ajustes violentos, cujos efeitos sobre a atividade econômica é sempre prejudicial.

A economia brasileira ainda se encontra aquecida, embora percebamos que nestes dois últimos meses o ritmo se desacelerou, este desaquecimento pode ser entendido como uma medida adotada pelo governo como forma de evitar que a inflação estourasse o topo da meta inflacionária (6,5%), juros mais altos e outras medidas conhecidas como macroprudenciais visavam desaquecer a economia e diminuir os desajustes inflacionários, cujos prejuízos à sociedade seriam devastadores, principalmente do ponto de vista político.

O aumento da inflação pode ser creditado a dois fatores interligados, externamente encontramos um aumento bastante substancial no preço dos alimentos e das commodities, em particular, como o Brasil é um grande exportador destes produtos a renda da economia cresceu e, com isso, impactou sobre o setor interno, o poder de compra dos trabalhadores aumentou gerando incremento no consumo, criando um hiato entre oferta e procura, estes fatores associados possibilitaram um pequeno descontrole inflacionário, que obrigou o governo a adotar medidas imediatas de contenção do crédito interno e redução da atividade econômica.

Destacamos ainda, que o país cresceu a uma taxa de 7,5% no ano passado, este crescimento acabou pressionando os preços e deixando claro inúmeros problemas e limitações da infra-estrutura nacional, estes desajustes não são novos, acompanham o país nas últimas décadas, gerando graves preocupações dos produtores e empresários nacionais e estrangeiros, mas ao mesmo tempo abrem espaço para novos investimentos produtivos, obrigando o governo a rever antigos preconceitos ideológicos e passarem a propor medidas como a privatização dos aeroportos e a aumentar a concessão de rodovias federais para a iniciativa privada, levando os governantes de plantão a assumir uma postura pragmática e deixando de lado medidas claramente estatizantes.

Outro indicador que gera graves preocupações para a economia brasileira é o câmbio, que nos últimos anos se valorizou de forma efetiva e assustadora, câmbio valorizado prejudica os setores exportadores, inviabilizando as exportações e estimulando os setores importadores, aumentando, com isso, a oferta interna de produtos importados, incrementando a renda agregada nacional, dinamizando o consumo e criando na população uma sensação de enriquecimento e bem-estar social, uma sensação nem sempre estrutural, na sua grande maioria um fenômeno puramente conjuntural, seus custos no longo prazo podem inviabilizar muitos setores econômicos, gerando desemprego e destruindo setores importantes da indústria nacional.

O câmbio valorizado estimula as viagens internacionais, com este câmbio percebemos que é muito mais fácil viajar para o exterior do que para as praias do Nordeste, a capital Argentina, Buenos Aires, recebe anualmente um contingente bastante grande de turistas brasileiros, contingente este que cresce de forma acelerada, mas ao custo de desajustes em setores importantes da economia nacional. O turismo internacional no Brasil cresce com o dólar barato, a classe média tradicional e a nova classe média enxergam neste momento a grande oportunidade de testar seu domínio sobre a língua inglesa, conhecer novas culturas e trazer para o mercado nacional produtos importados comprados a preços atrativos, ipads e i-phones a custos reduzidos popularizam os produtos da gigante dos eletroeletrônicos norte-americano Apple.

Nos últimos anos o Brasil ganhou espaço no cenário internacional, hoje o país angariou status mundial, nossas reservas em moedas fortes cresceram de forma vigorosa, alcançamos o tão sonhado grau de investimentos e somos destino dos maiores investimentos estrangeiros do mundo, são muitas as empresas, nas mais variadas áreas e setores, que estão se instalando aqui, trazendo novas tecnologias e gerando novas oportunidades de empregos, este novo status do país no mundo não combina mais com moeda desvalorizada, estamos em franco crescimento internacional e temos que adotar políticas variadas para reverter esta política cambial, que pode no médio prazo, gerar graves constrangimentos para a indústria nacional, para muitos economistas importantes, o risco de desindustrialização existe e é assustador.

Estrategicamente é importante para a sociedade brasileira desenvolver um parque industrial moderno e sofisticado, para isso políticas de planejamento são necessárias, todos os países que desenvolveram seu setor industrial contaram com o papel ativo do Estado Nacional, o Brasil não é exceção, apoiar a indústria e atuar no câmbio é uma necessidade do país, postergar esta atuação na política cambial pode aumentar os graves desajustes do setor exportador. A atuação estatal deve ser integrada, controlar os juros altos e equacionar os desajustes fiscais trariam resultados imediatos para o câmbio, desonerar os setores produtivos e investir maciçamente na educação contribuiria de forma imediata para garantir uma maior competitividade para o produto nacional.

Várias medidas foram adotadas pelo governo para reverter o câmbio valorizado, dentre elas podemos citar o aumento da tributação e as intervenções sucessivas no mercado pelo Banco Central, todas estas medidas tiveram um sucesso pouco efetivo, restando atuar na questão fiscal, que no meu ponto de vista é o grande imbróglio do país, mas nesta arena a discussão é mais complexa, os interesses organizados são muitos e a resistência tende a ser grande e organizada, mas é justamente nestes momentos de grandes desafios que diferenciamos os líderes e os rumos escolhidos pela sociedade, não mais se contentando com políticas que geram melhoras imediatas e passageiras.

O Brasil está num momento muito interessante, escolher o melhor caminho a seguir não é suficiente, além de escolher o caminho é importante que definamos o ritmo desta caminhada, chega de vôos curtos, sonhos limitados e sucessos relativos, o país merece mais, e para isso é fundamental acreditar que temos condições de crescer de forma sustentada e efetiva, melhorando os indicadores sociais e criando novos horizontes para todos os setores da sociedade, desta forma se constrói uma verdadeira comunidade.

Ufanismo cauteloso

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Nestes tempos de globalização, caracterizado pelas incertezas e a concorrência transnacional, a esperança e o ufanismo, muitas vezes, são atropelados pela preocupação constante e pela indignação, gerando novos medos e desejos variados, sendo a estabilidade um sonho muitas vezes inalcançável, mas um eterno desejo dos homens contemporâneos.

As vantagens da competição, tão decantada por filósofos e economistas liberais ou neoliberais, nos causam grande apreensão e preocupação, competir nos exige esforços cotidianos, que requer uma grande dedicação nas atividades profissionais, sob pena de vermos nossos empregos serem destruídos e nos condenando a uma vida de privações, retirando-nos deste maravilhoso mercado de consumo, marcados pelo prazer e pelo hedonismo, cuja senha de entrada está nos recursos financeiros que mantemos em bancos ou lastreadas por atividades profissionais de sucesso e destaque social, sem estes recursos o indivíduo estará condenado ao ostracismo social.

O mundo vive hoje um momento de apreensão, uma crise ronda a Europa, os resquícios do crash de 2008 ainda preocupam bancos centrais e a comunidade financeira, contaminando as esperanças da população, preocupada com os ajustes que prenunciam cenários intensos de horror, privações e desesperanças, tudo isso porque os custos monetários e fiscais dos ajustes sempre são pagos pelos contribuintes numa velha equação onde os lucros são privatizados e os prejuízos são, sempre, socializados, sinais evidentes de quem realmente detêm o poder na comunidade mundial.

Empresas investem e desinvestem com uma rapidez e uma flexibilidade impressionantes, entram e saem dos países da noite para o dia, gerando novos empregos ou impulsionando incremento no desemprego, uma situação inusitada jamais vista anteriormente na sociedade internacional, fruto dos avanços na informática e na tecnologia que diminuem as distâncias e aumentam a concorrência entre os indivíduos, agora a competição não é mais local, muito menos nacional, mas sim internacional ou global, como muitos preferem.

Alguns autores vêem este momento da economia internacional como saudável e positivo, afinal a concorrência gera grandes benefícios para os consumidores, que podem adquirir produtos diversificados e a preços reduzidos, além dos preços, que estão em queda, esquecem, muitas vezes, que este indivíduo não é apenas um consumidor, vivemos em uma sociedade capitalista onde para consumirmos é fundamental possuir renda e esta, para o indivíduo comum, só é possível através do emprego e do trabalho físico, justamente estes se encontram em um período de grandes transformações estruturais e os novos empregos exigem uma ampla qualificação, muitas vezes algo inalcançável para o trabalhador comum, é por isso que o desemprego aumenta e muitos vêem o processo atual de globalização como algo negativo e desfavorável ao trabalhador.

No caso do Brasil vivemos um período bastante interessante, nos anos 90 o país passou por grandes ajustes macroeconômicos, a economia se abriu para o mundo, algumas empresas estatais foram privatizadas, atraímos investimentos internacionais e estabilizamos a economia, reduzindo a inflação a padrões normais aceitos pela comunidade internacional, estas transformações foram fundamentais para que nos anos recentes conseguíssemos uma melhoria nos indicadores sociais e na implantação de políticas públicas que culminaram na redução da miséria, melhoria no emprego e na ampliação das oportunidades sociais.

O crescimento da economia brasileira abriu oportunidades e novas perspectivas para a sociedade, novos investimentos nacionais e estrangeiros previstos anteriormente estão se efetivando, gerando novos empregos nas mais variadas áreas, desde setores de alta tecnologia que buscam profissionais altamente qualificados até setores intensivos em mão-de-obra que buscam trabalhadores com menor qualificação teórica e boa bagagem prática, como a construção civil, um setor com grandes perspectivas de expansão no país.

O Brasil vive um grande paradoxo, ou melhor, mais um paradoxo, somos a oitava economia do mundo, estamos em franco crescimento econômico e com grandes melhorias sociais, somos ainda o palco da próxima Copa do Mundo (2014) e das Olimpíadas (2016), que requer bilhões de reais de investimentos e mesmo assim, encontramos nos rincões deste país mais de 40% da população sem esgoto tratado e, sem este, morrendo de doenças primitivas erradicadas no mundo desenvolvido e nas regiões mais adiantadas do próprio país.

Nenhum país que se desenvolveu nos últimos 100 anos conseguiu fazê-lo sem maciços investimentos em educação e na qualificação de sua mão de obra, a educação é o grande gargalo da sociedade brasileira, sem investimentos sérios nesta área não vamos alçar novos vôos na economia mundial, a hora mais propícia para estes investimentos é agora, a globalização faz com que os países se movimentem com uma agilidade intensa, todos devem se preparar para a competição que é algo inexorável, violento e agressivo, afetando todos os cidadãos em todas as regiões do mundo.

Investimentos maciços em educação são fundamentais, é um pré-requisito para o desenvolvimento econômico e sustentado no longo prazo, deixando de lado o chamado vôo de galinha e consolidando um verdadeiro desenvolvimento econômico, com inclusão social e melhorias constantes nos padrões de vida e consumo, deixando de lado o fútil e o supérfluo e se concentrando em coisas mais importantes e necessárias para uma vida saudável.

A sociedade mundial, envolta em grande competição, exige investimentos na qualificação da mão de obra, nenhum país conseguiu se desenvolver e ganhar novos espaços na economia internacional com uma população que apresenta níveis médios de educação de cinco anos, o Brasil para se tornar efetivamente uma realidade na economia mundial precisa melhorar a qualidade de seu capital humano, transformar sonhos em realidade só se efetiva quando a educação abre espaço para a ascensão social de sua população, quando proporciona oportunidades e melhorias para seus cidadãos, capacitando-os para a vida, não apenas para o mercado e para o imediato.

Um dilema que nos consome, ou melhor, que deveria nos consumir: um país como o nosso, caracterizado por tamanha deficiência em sua infra-estrutura, marcado por grande desigualdade social deveria gastar bilhões para abrigar, durante trinta dias, o maior espetáculo de futebol do mundo? Embora satisfeito com o progresso brasileiro dos últimos 15 anos ainda não estou convencido dos benefícios deste investimento que não se restringirá a recursos da iniciativa privada, conhecendo este país e a elite política que o governa, não estou me referindo ao governo atual, com certeza, muitas fortunas serão construídas com recursos públicos, muitos desconhecidos entrarão para a cena política depois do espetáculo do futebol.

Cabe à sociedade brasileira fazer escolhas imediatas, severas, muitas vezes amargas e bastante duras, este momento de oportunidades crescentes não vai durar muitos anos, vender o país na sociedade mundial exige decisões estratégicas de líderes comprometidos com a sociedade e com o futuro, a época de propagandas enganosas chegou ao fim, precisamos de políticas e decisões concatenadas para que as expectativas de progresso se efetivem e se tornem verdadeiras.

Governo Lula: algumas considerações importantes IV

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A primeira década do século XXI foi marcada por muitas surpresas interessantes na sociedade brasileira, dentre elas, destacamos a ascensão do Partido dos trabalhadores (PT) à Presidência da República, depois de inúmeras tentativas frustradas finalmente um governo dito, democrático e popular, assume o comanda da sociedade brasileira e mais, um retirante, sem instrução formal, é eleito em voto direto para o cargo mais importante do país.

O governo Lula se caracteriza por mudanças e movimentos bastante interessantes para o país, mas é importante destacar que no período de oito anos, encontramos dois governos diferentes, um mais conservador e ortodoxo, marcado por uma política econômica restritiva e outro mais desenvolvimentista, caracterizado por uma política econômica mais expansionista, com gastos públicos crescentes e investimentos estatais como catalisadores do incremento econômico.

No período 2007/2010, a marca do governo foi uma política fiscal mais frouxa, onde os gastos públicos cresceram como forma de estimular a economia e a melhora dos indicadores sociais, inicialmente uma forma de melhorar as condições políticas fragilizadas pelo escândalo do mensalão, que gerou graves constrangimentos para o governo nos dois anos anteriores e, principalmente, no período da eleição presidencial.

O ano de 2008 é marcado pela crise internacional, que deflagrada nos Estados Unidos contamina várias regiões do mundo, o mercado imobiliário, centro irradiador da crise, entra em colapso, levando as finanças mundiais a uma crise de dimensões assustadoras, gerando perdas financeiras imensas, quedas nas bolsas, desemprego crescente e redução da renda agregada, diante do colapso, a instabilidade aumenta, os capitais fogem dos países periféricos, gerando uma desvalorização cambial e um incremento nas dívidas e compromissos financeiros, obrigando-os a ajustes recessivos e cortes de gastos e investimentos públicos.

Neste clima de insegurança e incertezas, o Brasil sente de forma indireta esta crise, somos um dos últimos países a entrar na crise e vamos nos caracterizar por sermos um dos primeiros a sair desta instabilidade, mas para isso, as atitudes do governo foram bastante importantes, é justamente neste momento que o presidente Lula se mostrou por completo, assumiu riscos, fez apostas arriscadas e apostou na recuperação da economia, mas para isso direcionou todos os instrumentos disponíveis de política econômica para impedir que a economia brasileira sentisse a crise e entrasse, como várias outras, em recessão ou em processo de estagnação.

Com a redução do crédito, medida adotada pelas instituições privadas, o governo estimula a população às compras, deixando claro para todos os cidadãos que se cada indivíduo deixar de comprar, a economia vai deixar de produzir, os investimentos serão reduzidos, os empregos e a renda estarão ameaçados, gerando recessão, incertezas e distúrbios sócio-econômicos. Para viabilizar o consumo desta população, o governo canaliza todas as suas instituições financeiras (Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e BNDES) para suprir a contração dos recursos privados, que amedrontados pela crise adotam uma política agressiva e prejudicial aos interesses nacionais.

O Banco do Brasil aumentou seus empréstimos para impedir que a economia entrasse em recessão, recursos são disponibilizados para impedir a contração das atividades produtivas, as carteiras de crédito de banco menores são adquiridas como forma de evitar a redução da oferta de recursos, neste momento, destacamos a compra pelo Banco do Brasil de quase 50% do Banco Votorantim, uma instituição pertencente a um grupo tradicional do país, mas que acumulou grande prejuízo no setor industrial, optando pela venda parcial de sua financeira.

A Caixa Econômica Federal atuou diretamente neste período, seus recursos foram direcionados para dinamizar a construção civil, estimulando com isso, que programas de forte apelo social, como o Minha Casa Minha Vida, criados pelo governo federal não naufragássem, já que se isso acontecessem inúmeros setores seriam afetados e a recuperação da economia se alastraria por muitos e muitos meses, com graves constrangimentos sociais e políticos.

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aumentou seus empréstimos, obrigando o governo a uma mega capitalização da instituição, aumentando com isso, a dívida pública, mas estimulando as empresas e os setores produtivos a manterem seus investimentos, gerando um crescimento econômico e impedindo que as empresas parassem sua expansão nacional e internacionalmente.

Todas estas políticas foram adotadas concomitantemente, mas é importante destacar ainda a desoneração tributária, solicitação antigas da sociedade, o governo implementou uma redução das alíquotas do imposto sobre produtos industrializados (IPI), esta medida aumentou as compras de veículos novos, dinamizando as montadoras e todos os setores atrelados, gerando um movimento de bilhões de reais e evitando um colapso generalizado na estrutura produtiva.

Gostaria de ressaltar ainda, que no momento mais incerto da crise, alguns bancos nacionais e estrangeiros adotaram uma política lamentável e oportunista, instituições espanholas, inglesas e até nacionais, no auge das turbulências reduziram o crédito interno, compraram dólares e os retiraram do país, gerando uma desvalorização cambial e impactando sobre o setor externo da economia, mas o pior é que se mostraram efetivamente para a sociedade nacional, no discurso apóiam o país, mas na hora da crise apostaram contra o país, algo deplorável que não se deve esquecer, mas se tomar como exemplo e direcionar políticas e estratégias futuras para o bem de todos.

Os efeitos colaterais são nítidos, o Estado depois desta gastança generalizada viu sua dívida pública crescer de forma acelerada, pressionando o Tesouro Nacional e gerando sinais evidentes de instabilidade e incerteza, obrigando o governo a diminuir os incentivos, reduzindo as atividades econômicas e aumentando as taxas de juros sob pena de ver os indicadores inflacionários em descontrole e em crescimento.

As políticas adotadas no governo Lula foram muito exitosas, a economia encontrou seu equilíbrio rapidamente, o planejamento e a atuação direta do Estado foram cruciais para impedir que a economia mergulhasse em um ambiente recessivo como muitos países mergulharam e, muitos deles não conseguiram sair e se recuperar, condenando a população a um cenário de instabilidade, medos e degradação sócio-econômica, com graves custos materiais, emocionais e produtivos, pela primeira vez o país não seguiu este caminho, anteriormente a população tinha sido onerada pela crise, mas nesta fomos agraciados com políticas efetivas, pragmáticas e estratégicas, cujos resultados diferiram de momentos anteriores, um sinal claro de maturidade e crescimento da população.

Governo Lula: algumas considerações importantes III

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Durante duas décadas o Brasil sentiu na pele a ascensão de um partido de esquerda, com ideias progressistas e transformadoras, que propunha uma revolução na educação, com grandes investimentos e um projeto pedagógico moderno e transformador, na saúde a adoção de uma estratégia inclusiva e abrangente, e no campo social a construção de um Estado caracterizado efetivamente como de bem-estar para a população, um movimento crítico que unia personalidades respeitadas, este partido chegou ao poder e passou por grandes mudanças, entrando na berlinda e sendo objeto de discussões e reflexões de intelectuais nacionais e estrangeiros.

A ascensão deste partido político se deu de forma lenta mais consistente, seu charme intelectual e suas ideias inovadoras traziam alento ao país e a expectativa de que teríamos momentos melhores e, quem sabe, como no ufanismo dos anos 70, seríamos o país do futuro, o gigante dos trópicos e a nação empreendedora responsável pelo progresso e pela inclusão social, quem sabe o país que conseguiria equilibrar a equação crescimento econômico, melhorias sociais e respeito ao meio ambiente, uma situação complexa mais possível.

Ideias novas, empreendedoras, pensamentos democráticos e participativos, uma gestão caracterizada pela efetiva atuação dos cidadãos, que não mais se restringiria a simples consumidores, indivíduos dotados apenas de poder de compra, mas cidadãos com seus direitos e deveres, conscientes das necessidades da sociedade e dispostos a darem sua contribuição visando o bem-estar da coletividade. Estas visões embalaram o nascimento, o crescimento e a consolidação do Partido dos Trabalhadores (PT), e se transformaram em referência para todos os brasileiros que vêem o país como uma nação diferenciada, cujo potencial se percebe em todos os rincões do mundo, mas esta esperança que, pensávamos, venceu o medo nas eleições de 2002, infelizmente sucumbiu ao conservadorismo e se entregou abertamente aos modelos anteriores, aos vícios mais rasteiros da política brasileira, o paternalismo, o clientelismo, o fisiologismo e a corrupção, males antigos e nefastos que não cedem espaço para a modernidade e para a meritocracia.

As críticas tradicionais dos anos 80 e 90 eram maiúsculas, o diagnóstico preciso e consistente, os problemas brasileiros eram muito mais políticos do que econômico, os equívocos na lógica econômica existiam, mas seriam superados por um governo moderno e inovador que trouxesse as classes menos favorecidas para a discussão política, com melhorias na equação econômica e social, garantidas não por um Estado mínimo como o proposto pelas elites governantes da época, mas por um Estado interventor, não mais nos moldes socialista e centralizador, mas num modelo próximo do Estado de Bem-Estar Social centrado nas posições européias, mais participativo e democrático.

Todo este período nos levou a sonhar, sonho que se esvaiu em lágrimas com a Carta ao Povo Brasileiro, um documento escrito pela Executiva do partido em plena eleição presidencial de 2002, onde este, em nome da tão decantada governabilidade, abre mão de princípios defendidos durante muitos anos e se transforma em um partido da ordem, deixando enfurecidos muitos intelectuais e militantes, históricos defensores de suas ideias, além de organizações não governamentais e movimentos sociais, tais como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), um movimento nascido nos anos 80 e muito vinculado à seus ideários.

O primeiro governo do Partido dos Trabalhadores (PT) foi marcado por uma política tradicional, herdada de seu antecessor, baseada em um tripé de política econômica, câmbio flutuante, superávit primário e metas de inflação, que garante uma melhora dos indicadores econômicos, e abre novos espaços de planejamento e gestão, soma-se a isto um esforço de atração de apoio no Legislativo, esforço este nem sempre muito ético e moral, contrastante com suas proposições quando oposição.

A grande transformação do partido, muitas vezes deixadas de lado pelos analistas sociais, de um partido que no seu estatuto se caracterizava como socialista, mas que sempre apresentou um comportamento alinhado com a social democracia, mesmo não aceitando formalmente esta definição, para um partido neoliberal, ou melhor, um partido timidamente neoliberal, um movimento híbrido, que internamente adota políticas associadas ao mercado e flertando com o pensamento liberal, se caracterizando como um partido não mais da esquerda tradicional, mas um partido de centro, mesmo sabendo que todas estas definições correm o risco de caírem no vazio, pois estes termos muitos vezes perderam o sentido.

O Partido dos Trabalhadores caiu no canto da sereia ao aderir ao pensamento neoliberal, sua política conservadora foi muito bem aceita pelos integrantes da ordem, os empresários, banqueiros e os setores que vivem de renda estão muito satisfeitos com a condução da economia, seus lucros com a dívida pública crescem de forma exponencial, alegrando setores fortes da sociedade, mas estes, mesmo assim, desconfiam dos pensamentos esquerdistas do partido, sabem de seus arroubos dos anos de oposição e temem uma recaída.

A oposição se degrada todos os dias, a lógica maquiavélica do governo, especialista em publicidade e propaganda, incutiu na mente da população que todos os avanços recentes do país foram obras do governo Lula, este sim o grande responsável pela melhora das condições de vida da população, não concedendo méritos aos outros governos, explora bem a pouca consciência política do povo e usa argumentos falaciosos para manter seu controle e hegemonia política, enquanto isso, a oposição perplexa e incompetente se desintegra, luta por espaço na sociedade, mas deixa de defender suas obras e seus pensamentos, vivemos um período interessante, onde um partido se apropria de ideias de outro, que no período de oposição abominou de forma veemente, governa e obtém um sucesso considerável, gerando uma situação inusitada e rica em estudo e reflexão, um digno exemplo das teorias e do pensamento do florentino Nicolau Maquiavel.

Na oposição, o Partido dos trabalhadores (PT) se caracterizou pela crítica constante, tudo era motivo de crítica e alarde, crítica ao Plano Real, critica à privatização, crítica ao PROER, crítica à Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), críticas e mais crítica, chegando ao paroxismo de entrar com um processo no Supremo Tribunal Federal contra o Plano Real, este o grande responsável pelo início das transformações da sociedade brasileira, ou se esquecem dos males que a inflação faz a uma economia, foi esta estabilidade que propiciou o surgimento de novas oportunidades para o país e boas perspectivas para a população brasileira.

Nos últimos 15 anos, o Brasil se transformou muito, estas mudanças não devem ser creditadas a nenhum governo em particular, cada um dos governantes que se alternaram neste período foram responsáveis por avanços consideráveis, primeiro a estabilidade da economia e a melhora no cenário macroeconômico, depois os investimentos maciços no social, transformando este em um compromisso efetivo do governo para com a sociedade e, agora temos como grande desafio consolidar todos estes avanços e dar condições para que a população consiga se capacitar e preparar para um mundo cada vez mais concorrência e competitivo, e este compromisso só se efetiva com fortes e intensos investimentos em educação e qualificação do capital humano, deixando para trás um país de sonhos e transformando o Brasil em uma realidade para a sociedade mundial.

Governo Lula: algumas considerações importantes II

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A sociedade brasileira passou por grandes transformações nos últimos oito anos, num período onde o país foi governado por um presidente popular, dotado de grande carisma e que trouxe consideráveis avanços para o país, principalmente na área social, melhorando a auto-estima da população e elevando o status do país no mundo, abrindo espaço para novos investimentos e oportunidades.

O período Lula, 2003/2010, pode ser descrito de duas formas diferentes, num primeiro governo encontramos uma política econômica bastante ortodoxa, muitas vezes mais liberal que a adotada pelo governo anterior, com políticas fiscais restritivas e uma política monetária bastante austera, gerando um sentimento ambíguo nos agentes econômicos e sociais, recebendo elogios dos investidores nacionais e internacionais, e críticas severas de seus companheiros de partido e de parte considerável de intelectuais e militantes, gerando um êxodo grande de militantes do Partido dos Trabalhadores (PT).

Os formuladores da política econômica defendiam as medidas como forma de recuperar a credibilidade do país, destruído pelo governo anterior que havia legado uma herança maldita, caracterizada pelo descontrole inflacionário, taxas de juros altos e câmbio desvalorizado, com graves desajustes para a sociedade brasileira, dentre eles o desemprego crescente, o endividamento e a perda de confiança dos agentes internacionais.

A situação era realmente bastante angustiante, os indicadores macroeconômicos eram negativos, reverter esta situação e ampliar os horizontes e as oportunidades da economia era o objetivo principal do Estado, as medidas deveriam estancar a fuga de capitais estrangeiros que estavam gerando graves problemas para o setor importador, que com custos elevados e preços em ascensão pressionavam a inflação e ameaçavam as metas adotadas pelo governo, a solução imediata exigia esforços na arena econômica e uma política conservadora que traria constrangimentos nas áreas sociais, principalmente emprego e renda.

O primeiro governo Lula foi bastante interessante, um governo de esquerda adotando uma política econômica claramente definida como conservadora, gerando mais desajustes sociais em uma sociedade onde estes desajustes eram responsáveis por graves problemas estruturais, dentre estes desajustes destacamos uma das piores concentrações de renda do mundo. Neste momento encontramos um governo e um partido político em busca de identidade, e mais, uma coalizão política formada por vários grupos sociais também buscando sua identidade, esquerda ou direita? Eis a questão.

Nestes embates políticos percebemos situações confusas e interessantes, o governo tentando implementar políticas desenvolvimentistas e, ao mesmo tempo, se utilizando de instrumentos liberais, o que denota os conflitos internos do governo, é neste confronto que surgem bons programas e políticas públicas, tais como o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o Programa Universidade para todos (Prouni), o Bolsa Família, o Minha Casa Minha Vida, etc…, destacamos ainda os aumentos do salário mínimo, sendo concedidos acima da inflação, política que satisfazia os interesses dos trabalhadores mas, ao mesmo tempo, os ganhos para o capital não eram reduzidos, chegando a números exorbitantes, principalmente os vinculados aos títulos públicos atrelados as altas taxas de juros.
Nestes oito anos de governo Lula os gastos sociais aumentaram bastante e auxiliaram na recuperação da economia, garantindo a uma parcela da população condições mais dignas de alimentação, transporte e lazer, os indicadores sócio-econômico nos mostram que neste período mais de 20 milhões de pessoas deixaram a pobreza e outros 31 milhões ascendem às classes A, B e C, melhorando de forma considerável o perfil social do brasileiro, aumentando a visibilidade na sociedade mundial e transformando o país em um dos principais destinos de turistas e investidores, que vêem o país como uma das maiores apostas do século XXI, ao lado de países emergentes como China, Índia, Rússia, México África do Sul, entre outros.

O momento de mudança de paradigma no governo Lula foi, sem sombra de dúvidas, o período do mensalão, este foi o grande divisor de águas deste governo, um momento muito conturbado, denúncias que comprometiam o governo, envolvendo autoridades e geravam crescentes desconfianças na sociedade, a corrupção era um dos assuntos mais discutidos, neste momento percebemos a queda do último bastião da honestidade, o Partido dos Trabalhadores, tão atuante contra a corrupção e o desperdício dos recursos públicos, sempre se posicionando como um símbolo de honestidade e seriedade no trato com a coisa pública se apresenta de uma forma diferente, será que agora todos são iguais?

Depois desta crise política o governo passa por várias mudanças, a política fiscal conservadora deu espaço para uma política mais agressiva, os gastos públicos foram retomados, os investimentos em grandes obras dinamizados, o emprego aumentou gerando, com isso, um incremento na renda agregada criando um clima saudável de crescimento econômico, atraindo investidores e melhorando nossa classificação pelas agências de ratings, o que aumento a entrada de moedas estrangeiras no país, gerando um clima de euforia, mas ao mesmo tempo, valorizando a moeda nacional, uma situação positiva que provoca constrangimentos para o setor exportador, levando-nos a refletir sobre os equívocos deste modelo. O sucesso econômico, a atração de moedas estrangeiras e a melhoria no perfil das contas públicas são mudanças salutares para a economia, gerando cenários e perspectivas bastante interessantes, abrindo-nos novas oportunidades na economia internacional, mas exigindo do país uma maior seriedade em questões estruturais, tais como a baixa qualidade da mão de obra, a excessiva carga tributária e as fragilidades da infra-estrutura.

Entre 2001 e 2010, segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV), a renda dos mais pobres cresceu 311% na comparação com os mais ricos, um resultado bastante positivo, que deve ser comemorado por todos, não apenas pelo governo federal, este resultado é uma conquista da sociedade brasileira, que primeiramente conseguiu controlar o descontrole inflacionário, recuperando a credibilidade na moeda, e depois, mostrou ao mundo que é possível crescer e distribuir a renda, melhorar as condições sociais e criar um ambiente mais saudável, com oportunidades iguais para todos, um sonho, mas que já podemos sonhar com os olhos abertos.

Governo Lula: algumas considerações importantes I

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O Brasil nos últimos quinze anos passou por grandes transformações em sua estrutura econômica e social, a estabilidade da economia auxiliou na melhoria das condições sociais, garantindo aumento na renda, no emprego e na inclusão social, levando o país a uma condição de destaque no cenário internacional, na condição de emergente ao lado de estrelas como a China, a Índia e a Rússia, países que ficaram conhecidos como BRICs.
Depois da estagnação dos anos 80 e das grandes reformas econômicas dos anos 90, o Brasil se encontra num dos melhores períodos de sua história recente, as perspectivas são positivas, a ascensão da nova classe média e o aumento do mercado consumidor brasileiro estimulou novos investimentos produtivos, que melhoraram as perspectivas de emprego e renda, revertendo tendências anteriores de estagnação e incremento na exclusão social e colocaram o país na rota dos grandes investidores internacionais, tanto de empresas transnacionais quanto fundos de investimentos, bancos, corretores e seguradoras.
Todos estes avanços foram iniciados depois da estabilização da economia e consolidados com o governo Lula, não dá para atribuir tais avanços a um único governo ou a um único presidente, mas sim a um conjunto de fatores e variáveis que vem sendo introduzidos gradativamente e foram fundamentais para melhorar as condições do país e elevar sua credibilidade patamares jamais vistos anteriormente.
O governo atual está chegando ao fim, fazer um balanço destes oito anos é sempre interessante, neste período a economia cresceu de forma acentuada, principalmente no período 2006/2010, melhorando os indicadores sociais e tirando milhões de pessoas da miséria e abrindo novas perspectivas para uma parcela substancial da população. Analisando em perspectiva o governo Lula encontramos muitas idéias antagônicas, uns descrevendo-o como um período de crescimento amparado nos avanços do governo anterior e outros designando-o como um dos mais fantásticos períodos da história econômica recente, fruto de decisões estratégicas e visionárias do presidente Lula, de sua liderança e visão diferenciada, diante deste impasse, qual das visões é a mais correta para se entender o período 2003/2010?
No campo social encontramos grandes avanços, principalmente gerados pelos programas sociais, onde destacamos o Bolsa Família, responsável pelo atendimento de mais de 11 milhões de famílias, este programa é visto como a menina dos olhos do governo, um programa que injeta na economia mais de 15 bilhões de reais e impacta diretamente sobre a população mais pobre, tirando da miséria muitos indivíduos e estimulando regiões antes relegadas ao esquecimento. Outra política que impactou muito positivamente neste período foi o incremento no salário mínimo e os ganhos reais concedidos pelo governo, que eliminaram perdas anteriores e garantiram aumentos reais na renda da população, impulsionando o crescimento do consumo e estimulando o investimento produtivo, gerador de novos empregos e aumento na demanda agregada.
Todos estes fatores foram importantes na gestão petista, mas o que mais impulsionou o desempenho positivo foi, sem sombra de dúvidas o crescimento econômico, geradas por um mix de políticas, dentre elas destacamos uma política fiscal expansionista, estimulada pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e pelo incremento dos recursos canalizados na economia pelos bancos públicos, BNDES, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal (CEF).
A política econômica do primeiro governo Lula se caracterizou pelo um excesso de ortodoxia, juros altos, aumento nos impostos, corte nos gastos públicos e acentuado conservadorismo, que segundo o governo se justificava pela chamada herança maldita deixada pelo governo anterior, mas muitas vezes extremada e geradora de grande discórdia dentro do governo, do partido e da sociedade.
A política econômica foi alterada no segundo mandato, para muitos o motivo foi o escândalo do mensalão, que quase impediu a vitória do presidente Lula, neste momento o governo aumentou de forma acelerada os gastos fiscais, o salário mínimo recebeu estímulos importantes, novos projetos surgiram e atingiram fortemente seu alvo, dentre eles destacamos o PAC e o Minha Casa Minha Vida, cujo impacto na sociedade foram muito interessante, alavancando novos investimentos e estimulando a geração de empregos no sistema produtivo.
O programa Minha Casa Minha Vida apresentou um crescimento imediato, neste projeto o governo federal passa a conceder um subsídio para todas as famílias com renda até cinco salários mínimos, gerando de imediato um desejo imenso, por parte da população, de adquirir a casa própria, um sonho acalentado por grande parte das famílias brasileiras, cujo déficit habitacional é bastante considerável, algo próximo de 5 milhões de residências. O programa estimulou a construção civil, aumentando investimentos produtivos, estimulando a contratação de novos trabalhadores, principalmente aqueles com baixa qualificação e incentivando um mercado que estava adormecido desde os anos 80, quando o setor recebeu seus últimos incentivos governamentais.
O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), iniciado em 2006, pode ser descrito como uma grande tentativa do governo federal de estimular novos e grandiosos investimentos em infra-estrutura, muitos destes fundamentais para a consolidação do crescimento econômico, dentre eles podemos citar projetos de geração de energia, novas estradas, portos, aeroportos, etc… todos estes estratégicos para a manutenção do crescimento da economia e diminuição dos gargalos que elevam o custo Brasil e diminuem a competitividade da economia brasileira.
O PAC pode ser descrito como uma tentativa exitosa de retorno do planejamento estatal na economia, seu saldo é positivo, seus investimentos nem sempre adiantados, na grande maioria atrasados pela grande burocracia do Estado devem ser visto de forma positiva, pois impactam na economia gerando aumento da demanda agregada, mas devemos destacar ainda, de forma negativa, que este programa acelerou os gastos com propaganda e publicidade, colocando em dúvida os verdadeiros objetivos deste programa de mais de R$ 500 bilhões.
O governo Lula se beneficiou de um ambiente bastante positivo da economia internacional, onde os preços das commodities aumentaram mais de 70%, beneficiando países como o Brasil e os demais emergentes, que viram suas receitas oriundas das exportações crescerem de forma acelerada, aumentando a renda nacional, gerando novos empregos e atraindo divisas para o fortalecimento das reservas em moedas fortes e afastando de vez os problemas de balanço de pagamentos, tão comuns nos anos 90 e que “obrigavam” o país a contrair empréstimos de organismos internacionais. Devemos destacar ainda o papel desempenhado pela China, que a partir de 2003 inicia um processo longo de absorção de produtos brasileiros, levando o país a se tornar nosso maior parceiro comercial, superando países como os Estados Unidos, Argentina e a União Européia, historicamente nossos maiores parceiros no comércio internacional.
O governo Lula pode ser descrito como um período de grande crescimento econômico e melhoria nos indicadores sociais, seus méritos são inquestionáveis e devem ser valorizados, mas não se deve deixar de conceder ao governo FHC méritos importantes, afinal foi neste período que muitas mudanças foram introduzidas na administração pública e tiveram êxito significativo, dentre elas destacamos a estabilização da economia gerada pela introdução do Plano Real, que deve ser visto como a condição central para que todos os avanços na gestão petista fossem tivessem ocorrido. A sociedade brasileira, nos últimos 16 anos, passou por grandes transformações estruturais, o mérito é de todo o povo brasileiro que soube escolher dois grandes governantes, que apesar do antagonismo constante são, na verdade, complementares.

Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e….

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O mundo financeiro está em um momento de grande ansiedade e expectativa, a crise de 2008 que gerou inúmeros transtornos na sociedade internacional, parece estar de volta, ou melhor, dá sinais de que nunca foi embora, assustando os países e mostrando as fragilidades de várias economias que antes se mostravam fortes e inabaláveis.
O centro da crise foi os Estados Unidos, depois de décadas de prosperidade e crescimento, a economia apresenta sinais claros de desequilíbrio e incerteza, o boom imobiliário dos anos 90 se mostrou insustentável em um país que não consegue gerar poupança interna e se sustenta em um consumismo excessivo e imediatista, que provoca uma sensação de prazer imediato e endividamento crescente, cujos custos virão com o tempo.
Os anos 80 mostraram para o mundo a ascensão chinesa, o surgimento de um país com um grande potencial, uma sede imensa de consumo e uma alta demanda reprimida, agora, para satisfazer estas necessidades eram necessárias atitudes pragmáticas, exportar é uma grande necessidade, aproveitar o potencial da mão de obra formada por 1,4 bilhão de pessoas e adotar políticas específicas para fomentar a economia fizeram a diferença para o país e para o mundo.
O crescimento chinês alterou a lógica da economia internacional, países desenvolvidos perderam muitas de suas empresas para a China, empresas transnacionais com faturamentos astronômicos perceberam que a única forma de competir neste ambiente globalizado era abrindo novas filiais no gigante asiático, ganhando escala e conseguindo competir, mas deixando em seus países de origem uma grande devastação social, desemprego, exclusão social e o incremento do xenofobismo, com conflitos e violências crescentes, este fato contribuiu para o enfraquecimento da classe média norte-americana, diminuindo sua renda e fragilizando-a financeiramente, deixando claro sérios desajustes estruturais que facilitaram a crise atual e a grande dificuldade de superação, mesmo depois da injeção de trilhões de dólares na economia.
O crash financeiro internacional foi uma crise dos países desenvolvidos que afetou todas as regiões do mundo, isto porque estas economias, de renda elevada, comercializam com todas as regiões do globo, compram, vendem e financiam investimentos e consumo que geram renda e crescimento econômico, fundamentais para melhorar as condições de todos os indivíduos.
Os Estados Unidos e a Europa foram os países mais afetados pela crise internacional, a economia norte-americana apesar das dificuldades de recuperação é ainda a maior do mundo, detém a principal moeda do comércio e finanças internacionais, e possui grande potencial em muitos setores, principalmente no setor de serviços, que cresce de forma evidente e altera estruturalmente a lógica econômica, agora a Europa apresenta graves desequilíbrios, a União Européia enfrenta o seu maior desafio, primeiro a Grécia, agora Irlanda e quem sabe, posteriormente, Portugal e Espanha. Se este último, pela sua dimensão e importância entrar em crise, pode causar graves desequilíbrios ao bloco, a ponto de provocar rupturas insuperáveis, podendo até levar à ruína um projeto de mais de cinqüenta anos, pioneiro e moderno, mas muito arriscado e ambicioso.
A Grécia foi a primeira vítima desta crise, endividada e exposta ao crescimento fácil, baseado em recursos especulativos, teve que recorrer aos endinheirados do bloco chefiados pela Alemanha, seu socorro custou mais de 120 bilhões de euros, recursos disponibilizados à custa de uma política de ajuste violenta, o arrocho passou a ser o termo utilizado na Grécia, salários foram reduzidos, impostos aumentados, os gastos públicos foram reduzidos, o desemprego aumentou, etc. Estas medidas proporcionaram quedas consideráveis na entrada de moedas fortes, gerando desvalorização cambial e melhoria nas contas nacionais, aumentando as exportações e, com o tempo melhorando a situação externa da economia, com incremento nas reservas internacionais e garantindo o pagamento dos empréstimos obtidos, mas a custa de uma grande degradação das condições sociais, tudo supervisionado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), pelo Banco Mundial (Bird), pelo Banco Central Europeu (BCE) e por outros organismos internacionais, reduzindo cada vez mais a pouca, quase inexistente, soberania grega.
O fantasma do ajuste grego paira sobre a economia irlandesa, depois de duas décadas de crescimento ininterrupto, onde a Irlanda sai de uma posição periférica e passa a ocupar um lugar de destaque na Europa, neste período de prosperidade o país para atrair empresas e investimentos produtivos reduziu enormemente os tributos, absorvendo empresas em várias áreas, aumentando a geração de emprego, consolidando uma nova classe média e estimulando consumo. O consumo era financiado via endividamento externo, e isto só era possível graças à alta liquidez internacional, tão logo esta se mostrou frágil o país apresentou sinais de insolvência, tendo grandes dificuldades para captar recursos no mercado internacional, obrigando as autoridades européias a um socorro estratégico, antes que afetassem os outros países do bloco, gerando uma crise generalizada.
A Alemanha é a grande economia européia, sua antiga moeda, o Marco, é a base monetária da União Européia (UE), o Euro surgiu lastreado no Marco, isto porque o país é considerado o mais austero em termos fiscais e financeiros da região, socorrer estes países que se esbaldaram no período de alta liquidez internacional evitou que a crise de disseminasse para outros países, mas o custo político foi muito grande, gerando insatisfação no país e desgaste perante a sociedade, levando muitos cidadãos alemães a se indagarem: como pode nosso país tão austero e responsável fiscal e financeiramente, com um histórico de cumprimento de seus deveres econômicos, ter que desembolsar recursos para socorrer países imprudentes, gastadores e desequilibrados? O mal-estar foi geral e a União Européia passa por dias de turbulência e descrédito, algo pouco visto na região símbolo do progresso e das conquistas do mundo civilizado, racional e moderno, berço das grandes conquistas da Era Industrial, da Ciência e das Artes.
Socorrer a Grécia, Irlanda e até Portugal pode ter um custo fiscal muito alto, podendo até comprometer o bloco europeu, agora o socorro aos espanhóis pode exigir muitos recursos, os desembolsos podem comprometer a situação fiscal do bloco, inviabilizando toda a União Européia e levando muitos países a abandonar o bloco e desvalorizar suas moedas como forma de reativar suas economias, e enterrando de vez um projeto ambicioso de integração que muitos vêem com incerteza, incredulidade e desconfiança.
Pela primeira vez na história do capitalismo os países hegemônicos, ricos e poderosos estão na berlinda negativamente, a crise impactou diretamente nestes países, colocando-os na defensiva e obrigando-os a solicitar ajuda externa para se reequilibrar, o apoio e o estímulo dos países emergentes é fundamental. Os BRICs, Brasil, China, Rússia, Índia, entre outros, ganharam importância na nova geografia mundial, exigindo de cada um destes países políticas integradas, planejamento e integração para assumirem, cada vez mais, o posto de país hegemônico, alguns como a China e a Índia já se mostraram capacitados para desenvolver políticas consistentes visando uma melhoria das condições sociais; agora, países como o Brasil necessitam de uma coordenação sólida e coerente para solucionar os velhos e os novos entraves ao desenvolvimento, sem isso vamos continuar nos colocando sempre como uma aposta, estamos sempre na lista dos países que prometem se tornar potência no futuro próximo, mas este futuro nunca chega, gerando indignação e revolta para todos os cidadãos do país.
A globalização da economia transformou enormemente a sociedade, aumentou o comércio e trouxe benefícios, inicialmente, aos países ricos e desenvolvidos em detrimento das economias mais frágeis e subdesenvolvidas. As crises econômicas recentes estão mostrando uma inversão nesta realidade, as economias em desenvolvimento ou emergentes, depois das crises dos anos 90, quando estas sofreram desequilíbrios externos, endividamento e crises nos balanços de pagamentos, ocasionando graves problemas sociais como desemprego, miséria e exclusão social, obrigando-as a recorrer a empréstimos externos de organismos internacionais e criando situações de instabilidades e constrangimentos, esta situação ficou para trás, agora o ambiente se inverteu, a crise afetou a grande maioria dos países, mas alguns estão mais fragilizados, estão mais expostos e sentem-na de forma mais agressiva. Estados Unidos e a Europa se mostraram muito fragilizados, a crise evidencia uma diminuição do poderia destes países no mundo e abre espaço para novos atores no mundo contemporâneo, vivemos uma sociedade em transição, estas mudanças são, normalmente, dolorosas para muitos países, mas abrem espaços para outros povos e línguas, que antes marginalizadas, ganham espaço e passam a influenciar os rumos da sociedade internacional, abrindo espaço para novas culturas e tradições, fazendo do mundo um mosaico integrado de experiências, culturas e transitoriedades.
As crises são situações freqüentes no sistema capitalista, nos últimos 100 anos o mundo conviveu com várias e seus impactos são sempre assustadores, concentram mais a renda e aumentam a desigualdade entre os indivíduos, é nesta perspectiva que devemos analisar a crise contemporânea, agora esta situação está transformando a realidade geopolítica mundial, alguns países estão alcançando grande relevância enquanto outros estão tendo seu poderio diminuído, estamos próximos de grandes mudanças na civilização, o mundo está se transformando, só não enxerga quem não quer.

Agonia docente

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A sociedade pós-moderna passa por grandes mudanças estruturais, as movimentações de capitais e pessoas abrem novas oportunidades aos indivíduos e criam novos desafios, obrigando cada trabalhador a uma constante atualização, sob pena de se afastar de seu posto de trabalho e ser esquecido como um agente social, sendo relegado à marginalidade.
Nesta sociedade a educação passa a ter um papel fundamental, a formação dos trabalhadores deve ser cada vez mais consistente, acumular informações e desenvolver habilidades é uma forma sólida de manter-se num ambiente competitivo e em constante mutação, obrigando o indivíduo ao estudo sistemático, algo que o trabalhador não foi treinado.
Diante desta realidade o professor e o profissional da educação devem ser vistos de forma especial, como desenvolver as habilidades intelectuais dos indivíduos e dos trabalhadores sem canalizar esforços sérios e efetivos para melhorar a qualidade dos profissionais da educação de uma forma geral, e dos professores de uma forma específica? Esforços generalizados são necessários não só por parte do governo federal, mas de todos os entes federativos, os estados e os municípios tem um papel central e devem contribuir, criando um verdadeiro arrastão em prol da educação brasileira.
A situação geral é assustadora, quando comparamos o Brasil a outros países os números são péssimos, estamos mal colocados em matemática, em ciências e em línguas, ou seja, estamos quase na lanterna de um campeonato que pode nos levar à glória ou ao fracasso, sendo que este último destrói sonhos e cria uma leva imensa de excluídos e miseráveis, comprometendo ou até inviabilizando o país nos próximos anos.
Neste quadro encontramos um paradoxo evidente, somos citados como uma das grandes potências em expansão do mundo contemporâneo, alguns nos colocam como um país emergente que terá um papel central no mundo nas próximas décadas, estamos inseridos no G20 (grupo dos vinte países mais desenvolvidos do mundo) e somos membros dos BRIC – Brasil, Rússia, Índia e China, somos chamados para as grandes cúpulas internacionais, mas internamente não conseguimos definir os rumos da educação e o que queremos para o país nas próximas décadas, uma escolha fundamental para o futuro do país.
A educação de qualidade é a única forma de elevar o Brasil para uma posição de destaque no mundo contemporâneo, a economia só vai conseguir se expandir de forma sustentada se o gargalo educacional for resolvido, alguns passos importantes foram dados nos últimos quinze anos, mas insuficientes. Saímos de um sistema elitista para um modelo de massa, nesta transição percebemos que a qualidade do primeiro não foi transferida para o segundo, estamos criando analfabetos funcionais e estamos chamando isto de formação profissional, as conseqüências imediatas são várias e a mais nítida é que o ensino ainda é muito fraco e nosso trabalhador não tem condições de concorrer com países que fizeram esta transição com mais êxito e colhem hoje um resultado mais efetivo.
Como podemos pensar em ensino de qualidade quando as universidades privadas colocam em uma sala de aula turmas com 70 ou 80 alunos, nelas os professores devem prender a atenção do aluno para evitar a evasão escolar, e estas quando acontecem são registradas na conta dos mestres, afinal estes não foram competentes o suficiente para manter o aluno em sala, uma visão míope e com graves conseqüências para o futuro. Como pensar em educação de qualidade quando observamos o salário do professor brasileiro, seu contra-cheque é ridículo, como imaginar que a carreira fundamental para formar a inteligência nacional ganha salários tão reduzidos, salários estes que seduzem apenas os piores alunos e condenam o magistério a um circulo vicioso de degradação e ineficiência, reverter esta equação e atrair os melhores quadros escolares para a carreira docente é o desafio central de todos, pois esta é a única forma de transformarmos o Brasil de um país emergente em um país desenvolvido e justo.
Estamos em uma sociedade marcada por choques culturais tremendos, vivemos na sociedade, e na educação em especial, conflitos geracionais entre os Baby Boomers (BB), a geração X e a geração Y, exigindo dos profissionais da educação várias habilidades, atualizações e conhecimentos constantes, somamos a tudo isso uma onda constante de atualizações que levam o profissional ao limite, abrindo espaço para conflitos emocionais íntimos, levando-o à depressão, ao estresse e a obesidade, além de drogas e síndromes variadas, lotando os consultórios de terapeutas, psicanalistas e psiquiatras ou aumentando a demanda por clinicas de repouso e internações.
Outro ponto interessante que não posso deixar de ressaltar é o interesse dos alunos, é comum observar profissionais na mídia defendendo teses e teorias que salientam que os alunos do Brasil contemporâneo estão cada vez mais atentos e interessados, buscando qualificação constante e exigindo cada vez mais dos profissionais da educação, confesso que não conheço estes alunos, em 15 anos de docência no ensino superior o que vejo me assusta cada vez mais, não apenas nas instituições privadas, mas também nas públicas, os alunos chegam cada vez mais despreparados nas universidades, a leitura é algo inexistente, senso comum não existe imagine o senso crítico, o cenário é assustador vale refletir sobre este quadro, mas deixando de lado paixões e sentimentos arraigados que não resolvem o problema, nenhum governo terá êxito na resolução deste gargalo enquanto a sociedade não tomar a frente exigir uma revolução na educação.
Devemos destacar ainda que os conteúdos da educação são fundamentais para a formação dos indivíduos (futuros trabalhadores e cidadãos), estudar é um ato central, agora o que estudar também é primordial, as universidades devem abordar conteúdos variados e formar uma massa crítica para a vida e não apenas para o mercado e para o emprego imediato, cabe às empresas, aos bancos e aos demais empregadores se conscientizarem de que a educação não deve ser desenvolvida apenas para a geração de emprego, o papel da educação é muito maior, o desafio é criar cidadãos conscientes de seus direitos e deveres, formar indivíduos que possuam capacidades múltiplas para compreender o mundo contemporâneo, analisar os desafios do meio ambiente, o desperdício de alimentos e a questão energética, além da importância da água e o respeito ao trânsito e a convivência em coletividade, estes devem ser os objetivos do setor educacional, se estes forem perseguidos com afinco, com certeza, todos os outros serão atingidos e a capacitação para o trabalho será mais sólida e consistente.
Devo destacar ainda que para conseguir atrair bons alunos e dar oportunidades maiores para nossos jovens, tirando-os das ruas e abrindo espaço para um futuro melhor, a sociedade precisa transformar a educação em algo instigante, muitos jovens em idade de estudar abandonam os estudos porque estar na universidade ou na faculdade significa deixar de trabalhar, isto porque muitas famílias pobres contam com a renda dos seus filhos para sobreviver, diante disso, o governo deveria pensar em um instrumento alternativo para atrair estes jovens, uma proposta que deve ser implementada é a concessão de recursos financeiros para o aluno estudar, este auxílio concedido pelo estado não poderá ser de apenas R$ 50,00, mas de um salário mínimo, justamente para suprir o salário do jovem na família, fazendo com que este não deixe de estudar e aumento os números de evasão escolar.
Existe uma equação que deve ser perseguida pela sociedade e pelos formuladores de políticas públicas, que devem se atentar para isso todos os instantes, educação de qualidade se faz com bons profissionais, salários dignos, condições de trabalho adequadas, estimulo à qualificação constante, infra-estrutura eficiente, pesquisa e extensão comunitárias e reconhecimento profissional, só assim vamos atrair para a carreira docente os melhores alunos que se tornarão os melhores profissionais, e que desta forma contribuirão para a melhoria da educação e pelo desenvolvimento do país, alçando assim não mais o posto de um país emergente, mas recebendo o título de país desenvolvido.

Câmbio: um problema internacional recorrente

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São vários os desafios da sociedade internacional que nos causam medos, constrangimentos e preocupações, vivemos em um mundo doente e violento, tememos desajustes externos ligados aos abalos econômicos e financeiros de um mundo sem controle e dominado pelo materialismo e pelas regras do imediato, e os grandes desajustes internos geradores de preocupações de todos indistintamente, mas os desafios maiores estão com a população mais pobre, indefesos e necessitados de proteção e da solidariedade alheia, algo tão difícil, remoto até, em um mundo globalizado e marcado pela concorrência e pela competição.
É neste clima de desafios, medos e desesperanças que encontramos o povo brasileiro, de persona não grata no capitalismo internacional nos anos 80 e 90 até o papel atual de país dinâmico e promissor, descrito por muitos intelectuais como um dos possíveis líderes da economia internacional nos próximos 50 anos, mas para que isso se efetive, é fundamental superar limitações e encarar problemas antigos e recorrentes que até agora foram marginalizados.
São variados os problemas, podemos elencar questões políticas, sociais, culturais e econômicas, mas neste espaço pretendo me concentrar apenas nas questões econômicas, para ser mais exato vamos destacar a política cambial, ou melhor, a guerra cambial em curso na economia internacional e seus possíveis impactos para o Brasil e para o comércio global.
Nos últimos 30 anos o comércio global cresceu aceleradamente, fruto da maior integração da economia internacional pós 1945 e da necessidade dos países em adquirir produtos para a satisfação das demandas de suas populações, muitas delas destruídas pelos conflitos e sedentas de produtos e mercadorias. Motivados pela reconstrução dos países e marcados por movimentos de integração e interdependência, os trinta anos posteriores a guerra podem ser designados como o momento de maior crescimento da economia mundial, com taxas anuais superiores a 8% ao ano, gerando riqueza e bem-estar social para países desenvolvidos e melhorias significativas para países em desenvolvimento.
A ascensão da China neste ambiente de integração internacional possibilitou grande crescimento para o comércio global, suas políticas foram canalizadas para fazer do país o maior exportador do mundo, o Estado constrói um modelo baseado em subsídios variados, câmbio desvalorizado e cria zonas especiais para a instalação de empresas exportadoras, tudo isto visando a geração de riquezas e a constituição de um novo pacto social.
Os resultados destas políticas de expansão do setor exportador são visíveis, em 1984 países como Brasil, Coréia do Sul e China apresentavam exportações na casa dos US$ 22 bilhões/ano, estes números cresceram enormemente nos anos seguintes, em 2005 o Brasil exportou US$ 170 bilhões, a Coréia US$ 270 bilhões e a China US$ 600 bilhões, o crescimento do setor exportador chinês foi impressionante.
Um dos fatores estimuladores mais visíveis deste crescimento foi o excesso de mão-de-obra, 1,4 bilhão de pessoas, e seus baixos salários, que produziam produtos muito baratos que inundavam a economia internacional e geravam uma sensação de crescimento da riqueza, isto porque, ao consumir produtos baratos a renda da população aumentava e criava uma euforia de consumo ao mesmo tempo que os preços internos não aumentava, facilitando o controle da inflação e melhorando as condições de vida da população de muitos países.
Outra política que contribuía decisivamente para o crescimento das exportações chinesas era a política cambial, o governo para estimular altos superávits comerciais desvalorizava sua moeda nacional vislumbrando ganhar mais mercados internacionais e aumentar suas reservas de moeda forte, uma garantia extra em casos de turbulências e abalos na economia global, algo tão normal num cenário caracterizado por instabilidade e incertezas.
A política cambial chinesa somada aos incentivos adotados pelo governo contribuíram para o crescimento das reservas internacionais do país, que hoje está na casa dos US$ 2,5 trilhões, a maior reserva internacional de um país, que dá ao governo e a sociedade uma garantia financeira jamais vista internacionalmente, tornando a China uma das maiores economias da atualidade.
A desvalorização do câmbio chinês eleva o déficit dos países ocidentais, principalmente o dos Estados Unidos, que na atualidade absorve parcela significativa de produtos oriundos da China, fazendo da parceria sino-americana a responsável por parcela significativa do comércio internacional, e transformando os dois países em interdependentes, mas acentuando os conflitos e contradições existentes, com severos riscos para o comércio internacional.
O ambiente descrito acima favoreceu enormemente os dois países, os chineses exportaram mais e acumularam reservas internacionais de vulto, os norte-americanos compraram mercadorias a preços baixos e saciaram sua fome de consumo, portanto, todos ganharam e agora a situação pode se inverter ou a política de conflito pode gerar problemas para todos os países, com impactos sobre o comércio internacional, inclusive é possível o incremento no protecionismo.
Os desajustes externos dos Estados Unidos gerados pela perda de competitividade de sua economia em escala internacional somados aos gastos militares com as guerras no Afeganistão e no Iraque estão levando a sociedade norte-americana a amargar dívidas crescentes e um desequilíbrio estrutural que podem ter conseqüências assustadoras.
A guerra cambial que o mundo vive na atualidade entre Estados Unidos e China esta diretamente atrelada a conflitos que surgiram de forma mais clara nos anos 70 com a ascensão chinesa, um país até então pouco relevante, grande e interessante mas bastante fechado e pouco integrado com o mundo.
É importante destacar que grande parte dos déficits da relação entre os dois países está vinculada a importação de empresas transnacionais dos Estados Unidos, que devido aos grandes incentivos concedidos pelo governo chinês transferiram suas plantas industriais para o continente vermelho e depois exportam para o centro do consumo internacional, gerando altíssimos desajustes nas contas externas do país por duas vezes, primeiro porque deixam de produzir e exportar nos EUA e depois porque aumentam as importações para a China.
A guerra cambial pode respingar em vários países e regiões, inclusive no Brasil e nos países emergentes, que nesta semana receberam com desconfianças o novo pacote do governo de Barack Obama, um incentivo financeiro de US$ 600 bilhões de dólares, estes recursos ameaçam o câmbio de vários países, e o Brasil já percebeu esta ameaça a nossa moeda e esta estudando adotar políticas para impedir a entrada de capitais em excesso na economia, com valorização do câmbio e piora no setor exportador.
O câmbio valorizado gera benefícios nos preços internos, este recurso já foi utilizado para estabilizar a economia brasileira e de vários países da região, agora a adoção destas políticas por um prazo maior que o desejado pode trazer graves prejuízos econômicos e financeiros. O câmbio desajustado pode matar setores chaves da estrutura econômico-produtiva, imagina o Brasil, um país de quase 190 milhões de pessoas, que segundo previsão de especialistas terá em 2050 quase 230 milhões de pessoas, onde encontraremos um contingente de 150 milhões de indivíduos em idade de produzir, como empregar esta mão-de-obra, gerando condições dignas de trabalho e sobrevivência? Se a sociedade não se concentrar na resolução dos problemas gerados pelo câmbio valorizado seus impactos na economia dificilmente poderão ser revertidos, e sem indústria como vamos empregar esta massa crescente de trabalhadores?
Estas questões são importantes e precisam ser respondidas pelo novo governo e pela sociedade, acreditar que o setor empresarial deve aumentar os ganhos de produtividade para ganhar espaço no comércio internacional é uma grande ilusão, o câmbio como está dificilmente teremos condições de reverter esta condição, acreditar no agente empreendedor que nos momentos de crise consegue tirar da cartola uma solução mágica para seus problemas mais imediatos é algo difícil de acreditar, a economia precisa de uma política clara com relação à questão cambial, as guerras cambiais que estamos visualizando são provas consistentes de que os governos acordaram para a necessidade de proteger suas taxas de câmbio sob pena de ver seus setores de transformação destruídos e seus impactos devastadores para a sociedade, como emprego e desigualdades.
Os conflitos entre chineses e norte-americanos pode prejudicar o comércio internacional, mas também pode abrir novas oportunidades de negócio para os países emergentes. O mundo pode se tornar mais protecionista, os países podem adotar políticas defensivas contra produtos produzidos no exterior como forma de preservar seus produtores locais, diminuindo o fluxo comercial e abrindo espaço para que, internamente, os preços aumentem, incrementando os índices inflacionários, o que prejudica os setores mais carentes que terão sua renda e o seu consumo diminuídos.
O resultado também pode ser outro, o litígio China-EUA pode levar as autoridades chinesas a adotar políticas para a valorização da moeda local, diminuir suas exportações e aumentar suas importações, gerando um aumento na renda agregada e um incremento no mercado de consumo, estimulando com isso o mundo todo, com impactos positivos para a economia brasileira.
O câmbio é um dos instrumentos econômicos mais complexos, a adoção de uma política cambial é uma decisão estratégica dos governos, no caso do Brasil é importante destacar, que temos internamente alguns problemas que devem ser encarados de forma imediata, as taxas de juros astronômicas que temos é um sinal claro de alerta para os setores produtivos, que temem uma diminuição do consumo, vivemos no país nos últimos 8 anos um aumento vertiginoso do consumo, classes sociais antes relegadas ao esquecimento foram conduzidas a uma condição de destaque no mercado de consumo, novas lojas e centros de compras surgiram para atender este mercado em expansão, as importações cresceram e as exportações também, mas esta última em números mais modestos. As taxas de juros altas servem para financiar o endividamento interno do Estado brasileiro, os gastos do governo crescem de forma acelerada, inicialmente como uma diretriz de política econômica e, num segundo momento, como uma forma de reduzir os impactos da crise internacional de 2008, quando os Estados foram chamados para socializar as dívidas do setor privado e evitar uma crise generalizada da economia, cujos impactos todos os povos sentiram.
Atuar diretamente sobre o câmbio é uma necessidade do sistema, uma forma de melhorar as perspectivas econômicas e produtivas, mas uma maneira clara de atuação deve ser pensada e estruturada de forma consistente para evitar efeitos colaterais, uma das estratégias mais evidentes é a diminuição dos gastos de custeio do Estado e a canalização destes recursos para investimentos produtivos que elevem a capacidade do sistema, garantindo novos empregos e perspectivas rentáveis para a sociedade, destacamos outra medida concreta, a criação de limites para que os gastos do Estado brasileiro não cresçam acima da inflação, com estas medidas os gastos reduzirão de forma significativa em termos percentuais, criando as condições para um crescimento sustentável da economia.
Câmbio é a palavra econômica do momento, valorizações e desvalorizações são políticas que devem ser vistas com clareza e consistência para evitar novos embates que abalam o mundo, gerando seqüelas em todas as regiões, desde povos isolados na África até as populações das grandes metrópoles do mundo. A participação integrada entre os países deve ser incentivada e as medidas protecionistas devem ser combatidas veementemente pelos Estados, empresários e trabalhadores, pois neste embate entre forças variadas todos perdem em algum momento, pois somos todos interdependentes e a convivência harmoniosa deve ser estimulada e vivida por todos sobre pena de construirmos um mundo de barro, onde a infra-estrutura não consegue contemplar a todos.

Uma discussão imprescindível

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A sociedade brasileira se encontra em um momento de grandes discussões que tendem a influenciar não apenas os próximos quatro anos, mas muitas décadas, e que podem ser decisivas para as futuras gerações, impactando no cotidiano de todos nós, estamos em um momento essencial marcado por uma onda verde que tirou a eleição presidencial do marasmo e da indiferença, fazendo a discussão aumentar e forçando os candidatos a abordarem temas antes esquecidos ou negligenciados.
Neste momento encontramos dois candidatos com características parecidas, ambos caracterizados pela resistência ao regime militar (1964/1985), período este marcado pela luta na clandestinidade, repressão e autoritarismo, nesta época o candidato tucano se exilou no Chile onde se preparou intelectualmente na Comissão Econômica para a América Latina, para compreender o Brasil e a realidade internacional. A candidata petista também se notabilizou pela resistência aos governos militares, foi presa e viveu na clandestinidade durante muitos anos, estudou e buscou explicações sobre os desajustes do país. Ambos se prepararam para compreender o país, transformando-o para melhor, diminuindo a desigualdade e incrementando as condições sociais, dando a todos os brasileiros uma melhor condição de sobrevivência.
A decisão de qual dos candidatos será o melhor governante permeia a mente e a realidade de milhões de eleitores, que no final do mês decidirá qual dos dois projetos encampar para o país nos próximos anos, dois projetos parecidos do ponto de vista econômico, mas diferentes em sua condução, dois partidos responsáveis pelos rumos da economia e da política brasileiras nos últimos 16 anos, um período de estabilidade e crise, caracterizados pelo combate à inflação e pela busca da estabilidade financeira, econômica e produtiva, onde a estrutura econômica mudou de forma estrutural, de uma economia fechada e protegida pelo Estado para uma economia mais aberta e mais competitiva, gerando novos desafios e oportunidades com resultados contraditórios..
Nestes dezesseis anos estabilizamos e consolidamos a economia, aumentamos o nível de emprego e melhoramos todos os indicadores sociais, o Brasil tirou da miséria mais de 30 milhões de pessoas, um número bastante relevante, ainda mais quando percebemos que vivemos em um país democrático, marcado por eleições diretas, imprensa livre e alternância de poder entre partidos políticos, um feito pouco alcançado no mundo, o que coloca o Brasil em um lugar de destaque dentre os países do mundo.
Melhoramos muito, a estabilidade econômica dos anos 90, iniciada pelos tucanos, (baseada no tripé: câmbio fixo, superávit primário e metas de inflação) foi seguida e perseguida pelo governo petista, com resultados bastante animadores, o que levou os indicadores econômicos a uma melhora considerável, onde os ganhos sociais foram de toda sociedade, principalmente dos mais pobres, que tiveram oportunidade de ganhar mais e usufruir de uma vida melhor, com mais conforto e qualidade.
Estamos em um momento único da história, em nenhum momento da história deste país encontramos uma eleição tão tranqüila do ponto de vista econômico, as crises sucessivas que sempre nos marcaram amargamente, geravam pânicos, fugas de capitais e quebradeiras de empresas, pois todos tinham medo do próximo governante, ainda mais se este fosse um candidato petista, que propunha acabar com todas as políticas implementadas por seus antecessores, caracterizadas por ineficientes e prejudiciais para a classe trabalhadora.
O próximo governante brasileiro não vai transformar o país de forma estrutural, para que isto acontecesse a sociedade deveria construir novos consensos, discutir problemas complexos, debater decisões imprescindíveis e imediatas que foram postergadas durante muitos anos e que precisam ser enfrentadas rapidamente para assegurar uma melhor qualidade de crescimento da economia. Dentre estas discussões a educação é a mais imediata, suas raízes são muito amplas e seus resultados decisivos para a construção de uma mão-de-obra capacitada para compreender o mundo do século XXI, um mundo marcado pela competição crescente entre empresas e exigências cada vez maiores, onde os trabalhadores precisam se qualificar, a concorrência atual obriga o indivíduo a se adaptar para não perder novas oportunidades, pois estas existem e é só os trabalhadores se prepararem, pois não somos mais o país do futuro, somos o país do presente, o mundo hoje enxerga no Brasil o potencial crescente de líder e potência internacional, mas para que isso se efetive o brasileiro tem que acreditar no seu potencial.
Neste segundo turno devemos exigir dos candidatos uma atuação mais clara e incisiva, ambos devem se posicionar de forma mais nítida em relação ao futuro, os problemas nacionais estão claros e todos nós temos consciência, possuímos dados e informações que mostram a situação social e política do país, nossas limitações nas mais variadas áreas, o que precisamos é de um conjunto de propostas factíveis para os próximos 10 ou 20 anos, os debates são importantes, confrontam idéias e pensamentos, mas é a ação de cada um em áreas como a segurança pública, saúde, infra-estrutura, educação, entre outras, que vai definir de forma efetiva o voto dos eleitores.
Os rumos do país devem ser definidos agora, as eleições são o momento efetivo da mudança, acreditar que vamos sair desta situação sem nos conscientizarmos das heranças do passado é algo ilusório, somos um grande país, com potencial de destaque na sociedade mundial, devemos consolidar nossa estabilidade econômica e criar espaço de crescimento sustentado, melhoramos muito nos últimos 15 anos, mas temos muito o que fazer, nossa taxa de juros é uma das mais altas do mundo, nosso câmbio valorizado gera inquietações para o setor produtivo, prejudica o setor exportador e pode nos levar a um processo de desindustrialização da economia, a entrada de produtos chineses está criando problemas claros para o setor produtivo, muitas indústrias estão se tornando inviáveis, muitos setores sobrevivem a base da importação, prejudicando a geração de empregos de qualidade e a atração futura de moedas conversíveis, estamos em um momento perigoso e devemos nos preparar para o futuro.
O crescimento deve pautar pela inclusão social, o meio ambiente sempre tão negligenciado pelos setores produtivos brasileiros hoje é um assunto fundamental, a onda verde criada pela candidata do PV Marina Silva trouxe novos temas para a eleição presidencial, os atuais candidatos devem se esforçar para se mostrarem mais responsáveis ambientalmente e para enfrentar os desafios da sustentabilidade, precisamos crescer de forma positiva, mas este crescimento não deve ser de qualquer jeito, com destruições de mananciais, devastando florestas e poluindo rios e o meio ambiente, este crescimento foi utilizado no passado e o resultado pode ser percebido nitidamente na atualidade, rios poluídos e desajustes crescentes, que forçam o poder público a investimentos cada vez maiores para reequilibrar o sistema, utilizando recursos escassos que poderiam ser usados de forma diferente, mas esta experiência negativa serve de lição para a sociedade, crescer é um imperativo, fundamental e necessário, única forma de diminuir a desigualdade e melhorar as condições sociais, mas sempre com responsabilidade para a manutenção do clima e da vegetação de forma a manter o meio ambiente em equilíbrio para as próximas gerações, afinal de contas todos nós nos encontraremos aqui novamente, a reencarnação não deve ser vista como um princípio religioso, mas sim uma lei natural, não se esqueça disso, um dia todos vamos compreender o significado desta lei.