Modificações na família contemporânea, por Fernando Nogueira da Costa

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Fernando Nogueira da Costa

A Terra é Redonda, 17/02/2-25

Diminuição da utilidade da família pela atomização e comoditização

A “atomização”, segundo Branko Milanovic, no livro Capitalismo sem rivais, se refere ao fato de as famílias terem perdido em grande medida sua vantagem econômica, pois um número crescente de bens e serviços antes produzidos em casa, fora do mercado e não sujeitos a troca pecuniária pode agora ser comprado ou alugado no mercado. Atividades como preparar comida, limpar, fazer jardinagem e cuidar de bebês, idosos e doentes eram fornecidas “gratuitamente” em casa nas sociedades tradicionais, caso a famílias não fosse muito rica.

Essa era uma das principais razões econômicas da existência do casamento: divisão de trabalho no casal para aumento da “produtividade familiar”. Viver junto “internaliza” essas atividades (cozinhar, limpar etc.) e proporciona economia de escala em tudo, do abastecimento à eletricidade.

Porém, com o aumento da riqueza, quase todos esses serviços podem ser adquiridos fora de casa e há cada vez menos necessidade de compartilhar a vida com outras pessoas. Por isso – e pelo ingresso das mulheres no mercado de trabalho –, as sociedades contemporâneas (exceto na África) tendem a um tamanho de família mínimo.

Todas as atividades domésticas podem agora ser terceirizadas. De acordo com a conclusão distópica de Branko Milanovic, o mundo consistiria em indivíduos vivendo e trabalhando sozinhos (exceto quando cuidam de crianças), sem terem vínculos ou relações permanentes com outras pessoas, e cujas necessidades seriam supridas pelos mercados.

A atomização, levada ao extremo, implica no fim da família. Também é acelerada pelas crescentes intrusões legais na vida familiar quando as regras existentes dentro das famílias são diferentes das em vigor fora delas.

Muitas têm o objetivo de minimizar o contato com quem não é membro da família. Essa separação radical entre quem é e quem não é da família era uma característica encontrada na maioria das sociedades do mundo até recentemente, espécie de compartilhamento baseado na exclusão.

O modelo mercantilizado de hoje permite ao mundo externo invadir a casa não só na forma de entrega de refeições e serviços de limpeza, mas também na forma de intrusão legal. Essas invasões – como os acordos pré-nupciais e a capacidade dos tribunais de afastar filhos e controlar o comportamento dos cônjuges –, embora em muitos casos sejam desejáveis, como na prevenção de abusos de cônjuges, esvaziam ainda mais o pacto interno tácito mantenedor das famílias unidas.

O “código legal” interno da família é terceirizado para a sociedade como um todo. Levanta a questão: qual é a vantagem da existência da família ou da coabitação em um mundo rico e comercializado, onde todos os serviços podem ser adquiridos?

O uso de mão de obra assalariada vinda de fora de casa faz parte de um modo de produção capitalista típico, com uma nítida distinção entre a produção e as esferas familiares – distinção fundamental para definir o capitalismo. O novo capitalismo hipermercantilizado unifica a produção e a família, mas o faz por incorporar a família ao modo de produção capitalista.

O capitalismo avança para “conquistar” novas esferas e “comoditizar” novos bens e serviços. Esse estágio de comercializar e/ou negociar por completo todas as relações pessoais tradicionalmente deixadas de fora do mercado implica melhorias substanciais na produtividade do trabalho.

A contrapartida da atomização é a comoditização. Na atomização, ficamos sozinhos porque todas as nossas necessidades podem ser satisfeitas pelo comprado de outras pessoas no mercado. Em plena comoditização, nos tornamos esse outro: satisfazemos as necessidades das pessoas por meio da comoditização de nossos ativos, inclusive de nosso tempo livre.

Enquanto consumidores, adquirimos a capacidade de comprar atividades antes fornecidas em espécie pela família. Enquanto produtores, o capitalismo também oferece um amplo campo de atividades possíveis de fornecermos aos outros. Desse modo, atomização e comoditização andam juntas.

A culinária tornou-se terceirizada e as famílias não costumam fazer todas as refeições juntas. Limpeza, reparos, jardinagem e criação dos filhos se tornaram mais comercializados e deixaram de ser “deveres de casa”.

O crescimento da gig economy – mercado de trabalho “sob demanda” ou de “bicos” com trabalhadores temporários e sem vínculo empregatício com empresas contratantes para serviços pontuais – comercializa nosso tempo livre, inclusive coisas possuídas, mas nunca usadas antes para fins comerciais. Agora, qualquer pessoa com algum tempo livre pode “vendê-lo”, por exemplo, ao trabalhar para uma empresa de compartilhamento de carona ou entrega de compras à distância.

Um carro particular era “capital morto” e agora se torna capital vivo se usado como “táxi” para empresas a Uber. Manter o carro ocioso na garagem passou a ter um custo de oportunidade.

Da mesma forma, casas no passado emprestadas por uma semana sem compensação para familiares e amigos agora se tornaram bens alugados para viajantes. Esses bens passam a ser mercadorias e adquirem um preço de mercado.

Não os usar é um claro desperdício de recursos pelo custo de oportunidade. Somos levados a pensar nessas atividades como bens ou serviços comerciais.

Novos mercados surgiram quando os bens tradicionalmente produzidos pelas famílias começaram a ser produzidos pela indústria e comercializados com uma produtividade muito maior na economia de escala com linhas de montagem. Hoje, em relação à comoditização dos serviços trata-se exatamente do mesmo processo.

Os serviços pessoais são mais difíceis de comoditizar porque os aumentos de produtividade são mais difíceis por definição: serviço exige o encontro direto do produtor com o consumidor. Logo, os ganhos da divisão do trabalho são menores.

Para Branko Milanovic, a comoditização do antes não comercial tende a fazer as pessoas realizarem muitos trabalhos diversos. Até, como no caso do aluguel de apartamentos ou casas, tende a transformá-las em “capitalistas” no seu dia a dia.

O tipo de trabalho emergente no século XXI não é o tipo considerado desejável por Max Weber porque falta ao trabalhador um senso de vocação ou a dedicação a uma profissão. Carece do caráter sistemático e metódico.

Os trabalhadores sem quaisquer características pessoais se tornam, do ponto de vista dos patrões, “agentes” totalmente intercambiáveis. Para Branko Milanovic, esses três eventos estão inter-relacionados: (i) mudança na formação da família (atomização), (ii) expansão da comoditização para novas atividades e (iii) mercados de trabalho totalmente flexíveis com ocupações temporárias.

Se ficam no mesmo trabalho por um longo período, os indivíduos tentam estabelecer relações de confiança com as pessoas com quem sempre interagem. Eles se envolvem no chamado de “jogos repetidos” com empatia e simpatia.

Quando aparecem novas pessoas lhe tratando como um completo estranho, você não tem muito incentivo para se comportar com “simpatia” e enviar sinais de comportamento cooperativo porque essas novas pessoas também se mudarão em breve. Investir em ser simpático é esforço necessário se justificado pela expectativa de essa simpatia ser retribuída adiante.

A avaliação profissional passa a ser se ele apresenta alguma “simpatia”, apesar da falta de relacionamentos duradouros. Por qual razão mudamos nosso comportamento quando nossas interações são comoditizadas? Porque somos reduzidos à função econômica, porque ser simpático é um investimento, porque a lógica de ser simpático vai além da lógica de mercado…

A disseminação da comoditização acaba com a alienação. A ordem das coisas é internalizada de tal maneira a ponto de não haver mais nada sem “precificação”.

A crescente comoditização de muitas atividades, a ascensão da gig economy e de um mercado de trabalho radicalmente flexível fazem parte da mesma evolução. São movimentos em direção a uma economia mais racional, mas, em última análise, mais despersonalizada, onde a maioria das interações será de contatos pontuais.

A atomização esvazia a vida familiar e a falta de interações pessoais reduz o comportamento “doce” do comércio. Ocorre em um contexto de amoralidade.

*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Brasil dos bancos (EDUSP).

 

A era da maldade, por Antonio Prata

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Com sua proposta para Gaza, Trump é autoritário, irresponsável, criminoso, mas sobretudo cruel.

Antonio Prata, Escritor e roteirista, autor de “Por quem as panelas batem”

Folha de São Paulo, 16/02/2025

Quando Trump afirma que vai expulsar mais de 2 milhões de palestinos de suas terras e transformar a Faixa de Gaza e na Riviera do Oriente Médio está sendo autoritário, irresponsável, criminoso, mas sobretudo cruel. Dizer a pessoas que perderam pais, filhas, amigos, casas, empregos e a perspectiva de um futuro que serão exiladas para milionários do mundo todo se bronzearem e tomarem gin tônica em Clubs Med construídos, literalmente, sobre os cadáveres de seus entes queridos é um escárnio –e é isso mesmo que pretende ser. Gasolina no fogo. Sangue no rio de piranhas. É Trump agitando o Coliseu das redes, unindo seu exército de admiradores no gozo com o sofrimento alheio.

Segundo reportagem da Folha, na última terça (11), um estudo de Berkley mostrou que o discurso de ódio no Twitter cresceu 50% desde que Elon Musk o comprou e o transformou em X. O próprio comprador ajudou a engrossar o caldo, semana passada, ao postar que havia passado o fim de semana “enfiando a Usaid” —agência americana de auxílio humanitário para o exterior— “no triturador de madeira”. Isso é um deboche com gente morrendo de Aids em Botswana e Lesoto, com famílias de hondurenhos e nicaraguenses desabrigados por furacões, sem falar dos mais de 10 mil funcionários da agência que aguardam ter seus empregos triturados a qualquer momento. O tuíte não é sobre a eficiência do governo. Não é Hayek nem Mises. É Goebbels e Calígula.

Embora a direita seja mais eficiente na administração da crueldade, não detém o seu monopólio. De maneira menos pragmática e menos abrangente, mas igualmente perversa, a esquerda contribui para a tragédia climática dos humores. Basta um “erro”, um “deslize”, uma discordância do protocolo politicamente correto da semana e, sob a desculpa esfarrapada da “justiça” ou da “reparação”, hostes partem pra cima do “infiel”, os smartphones e teclados dos computadores em riste, feito tochas e foices. O sadismo com que essa turba ataca os “hereges” não difere do de Trump falando do seu projeto de Gaza-o-Lago nem de Musk triturando a ajuda humanitária. No fundo, é só o prazer de fazer o mal.

A bruxa está solta –e não é só nas redes. Em São Paulo, dois ladrões numa moto matam o ciclista para roubar um celular. Pouco mais tarde, baleiam outro, por mais um telefone. No Rio, o motorista de Uber dá um chute nas costas e nocauteia a senhora que derrubou farelo de biscoito em seu carro. Os PMs jogam o cara da ponte.

Em Minas Gerais, em 2016, um jovem de 19 anos desafiou os candidatos interessados no apoio dos 10 mil membros da sua organização, a Direita Minas, a aparecerem em público com camisetas de Brilhante Ustra. Ustra era especialista em torturar pais e mães diante dos filhos e vice-versa. Uma vez, levou uma menina de 5 anos para ver a mãe, destroçada, no calabouço. A menina perguntou: “Mamãe, por que você tá verde”. Em 2022, esse jovem chamado Nikolas Ferreira foi o deputado federal mais votado do Brasil, hasteando as bandeiras do cristianismo e da defesa da família. Existe algo menos cristão e que agrida mais a família do que torturar filhos diante dos pais?

Se vivo fosse, depois de publicar “A Era das Revoluções”, “A Era dos Impérios”, “A Era do Capital” e “A Era dos Extremos”, acho que Eric Hobsbawm iria escrever “A Era da Maldade”. Sorte a dele, morreu antes de o mundo ir pro brejo.

 

A heterodoxia trumpista não funcionará, por Samuel Pessoa.

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Aumentar alíquotas de importação para atender seu eleitorado não vai dar certo

Samuel Pessoa, Pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (FGV) e da Julius Baer Family Office (JBFO). É doutor em economia pela USP.

Folha de São Paulo, 16/02/2025

A eleição de Trump responde a uma demanda muito clara. Nas últimas décadas, houve forte redução do emprego para o trabalhador de média escolaridade, em geral o trabalhador com o ensino médio completo e alguma formação técnica. Essa queda ocorreu tanto para o trabalhador do chão de fábrica, que foi substituído por robôs, quanto para o trabalhador de escritório, que foi substituído por computadores.

Adicionalmente, há uma queda da qualidade da rede pública de educação americana, desde os anos 1960, aproximadamente. De sorte que o filho do trabalhador que perde emprego na indústria não consegue competir com os filhos dos ricos, nem com os filhos dos imigrantes asiáticos, pelos bons empregos do Vale do Silício.

Contribuiu para o fenômeno, em menor dimensão, a emergência da China e sua capacidade industrial imensa, com força de trabalho bem-educada, disciplinada e com enorme capacidade de poupança. Uma versão turbinada do que foi o Japão nos anos 1980. Era comum professores de economia vaticinarem a superação da liderança americana pelo Japão.

O progresso técnico, a China em menor medida e a dificuldade de o sistema público de educação de igualar as oportunidades geraram o fenômeno dos flyovers: a classe média empobrecida do meio dos EUA que a elite sobrevoa quando vai de avião da Nova Inglaterra para a Califórnia. Os flyovers são os eleitores de Trump.

Para atender ao seu eleitorado, o plano de Trump a aumentar alíquotas de importação. Não funcionará. O elevado déficit comercial dos EUA resulta de dois fenômenos. Primeiro, do excesso de absorção doméstica sobre a produção. Segundo, do baixo custo de financiamento internacional dos EUA.

O excesso de absorção sobre a produção resulta das escolhas de consumo e poupança da população americana. Essas não são alteradas por tarifas de importação.

O baixo custo de financiamento do Tesouro americano é consequência de os EUA emitirem a moeda de curso global e de a dívida pública emitida pelo Tesouro ser vista como porto seguro, em momentos de aumento de risco. Além de os EUA terem a praça financeira mais eficiente que há: captarem no mundo todo a baixo custo e investirem em renda variável com elevado retorno.

A saída ortodoxa para o problema é atacar a dificuldade do sistema público de educação, para que ele volte a ser capaz de igualar as oportunidades. A segunda saída ortodoxa é reduzir a absorção doméstica, o que pode ser obtido por meio de elevação da poupança pública. Me parece que Trump não avançará por aqui.

Há heterodoxias possíveis. Por exemplo, uma política mais agressiva de elevação do salário mínimo e medidas legais que facilitem a capacidade de sindicalização seriam bem-vindas, e há boa teoria econômica sustentando essas heterodoxias, nem tão heterodoxas assim.

É possível adotarmos a sugestão de Daron Acemoglu, Nobel de Economia de 2024, e tributar o uso de robôs. Uma versão moderna do movimento ludista, comum na Inglaterra durante a primeira Revolução Industrial, talvez conseguisse, como sugere Acemoglu, induzir o progresso técnico a aumentar a demanda pelos trabalhadores de média escolaridade. Talvez funcione. Sou bem mais cético aqui. O que sabemos é que a heterodoxia trumpista não funcionará.

 

Os coachs mirins que pregam o não-estudar, por Danilo Marques

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Com relevante alcance nas redes, eles ensinam crianças a enriquecer rápido, até com “investimentos na Bolsa”. Têm como herói Pablo Marçal. O primeiro ensinamento: largar a escola. Um trabalho infantil estimulado pelos pais e pelas regras frouxas das Big Techs

Danilo Marques – OUTRAS MÍDIAS/Piauí – 14/02/2025

Um grupo de aproximadamente vinte crianças e adolescentes se reuniu na Praça Sol Peres, no Morumbi, em 18 de janeiro. Não estavam ali para jogar bola, caçar Pokémons ou ensaiar coreografias para o TikTok. Encontraram-se, em vez disso, para falar de investimentos. O organizador da trupe, um paulistano de 17 anos e 147 mil seguidores no Instagram, disse se tratar de um “encontro de jovens prósperos”; espíritos “obstinados” interessados em fazer networking para crescer no universo do marketing digital. A meninada, nos vídeos gravados naquela tarde, demonstra uma sobriedade pouco adolescente: cumprimentam-se com apertos de mão e tapinhas no ombro.

O líder do grupo se apresenta nas redes sociais como um empreendedor que, apesar de tão pouca idade, “fatura alguns dígitos” por mês. “Ensino a geração Z a prosperar”, diz a descrição de seu perfil do Instagram. Ele se veste apenas com camisetas lisas, geralmente pretas, e um ocasional colete puffer. Quando está num carro, só se permite ser fotografado no banco de trás, como alguém que dispõe de chofer. Calça sapatos semelhantes a mocassins e, ao posar para fotos, nunca encara a câmera – mantém o olhar fixo no horizonte, pensativo. Foi com esse olhar que anunciou, recentemente, ter faturado meio milhão de reais em 2024.

Em um de seus vídeos, o influenciador disse ter abandonado a escola aos 15 anos. “Eu larguei porque não me identificava mais com o ensino.” Segundo ele, não fazia sentido frequentar um ambiente com crianças que “almejavam fazer metade do dinheiro que eu estava fazendo”. No fim da gravação, recomendou aos seguidores que não trilhassem o mesmo caminho. Mas o recado era claro: empreender dá muito mais frutos do que estudar.

Como ele, há toda uma legião de influenciadores mirins que, transitando entre o linguajar corporativo e o tom de pregação neopentecostal, prometem aos seguidores o enriquecimento rápido. Um maranhense de 14 anos, que aparenta ter ainda menos, arregimentou 411 mil seguidores no Instagram com lições similares. “Ensino pessoas a mudarem de vida com a internet”, diz seu perfil. Posa para fotos ao lado de BMWs e garante já ter faturado mais de 200 mil reais com investimentos. A origem do dinheiro, nesse e na maioria dos casos, não é clara. Atribui-se ao marketing digital – termo abrangente que abarca a comercialização de qualquer tipo de produto na internet.

A mensagem é sempre a mesma: escola não dá futuro; trabalho de carteira assinada, idem. Os meninos são um subproduto da cultura coach que se alastrou pelo país nas últimas duas décadas. Ensinam que, com autodisciplina e um mindset adequado, qualquer um pode se tornar milionário pela força do próprio trabalho, sem depender de empregadores ou títulos acadêmicos. Basta, é claro, pagar algumas mentorias exclusivas para descobrir como chegar lá (o influenciador paulistano de 17 anos anuncia ter dado aulas a mais de 10 mil pessoas em um curso online que criou com dois amigos, ambos também adolescentes com ambição milionária).

O Brasil é um terreno fértil para ideias do tipo. Quase 40% da população ocupada trabalha na informalidade, segundo os dados mais recentes do IBGE. O número de trabalhadores com ensino superior completo vem crescendo, mas grande parte dessa mão de obra é contratada para funções que não exigem diploma universitário e têm teto salarial baixo. Um levantamento publicado em 2022 pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostrou que, no segundo trimestre daquele ano, quase 80% dos brasileiros com ensino superior que entraram no mercado de trabalho foram parar em cargos que exigiam, no máximo, o ensino médio completo. Ainda segundo o Dieese, mais de 1 milhão de brasileiros formados em universidade trabalhavam como lojistas e vendedores em 2022. A eles, somavam-se 86 mil motoristas de aplicativo e 70 mil entregadores de comida e outros produtos.,

Era questão de tempo até que esse fenômeno se refletisse na juventude. “A escola não prepara o jovem para o futuro, prepara para ser dependente”, professou o paulistano de 17 anos em um vídeo recente. “O ENEM NÃO VAI TE DEIXAR RICO”, alardeou em outra postagem, com todas as letras em caixa alta. Em dez anos, o número de inscritos no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) caiu pela metade, de 8,7 milhões para 4,3 milhões. O fenômeno se explica, em parte, pela profusão de cursos à distância baratos oferecidos por faculdades privadas, que não participam do Enem. Mas pesquisadores do tema também atribuem a mudança ao desinteresse dos jovens, num país em que o estudo não é mesmo garantia de bons salários e vida estável.

“Fazer faculdade, estágio, conseguir emprego, deslanchar na carreira, são coisas demoradas e que hoje são mais difíceis de conseguir”, diz Bernardo Soares, especialista em educação e aplicação de tecnologias em sala de aula. Ele lamenta que, por vezes, ao explicar as condições do mercado de trabalho aos alunos que o procuram, acaba desincentivando-os a seguir as carreiras que almejavam, como – justamente – a de professor. “Isso se soma ao retorno rápido que as redes te dão, sem que você precise necessariamente ter experiência na área. Elas podem dar lucro e visibilidade mais facilmente que as profissões tradicionais.”

“Faturei 300 reais sem fazer nada”, diz um menino sul-mato-grossense de 13 anos, num vídeo compartilhado com seus 30 mil seguidores. Até poucos meses atrás, o garoto só queria saber de jogos eletrônicos, como Roblox, e vídeos de TikTok. O pai, contudo, não gostava de ver o filho grudado em telas o dia todo. Deu-lhe de presente, então, uma pilha de livros. Entre eles, Geração de valor e O homem mais rico da Babilônia, que costumam figurar entre os títulos de auto-ajuda mais lidos do Brasil. O menino, em pouco tempo, largou os divertimentos online e passou a cultivar uma ambição milionária. “Só em 2023, leu 35 livros”, contou o pai à piauí. Zootecnólogo formado numa universidade federal, ele abandonou a área e hoje trabalha com manutenção de ar-condicionados. Tem 38 anos.

Orgulha-se da carreira digital que o filho vem construindo. Conta que o menino, seguindo os ensinamentos de influenciadores como Thiago Nigro – autor de Do mil ao milhão, livro mais vendido do país em 2020 –, passou a comprar doces para revender na escola. O dinheiro que arrecadava – e que não era pouco, segundo o pai – logo investia em fundos imobiliários e ações. O negócio fez sucesso, até que o colégio, preocupado com o volume de transações no recreio, proibiu as vendas. Pai e filho não viram alternativa senão vender os doces na rua. A rotina trabalhadora do menino passou a ser filmada pelo progenitor e postada nas redes sociais.

Hoje o garoto tem conta própria no Instagram. Está no segundo perfil – o primeiro foi suspenso pela Meta, empresa responsável pela rede, por ter cometido uma infração (o menino tinha menos de 13 anos, idade mínima para abrir uma conta). Antes de receber a sanção, acumulava 70 mil seguidores, que agora tenta recuperar. O pai, temendo um novo banimento, usou os próprios dados (nome, idade, etc.) para recadastrar o filho na rede.

O menino publica, em vídeo, pequenas lições com títulos chamativos: “Três ideias de renda extra”; “faturei 6.000 todos os meses”. Não costuma obter mais do que 10 mil visualizações por vídeo, mas, às vezes, acontece de uma postagem furar a bolha e virar motivo de chacota entre pessoas menos receptivas a esse tipo de conteúdo. Um desses posts, no qual o garoto anunciava uma aula sobre investimentos na Bolsa de Valores, acumula 871 mil visualizações. “O bullying precisa voltar, urgentemente”, comentou um usuário, fazendo troça do garoto. “Queria saber quanto vocês ganham para enganar o povo!”, escreveu outro, num vídeo em que o menino dizia ganhar “3 mil reais limpos, por mês” (na gravação, ele conversava com Renato Cariani, influenciador fitness que tem 9 milhões de seguidores no Instagram e atualmente é réu sob acusação de tráfico de drogas, suspeito de desviar produtos químicos para abastecer facções criminosas).

O pai diz não se incomodar com situações desse tipo. Pelo contrário, acha que o filho deve mesmo viralizar, mesmo que seja por razões negativas. As críticas geram tanto engajamento quanto os elogios, e o que importa, no fim, é que mais pessoas assistam ao menino, ele explica.

Com esse raciocínio, permitiu que o filho participasse no ano passado do reality show La Casa Digital, apresentado pelo ex-coach Pablo Marçal, e cujo objetivo é ensinar aos participantes técnicas avançadas de marketing digital. “Foi uma oportunidade que a gente não podia perder”, diz o pai. O menino viajou de Rondonópolis a São Paulo para participar das gravações, ao lado de outros onze menores de idade. “Boto mais fé em vocês do que neles [os adultos]”, disse Marçal em um dos blocos do programa intitulado “Conversa com os juvenis”. O ex-coach é atento às novas gerações e publicou, em 2022, o livro Como fazer um milhão antes dos 20, escrito em colaboração com o influenciador digital Marcos Paulo.

Algumas portas se abriram desde então para o menino, que se apresenta como “filho do Deus vivo, palestrante, influencer, escritor e investidor”. Recentemente, palestrou em um evento organizado por Marçal e, segundo o pai, pintaram oportunidades de negócios. A família agora está de mudança para Barueri (SP), esperançosa de conseguir algum dinheiro com o mercado financeiro e o marketing digital. O objetivo maior, diz o pai, é que o menino fature o primeiro milhão antes dos 18. Depois se corrige: o garoto “já é milionário”. Faltam zeros na conta, mas, segundo ele, ser milionário é antes de tudo um estado de espírito.

Renata Tomaz, professora da Fundação Getulio Vargas (FGV) que há mais de dez anos estuda a presença de crianças e adolescentes na internet, diz ter uma percepção pouco otimista sobre o tema. “Eu via crianças produzindo visões de mundo e discutindo questões muito importantes. Usando a rede como instrumento para se fazerem vistas.” Uma paisagem mais colaborativa e com potencial educativo, que foi completamente transformada pela plataformização da internet e a introdução do algoritmo. Para Renata, a rede permitia, lá atrás, uma “produção social da infância” mais ativa. “Hoje o que temos é um terreno privado, com um modelo de negócio ao qual todos os usuários tiveram que se submeter.”

Nas pesquisas que conduziu com meninos e meninas, Tomaz diz ter ouvido uma dezena de vezes a frase: “Eu não preciso crescer para fazer dinheiro.” Ela conta de adolescentes que, por volta dos 15 anos de idade, sonham construir impérios milionários vendendo cursos e investindo na Bolsa de Valores. Alguns já se portam como empresários bem-sucedidos, na roupa e no jeito de falar. É o que na antropologia se denomina “imitação prestigiosa” – a forma pela qual as pessoas constroem sua própria imagem e comportamento nos moldes daqueles que admiram.

“Crianças sempre tiveram a capacidade de identificar, em quaisquer contextos, figuras dignas de prestígio”, diz Tomaz. Para quem vive colado no feed do Instagram e no YouTube, essas figuras frequentemente são coaches e influenciadores que ostentam apartamentos luxuosos, carros possantes e uma vida, em suma, invejável. Eles ocuparam, no imaginário de muitas crianças, o espaço de idolatria que antes era reservado a jogadores de futebol.

Até certo ponto, são crianças fazendo o que sempre fizeram. A diferença está no alcance das redes sociais, que não apenas expõem (e por vezes remuneram) a meninada que cria conteúdo como abrem brechas para todo tipo de transação financeira. “O trabalho infantil continua proibido no Brasil”, diz Cíntia Burille, advogada especializada em questões da infância e da adolescência. Ela vê com preocupação a liberdade que pais e responsáveis têm dado aos filhos na internet. Não apenas pela exposição que as crianças sofrem, mas por elas se envolverem numa operação comercial. “Esses influenciadores se enquadram perfeitamente na ideia de trabalho infantil, o que é vetado por nosso ordenamento jurídico.”

Burille acha, contudo, que a responsabilidade maior por esse problema é das big techs, que estabelecem regras frouxas para o cadastro de crianças e pouco fiscalizam seu cumprimento. Nas principais redes (Instagram, TikTok e Facebook), é exigido apenas que o usuário tenha 13 anos ou mais. “A gente sabe que são inúmeros os perfis de crianças com idades inferiores a 13 anos, até de recém-nascidos”, diz Burille. “Tenho um posicionamento bastante firme de que as redes sociais não só podem, como, na verdade, devem ser responsabilizadas.”

À piauí, a Meta afirmou por meio de nota que contas de pessoas menores de 13 anos devem ser administradas pelos responsáveis e isso deve ser sinalizado na bio – o campo em que os usuários geralmente se apresentam. Não é o caso de vários perfis de crianças encontrados pela reportagem. A piauí criou um perfil-teste no Instagram e informou ter mais de 13 anos; em nenhum momento a plataforma exigiu comprovação da idade. Ainda segundo a Meta, “todo conteúdo deve ser compartilhado pelos responsáveis em nome do menor, e não na voz ou na perspectiva do menor” – o que, novamente, nem sempre acontece. A empresa disse ter restringido as ferramentas de monetização disponíveis para os menores de 18 anos: “Isso significa que essas contas não podem oferecer assinaturas, receber presentes ou selos.”

Mas quem quer encontrar outros caminhos. O influenciador paulistano de 17 anos que promoveu o encontro de jovens no Morumbi, em janeiro, cadastrou seu curso de marketing digital na Kirvano, uma plataforma de vídeos. A empresa veta, em tese, que crianças com menos de 13 anos façam compras na plataforma; para vender conteúdo, então, só quem tem mais de 18. Mas lá está o curso do rapaz, apresentado por ele e dois colegas, todos menores de idade (se venderam tantas assinaturas quanto dizem que venderam, já embolsaram quase 2 milhões de reais burlando as regras). É possível supor que os compradores tenham a mesma idade do trio ou sejam mais jovens. A piauí pediu esclarecimentos à Kirvano, mas não obteve resposta.

O rapaz não escolheu fazer o evento no Morumbi por acaso. Gosta de frequentar o bairro, reduto histórico da elite paulistana onde, um dia, funcionou uma grande fazenda de café. Embora passe hoje por um processo de desvalorização, o bairro “cheira a prosperidade”, conforme disse um de seus amigos, num vídeo que gravaram recentemente. No Morumbi, o trio montou um escritório onde grava aulas e podcasts sobre marketing digital, eventualmente com a participação de convidados. “Fuja do ambiente de pobre, esteja onde os ricos estão”, eles ensinam em diferentes postagens.

Com base na sua experiência pessoal, o influenciador mirim não tem dúvidas: “Se colocar empreendedorismo no lugar, sei lá, de reação química ou de alguma fórmula matemática nas escolas, a pobreza no Brasil será reduzida em 90%.” Convicto disso, no último 12 de outubro abordou crianças em um shopping de São Paulo e as presenteou com livros, como Os segredos da mente milionária. Acredita conter ensinamentos que transformarão suas vidas.

 

Calor extremo e desigualdades, por Márcia Castro

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O mundo anda para trás com as recentes decisões do governo dos EUA

Márcia Castro, Professora de demografia e chefe do Departamento de Saúde Global e População da Escola de Saúde Pública de Harvard.

Folha de São Paulo, 15/02/2025

Em julho de 2024, após a temperatura média global diária ter atingido um novo recorde, o secretário-geral da ONU, António Guterres, declarou que bilhões de pessoas no mundo estavam enfrentando uma epidemia de calor extremo.

Notícias sobre calor extremo são constantes.

Em 2024, o ano mais quente já registrado, 111 cidades do Brasil tiveram temperaturas acima da média por cerca de 150 dias, afetando mais de 6 milhões de pessoas. O município de Melgaço, no Pará, teve 228 dias com calor extremo.

Recentemente, o Rio Grande do Sul registrou temperaturas extremamente altas (acima de 40°C). O início das aulas teve que ser adiado já que apenas 1 em cada 4 escolas estaduais tem aparelhos de ar-condicionado.

No Brasil, apenas 70% das salas de aula nas escolas públicas eram climatizadas. Importante ressaltar que vários estudos mostram uma redução na atenção e no desempenho escolar devido ao calor extremo.

Os efeitos na saúde são marcantes. Entre 2000 e 2019, cerca de 489 mil mortes relacionadas ao calor ocorreram a cada ano no mundo. Considerando apenas as pessoas com mais de 65 anos de idade, a mortalidade relacionada ao calor aumentou aproximadamente 85% entre os períodos de 2000-2004 e 2018-2022. Na América do Sul, o número de mortes relacionadas ao calor aumentou 160% entre os períodos de 2000-2004 e 2017-2021.

No Brasil, entre 2000 e 2018, estima-se que quase 50 mil mortes foram atribuídas às ondas de calor. Durante o mesmo período, foi observado maior risco de morte na Amazônia durante períodos de onda de calor, especialmente as mais intensas.

Esses efeitos, entretanto, afetam desproporcionalmente algumas áreas e grupos populacionais. Ilhas de calor urbano, com pouca vegetação e dominadas por asfalto retêm o calor. Em áreas de habitação precária, com populações vivendo em condições de vulnerabilidade, crianças têm maior probabilidade de frequentar escolas sem ar-condicionado e famílias estão mais expostas aos efeitos do calor.

Além disso, idosos, mulheres, mulheres grávidas, lactentes, crianças pequenas, pessoas com problemas de saúde pré-existentes (incluindo saúde mental e pessoas com deficiência), pessoas que trabalham ao ar livre, aqueles em funções fisicamente exigentes ou que trabalham em ambientes internos sem ventilação também sofrem de forma desproporcional.

O impacto social e econômico é enorme. Os efeitos do calor extremo afetam o capital humano e, portanto, o potencial de desenvolvimento econômico, agravando as desigualdades existentes.

Em 2024, a cidade do Rio de Janeiro foi pioneira ao lançar o Protocolo de Enfrentamento ao Calor Extremo, que estabelece cinco níveis de calor e ações especificas a serem tomadas em cada nível.

Um estudo recente estima que, no nível mais severo (temperaturas acima de 44°C por pelo menos duas horas por dia), há um aumento de 50% nas mortes por diabetes, insuficiência renal e hipertensão na cidade do Rio de Janeiro.

Mitigar os efeitos do calor extremo demandam ações globais e locais.

Globalmente, o mundo anda para trás com as recentes decisões do governo dos EUA.

Localmente, as ações incluem a melhoria das condições das cidades e escolas. Acima de tudo, ações concretas implicam na redução das desigualdades.

 

Americanos vão aprender que importação é vida, por Rodrigo Zeidan

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Enquanto isso, vamos continuar sem importar para proteger indústrias locais; que não exportam

Rodrigo Zeidan, Professor da New York University Shanghai (China) e da Fundação Dom Cabral. É doutor em economia pela UFRJ.

Folha de São Paulo, 15/02/2025

O que é melhor para uma sociedade, que um país seja exportador ou importador líquido de produtos? Se você respondeu que é melhor exportar, está errado, por mais contraintuitivo que pareça. Países ricos tendem a importar mais. Nem todo país rico é importador líquido, mas muitos países que consistentemente apresentam déficits comerciais são ricos.

Ou seja, a sanha de Trump para reduzir o déficit americano não faz sentido. Por exemplo, três quartos das importações mundiais são de produtos intermediários e equipamentos necessários para aumentar a produção local. Tarifas reduzem a produção total. Por exemplo, as tarifas de aço de Bush em 2002 e 2003 reduziram exportações e empregos, de acordo com publicação de Lydia Cox. Essas tarifas não funcionam no Brasil, nos EUA, na China, ou em Marte. As tarifas sobre aço e alumínio no primeiro governo Trump geraram mil empregos diretos no setor, mas destruíram 75 mil empregos nas indústrias manufatureiras americanas. Um desastre. O mercantilismo barato de Trump é estupidez. Reciprocidade brasileira seria outra.

Usamos estratégias parecidas e nos ferramos. O país exporta commodities e importa manufaturados exatamente por taxar importações demais, resultado da estratégia de substituição de importações acelerada pelos militares na década de 1970. No passado, ela ajudou a nos jogar na hiperinflação. Como vários governos não mudaram muito isso, pois nada é mais forte que pressão de indústrias subsidiadas, somos o país mais fechado para o comércio.

Os Estados Unidos da América Latina estão seguindo a mesma cartilha dos militares brasileiros e da Cepal (quem disse que direita e esquerda não concordam em algo?). Ao cortar importações para subsidiar as indústrias locais, governos jogam exportações no buraco.

No Brasil, precisamos ser exportadores líquidos para contrabalançar a saída de capital de outras fontes, mas isso não significa que seria o ideal. Importamos o que não fabricamos bem, o que liberaria recursos da sociedade para exportar mais. Quanto mais crescemos, mais importamos e exportamos.

Na década de 1980, o Brasil transacionava mais que a China. As exportações chinesas chegaram a US$ 100 bilhões em 1994, enquanto no Brasil isso só aconteceu em 2004. Hoje? Os chineses exportam o equivalente a R$ 20 trilhões, dez vezes mais que o Brasil (R$ 2 trilhões). Importações? R$ 15,3 trilhões, ante R$ 1,57 trilhão no nosso fechado mercado.

Enquanto mantivermos extensas políticas protecionistas, estaremos às margens das cadeias globais de valor. É por isso que na China política industrial tem chance de dar certo. Lá, subsidiam-se indústrias (não empresas) e esses subsídios são temporários, voltados para setores com capacidade exportadora. Não exportou? Quebra-se. Hoje, são mais de 130 montadores de veículos elétricos no país. Em 2030, devem ser 17. As outras vão quebrar ou serão engolidas. Esse é o capitalismo chinês, no qual o jogo não é processar outras empresas por vender mais barato, como a Anfavea quer fazer no Brasil. A BYD não quer chutar a Tesla da China, quer vencê-la.

Os americanos vão aprender que importação é vida. Enquanto isso, vamos continuar sem importar para proteger indústrias locais. Que não exportam. E continuaremos sem sair do lugar.

 

 

Tarifas, subsídios e protecionismo

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O ano de 2025 começou com grandes alterações nas relações econômicas, políticas e produtivas entre as nações, gerando mal-estar, preocupações crescentes e desconfianças generalizadas, cujos resultados são desconhecidos por completo. O retorno de Donald Trump é o epicentro destas grandes alterações sobre o cenário internacional, gerando variadas políticas protecionistas, novas tarifas e alíquotas comerciais e confrontos com nações e grupos de nações, que podem catalisar maiores confrontos entre países hegemônicos.

No cerne destas discussões e políticas protecionistas, estão a perda de espaço da economia norte-americana no cenário global, que embora seja a maior economia do mundo, apresenta uma perda crescente de competitividade dos setores industriais e produtivos, ainda mais quando percebemos a ascensão asiática, notadamente a chinesa, que busca um reequilíbrio de poder e de riqueza num mundo volátil, incerto, quente, volumoso e marcado pelo predomínio do mercado financeiro global.

Nesta crescente guerra comercial que vivemos atualmente, as nações buscam defender seus setores econômicos e produtivos, impondo alíquotas de importações maiores, novas formas de proteção industrial, taxação de empresas vistas como estratégicas e medidas claras de proteção interna, defendendo seus empregos, suas empresas e a renda de sua população, garantindo crescimento econômico.

Numa economia globalizada, muitas políticas protecionistas adotadas pelos governos podem gerar graves constrangimentos internos para sua estrutura produtiva, elevando custos de produção e culminando no incremento dos preços internos, gerando inflação e medidas de austeridade das Autoridades Monetárias, elevando as taxas de juros e desacelerando a economia nacional, com graves impactos sobre a renda nacional e a geração de emprego.

É importante que as economias nacionais compreendam os grandes desafios da sociedade contemporânea, as pressões comerciais e políticas dos norte-americanos devem ser vistas com tranquilidade e maturidade e, ao mesmo tempo, precisamos preservar a soberania e a autonomia nacionais, afinal, muitas das políticas anunciadas pelo governo norte-americano são uma verdadeira afronta a democracia e a soberania dos parceiros comerciais.

Muitas destas políticas anunciadas pelo governo Donald Trump podem levar parceiros históricos a se bandearem para o lado chinês, buscando novas oportunidades comerciais, recursos monetários e financeiros para financiar sua expansão comercial e produtiva, além de angariar proteção contra as retaliações estadunidense, desta forma, estamos vislumbrando uma grande transformação geopolítica mundial, um redesenho da estrutura produtiva e novas formas de poder e de riqueza.

A ascensão chinesa está reconfigurando a estrutura global de poder, levando o governo norte-americano a uma postura mais agressiva e pragmática, neste momento, as economias em desenvolvimento, como a brasileira, precisam compreender os desafios que se avizinham, atraindo investimentos asiáticos, buscando a transferência de tecnologias, construindo parcerias estratégicas para investimentos em infraestrutura necessárias para o crescimento econômico, mas ao mesmo tempo, construir consensos internos para investir fortemente em capital humano, incrementando os recursos orçamentários para a pesquisa científica e tecnológica, deixando de lado recursos obscuros que abastecem os ralos da corrupção e contribuem ativamente para a perpetuação dos desequilíbrios que caracterizam a sociedade brasileira. Vivemos um momento único para isso, precisamos forjar lideranças que compreendam o momento histórico e compreendam as oportunidades que se abrem para a coletividade.

Ary Ramos da Silva Júnior, bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Mestre, Doutor em Sociologia e Professor Universitário.

Esquerda erra ao bater na globalização, por Hélio Schwartsman

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Maior integração econômica ajudou a tirar da miséria milhões de pessoas em países emergentes

Hélio Schwartsman, Jornalista, foi editor de Opinião. É autor de “Pensando Bem…”

Folha de São Paulo, 07/02/2025

A esquerda brasileira sempre bateu na globalização. Fazia-o, creio, porque esse movimento era parte do chamado Consenso de Washington, o que vale dizer que era uma manifestação do imperialismo ianque.

Na prática, porém, a globalização é um dos ingredientes da notável redução da desigualdade mundial. Entre 1990 e 2020, o coeficiente de Gini do planeta passou de 70 para 60,6. Quanto mais esse número se aproxima de 100, mais concentrada é a renda. A queda foi puxada pela diminuição da desigualdade entre países. O Gini que compara nações foi de 60 para 47,1 no mesmo período.

Não estamos aqui falando de abstrações estatísticas. No mundo real, a transferência de postos de trabalho dos países ricos para os emergentes tirou milhões de pessoas da miséria, especialmente na China.

Outra faceta desse fenômeno aparece na redução da proporção de terráqueos vivendo em pobreza extrema, que passou de 36,22% em 1990 para 9,18% em 2017. Historicamente, a pobreza extrema foi uma fiel companheira da humanidade. O índice só passou a patamar inferior a 50% em 1970.

Não vejo como a esquerda, pelo menos a esquerda internacionalista, poderia deixar de aplaudir esse movimento.

Daí não se segue, é claro, que a batalha esteja ganha. A pobreza não extrema ainda é prevalente no mundo, e a própria globalização, apesar de um resultado positivo, também produziu efeitos colaterais adversos.

O mais notável deles é que o enriquecimento de emergentes se deu principalmente à custa de setores da classe média de países ricos, que viram seus bons empregos na indústria migrarem para outras nações.

Essa população sentiu-se deixada para trás (os ricos de muitos desses países ficaram ainda mais ricos), o que gerou o ressentimento que hoje ajuda a eleger líderes de extrema direita como Donald Trump.

A globalização agora sai de cena para dar lugar a um mundo de guerra tarifária. É pena, porque quanto menos integradas são as economias dos países menos riqueza é produzida e distribuída, ainda que imperfeitamente.

 

Assim o capital nos faz reféns do trabalho frenético, por Jacobin Brasil

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Desigualdades brutais, salários estagnados e ideia de autorrealização via trabalho geraram jornadas mais massacrantes. Desmonte dos sindicatos só aprofundou a exploração. Como construir políticas que resgatem o tempo livre e a felicidade coletiva?

Jamie McCallum em entrevista a Meagan Day, na Jacobin Brasil. 05/02/2025 – OUTRAS MÍDIAS

Em 2014, uma mulher chamada Maria Fernandes morreu por conta de um vazamento de monóxido de carbono no estacionamento de uma loja de conveniência Wawa no norte de Nova Jersey. Ela trabalhava em média 87 horas por semana em três lojas diferentes da Dunkin’ Donuts e estava cochilando em seu carro como costumava fazer entre os turnos, com o motor ligado para aquecer. Um porta-voz da empresa comentou que Fernandes tinha sido uma “funcionária modelo”.

Esta é a história que abre o livro Worked Over: How Round- the-Clock Is Killing the American Dream [Esgotados: Como o Trabalho Exaustivo Está Matando o Sonho Americano] de Jamie McCallum. Mas não foi isso que inspirou McCallum, um professor de sociologia no Middlebury College, a estudar o fenômeno do excesso de trabalho nos Estados Unidos.

Em vez disso, o interesse foi despertado por sua observação de que os alunos em ambientes acadêmicos de elite estavam “quase competindo entre si para ver o quão duro eles poderiam trabalhar e para mostrar sua ética de trabalho”, ele disse à Jacobin. “Fiquei interessado em por que pessoas abastadas tratam o trabalho como um distintivo de honra.” Eventualmente, o projeto se expandiu para incluir trabalhadores de todas as outras faixas de renda.

Meagan Day, da Jacobin, falou com McCallum sobre o porquê de muitos trabalhadores de baixa renda terem que trabalhar tanto, o porquê de muitos trabalhadores de alta renda aparentemente quererem trabalhar muito, e como podemos construir uma sociedade que coloque o trabalho em seu devido lugar. Esta entrevista foi levemente editada para maior clareza.

Como a jornada de trabalho mudou nas últimas décadas?

Acho que, quando algumas pessoas falam sobre o livro, elas se concentram nessa estatística, que demonstra que as horas de todos os trabalhadores assalariados aumentaram significativamente desde os anos setenta. Acho que esses dados são muito importantes.

No entanto, se você se aprofundar, encontrará muitas variações. O que achei interessante foi que os trabalhadores de baixa renda aumentaram mais sua jornada. Estamos todos familiarizados com profissionais de colarinho branco sobrecarregados, mas não acho que essa seja a parte mais interessante da história. Então, há uma tendência de excesso de trabalho para todos, mas há uma distribuição desigual desse aumento na quantidade de tempo de trabalho entre diferentes classes de pessoas.

Outra dimensão é o aumento da imprevisibilidade e volatilidade de turnos e horários, o que é, principalmente, o caso de trabalhadores de baixa remuneração do setor de serviços. Em outras palavras, seus horários tornaram-se cada vez mais controlados por seus gerentes e pela tecnologia. Horários imprevisíveis são voláteis por concepção, não apenas por acaso. E eles criam uma vida profissional incrivelmente estressante e agitada.

A última dimensão é o aumento da jornada para as pessoas que simplesmente não têm horas suficientes, o que está conectado à volatilidade. Como a maioria dos empregadores exige quarenta horas de disponibilidade para trabalhar, mesmo que você tenha apenas vinte horas de trabalho, é difícil encontrar um segundo emprego em que você também possa se envolver de forma razoável. Como resultado, muitas pessoas estão sofrendo de desemprego involuntário.

Você pode explicar como os empregadores se beneficiam de ter pessoas disponíveis para quarenta horas, mas trabalhando apenas vinte, e sem saber quais exatamente serão essas horas efetivamente trabalhadas?

Quando eu trabalhava no varejo, sabia minha escala com três semanas de antecedência, eu aparecia e tinha um turno normal. Mas agora a nova tecnologia permitiu que os chefes agendassem pessoas apenas para os horários em que os trabalhadores são necessários. Em muitos algoritmos de agendamento, uma empresa pode relacionar o clima, a época do ano, a hora do dia e outros tipos de fatores que os ajudariam a determinar o quanto eles podem vender em um determinado dia. E isso os ajuda a definir quantos funcionários de frente eles precisam em uma loja de varejo, por exemplo. Isso, por sua vez, permite que eles paguem menos pela mão de obra e ganhem mais dinheiro.

A outra razão é que os empregadores acham que tornar as horas imprevisíveis e voláteis impede as pessoas de conversar com e conhecer seus colegas de trabalho em turnos regulares, que é como muito da organização política acontece. O interessante é que não funcionou bem assim, e agora há um grande movimento contra as escalas imprevisíveis.

Ao buscar entender os padrões de mudança da quantidade de tempo de trabalho, você oferece três explicações: a econômica, a cultural e a política. Como definiria cada uma delas?

Muitas vezes pensamos no problema do excesso de trabalho em termos individuais, relacionados ao desejo, necessidade ou aptidão de cada pessoa. Mas há múltiplas explicações não individuais do problema que compõem o argumento econômico.

Há um gráfico no livro que mostra o movimento paralelo do coeficiente de Gini, que é uma medida que quantifica a desigualdade, e o aumento de horas de trabalho nas últimas duas décadas. A maior parte dos lucros nos últimos quarenta anos tem ido para as pessoas no topo, enquanto os salários estão estagnados na base. Se os salários estão estagnados, então a principal maneira pela qual as pessoas da classe trabalhadora e até mesmo da classe média, em sua maioria, ganham mais dinheiro é trabalhando mais horas.

Então a desigualdade impulsiona longas jornadas de trabalho. E a força motriz da desigualdade é o poder de classe. A principal medida do poder de classe é o declínio do movimento trabalhista, que foi o meio através do qual as pessoas obtiveram uma redução da jornada de trabalho, bem como um mínimo suficiente de horas, e coisas como o pagamento de horas extras, por um bom tempo. Se você erodir o poder desse veículo pelo qual as pessoas reduzem suas horas, as conquistas simplesmente começam a desaparecer.

O próximo é o argumento cultural, que ajuda a explicar por que especialmente os trabalhadores de alta renda acabam trabalhando longas horas, embora tenham comparativamente mais controle sobre seu tempo, e o tempo livre ostensivamente é um bem social. Por que eles não trabalhariam menos se pudessem?

Encontrei duas razões. Uma é que os trabalhadores de alta renda na verdade estão sujeitos a algumas das mesmas forças de precariedade que os trabalhadores de baixa renda.

A segunda é que a ideologia do trabalho mudou para produzir uma nova ética de trabalho. Essa ideologia prioriza a autorrealização e a individualidade expressiva, e sugere que você obtém isso por meio do trabalho, e obtém mais disso por meio de mais trabalho.

Entrevistei muitos trabalhadores de alta renda, especialmente na indústria de tecnologia, e descobri que trabalhar mais horas era uma espécie de senso de identidade para eles.

A explicação política é que ambos os partidos têm seguido uma política de colocar pessoas pobres para trabalhar nas últimas duas décadas na forma de workfare, exigindo que trabalhadores atendidos por programas sociais trabalhem como contrapartida. Como resultado disso, você tem uma grande quantidade de novas pessoas inundando o mercado de trabalho, o que tem derrubado os salários. Isso tem usurpado totalmente o tempo das pessoas, tempo que era muito necessário para cuidar de crianças ou familiares ou estudar ou o que seja.

Quais são algumas outras demonstrações reais do problema do excesso de trabalho, conforme manifestado na vida dos trabalhadores de baixa renda?

O exemplo mais óbvio no livro é a história de uma mulher que morreu enquanto trabalhava dividindo turnos em três Dunkin’ Donuts diferentes no norte de Nova Jersey. Ela morreu enquanto dormia em seu carro, o que fazia frequentemente entre os turnos. Ela trabalhava em média oitenta e sete horas por semana, sustentava um parceiro com filhos e se tornou por um minuto uma figura-propaganda das longas horas de trabalho e da economia de baixos salários. Ela se tornou um símbolo para outros trabalhadores que não tiveram o mesmo destino, mas que, no entanto, estavam sobrecarregados.

Se você andar para cima e para baixo em qualquer rua importante para o setor de varejo em uma cidade grande e conversar com trabalhadores fazendo seus intervalos, como eu fiz, rotineiramente descobrirá que alguns deles começaram seu turno às 9h45 e terminaram às 15h15 — esses horários estranhos que não fazem sentido até você perceber que seus turnos estão sendo divididos. E muitos deles dirão que precisam começar seu próximo trabalho uma hora e meia ou duas horas depois. As estatísticas trabalhistas podem capturar esse tempo como lazer ou tempo livre, mas, na verdade, a maioria das pessoas o gasta correndo para comer, pegando transporte público ou trocando de uniforme.

Um resultado é que o local de trabalho acaba tendo uma grande importância na vida das pessoas. Conversei com muitas que se sentiam e se descreviam como sobrecarregadas, mesmo que trabalhassem menos de quarenta horas por semana, só porque passavam mais tempo procurando trabalho ou correndo entre empregos, que é tempo gasto pensando sobre o trabalho e fazendo atividades relacionadas a ele, mesmo que não estejam sendo pagas. Então, trabalho excessivo e trabalho insuficiente são dois lados da mesma moeda, com uma característica compartilhada de aumento de estresse e intensidade, com as pessoas, às vezes, até os vivenciando simultaneamente.

É mais fácil entender por que trabalhadores de baixa renda estão trabalhando mais, mas vamos retornar ao extremo oposto do espectro de classes. O que explica jornadas mais longas entre aqueles com mais controle sobre seu tempo de trabalho?

Isso foi o mais interessante para mim, acho que em parte porque sou um workaholic notável. Então, trabalhadores de baixa renda têm visto um aumento maior em suas jornadas de trabalho nas últimas décadas, mas ainda é verdade que trabalhadores de alta renda, em sua maioria homens, lideram o ranking. Por que isso? Essas coisas ideológicas são frequentemente colocadas como se as pessoas simplesmente tivessem uma nova ideia sobre o trabalho, ou o trabalho melhorasse e, portanto, decidíssemos trabalhar mais.

O que eu fiz foi tentar descobrir uma maneira de conectar um fascínio cultural com a ética do trabalho às mudanças materiais reais na forma como as pessoas trabalhavam. Em outras palavras, encontrar uma base política e econômica para essa nova crença na ideologia positiva da ética do trabalho.

Eu remonto isso aos anos setenta, quando os trabalhadores industriais começaram a exigir não apenas salários mais altos e assistência médica, mas empregos mais significativos. Eles se sentiam presos à linha de montagem, presos ao relógio, e quando isso entrou em contato com a política cultural dos anos sessenta e setenta, as pessoas não queriam mais fazer esse tipo de trabalho. Elas queriam fazer algo mais autorrealizável.

Você tem um discurso similar que surge entre pessoas que trabalham em escritórios no final dos anos oitenta e noventa, essa ideia de que o escritório é um inferno e as baias são como uma gaiola. Pense no ótimo filme Como Enlouquecer Seu Chefe. Acho que havia desejos sinceros de ter um trabalho que não fosse tão enfadonho e monótono, com o qual todos nós podemos nos identificar.

Adicione a isso o fato de que o trabalho passou de uma economia majoritariamente industrial para uma economia amplamente de serviços durante esse período. Uma economia de serviços realmente exige que as pessoas participem mais. Você não está apenas parado ao lado da linha de montagem; você tem mais cautela. As pessoas começaram a se ver cada vez mais como indivíduos valiosos para uma equipe. Tornou-se positivo se ver como importante para um processo de trabalho.

Combinando essas coisas, você obtém essa nova demanda por um trabalho melhor, mais significativo e mais individualizado. O que acontece depois é que gerentes, supervisores, gurus de negócios e assim por diante tomam nota e são capazes de repensar e reembalar o trabalho em si como sendo mais relevante e significativo. Os gerentes foram capazes de converter esse desejo por um trabalho com mais propósito em uma nova ética de trabalho, uma nova cultura de trabalho, para trabalhadores de alta renda.

Como as ideias do livro respondem à crise da covid-19?

Quando a pandemia chegou, meu primeiro pensamento foi: “Ah, não, vou publicar este livro sobre longas jornadas de trabalho quando ninguém está trabalhando, quão bizarro isso será?”

Mas, na verdade, os primeiros dados sobre esse assunto parecem sugerir que muitas pessoas estão trabalhando mais. A medição do uso de e-mail indicou mais horas por dia, significativamente mais em alguns setores, especialmente entre trabalhadores de colarinho branco.

A crise da covid parece ter exacerbado algumas das tendências que descrevi no livro e também produziu algumas dinâmicas inesperadas e interessantes. Por exemplo, devido aos cuidados com as crianças e outras responsabilidades domésticas, a multidão que trabalha em casa está vivenciando mais o dia pontuado sobre o qual falamos com pessoas que têm escalas flexíveis.

Enquanto isso, trabalhadores essenciais são basicamente apenas para serem sacrificados. E há também um número enorme de pessoas desempregadas cujas vidas são, no entanto, dominadas pela busca por trabalho e pela preocupação de que não o encontrarão. Então, há novamente muita desigualdade em como a vida profissional das pessoas é organizada em todo o espectro de classes.

O problema do excesso de trabalho afeta pessoas em todo o espectro, e não deixa ninguém em melhor situação além dos capitalistas que lucram com o trabalho. Que tipos de coisas podemos fazer para diminuir o número de horas que trabalhamos?

As pessoas precisam, antes de tudo, de mais controle sobre as horas que trabalham, o que requer ter mais controle sobre as condições do trabalho em geral. E a melhor maneira de garantir isso é por meio de um sindicato ou algo parecido. Então essa é a mudança mais óbvia.

A luta pelo controle também exige que lutemos pelo acesso a serviços básicos. Por exemplo, a maioria das pessoas obtém assistência médica por meio de seu empregador. Muitos sindicalistas relatam que a assistência médica é um empecilho para as negociações sindicais. Eles não podem falar sobre salários, tempo ou segurança porque estão muito ocupados negociando assistência médica. Se tirarmos isso da equação implementando assistência médica pública nacional ou o Medicare for All, a dependência das pessoas em relação ao trabalho diminuirá e a capacidade delas negociarem os termos de seus empregos aumentará.

Além disso, acho que também há políticas pelas quais podemos lutar que são totalmente vencíveis. Poderíamos simplesmente recortar, copiar e colar políticas de outros países onde as pessoas trabalham menos e vivem vidas mais felizes, políticas que nos permitiriam tirar mais tempo de folga para a saúde, para o trabalho de cuidado, para férias e assim por diante.

Finalmente, isso é um pouco menos concreto, mas pensamos no tempo como algo muito objetivo, mas isso não é verdade no capitalismo. Empregadores e trabalhadores não pensam no tempo da mesma forma. Em uma economia onde os trabalhadores têm controle democrático sobre seus empregos, o que é, digamos, uma sociedade socialista, o tempo de trabalho seria valorizado de forma muito diferente. Os próprios empregos seriam valorizados de forma diferente, e podemos imaginar que as pessoas descobririam uma maneira mais saudável de encaixar o trabalho em suas vidas.

 

Guerras Comerciais

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O comércio internacional passou por grandes transformações nas últimas décadas, inúmeras nações atrasadas, produtoras de produtos primários de baixo valor agregado, ganharam relevância no cenário global e se transformaram em grandes atores produtivos, ganhando escala e produtividade no mercado mundial, melhorando suas estruturas econômicas, diversificando a produção, consolidando suas instituições, ganhando espaço geopolítico, levando ao enriquecimento e melhorando as condições de vida da população, um verdadeiro milagre impulsionado pelo comércio.

As trocas comerciais entre as nações impulsionam o crescimento das economias, aumentando a geração de renda, melhorando o salário da população, fortalecendo o consumo interno, aumentando as receitas tributárias dos governos nacionais e contribuindo diretamente para a melhora das condições de vida da população, levando a sociedade a investimentos em infraestrutura, levantando escolas, universidades, centros de pesquisas, hospitais e consolidando o capital humano, dando um impulso para o desenvolvimento econômico.

No século XX, os Estados Unidos foi o grande pioneiro do desenvolvimento econômico, comercializando com todas as regiões do globo, diversificando sua estrutura produtiva, incrementando a produtividade, investindo fortemente em pesquisa científica e tecnológica, expandindo seus domínios econômicos para o espaço e se destacando nas mais variadas áreas do conhecimento, se transformando na nação hegemônica, dotada de grandes oportunidades e a mais admirada, ao mesmo tempo, a mais temida do cenário internacional.

Depois dos anos 1990 as nações asiáticas passaram a ganhar espaço dos Estados Unidos no cenário global, incrementando um embate que perdura há muitas décadas, inicialmente o confronto foi com o Japão e, posteriormente, foram os chineses, de longe o maior desafio para a sociedade norte-americana. A ascensão da China representa um concorrente jamais visto, afinal, estamos falando da maior estrutura comercial do mundo, responsável por um setor industrial que produz mais de US$ 4 trilhões e detém um superávit comercial de mais US$ 1 trilhão, um valor inimaginável.

Percebendo a ameaça chinesa, a “nova” administração dos Estados Unidos vem incrementando políticas para diminuir a dependência do concorrente asiático, espalhando tarifas comerciais, impondo proteção a empresas nacionais, ameaças generalizadas e represálias agressivas a empresas chinesas. Neste pacote de variadas políticas protecionistas, muitos aliados estão sendo taxados, gerando graves constrangimentos diplomáticos, tais como vizinhos tradicionais, como o México, Panamá e Canadá.

Neste embate para retomar a liderança global, os Estados Unidos da América vêm perdendo espaço na sociedade global, antes era visto como o líder inconteste da sociedade global, hoje sua atuação está sempre gerando conflitos e constrangimentos, estimulando guerras e destruições, difundindo agressões, rancores e ressentimentos, além de uma atuação titubeante, imatura e sempre visando seus interesses particulares, deixando de ser um farol da civilização e se transformando num espaço de degradação moral.

Num ambiente de grandes desafios climáticos, preocupações com problemas energéticos e do aquecimento global, além de grandes conflitos militares que crescem em todas as regiões do globo, precisamos repensar a governança global e fortalecer os laços políticos e sociais entre as nações, criando instrumentos de integração e interdependência, rechaçando todas as medidas unilaterais e individualistas adotadas pelo “novo” governo norte-americano, afinal, a história recente nos mostra que esse unilateralismo nos leva a grandes destruições, agressividades e devastações civilizacionais.

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Mestre, Doutor em Sociologia e Professor Universitário.

 

 

 

 

Todos perdem com guerra comercial de Trump, por FSP

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Medida que aumenta tarifas sobre importações de Canadá, México e China pode impactar mercado de trabalho e inflação

Folha de São Paulo, 02/02/2025

Com sua retórica beligerante costumeira, Donald Trump instituiu a primeira medida que pode gerar uma guerra comercial com grande impacto para a economia mundial.

Sem distinguir entre aliados e adversários, o presidente dos Estados Unidos decidiu impor tarifas de 25% sobre as importações do México e do Canadá —com exceção de energia, que será taxada em 10%.

Também haverá tarifas de 10% para importações da China, em adição às cobranças já vigentes, que abrangem certas categorias de produtos.

Juntos, os três perfazem 43% das importações americanas, o equivalente a US$ 1,3 trilhão (em torno de 4,8% do PIB).

A alta das taxas com essa abrangência fará com que a cobrança média sobre todas as importações passe de cerca de 3% para quase 11%, acima da tarifa linear de 10% proposta por Trump durante sua campanha eleitoral.

As justificativas alegadas não são apenas econômicas. Ao invocar poderes emergenciais, Trump mencionou o fluxo ilegal de imigrantes e drogas, em especial os opioides traficados por cartéis mexicanos com componentes obtidos na China. No caso do Canada, haveria evidência de aumento do tráfico pela maior fronteira não vigiada do mundo.

Trump faz valer, assim, sua obsessão com tarifas, que prometeu usar mais amplamente como arma, e não somente para conter o déficit comercial do país, de quase US$ 1 trilhão anual. Na melhor das hipóteses, as medidas podem ser revertidas após negociações, mas os riscos são grandes.

No caso dos vizinhos, há gigantesca assimetria. Ambos destinam quase 80% de suas exportações aos EUA, o que representa 22% do PIB do Canadá e 35% do PIB do México. Já as compras feitas pelos EUA dos dois países somam 4% do PIB americano.

Mesmo assim, o Canadá já anunciou a mesma cobrança sobre cerca de US$ 106 bilhões em bens que importa dos EUA. A China foi mais contida, prometendo levar o caso à Organização Mundial do Comércio, mas não se descarta uma reação mais dura. O México tem a posição mais frágil.

De todo modo, também haverá custos para os EUA. Mesmo com diminuta representação no PIB, as compras americanas são grandes em setores considerados críticos, como o automotivo.

A inviabilização de um pedaço da cadeia produtiva é capaz de produzir reação cumulativa que custará empregos para a população americana. Não se devem descartar efeitos recessivos.

Projeta-se ainda um impacto inflacionário, algo que pode ser contraproducente para Trump. A alta nos preços de alimentos e gasolina, afinal, foi uma das explicações para a derrota eleitoral do Partido Democrata.

Por ora, o republicano não parece se importar e acredita que seu método agressivo pode trazer vitórias imediatas. Mas o uso repetido de tarifas e da coerção pode afastar aliados e, ao longo do tempo, enfraquecer a liderança global já combalida dos EUA.

 

Classe média foi esmagada pela política? por Michael França

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Enquanto arca com impostos, ela sente que recebe pouco em troca

Michael França, Ciclista, vencedor do Prêmio Jabuti Acadêmico, economista pela USP e pesquisador do Insper. Foi visiting scholar nas universidades de Columbia e Stanford.

Folha de São Paulo, 04/02/2025.

O que são políticas públicas? Elas são instrumentos para corrigir as disparidades nos pontos de partida ou devem ser utilizadas para reforçar as vantagens daqueles que já largaram à frente? No cerne da discussão está o dilema sobre se elas devem funcionar como um vetor de mudanças ou apenas manter a ordem vigente. No final, elas são reflexos de escolhas. Escolhas tanto políticas quanto ideológicas. Escolhas que determinam quem deve ganhar e quem deve perder.

Essas escolhas se materializam em decisões. Cada orçamento que aprovamos carrega consigo uma mensagem. Se priorizamos o investimento em segurança para proteger propriedades privadas mas negligenciamos escolas públicas, estamos dizendo que proteger coisas é mais importante do que investir no potencial humano. Quando optamos por subsidiar grandes corporações em vez de garantir saúde de qualidade, estamos declarando que o lucro é mais valioso do que a vida.

Tal hierarquia de prioridades reflete mais do que simples decisões administrativas, pois expõe a essência de nossos valores e nossas omissões. No Brasil, muitas políticas surgem para atender às mais variadas demandas, mas frequentemente ignoram os problemas centrais. A proliferação de programas desarticulados e sem avaliação levanta a questão: estamos realmente avançando no combate à pobreza e à desigualdade?

Bem, não podemos ser fatalistas. O país conquistou avanços desde a redemocratização. Programas como o Bolsa Família, a ampliação do acesso à educação básica e as políticas de saúde pública, como o SUS, trouxeram benefícios. Reduzimos a pobreza extrema e conseguimos, em alguns momentos, diminuir as desigualdades. No entanto, poderíamos ter avançado muito mais rapidamente se houvesse um projeto de desenvolvimento consistente.

O desafio não está apenas em combater a pobreza, mas em reformular as estruturas que a sustentam. Em vez de implementar políticas públicas integradas para limitar fatores externos que impedem o desenvolvimento dos indivíduos, a classe política frequentemente opta pela fragmentação e ineficiência, reforçando ciclos de privação. A incapacidade de integrar soluções sistêmicas perpetua a pobreza, tornando a mobilidade social uma exceção, não a regra.

Por outro lado, continuamos alimentando a concentração de riqueza com políticas que beneficiam desproporcionalmente os mais ricos, seja por meio de subsídios fiscais e benefícios tributários seletivos, seja com gastos públicos que privilegiam o topo da pirâmide.

Nesse cenário, a classe média sente o peso da omissão. Sem o amparo de benefícios sociais voltados às camadas mais pobres e distante dos privilégios fiscais e políticos das elites, ela sente o peso de um Estado que parece exigir muito, mas entregar pouco. Essa desconexão gera uma insatisfação difusa, mas crescente. O descontentamento se traduz em desaprovação política, além de alimentar a corrosão do atual pacto social, abrindo ainda mais espaço para soluções populistas que apenas aprofundam o problema.

 

Cenário turbulento

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O retorno de Donald Trump para a Presidência dos Estados Unidos da América gerou graves acanhamentos para a sociedade internacional, com a adoção de medidas unilaterais, ameaças generalizadas, taxações crescentes, chantagens variadas, saída de organismos multilaterais, conflitos com aliados históricos e deportações em massa de imigrantes ilegais, todas estas medidas criaram graves constrangimentos para a sociedade mundial, podendo levar a um isolacionismo norte-americano que impacta negativamente sobre o comércio global, ainda mais, quando percebemos que a economia mundial, desde o incremento da globalização, se integrou em cadeias produtivas, onde a produção de mercadorias, bens e serviços estão divididas em variados países e regiões, uma nova forma de divisão internacional do trabalho.

O furacão Donald Trump pode gerar conflitos generalizados em todas as regiões do globo, afinal os Estados Unidos comercializam com todas as regiões do mundo, importando e exportando bens e serviços para muitas nações. Se as políticas adotadas pelo “novo” governo dos Estados Unidos prejudicarem de forma variada outros países, estas nações, com certeza, retaliarão as políticas norte-americanas, gerando maiores incertezas no comércio global, aumentando os preços internos, incrementando a inflação e levando a Autoridade Monetária a aumentarem as taxas de juros como forma de controlar os preços e evitar um processo inflacionário que poderia desequilibrar o sistema econômico e produtivo.

No caso brasileiro o impacto é imediato e preocupante, a elevação dos Juros nos Estados Unidos absorve grandes estoques de dólares na economia mundial, desvalorizando as moedas nacionais e imediatamente os Bancos Centrais, como o brasileiro, aumentará seus juros internos para evitar uma fuga de dólares, com o incremento dos juros internos a economia tende a atrair recursos especulativos, estimulando os ganhos fáceis de poucos agentes econômicos, fortalecendo o rentismo, aumentando o endividamento dos Estados e aumentando a cobrança dos financistas que exigem uma redução dos dispêndios sociais, vislumbrando o pagamento de juros estratosféricos arbitrados pela Autoridade Monetária.

Com menos de dez dias na presidência dos Estados Unidos, Donald Trump gerou preocupações com todos os imigrantes ilegais, deportando de forma violenta cidadãos de outras nações, gerando constrangimentos diplomáticos com países menores e mais frágeis politicamente, gerando revolta, ressentimentos e insatisfação com essa política de deportação agressiva. Essas medidas unilaterais podem levar muitas nações a bandearem para o lado dos chineses, aprofundando as relações comerciais e geopolítica com o maior concorrente dos Estados Unidos, levando os norte-americanos a um possível isolacionismo político e comercial que podem fragilizar os fluxos de comércio entre as nações, estimulando o crescimento do protecionismo, além de aumentar as taxações de produtos externos, gerando um verdadeiro caos econômico e produtivo, afinal a economia global se estrutura na interdependência e na integração entre as nações.

Além das posturas beligerantes nas questões de deportação em massa de imigrantes ilegais, as ameaças ao vizinho México, a anexação da Groenlândia e do Canadá geraram incertezas e preocupações, para piorar o cenário, o “novo” governo norte-americano abandonou organismos tradicionais, como Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Acordo de Paris, enfatizando um unilateralismo e uma imaturidade que nada auxilia na resolução dos grandes desafios da sociedade mundial, na verdade aprofunda um caos que serve para interesse de poucos em detrimento da maioria.

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Mestre, Doutor em Sociologia e Professor Universitário.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Comoção seletiva, por Salem Nasser

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Salem Nasser – A Terra é Redonda – 18;01;2025

O que é preciso para que alguém veja, enxergue, um genocídio em curso?

À clássica pergunta, sobre se faz barulho a árvore que cai sem que haja ali alguém por testemunha, eu sempre respondi com a afirmativa, não sem um traço de irritação. Incomodava-me a presunção de que o som só se produzisse para ouvidos humanos; era, para mim, uma manifestação do nosso antropocentrismo soberbo.

Se alguém estiver por perto enquanto cai a árvore, os seus sentidos serão tocados pelo maior ou menor espetáculo, pelo som estrondoso ou delicado, pela visão da queda que começa lenta e logo acelera, pelo tremor do chão… E logo talvez emerja alguma emoção, diante da experiência de assistir, por exemplo, ao fim de um ser vivo… E, finalmente, talvez nos ocorra refletir, sobre a inevitabilidade da morte, ou sobre desertificação e mudanças climáticas… Talvez decidamos, inclusive, fazer algo a respeito.

Se, no entanto, diante da queda, concomitante ou não, de duas árvores diferentes, um mesmo observador só ouvir o ruído de uma delas, só enxergar a queda de uma delas, e só se deixar emocionar e logo refletir diante de um dos dois fenômenos, a explicação para essa “cegueira relativa” precisa ser buscada no ser humano que é esse observador, e no meio social em que ele está inserido.

Voltemos agora: o que é preciso para que alguém enxergue um genocídio em curso ou, inversamente, para que alguém deixe de enxergar um genocídio em curso?

Sei que o exemplo do genocídio é extremo e que haveria muitas coisas entre isso e a queda de uma árvore que poderiam servir à reflexão sobre a cegueira e sobre a seletividade de nossos sentidos e de nossas emoções. Ocorre, no entanto, que, no momento em que escrevo, há de fato um genocídio em curso e pouca gente parece disposta a ver! E mais, se eu puder sustentar meu argumento para o genocídio, esse fenômeno que, em princípio, deveria se impor aos sentidos e às emoções de todos, assim como a todas as consciências vivas, então sua relevância estará provada para todas as demais coisas.

É difícil conceber um observador que seja ou tenha sido testemunha direta de dois processos de sistemática destruição de povos, ainda que eles possam existir, como sendo o nosso observador típico. Para entendermos o fenômeno para o qual quero apontar, é preciso ter em mente o observador a quem chegam as notícias dos eventos, as narrativas, as imagens, os textos, os filmes, as análises.

É óbvio, por isso, que, se quisermos entender a relatividade ou a seletividade das percepções e dos julgamentos, precisamos combinar aquilo que está no próprio ser humano socialmente localizado com o que está, ou deixa de estar, nas narrativas que chegam até ele.

As narrativas podem ser diversas e podem estar em competição, mas nem a multiplicidade nem o conflito são imediatamente perceptíveis como tal para o observador médio. De algum modo, parece haver uma tendência a que algumas narrativas ganhem curso livre e sejam vistas como sendo as “naturalmente verdadeiras”, ao mesmo tempo em que as alternativas sejam percebidas como marginais, divergentes, merecedoras de menor crédito.

Em minha experiência pessoal, a existência de narrativas em competição pela prerrogativa de representar o que seria a verdade se fez constatar muito cedo e se tornou uma preocupação central e permanente. Diante de grandes acontecimentos da vida internacional, revoluções, guerras, intervenções, eu invariavelmente encontrava duas narrativas opostas que se pretendiam exclusivamente verdadeiras: uma circulava nos jornais e nos noticiários televisivos – e logo entre professores e colegas de escola, além dos clientes da loja e os transeuntes – e outra dominava o ambiente familiar e comunitário. Por vezes, não bastavam duas narrativas, já que nada impedia o vizinho e o seu grupo de terem a sua própria verdade.

Muito cedo eu percebi que era possível transformar o herói em vilão, o algoz em vítima, e vice-versa, que era possível arbitrar o começo e o fim das histórias, que se podia inverter razões e consequências. Isso tudo era problemático para quem ainda tinha alguma ilusão sobre a existência de verdades objetivas.

Mas era mais problemático ainda o efeito que têm as narrativas divergentes sobre a localização da justiça.

É assim que, gradualmente, os temas correlatos, das narrativas em competição, e daquelas naturalizadas, da cegueira seletiva e da comoção seletiva foram se tornando naquilo que eu poderia chamar de “minha grande questão”.

Alguns acidentes foram contribuindo para que as expressões se consolidassem em meu espírito e se relacionassem entre si. Primeiro, quando dos ataques ao jornal satírico francês Charlie Hebdo eu quis reagir em texto e resolvi que o título deveria ser “Comoção Seletiva”. Muitas coisas trágicas aconteciam naqueles dias, uma guerra absurda na Síria, atentados no Egito, na Tunísia, no Niger, refugiados naufragando e aparecendo mortos nas praias. Nada, no entanto, podia competir, em comoção sentida e expressada, com os ataques ao Charlie Hebdo.

Um belo dia, resolvi recolher textos escritos por mim e publicados ao longo de dois ou três anos, e resolvi que o melhor nome para a coletânea seria “Comoção Seletiva”. Entre os artigos, mais de um faziam referência a Edward Said, à sua preocupação com as narrativas e as representações do outro, um outro a quem não se permite o privilégio de contar a si mesmo, e também à sua referência à cegueira específica de grandes intelectuais e de grandes humanistas, que viam tudo, ou quase tudo, mas eram incapazes de enxergar os palestinos como um povo e a sua tragédia como uma grande injustiça histórica.

Um bom amigo, editor, leu com grande generosidade os textos e me disse que o conjunto podia muito bem se chamar “Cegueira Seletiva” e que isto seria talvez mais apropriado.

Sou, portanto, devedor, em relação aos amigos, aos acidentes e às trocas que vão sedimentando em nós as ideias que pensamos ter.

E não há dúvidas quanto à inspiração “Saidiana” das minhas reflexões. A ideia de um Ocidente que guarda para si a prerrogativa de representar o outro, o oriental ou, de modo geral, o não-ocidental, é um achado de extrema potência. Ela carrega em si a imagem das narrativas em competição, das narrativas naturalizadas, das narrativas impossíveis.

Um pequeno desvio, para referir a impossibilidade de contar, de fazer ouvir a própria voz: se eu soubesse desenhar, eu produziria um palestino que conta a sua história contra uma forte ventania; o vento empurraria as suas palavras para trás do orador e ninguém o poderia ouvir a imagem do cego que tudo vê menos a questão Palestina, apesar de parecer mais banal, emerge para mim como especialmente assustadora, por ser um caso muito particular e específico de seletividade e por acometer pensadores críticos que, em princípio, têm preocupação genuína com os temas da justiça, do poder… Basta dizer que entre os exemplos listados por Edward Said estão nomes como os de Isaiah Berlin e Michel Foucault.

Sei, é claro, que o adjetivo “seletiva” que faço acompanhar a cegueira e a comoção pode carregar o sentido de uma seletividade voluntária, proposital, consciente. Interessa mais, no entanto, a ocorrência dos pontos cegos e dos vieses, da visão e dos sentimentos, enquanto fenômeno involuntário, enquanto movimento natural, por assim dizer.

É claro que, enquanto buscamos as razões paro que vemos e para o que não vemos, e enquanto buscamos entender o processo de naturalização de narrativas dominantes, e olhamos para o observador, para a sociedade em que está inserido e para o modo como chegam até ele as narrativas, não podemos descartar a possibilidade de que os resultados, a cegueira e a naturalização, decorram de uma intenção que não está no observador. Não se pode descartar a possibilidade de um processo controlado.

Noam Chomsky, um interlocutor longevo de Edward Said, é um dos principais pensadores a tentar revelar o processo através do qual detentores de poder produzem consenso e o papel que a mídia desempenha nessa construção.

E foi justamente em Noam Chomsky que encontrei um conceito aparentado com minhas preocupações em torno da seletividade das nossas percepções e sobre o caráter dominante de alguns mecanismos produtores de narrativas. Em certa ocasião, ouvi Noam Chomsky dizer que a ideia de que havia liberdade no campo do debate político nos Estados Unidos era uma ilusão. Apesar da aparência de total liberdade, quem observasse com cuidado veria que as margens dentro das quais era possível discordar estavam claramente desenhadas. Quem quisesse desafiar essas margens não seria necessariamente calado, mas estaria condenado a falar para os muito poucos, os marginalizados, os excluídos do mercado principal de ideias.

O conceito que encontrei, relacionado a esse universo de argumentos, é o da “Janela de Overton”. Concebida por um cientista político, a janela em questão expressa a ideia de que, contrariamente ao que se poderia esperar, os atores políticos não agem como portadores de opiniões políticas próprias que submetem à consideração do eleitorado; eles, na verdade, ajustam o seu discurso ao espaço político que percebem presente no lugar e no tempo. A janela e os bordes do discurso e do debate possíveis estão dados.

A pergunta inescapável, para a qual só se pode ter respostas tentativas, é esta: em que medida é natural, espontâneo, o processo pelo qual se desenham as fronteiras e os limites, e em que medida é possível que alguém determine as margens e as ideias que podem circular entre elas?

Ao pensar nisso, sempre tive tendência a visualizar, como exemplo definitivo da verdade da tese, o fato de que é praticamente impossível defender o comunismo e ser ouvido nos Estados Unidos, quanto mais participar da vida política do país. Hoje um exemplo mais atual seria o da impossibilidade de ser uma voz dissonante em relação à defesa de Israel.

Isso tudo nos coloca diante de um conjunto de questões existenciais de difícil resposta: quanto apreendemos da realidade que nos circunda, e quanto do que percebemos é de fato realidade? É possível falar em verdade, e é possível conhecer alguma verdade?

Sei que deve haver limites para as referências que se faz à cultura popular se fizermos questão de preservar alguma respeitabilidade, mas assumo aqui um risco calculado. Tenho em mente o dilema que domina o filme Matrix: em que medida vivemos uma ilusão, ou uma mentira, construída por um arquiteto que nos é desconhecido, e que só pode ser enfrentada mediante o custo de uma vida clandestina nos subsolos sombrios, de trapos por roupas e mingau insosso por única comida?

Não se trata de uma falsa pergunta. Nesta nossa vida concreta, quais são as reais possibilidades de desafiarmos as narrativas dominantes? Com que chances de sucesso? Mediante que preço?

Ocorreu-me recentemente que, assim como não posso acreditar no que dizem ver aqueles grandes espíritos que apenas não veem a tragédia palestina, me vejo forçado a colocar em questão a história oficial dos grandes eventos do passado já que, diante dos grandes eventos da história presente, eu vejo que se está construindo hoje, sob meu olhar, as narrativas ficcionais que servirão de história oficial no futuro.

Tenho em mente, quando digo isso, dois grandes processos que ao mesmo tempo ilustram os fenômenos das narrativas naturalizadas, da cegueira seletiva e da comoção seletiva, e revelam a face verdadeira de um Ocidente que ainda pretende reservar para si o privilégio exclusivo de representar o outro e o mundo, para si e para o mundo.

Refiro-me à guerra na Ucrânia e à guerra na Palestina (este segundo é um nome genérico que engloba o genocídio em curso que vitima a população de gaza, mas também compreende as ações armadas que se estendem para além da Palestina e envolvem outros atores). A concomitância dos dois eventos é especialmente relevante porque permitiu a descoberta dos diferentes pesos e medidas mobilizados na construção das narrativas e presentes na comoção pretensamente sentida.

Assim como podemos questionar os processos de apreensão da realidade e duvidar das possibilidades de alguma verdade, cabe apontar para a seletividade da nossa comoção, do nosso ultraje, da nossa revolta, diante do que percebemos como injusto ou como desumano.

No limite, assim como nos perguntamos se estamos inseridos em toda uma vida ficcional, podemos também nos perguntar se sentimos de verdade. Se cada um de nós, enquanto indivíduo, consegue identificar as instâncias em que, por exemplo, nossas emoções e nossas capacidades empáticas são mobilizadas diante do sofrimento de uma criança, e as instâncias em que o sofrimento de uma outra criança nos deixa indiferentes.

A nossa comoção, quando acontece, é genuína, ou pelo menos pode ser – não tenho em mente os que fingem e mentem. Na medida em que se manifesta seletivamente, no entanto, podemos duvidar do que deveria ser a sua conexão com a injustiça, com o sofrimento, com um senso de humanidade. Isso tudo se impõe a nós quando nos referimos à comoção que se manifesta no indivíduo.

É importante notar, no entanto, que muitas vezes falamos de comoção seletiva ou de conceitos equivalentes, atribuindo essa seletividade de pesos e medidas, e de sentimentos, a instituições, a Estados, a organizações internacionais, a tribunais… Isso é especialmente verdadeiro em circunstâncias como as que referi acima, guerras, genocídios, crimes de guerra e contra a humanidade…

Dizemos, então, que Estados Unidos, França, este ou aquele outro Estado, a ONU, o Tribunal Penal Internacional, fazem prova de comoção seletiva. Sabemos, é claro, que esses entes são desprovidos de sentimentos, e que, em princípio, ao menos, as pessoas que falam e agem em nome dessas instituições são sim capazes de sentir. A confusão, e a imprecisão com que nos referimos ao comportamento dos Estados e de outros entes, decorrem, ao menos em parte, do fato de que quem se manifesta em nome deles, apesar de ter em mente razões exclusivamente políticas, se coloca enfatizando argumentos de natureza moral, afirmando o amor à justiça e à humanidade.

Para um observador mais atento, fica evidente a inconstância dos valores afirmados, a sua contradição com os comportamentos, a seletividade com que são aplicados. Para todos os demais, mais uma vez, o apagamento das contradições e da seletividade fica por conta de narrativas bem construídas e naturalizadas, narrativas que não revelem os seus próprios furos de enredo e que não permitam qualquer memória de mais longa duração.

Como sugeria acima, a coincidência no tempo das guerras na Ucrânia e na Palestina nos fornece uma oportunidade única na revelação da verdadeira natureza do jogo. E isso porque a parte do mundo que alguns hoje chamam de Ocidente Coletivo ou Norte Global – ou seja, Estados Unidos e seus aliados – se sentiu forçada a caminhar concomitantemente em duas direções contrárias, e mais, a ir ao extremo nas duas direções: ao mesmo tempo demonizar a Rússia e justificar as ações criminosas de Israel.

É nesse sentido que se pode dizer que neste momento histórico caíram as máscaras. E não se pode subestimar a potência desse fato. Enquanto caem as máscaras do Ocidente, não são apenas os rostos dos atores individuais que se revelam; este é antes o anúncio do possível desfazimento do sistema internacional, criado por esse Ocidente à sua imagem e semelhança, e das suas instituições.

O sistema tinha, segundo nos é dito, pretensões de universalidade, mas as várias seletividades para as quais eu vim apontando negam qualquer verdade dessa pretensão. Perceba-se, olhando para os eventos recentes no seio da ONU e de outras organizações internacionais, assim como nos tribunais internacionais, como as estruturas institucionais ameaçam ruir diante da tensão entre sua orientação principiológica pelo universalismo e a dificuldade de agir contrariamente aos interesses de seus criadores.

O caso da Palestina talvez sirva como nenhum outro a ilustrar os temas da cegueira seletiva, da comoção seletiva, das narrativas dominantes e naturalizadas e da crise do sistema internacional montado sobre um conjunto de narrativas avançadas pelo Ocidente.

Antes de ser uma instância de uma narrativa dominante, a Palestina é um lugar, geográfico, mental e simbólico de muitas e diversas narrativas, a bíblica, enquanto coração dos monoteísmos, a histórica e geográfica, enquanto parte do coração do mundo e do berço das civilizações, a bíblica ressuscitada na Europa protestante e no sionismo europeu, a colonial dos grandes impérios que dividiam entre si o mundo…

Depois de mais de cem anos de uma Questão Palestina que poderia ser narrada enquanto uma luta de resistência de um povo que quer preservar o seu território e a sua identidade, a narrativa que impera soberana é outra: havia antissemitismo na Europa e havia pogroms violentos que vitimavam os judeus europeus; isso se combinava com uma longa história de perseguições contra o grupo; por conta disso, chegou-se à conclusão de que o grupo só estaria seguro se tivesse um Estado para si; levando em conta o relato bíblico, o estabelecimento desse Estado na Palestina histórica seria como uma volta para a casa prometida por Deus; o genocídio dos judeus europeus durante a segunda guerra mundial só confirmava a tese; o território da Palestina não teria um povo e os palestinos não seriam um povo; antes de Israel, tudo era atraso, e depois, tudo progresso; todas as guerras foram culpa dos árabes e estes só perderam territórios porque não aceitaram os acordos; que hoje o justo seria uma solução de dois Estados em que a Palestina seria algo menos do que soberana…

O que não aparecia, antes desta guerra em que, como se disse, muitas máscaras caíram, na narrativa, era a realidade da ocupação do território destinado a ser a Palestina, em princípio, de acordo com o pretenso consenso, era a realidade do sistema de segregação e de apartheid, era a realidade da limpeza étnica.

Esses aspectos da realidade eram, para quem quisesse olhar, indiscutíveis. E, no entanto, ninguém queria ver; ninguém queria pagar o preço de sustentar narrativas que revelassem essa verdade; e parecia que ninguém estava disposto a se deixar comover.

Que mistério será esse? Eu proponho a seguinte chave, se não para desvendar definitivamente o enigma, pelo menos para iluminar um pouco o nosso caminho. Sinto que, na verdade, apesar da profusão de narrativas que tentam provar o contrário, não nos afastamos tanto assim do Século XIX.

Essencialmente, a Questão da Palestina pertence ao tempo em que o Ocidente dito civilizado se permitia a dominação e a exploração dos não-ocidentais, bárbaros. É um caso típico de colonização por assentamentos e por substituição de população. Em parte, então, é porque as vidas dos bárbaros não valem o mesmo que as dos civilizados que não são ou não precisam ser vistas, não merecem uma narrativa que as conte e que as valorize, não nos fazem sentir e muito menos agir. Mas essa é parte da razão, não é toda ela. Há certamente mais. Quem ousa contar o resto?

Salem Nasser é professor da Faculdade de Direito da FGV-SP. Autor de, entre outros livros, de Direito global: normas e suas relações (Alamedina).

 

Onde erramos?

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As mudanças na sociedade contemporânea criam sentimentos variados, de um lado, encontramos grupos eufóricos com o desenvolvimento da tecnologia, novos modelos de negócios e grandes descobertas científicas, com ganhos para os seres humanos. De outro lado, percebemos uma desesperança que nos geram grandes preocupações pelo crescimento assustador da pobreza, ascensão da desigualdade, incremento dos conflitos militares e o aumento da exclusão, afinal mais da metade da população global vive em condições indignas, sem perspectivas, sem oportunidades, sendo obrigados a se entregarem a ocupações precárias e insalubres, com isso, percebemos uma perpetuação da indignidade dos indivíduos. Neste cenário, poderíamos destacar uma questão que nos aflige: onde erramos como seres humanos?

Ao analisarmos as visões destes dois grupos, percebemos que ambos estão corretos em suas análises, vivemos num momento de grande desenvolvimento das tecnologias, com potencial para melhorarmos as condições de vida dos seres humanos, mas para que isso aconteça, a contento, precisamos encontrar um ponto de equilíbrio nestas percepções. Os avanços do conhecimento científico é um ativo fundamental da civilização e deve melhorar as condições de vida das pessoas e das comunidades, não apenas para uma pequena parte dos indivíduos, afinal, estamos vislumbrando uma situação marcada por um grande distanciamento dos grupos sociais, uns muito ricos e poderosos, dotados de grande poder material e, ao mesmo tempo, uma legião de miseráveis degradados e sem perspectivas palpáveis de melhoras, culminando, certamente, em uma verdadeira guerra civil.

Estamos caminhando a passos largos para a metade do século XXI e as discussões são primitivas, estamos questionando valores que nos definem como civilização, estamos deixando de lado o combate aos preconceitos, deixando de defender o clima, promover a inclusão social e a diversidade, assuntos prioritários estão sendo colocados em segundo plano. No lugar, estamos nos concentrando em assuntos desnecessários e desconexos, defendendo privilégios de terceiros que pouco trazem de positivo para a sociedade, estamos perdendo tempo visualizando fake News e as divulgando para acreditar que somos conscientes politicamente, defendendo brutalidades e acreditando que isso resolve o problema da segurança pública, além de defender uma falsa liberdade de expressão que serve apenas para gerar uma sociedade alienada, ignorante e facilmente dominada.

Precisamos estimular discussões mais sólidas e maduras, afinal, num mundo de constantes transformações estamos ficando, cada vez mais atrasados, sem espaços e sempre dependentes tecnologicamente, constantemente escravos das novas tecnologias, máquinas e equipamentos que compramos a preço de ouro e nos descrevemos como empreendedores e inovadores, será mesmo?

Precisamos repensar os pactos de mediocridades que cultivamos todos os anos, precisamos compreender que para nos transformarmos numa nação civilizada necessitamos incluir a nossa população, dando oportunidade e chance de ascensão social, investindo fortemente em capital humano, diversificando nossa pauta produtiva e deixando de fomentar o rentismo que perdura nos primórdios da sociedade.

Para respondermos à pergunta inicial precisamos saber o que queremos no futuro: será que queremos cultivar a desigualdade e a exclusão que caracterizam a sociedade brasileira? Muitos querem, estão satisfeitos com a situação que vivenciamos, agora, para aqueles que estão preocupados, precisamos rever as discussões desnecessárias e equivocadas que dominam a sociedade, precisamos rever prioridades, garantir direitos básicos, como água potável, saúde, educação e alimentação. Em suma, o direito a uma vida digna.

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário.

 

 

Por que não superamos o trabalho escravo? por Raíssa Araújo Pacheco

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Raíssa Araújo Pacheco – Blog da Redação – 22/11/2024

Livro da Editora Unesp analisa como a exploração forçada e trabalhos análogos à escravidão são pilares do capitalismo brasileiro. Para o autor José de Souza Martins, tal forma é parte essencial da reprodução desse sistema econômico.

Desde o fim do século XIX, o Brasil se orgulha de ter abolido a escravidão, com a promulgação da Lei Áurea, em 1888. No entanto, já não é novidade que a abolição não significou exatamente liberdade e boas condições de vida para os ex escravizados, formas disfarçadas de escravização continuam a existir, revelando a complexidade e a persistência dessa questão histórica.

Frequentemente nos deparamos com notícias denunciando trabalhadores em situações precárias e desumanas. Em setembro de 2022, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) estimou que mais de 27 milhões de pessoas no mundo ainda viviam em condições análogas à escravidão, sendo 4 milhões delas localizadas nas Américas.

O sociólogo José de Souza Martins, em sua obra Capitalismo e Escrevidão na Sociedade Pós-escravista, lançada pela Editora Unesp, examina a escravidão contemporânea não como um resquício do passado, mas como um componente estrutural do capitalismo brasileiro, cujas raízes atravessam séculos de desigualdade e exploração.

“Ao se falar em escravidão atual está se falando, necessariamente, numa anomalia resultante das contradições sociais de um modelo de sociedade que tem nome: a sociedade capitalista mutilada e insuficientemente realizada, como a brasileira, atravessada pelo primado de interesses econômicos e consequentes irracionalidades que negam o capitalismo e crucificam a sociedade.”

– trecho retirado da introdução de Capitalismo e Escravidão na Sociedade Pós-escravista.

No livro estão reunidos uma série de artigos independentes, mas conectados por uma observação sociológica e interpretativa em comum.

Com base em uma rigorosa análise sociológica, Martins reflete sobre a relação entre o capitalismo subdesenvolvido e a continuidade da escravidão. Para ele, o trabalho forçado não é um anacronismo, mas sim uma peça fundamental para a reprodução do sistema capitalista.

Ao explorar as contradições dessa estrutura econômica, o autor revela como o trabalho escravo se perpetua, sendo peça chave para maximização dos lucros, especialmente em áreas onde o Estado é ausente ou ineficaz.

Ademais, na visão de Martins, a questão fundiária é essencial para compreender a realidade brasileira. “O capitalismo brasileiro levou mais de um século para se tornar um capitalismo de capital subsumido pela renda fundiária e subsidiado pelo Estado. E constitutivamente subsidiado por formas não capitalistas de relações de trabalho, como a da ‘escravidão contemporânea’”, aponta o professor.

A obra de Martins vai além das explicações superficiais sobre o tema, oferecendo uma leitura crítica, aprofundada e embasada sobre o funcionamento das relações de trabalho no Brasil e no mundo.

Sua tese, de que a escravidão moderna é uma prática necessária ao capitalismo, desafia noções simplistas e joga luz nas condições socioeconômicas que mantêm essa tragédia viva até os dias de hoje, ressaltando a necessidade de repensarmos as estruturas que sustentam a exploração do trabalho e a distribuição de riquezas.

Raíssa Araújo Pacheco, Redatora do Outros Quinhentos, Formada em Comunicação Social – Publicidade e Propaganda pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Assessorou movimentos sociais e entidades envolvidas na pauta de moradia e direito à cidade.

 

 

Juventude agredida, por Carlos Alberto Di Franco

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A iniciação sexual precoce, o abuso sexual e a prostituição infantil são resultadas da cultura da promiscuidade que está aí

Carlos Alberto Di Franco – O Estado de São Paulo, 20/01/2025

O leitor é o melhor termômetro para medir a temperatura do cidadão comum. Tomar o seu pulso equivale a uma pesquisa qualitativa informal. Aos que há anos me honram com sua leitura neste espaço opinativo, transmito uma experiência recorrente: família, ética e valores aumentam o índice de leitura.

Sempre que tratei de temas relacionados à família, recebi muitos e-mails e mensagens. Sem dúvida uma sugestiva amostragem de opinião pública, sobretudo considerando o rico mosaico etário, profissional e social dos remetentes.

Neste Brasil sacudido por uma brutal crise ética, alimentada pelo cinismo dos homens públicos e pela mentira dos que deveriam dar exemplo de integridade, há, felizmente, uma ampla classe média sintonizada com valores e princípios que podem fazer a diferença. E nós, jornalistas, devemos escrever para a classe média. Nela reside o alicerce da estabilidade democrática. Escreva algo, sublinhavam alguns dos e-mails que recebi, a respeito da desorientação da juventude. Meu artigo de hoje, caro leitor, foi pautado por você. Tomarei como gancho um dado objetivo e preocupante.

A gravidez precoce é hoje no Brasil uma das maiores causas de evasão escolar entre garotas de 15 a 17 anos. Dados da Unesco mostraram que, das jovens dessa faixa etária que abandonaram os estudos, 25% alegaram a gravidez como motivo. Outros estudos revelam que complicações decorrentes da gestação e do parto são a terceira causa de morte entre as adolescentes, atrás apenas de acidentes de trânsito e homicídios. A gravidez afeta até quem mal saiu da infância.

A gravidez precoce realmente está se tornando um grande problema na educação. Se 25% das meninas de 15 a 17 anos grávidas deixam a escola, isso significa dizer que mais de 200 mil param anualmente de estudar. Futuro triste. Cenário complicado. Mas dramaticamente coerente com um país em que o ministro mais importante não é o da Educação ou o da Saúde, mas o da Fazenda.

É um absurdo acreditar que uma criança vá ter maturidade para ter um filho com essa idade. Pregar a abstinência sexual de meninas de 11 a 14 anos não significa ser moralista ou careta, mas responsável. Não se trata de histeria conservadora, mas de bom senso.

A culpa não é só do entretenimento permissivo ou da TV, que, frequentemente, apresenta bons programas. É de todos nós – governantes, formadores de opinião e pais de família –, que, num exercício de anticidadania, aceitamos que o País fosse definido mundo afora como o paraíso do sexo fácil, barato, descartável. É triste, para não dizer trágico, ver o Brasil ser citado como um oásis excitante para os turistas que querem satisfazer suas taras e fantasias sexuais com crianças e adolescentes. Reportagens denunciando redes de prostituição infantil, algumas promovidas com o conhecimento ou até mesmo com a participação de autoridades públicas, crescem à sombra da impunidade.

O governo, assustado com o crescimento da gravidez precoce e com o crescente descaso dos usuários da camisinha, investe pesadamente nas campanhas em defesa do preservativo. A estratégia não funciona. Afinal, milhões de reais já foram gastos num inglório combate aos efeitos. A raiz do problema, independentemente da irritação que eu possa despertar em certas falanges politicamente corretas, está na onda de baixaria e vulgaridade que tomou conta do ambiente nacional. Hoje, diariamente, na televisão, nos outdoors, nas mensagens publicitárias, o sexo foi guindado à condição de produto de primeira necessidade.

Atualmente, graças ao impacto da TV e da internet, qualquer criança sabe mais sobre sexo, violência e aberrações do que qualquer adulto de um passado não tão remoto. Não é preciso ser psicólogo para que se possam prever as distorções afetivas, psíquicas e emocionais dessa perversa iniciação precoce. A inocência infantil está sendo impiedosamente banida. Por isso, a multiplicação de descobertas de redes de pedofilia não deve surpreender ninguém. Trata-se, na verdade, das consequências criminosas da escalada de erotização infantil promovida por alguns setores do negócio do entretenimento.

Se quisermos um entretenimento de qualidade precisamos separar o exercício da liberdade de expressão da prática do entretenimento mundo cão. Há uma liberdade de mercado que produz um mercado da liberdade. De resto, mesmo que exista uma demanda de vulgaridade e perversão, deve-se aceder a ela? Suponhamos que exista um público interessado em abuso sexual de crianças, assassinatos ao vivo, violência desse tipo. Nem por isso a TV deveria ter programas especializados em pedofilia e assassinatos. O mercado não é um juiz inapelável. Não se deve atuar à margem dele, mas não se pode sobrevalorizá-lo.

A iniciação sexual precoce, o abuso sexual e a prostituição infantil são, de fato, o resultado da cultura da promiscuidade que está aí. Sem nenhum moralismo, creio que chegou a hora de dar nome aos bois, de repensar o setor de entretenimento, e de investir em programação de qualidade.

A juventude merece atenção e prioridade nas nossas coberturas.

Carlos Alberto Di Franco, Jornalista.

 

Os migrantes do clima estão entre nós, por Giovanna Madalosso

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Conheci gente que migrou para Curitiba em busca de uns graus Celsius a menos

Giovanna Madalosso, Escritora, roteirista e uma das idealizadoras do movimento Um Grande Dia para as Escritoras.

Folha de São Paulo, 20/01/2025

Como muitos leitores sabem, tenho vivido entre São Paulo e Curitiba. E, nesta segunda cidade, venho assistindo a uma onda migratória peculiar, diferente de qualquer outra que acompanhei até então.

A primeira vez que vislumbrei a onda foi num jantar. Curitiba não é como São Paulo ou Rio, em que as mesas reúnem comensais egressos dos quatro cantos. É raro se ouvir um sotaque diferente entre as araucárias e, de repente, o de um casal chamou a minha atenção. Eram dois artistas manauaras que tinham acabado de se mudar para a capital paranaense. Perguntei por que tinham feito isso. Para fugir do calor, o manauara respondeu, argumentando que a capital do Amazonas nunca esteve tão quente.

Nos meses seguintes, descobri que aquele não era um caso único. Ao lado de imigrantes venezuelanos, cubanos e haitianos, que costumam optar por Curitiba por motivos de natureza política ou econômica, os brasileiros chegam buscando mais qualidade de vida e —aí vem a novidade— às vezes uns graus Celsius a menos, como outra família que conheci, vinda do Espírito Santo.

Isso sem falar nos gaúchos que, traumatizados com a catástrofe climática que destruiu Porto Alegre e com a inépcia do governo em preparar a cidade para um possível novo episódio, escolheram mudar de vez para esta outra capital do sul.

Faço ioga com uma paulistana recém-chegada que não mencionou a crise climática como motivo para ter saído de São Paulo. No entanto, entre um movimento de braço e outro, ela disse que migrou por conta do caos, dando como exemplo a fumaça das queimadas que rebaixaram o ar da pauliceia ao pior do mundo (olha a crise climática aí) e as quedas prolongadas de luz que lhe fizeram perder trabalho e dinheiro (olha a crise climática aí de novo, somada à inépcia de Enel).

E o que dizer de Santa Catarina aos últimos dias? E de Los Angeles? Quantas pessoas, neste exato momento, não cogitam deixar suas cidades? Os habitantes das ilhas Tuvalu não podem nem se dar ao luxo de cogitar. A chance de as ilhas desaparecerem é tão concreta que a Austrália já estuda um acordo para receber esses imigrantes.

Tirando casos agudos, a escolha de migrar ou não migrar acaba por ser um privilégio de classe. Nos próximos anos, assistiremos ao triste espetáculo dos ricos migrando para áreas mais seguras e amenas. Ou instagramando fotos de seus bunkers.

Para a maioria dos cidadãos, e logo mais para todos, restará a aventura de viver em um planeta colapsado pela emissão de carbono, onde não existe mais lugar seguro e, em breve, não haverá mais tantos lugares segurados —algumas empresas já cancelaram apólices em áreas passíveis de incêndios e outros desastres climáticos.

O que fazer com a nossa trouxinha de roupa? Se possível, manter onde está e lutar para que o município que habitamos, onde estão as pessoas que amamos, seja preparado para as condições extremas.

É muito mais caro criar novos povoamentos do que preparar as cidades que já existem para o enfrentamento climático. Mas é preciso cobrar os prefeitos, que, em sua grande maioria, seguem cimentando as cidades sem nenhum critério ambiental, enquanto o Brasil e outros países abrem novos poços de petróleo, garantia de que dias piores, infelizmente, virão.

 

Trump atraiu eleitores frustrados imitando táticas da esquerda, diz Naomi Klein

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Pesquisadora argumenta que a ascensão de extremistas criou ‘mundo invertido’ sinistro nas lacunas do progressismo

Folha de São Paulo, 20/01/2025

Naomi Klein começou a ser sugada por uma crise de identidade. De início parecia só um incômodo chato, mas de repente ela se sentia sumindo no meio de um redemoinho, sem saber onde se segurar. Não se engane, estamos falando mais de política que de psicanálise.

Uma das intelectuais mais celebradas da América do Norte, a canadense era às vezes confundida com outra escritora de sucesso, Naomi Wolf. Até aí, nada anormal —as duas eram quase contemporâneas, tinham alguma semelhança física e defendiam ideias de esquerda.

Klein ficou conhecida por críticas sistêmicas ao neoliberalismo em obras como “Sem Logo” e “A Doutrina do Choque”. Wolf se celebrizou por “O Mito da Beleza”, um protesto contundente contra as imposições sociais ao corpo feminino.

Tudo passou a ficar bem mais estranho quando Wolf, a “outra Naomi”, começou a ser rejeitada pelo campo progressista ao embasar cada vez menos suas ideias em fatos históricos e científicos, entrando numa espiral de teorias conspiratórias.

Ao ser cobrada nas redes sociais como se fosse sua homônima, Klein testemunhou de perto a metamorfose de Wolf em um estandarte do negacionismo do clima e da pandemia. Sua contraparte virou convidada de honra no podcast “The War Room”, de Steve Bannon, o estrategista-mor de Donald Trump.

Às vésperas da posse do republicano para um segundo mandato, o livro que Klein escreveu sobre sua experiência, “Doppelgänger”, ilumina os métodos pelos quais o trumpismo atraiu eleitores imitando táticas da esquerda, criando um submundo de “fatos alternativos”, se apresentando como mais tolerante a erros e estendendo tapete vermelho a ex-progressistas frustrados.

A autora entendeu que seu mergulho no “mundo invertido” da outra Naomi ensinava algo sobre as mudanças por que passam tantas democracias hoje, na “parte mais assustadora” de sua “jornada doppelganger” —expressão alemã que define duas pessoas que se parecem muito.

“Não é apenas um indivíduo que pode ter um duplo sinistro; nações e culturas também os têm.” O Estado incorporado pela extrema direita, segundo ela, é o “irmão gêmeo ubíquo das democracias liberais ocidentais”, “versões sombrias de nosso eu coletivo”.

O livro lançado há pouco no Brasil fala da sensação geral de não saber mais discernir o que é real do que não é —um sentimento difuso de desorientação, de “jet lag coletivo”. Foi buscando retomar o esteio que Klein elaborou seu longo ensaio e deu essa entrevista à Folha por videoconferência.

Seu livro antecipou falhas do campo progressista que ficaram mais visíveis após a eleição de Trump. A sra. retrata a postura de Bannon e outros líderes da direita como mais acolhedoras a novos eleitores que estavam distantes do seu campo político. Por que a direita foi eficiente em fazer isso e a esquerda não?

A direita que surgiu das cinzas do neoliberalismo não tem um projeto econômico transparente. É um discurso muito incoerente —não em termos do que faz quando chega ao poder, mas do que diz para chegar lá.

Há muita contradição, por exemplo, entre a fala sobre enfrentar as elites e a defesa de cortar impostos para as elites. É um discurso familiar à esquerda na crítica aos grandes poderes corporativos, mas sua política é neoliberalismo com esteroides. O que Elon Musk vai fazer no governo é superausteridade  —por isso ele tem tanto interesse em Javier Milei, da Argentina.

E é precisamente por causa dessa incoerência que eles conseguem montar uma coalizão a partir das falhas e dos abandonos da esquerda. Bannon estuda a esquerda bem de perto, fala abertamente que lê Joam Chomsky e Lênin. Ele presta atenção aos assuntos e às pessoas que a esquerda está deixando de lado.

Nós, da esquerda, temos um discurso de inclusão, de diversidade, mas na prática essa cultura é, com frequência, intolerante e doutrinária. Você sente às vezes que precisa fazer um teste para entrar na esquerda e depois continuar fazendo testes para ficar lá [risos]. É o oposto da tenda ampla e acolhedora necessária para uma coalizão vencer.

E não acho que a direita seja tão acolhedora quanto parece —são bem menos ao falar de deportações em massa e fronteiras militarizadas. Mas isso não significa que não podem se apresentar como uma cultura que deixa as pessoas à vontade para cometer erros e discordar.

Diria então que os partidos de esquerda julgam mais seus eleitores, enquanto a direita não demanda nada deles?

É complicado, primeiro porque o Partido Democrata não é a esquerda. É um partido comandado por uma elite de alto nível educacional, muito interconectada —são pessoas aterrorizadas pelo populismo de esquerda, como de Bernie Sanders [em cuja campanha Klein trabalhou], porque o status quo funciona bem para elas.

E eu tenho menos interesse no Partido Democrata que na esquerda, porque esta é a força que pode enfrentar o fascismo. Ele [o fascismo] surge em momentos de falha sistêmica, quando o centro se despedaça, então é necessária uma esquerda robusta para diagnosticar essas falhas pelo seu lado.

Se não houver ninguém nesse campo para entender que formas de organização e solidariedade podem ser criadas em contraposição à extrema direita, então a raiva justificada que as pessoas sentem por não conseguir pagar por comida e aluguel será direcionada a algum tipo de conspiração.

Por isso digo que a nova direita é uma “doppelgänger” da esquerda. O fascismo sempre tem uma estranha similaridade com a esquerda real, é um pseudo-nacional-socialismo, o que não quer dizer que são a mesma coisa. Não são.

É por isso que importa se a esquerda for hipócrita, se trair seus princípios e não conseguir criar uma cultura da qual uma pessoa normal gostaria de participar.

Como a esquerda pode atrair eleitores de direita sem ceder demais em sua agenda em temas essenciais, como a crise climática?

Não devemos pensar nessas pessoas como eleitores de direita, mas como pessoas que votaram à direita nessa eleição e podem ter votado na esquerda em outras. Estamos em um momento de muito fluxo, nada estático.

De uma maneira esquisita, estamos meio entorpecidos por uma sequência de choques, porque eles têm vindo em “stacatto”. São crises econômicas, climáticas, pandemias, revoltas políticas. Isso virou nossa realidade, e é perigoso se acostumar com políticas de abandono em massa da vida humana.

Então a política tem, mesmo, que voltar para o básico. As perguntas são: nós valorizamos a vida? Acreditamos que todas as pessoas têm o mesmo valor no mundo?

Há uma crise espiritual, eu diria. Às vezes penso que o papa [Francisco] é o único que consegue falar nessa língua hoje. Precisamos de líderes que sejam vozes algo proféticas no meio dessa intersecção de crises, de mortes tão massificadas, que na academia chamamos de “necropolítica”. Também acho que devemos parar de usar palavras como “necropolítica” [risos]. Mantenha as coisas simples.

Mas você falou de clima. Políticas para o clima hoje são associadas, na mente dos eleitores, com a classe média e a elite intelectual, como preocupações de luxo, que vão deixar sua vida mais cara.

O ecopopulismo conecta o debate sobre o clima a questões como mobilidade, moradia, alimentação. O movimento pelo clima deve encontrar os eleitores aí no meio, não forçar uma falsa escolha entre suas preocupações climáticas e suas necessidades imediatas.

Ao final do livro, a sra. urge as pessoas a serem menos individualistas e defende que a “destruição do eu” pela qual passou foi, na verdade, positiva. Isso envolve a redução do tempo nas redes sociais?

Sim, essa é fácil. Eu sou grata a Elon Musk por arruinar o Twitter. As melhores alternativas de mídia social, agora, vão ser as que engajam menos. Eu entrei no Bluesky, e não é um ambiente tão dramático e furioso. É até meio tedioso, e tudo bem!

Não é que precisamos aniquilar o ego, mas nós nos tornamos grandes demais para o nosso próprio bem. Ficamos obcecados com a otimização da nossa personalidade e da nossa marca particular. Não porque somos todos narcisistas, mas porque temos medo.

Não estamos vendo qualquer segurança econômica para além de nós mesmos e viramos nossa única boia de salvação. Quando nos juntamos em organizações, sejam sindicatos, coalizões políticas ou grupos de arte, dá uma sensação real de reforço de poder, de possibilidades.

Devemos voltar a pensar nas redes como ferramentas para levar pessoas a ambientes offline —como um grande quadro de avisos, não como uma rede de sociabilidade.

Em ‘Doppelgänger’, a sra. divide a sociedade entre um ‘mundo real’ e um ‘mundo espelho’. Quanto esse conceito de polarização ajuda a entender a política de hoje e quanto ele mascara as diferenças que existem dentro desses grupos?

Ou as similaridades entre os dois grupos, não? Sim, mascara muito. Por isso eu concluo no livro que estamos todos em um “mundo espelho”, cada grupo de um lado do vidro. A ideia de que nós, pessoas de esquerda virtuosas que se baseiam na ciência, somos a realidade verdadeira —isso é um tipo de fantasia.

A separação mais importante é entre o mundo em que todos vivemos e o que chamo de “terra das sombras”, aquilo para o que ninguém suporta olhar. Estamos entendendo melhor o quanto nós nos amarramos a sistemas de aniquilação e morte, algo que nunca enfrentamos.

Eu me refiro, por exemplo, ao tamanho da crise climática, ou o que significa investir mais e mais na inteligência artificial, que cria “doppelgängers” virtuais de todo mundo enquanto suga toda a energia do mundo material. É incrivelmente distópico e só piorou desde que escrevi.

São coisas quase impossíveis de encarar, então nos distraímos freneticamente acusando os outros e purificando a nós mesmos. E ninguém está acertando as contas consigo mesmo, seja na esquerda ou na direita.

A crise climática, por exemplo, nem estava nas cédulas de votação em 2024. Não conseguimos lidar com isso porque significa encarar os limites do que nós conseguimos fazer como indivíduos. As implicações são esmagadoras, porque o trabalho que precisa ser feito é profundamente coletivo.

Ao mergulhar no mundo da extrema direita como uma pesquisadora de esquerda, como a sra. se equilibrou entre a discordância profunda e a atenção honesta àquele discurso?

Você tem que levar a sério. Estamos num momento de crise narrativa na esquerda, então é importante entender por que essas histórias têm tanta ressonância.

Algo em que toquei apenas superficialmente no livro é o papel das narrativas judaico-cristãs apocalípticas, que apontam para o fim dos tempos. No Brasil, não dá para entender a ascensão da ultradireita sem as narrativas religiosas, e elas estão profundamente codificadas no nosso imaginário coletivo. Somos incrivelmente obtusos, no mundo secular, em entender o poder dessas narrativas.

Nós achamos que vamos conseguir martelar fatos na cabeça das pessoas, mas você está indo contra uma cosmologia transcendente, oposta ao mundo material —com qual história você se contrapõe a isso? É por isso que o papa me interessa tanto [risos].

Doppelgänger: Uma Viagem Através do Mundo-Espelho

Autoria Naomi Klein/ Editora Carambaia

 

RAIO-X | NAOMI KLEIN, 54

Canadense nascida em Montreal, ficou conhecida por livros como “Sem Logo” (2000, Record), uma crítica à cultura do consumismo massificado, e “A Doutrina do Choque” (2007, Nova Fronteira), que argumenta que governos e empresas exploram momentos de comoção para agir contra os interesses da população. Nos últimos anos, tem se dedicado à pauta do clima, por exemplo na obra “Como Mudar Tudo” (2021, Rocco). Hoje é codiretora do Centro de Justiça Climática da Universidade da Colúmbia Britânica, professora da Universidade Rutgers, nos Estados Unidos, e colunista do jornal britânico The Guardian.

 

 

 

América do Sul – um continente partido e tutelado, por José Luís Fiori

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José Luís Fiori – A Terra é Redonda – 15/01/2025

No início do século XXI os Estados Unidos reduziram seu grau de envolvimento político com os assuntos sul-americanos. Esse “déficit de atenção” durou até o “desembarque” econômico dos chineses na América do Sul, e até o início do conflito na Ucrânia.

A história sul-americana foi sempre condicionada por uma geografia extremamente difícil, por uma economia fragmentada e voltada para fora, e por uma submissão, uma geografia extremamente difícil, por uma economia quase permanente à tutela militar da Inglaterra, no século XIX, e dos Estados Unidos, no século XX. E é possível afirmar, de alguma forma, que até hoje o continente se debate com esses constrangimentos originários e estruturais.

 

Uma geografia partida

 

O continente sul-americano está situada entre o Mar do Caribe, ao norte; o Oceano Atlântico, ao leste, nordeste e sudeste; e o Oceano Pacífico, a oeste. Sua superfície, de 17.819.100 km2, ocupa 12% da Terra e possui 6% da população mundial. Está separado da América Central pelo Istmo do Panamá; e da Antártida, pelo Estreito de Drake, e tem uma extensão de 7.500 km desde o Mar do Caribe até o Cabo Horn, no extremo sul. Cerca de quatro quintos do continente ficam abaixo da Linha do Equador, que corta Peru, Colômbia, Brasil e o país que leva o nome de Equador.

A América do Sul possui três grandes bacias hidrográficas: do Rio Orinoco, do Rio Amazonas e do Rio da Prata, e seus rios interiores possuem enorme potencial para navegação e aproveitamento de energia hidráulica. Os três sistemas drenam em conjunto uma área de 9.583.000 km2.

No entanto, o mais importante, do ponto de vista geopolítico, é que se trata de um espaço geográfico inteiramente segmentado por grandes barreiras naturais que dificultam enormemente sua integração física, como é o caso da Amazônia e da Cordilheira dos Andes, que tem 8 mil Km de extensão e atinge 6.700m de altitude, oferecendo apenas alguns pontos de passagem naturais. Na região da Floresta Amazônica, predominam as terras úmidas; na região central do continente, áreas alagadas, como o Pantanal brasileiro e o Chaco boliviano; mais ao sul, há planícies e cerrados; e na costa leste, a floresta original cedeu lugar a agricultura, urbanização e indústria.

O litoral atlântico é baixo e possui uma larga plataforma marítima, ao contrário do litoral do Pacífico, que possui grandes profundidades e onde não existem plataformas continentais. Nos Pampas de Argentina, Uruguai, Paraguai e sul do Brasil, encontram-se as terras mais férteis do continente e algumas das melhores do mundo. Existem, ainda, algumas pequenas áreas com bons solos nos vales andinos e na zona central do Chile, na planície equatoriana de Guayas e no vale colombiano de Cauca, além das terras roxas, no lado brasileiro da bacia do Paraná.

Por outro lado, as terras da bacia Amazônica e a maior parte das planícies tropicais são muito pobres e de baixa fertilidade, o que explica o fato de que a população das terras tropicais da Venezuela, Guiana e Suriname viva quase toda a poucos quilômetros da costa. A combinação de montanhas e florestas tropicais também limita enormemente as possibilidades de integração econômica dentro do arco de países que se estende da Guiana Francesa até a Bolívia.

No caso do Peru, por exemplo, existe uma clara divisão econômica e social em seu território, entre as zonas costeiras, onde se concentra a atividade extrativa e de exportação, e um interior extremamente isolado e atrasado economicamente. O Chile, por sua vez, possui um clima temperado e terras produtivas, mas é um dos países mais isolados do mundo, o que dificulta sua integração econômica com os demais países do “cone sul” – Argentina, Uruguai e Brasil – e o transforma obrigatoriamente numa economia aberta a exportadores, voltada quase exclusivamente para os EUA e os países asiáticos do Pacífico.

O mesmo se pode dizer dos demais países sul-americanos. Sua inserção na divisão internacional do trabalho, na condição de exportadores de commodities, reforçou sua ocupação econômica e demográfica inicial, dispersa e voltada para o litoral, sempre em busca dos mercados centrais, e com escasso interesse nos mercados regionais. Até o final do século XX, o Atlântico foi mais importante do que o Pacífico para o comércio de largo curso da América do Sul, e a presença de importantes bacias hidrográficas articuladas ao litoral atlântico, além da maior proximidade da Europa e dos EUA, desfavoreceu o lado pacífico do continente nos dois primeiros séculos de sua história independente.

Este panorama econômico vem mudando no século XXI, com o aumento da importância da bacia do Pacífico, graças ao deslocamento do centro mais dinâmico da economia mundial para o Leste e Sudeste Asiático, e à transformação da China no novo dínamo da economia sul-americana. A “virada” ao Pacífico, entretanto, representa ao mesmo tempo um desafio e uma ameaça. Desafio pela dimensão financeira do projeto de integração bioceânica, e ameaça porque o desenvolvimento deste projeto só se viabilizará com a participação da China, que está sendo definida pelos Estados Unidos, neste momento geopolítico do mundo, como seu grande competidor estratégico que deve ser cercado e bloqueado em todos os pontos do sistema econômico mundial.

 

Uma história tutelada

 

Do ponto de vista geopolítico, entretanto, a América do Sul viveu quase toda a sua história independente sob a tutela anglosaxônica: primeiro da Grã-Bretanha, até o fim do século XIX, e depois dos Estados Unidos, até o início do século XXI. Além disso, durante o século XIX, foi uma zona de experimentação do “imperialismo de livre comércio” da Grã-Bretanha, e no século XX em particular, depois da 2ª Guerra Mundial, transformou-se num aliado incondicional da política externa norte-americana, que promoveu ativamente a redemocratização e o desenvolvimento do continente na década de 1950.

Nos anos 1960, entretanto, depois da vitória da Revolução Cubana, os Estados Unidos apoiaram os golpes de Estado e a formação de governos militares em quase todo o continente sul-americano. E após o golpe que derrubou o presidente Salvador Allende no Chile, em 1973, incentivaram a mudança da política econômica dos governos sul-americanos, que abandonaram – em sua maioria – seu “desenvolvimentismo” do pós-guerra.

No início dos anos 1980, a política do “dólar forte” do governo americano provocou um forte desequilíbrio dos balanços de pagamento na América Latina e deu origem à “crise da dívida externa” que atingiu toda a região, liquidando definitivamente o modelo desenvolvimentista brasileiro que havia sido o mais bem-sucedido da região.

A crise se prolongou por toda a década, mas ao mesmo tempo conviveu com o fim das ditaduras militares e com o início dos movimentos de redemocratização de quase todos os países do continente. Mais uma vez, entretanto, os novos governos democráticos sul-americanos aderiram em conjunto ao projeto da “globalização liberal” liderado pelos Estados Unidos, e às políticas neoliberais do chamado “Consenso de Washington”, que produziram sucessivas crises cambiais – no México, em 1994; na Argentina, em 1999; e no Brasil, em 2001 –, antes de serem abandonados e substituídos por governos que tentaram levar à frente, durante uma década, uma agenda experimental antineoliberal, sem deixar de alinhar-se à estratégia geopolítica global de combate ao terrorismo comandada pelos norte-americanos.

Relembrando a história: depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, em Washington e New York, a política externa norte-americana mudou de rumo, relegando ao segundo plano as questões econômicas e priorizando o combate global ao terrorismo. Nesse novo contexto, o governo republicano de George W. Bush manteve seu apoio ao projeto da ALCA de integração econômica da América do Sul, proposto na década de 90 pela administração Clinton, mas já sem o entusiasmo das administrações democratas. Até porque a resistência sul-americana e, em particular, a oposição do Brasil e da Argentina após 2002, esvaziaram e logo engavetaram a proposta norte-americana em 2005.

Os EUA mudaram, então, seu projeto inicial e passaram a negociar tratados comerciais bilaterais com alguns países do continente. Assim, depois do fracasso das políticas neoliberais do Consenso de Washington, do abandono do projeto da ALCA e da desastrosa intervenção norte-americana a favor do golpe militar da Venezuela, em 2003, os Estados Unidos mudaram sua posição no que se referia aos assuntos continentais, atraídos cada vez mais pelos novos desafios que vinham da Ásia e do Oriente Médio, e do avanço da OTAN na direção da Europa do Leste.

Essa tendência se fortaleceu na segunda década do século XXI, quando o esfacelamento da “ordem mundial” estabelecida depois da Guerra Fria e a mudança do foco geopolítico mundial reduziram a quase nada a atenção americana em relação à América do Sul, o que não impediu que eles apoiassem os golpes de Estado de Honduras, Paraguai e Brasil durante o governo democrata de Barack Obama.

Na terceira década do século, entretanto, depois da catástrofe da pandemia de Covid-19 e frente ao desafio das guerras da Ucrânia e de Gaza, e mais ainda, face ao deslocamento do eixo dinâmico da economia mundial na direção da Ásia e da China, em particular, a América do Sul reduziu ainda mais sua importância geopolítica e geoeconômica no sistema internacional, dividindo-se de cima abaixo frente ao conflito entre Estados Unidos e Venezuela, e desintegrando-se como um ator geopolítico global.

As vezes de forma mais lenta, às vezes mais acelerada, algumas mudanças vêm acontecendo no panorama geopolítico e geoeconômico da América do Sul. Em algumas mudanças vêm acontecendo no panorama alguns casos, reforçando velhos caminhos e “vocações” do continente; em outros, abrindo novas perspectivas e oportunidades que poderão ou não ser aproveitadas pelos 12 países que convivem lado a lado dentro desse território recortado por tantas barreiras geográficas, e tão próximo dos Estados Unidos. Destacamos em seguida quatro mudanças que deverão pesar decisivamente sobre o futuro continental.

 

O aumento da assimetria sul-americana

 

Em 1950, os dois países mais ricos da América do Sul – Brasil e Argentina – tinham mais ou menos o mesmo PIB, apesar de que os argentinos tivessem uma renda per capita, homogeneidade social, nível educacional e qualidade de vida extraordinariamente superiores em relação aos brasileiros. Hoje, setenta anos depois, a situação mudou radicalmente: se o PIB dos dois países girava em torno de US$ 80 bilhões em 1950, 70 anos depois, o PIB brasileiro multiplicou 23 vezes e é hoje de cerca de US$ 2,17 trilhões, enquanto o argentino multiplicou-se apenas oito vezes no mesmo período, sendo hoje de 640 bilhões de dólares.

Uma assimetria entre os dois países que tende a aumentar exponencialmente nos próximos anos, e muito mais ainda entre o Brasil e os demais países sul-americanos. Hoje, o Brasil já possui metade da população e do produto sul-americano, e é o único país da região que tem alguma presença no tabuleiro geopolítico internacional.

Depois do Golpe de Estado de 2016, entretanto, e até 2022, dois sucessivos governos de direita alteraram radicalmente a política externa, afastando o Brasil de todas as iniciativas integracionistas na América do Sul, ao mesmo tempo que se alinhava aos Estados Unidos e à OTAN, frente aos conflitos internacionais fora do continente. Em 2023, entretanto, o país retomou o rumo anterior de sua política externa e vem assumindo posições cada vez mais ativas no campo internacional, no grupo do BRICS, na presidência rotativa do G20 e na liderança mundial da luta pela sustentabilidade e controle das mudanças climáticas.

No seu próprio continente, entretanto, o Brasil vem encontrando grandes resistências, que muito têm a ver com o aumento da assimetria regional, em que o Brasil aparece hoje como uma espécie de “elefante no meio da sala”.

 

A expansão da presença chinesa

 

A segunda grande transformação da América do Sul, nas primeiras décadas do século XXI, foram o surgimento e a expansão acelerada do papel da China no desenvolvimento econômico do continente. Em apenas três décadas, o fluxo comercial entre América do Sul e China cresceu de US$ 15 bilhões em 2001, para cerca de US$ 300 bilhões em 2019. E o fluxo dos investimentos diretos chineses na região cresceu e se manteve em torno de US$ 10 bilhões anuais, em média, entre 2011 e 2018. Brasil, Peru e Argentina receberam a maior parcela desses investimentos até 2022, ficando o Brasil com 22% deste total, incluindo a fabricação de veículos elétricos, aquisição de ativos de lítio, expansão da Huawei e de outras empresas chinesas de data centers, computação em nuvem e tecnologia 5G, e em grande quantidade de infraestrutura elétrica.

Nas duas primeiras décadas do século XXI, a China também dobrou sua participação nas importações realizadas pelos países sul-americanos, cujo valor bruto cresceu mais de 700%, enquanto as exportações brasileiras para a América do Sul, por exemplo, no mesmo período, cresceram menos de 40% do crescimento chinês. Mesmo durante a crise econômica de 2008, a participação brasileira no mercado argentino recuou de 42% para 31,5%, enquanto a participação chinesa subiu de 21,5% para 30,5%. E o mesmo aconteceu na Venezuela, onde a participação chinesa subiu de 4,4% em 2008, para 11,5% nos quatro primeiros meses de 2009.

Hoje, a China é o maior parceiro comercial do Brasil, do Chile e do Peru no continente sul-americano, e está entre os três maiores parceiros comerciais de todos os países do continente. Só no caso brasileiro, 30,6% de suas exportações em 2023 foram para a China, que foi ao mesmo tempo o maior fornecedor de bens importados pelo Brasil. E oito países sul-americanos já fazem parte da iniciativa da Belt and Road chinesa: Argentina, Peru, Bolívia, Chile, Guiana, Suriname, Uruguai e Venezuela.

Na linguagem estruturalista clássica, pode-se afirmar que nesse período a China se transformou no novo “centro cíclico principal” da economia sul-americana. E hoje, como no passado, o principal interesse dos chineses na América do Sul segue sendo seus recursos naturais e minerais, apesar de também estarem participando das grandes licitações governamentais da região. E o cenário para os próximos anos promete uma oferta excedente de produtos e capitais chineses, que deve derrubar barreiras e constituir um imenso desafio competitivo para os capitais norte-americanos e brasileiros.

 

A nova estratégia norte-americana de “polarização mundial”

 

A terceira grande mudança aconteceu no campo das relações da América do Sul com os Estados Unidos, que nunca abandonaram sua Doutrina Monroe, formulada em 1823 com o objetivo de combater e expulsar a influência europeia do continente sul-americano. A diferença é que, no século XIX, esse discurso era contrário aos interesses das potências coloniais europeias, e favorável à independência de suas colônias sul-americanas.

Na primeira metade do século XX, entretanto, a mesma doutrina legitimou a intervenção norte-americana na América Central e Caribe, para mudar governos e regimes que eles consideravam contrários aos seus interesses. E na segunda metade do século, ela voltou a ser utilizada para “proteger” os países da América do Sul, só que agora contra a “ameaça comunista”, que justificou o apoio norte-americano a uma sucessão de golpes e regimes militares que liquidaram a democracia no continente, destruindo ao mesmo tempo sua soberania e seus projetos autônomos de futuro.

No início do século XXI, durante a sua “guerra global ao terrorismo”, os Estados Unidos reduziram seu grau de envolvimento político com os assuntos sul-americanos. Um “déficit de atenção” que durou até o “desembarque” econômico dos chineses na América do Sul na segunda década do século, e até o início do conflito entre os Estados Unidos e a Rússia, na Ucrânia, após o golpe de Estado de 2014.

Desde então, os Estados Unidos vêm se propondo “repolarizar o mundo” no estilo da Guerra Fria do século XX, de maneira que os demais países do sistema internacional, e também da América do Sul, teriam que se posicionar de um lado ou de outro da “linha vermelha” estabelecida por eles e seus aliado europeus.

 

O declínio do projeto de integração sul-americano

 

A maioria dos países sul-americanos superou o impacto da crise de 2008 mais rapidamente do que no resto do mundo, graças à grande demanda de seus produtos de exportação por parte das economias asiáticas, da China em particular, que sustentaram as quantidades e os preços das commodities sul-americanas num nível extremamente elevado.

Mas este sucesso de curto prazo provocou um efeito inesperado em toda a América do Sul, ao aprofundar, de forma paradoxal, as velhas dificuldades enfrentadas desde sempre pelo projeto de integração econômica da América do Sul. Basta dizer que, na América do Norte, o comércio intrarregional é da ordem de 40% do seu comércio global; na Ásia, de 58%; e na Europa, de 68%; enquanto na América do Sul, mal chega aos 18%.

 

Os caminhos do futuro

 

Dividida em blocos, e com a maior parte dos países separados ou distantes do Brasil, por conta do contencioso venezuelano, a América do Sul deverá se manter na sua condição tradicional de periferia econômica do sistema internacional, mesmo diversificando e ampliando seus mercados na direção da Ásia. Para não ser assim, o Brasil terá que assumir a “liderança material” do continente, construindo uma estrutura produtiva que combine indústrias de alto valor agregado e tecnologias de ponta, com a produção de alimentos e commodities de alta produtividade, mantendo sua condição de grande produtor de energia tradicional e “energia limpa”.

Neste caso, o Brasil poderá mudar o rumo da região, transformando-se na sua “locomotiva econômica”, por cima das divergências políticas e ideológicas que hoje dividem e imobilizam um continente que – sem o Brasil – não tem a menor relevância geopolítica dentro do Sistema Mundial.

Neste ponto, entretanto, não há como enganar-se: o Brasil enfrentará nos próximos anos uma concorrência acirrada e um boicote explicito do governo de Donald Trump que considera que a única relevância da América do Sul é pertencer ao “quintal dos Estados Unidos”.

*José Luís Fiori é professor emérito da UFRJ. Autor, entre outros livros, de Uma teoria do poder global (Vozes)