A Era da Catástrofe, por José Raimundo Trindade

0

José Raimundo Trindade, professor do Instituto de Ciências Sociais Aplicadas da UFPA – A Terra é Redonda – 28/03/2025

Considerações a partir do livro de Eleutério Prado

Eric Hobsbawm foi bastante crítico da sua capacidade como historiador de analisar um período em que ele próprio foi um atuante ator. Mesmo assim, o historiador inglês nos deixou de herança uma magnifica exposição historiográfica do enredo do século XX. Nos interessa em particular aquele período que Eric Hosbsbawm (2000) denominou de “Era da catástrofe” e, muito especialmente, observou que apesar de duas guerras mundiais e duas bombas nucleares “a humanidade sobreviveu”, inclusive o capitalismo, somente que agora parcialmente remodelado.

Eleutério Prado nos presenteou muito recentemente (2023) com um pequeno opúsculo, Capitalismo no século 21: ocaso por meio de eventos catastróficos, que sob diversos aspectos retoma o fio histórico do autor inglês acima referenciado, mesmo que estabelecendo uma visão realista de como o capitalismo poderá encadear nas próximas décadas uma nova era catastrófica, cuja possibilidade de tornar a história civilizacional humana um interregno menor se mostra como um importante e necessário clamor por um novo projeto de reorganização da humanidade, encerrando o capitalismo como capítulo histórico de nossa sociedade.

A obra de Eleutério Prado está dividida em quatro pequenos capítulos, cuja leitura angustiante pode ser entendida como uma seção de continuidade do alerta que Eric Hobsbawm (2010, p. 562) no colocou ao final de seu trabalho de arqueólogo do século XX: “Se a humanidade quer ter um futuro reconhecível, não pode ser pelo prolongamento do passado e do presente. Se tentarmos construir o terceiro milênio nessa base, vamos fracassar. E o preço do fracasso, ou seja, a alternativa para uma mudança da sociedade, é a escuridão”.

O primeiro capítulo estabelece a primeira tese desenvolvida pelo autor, qual seja: “que o processo de globalização não só esteve sujeito a movimentos expansivos, como também passou por reversões muito significativas”. A análise da “globalização e desglobalização” constitui de fato um ponto chave para o entendimento da forma como o capitalismo processa sua expansão enquanto economia mundial, considerando que o fenômeno já foi visto por Marx e Engels (1848) enquanto condicionante existencial e estrutural de um modo de produção que busca criar “um mundo à sua imagem e semelhança”.

Eleutério Prado (p. 19) reforça as teses vinculadas as chamas ondas longas de Kondratiev observando que a “mundialização do capital se expandiu por meio de ondas que duraram sempre mais de duas décadas”, sendo que a produção capitalista tem uma “natureza fortemente espasmódica e turbulenta”, cujo caráter crítico dessas relações de produção não é resultante de “choques exógenos, mas fazem parte do próprio movimento da acumulação de capital”. Cabem quatro observações que nos parecem plenamente aderentes as análises do autor:

(i) O período da chamada “era dourada” do capitalismo (1950/1980) constituiu um período de exceção na história do capitalismo, sendo que o Estado capitalista constitui um ponto central para se pensar o referido período. O crescimento da intervenção estatal desde o final da década de 1930, primeiramente via o keynesianismo bélico, já aparecia como uma nova condição de existência do que se convencionou chamar de capitalismo keynesiano.

Porém, como nota Eleutério Prado, conforme se agudiza a crise capitalista nos anos 1970 a expansão da demanda agregada via Estado não conseguiria deter o declínio da taxa de lucro, ou seja, não há como equacionar permanentemente “as contradições inerentes ao modo de produção capitalista”.

As finanças públicas constituem parte da massa de mais-valia produzida anualmente, em termos esquemáticos o Estado constitui um “gerente” essencial da acumulação capitalista, nos termos clássicos marxianos, sendo sua manutenção uma necessidade do sistema. A essência deste Estado como forma social necessária a manutenção relativamente programada do capitalismo foi o centro da ampla visão chamada de “keynesiana”, uma construção ideológica fundamental para projeção do capitalismo no século XX, mas que se esgotou definitivamente, como mostra Eleutério Prado. [1]

(ii) O sistema imperialista, imputado em torno dos EUA a partir do final da Segunda Guerra, apresenta um “calcanhar de Aquiles” justamente centrado na manutenção de um poder bélico necessário a manutenção coercitiva das demais nações ao próprio poder estadunidense.

A indústria bélica produz mercadorias não reprodutivas, um chamado não-valor de uso (armamentos), como ponderava Lauro Campos (2016), assim a renda do Estado, como seu quase exclusivo demandante, desvia meios reprodutivos para produção de meios não reprodutivos, isso em função de que o Estado, como comprador de armamentos, exige parcela da renda da economia na forma de tributos, sendo que o que as indústrias bélicas produzem, vendem e lucram, nada mais é do que renda pretérita gerada na economia.

Na medida em que se expandem e, pior se mantém, os gastos bélicos, exigem-se crescentes parcelas do capital global da economia, levando a um potencial desorganização reprodutiva da economia. A destruição da base produtiva dos EUA é, também, fruto da lógica do Estado militar-industrial.

(iii) Eleutério Prado (p. 25) considera que “a fase da grande indústria é superada a partir de 1970”, sendo que desde então se estabelece o que o autor denomina de “pós-grande indústria”. Aspecto que considero importante observar refere-se as características conformativas das tuas formas de “subsunção do trabalho ao capital” e como suas características internas podem moldar o ciclo do capital.

O padrão atual além de apresentar uma composição orgânica do capital muito mais elevada, também se caracteriza por uma reprogramação tecnológica muito mais acelerada, fazendo com que a chamada “obsolescência programada” seja a tônica da disputa concorrencial entre os capitais.

(iv) A financeirização, compreendida pelo autor como o controle da pós-grande indústria “sob a égide do capital de finanças”, implica um vetor a mais de reorganização da sociabilidade capitalista, agora, predominantemente, sob formas neoliberais onde a política econômica e a economia como um todo serve aos “interesses do setor financeiro”.

No segundo capítulo, intitulado “Ocaso do capitalismo”, temos a apresentação de uma tese chave para atual conjuntura e para o devir da humanidade. Segundo o autor o capitalismo não garante mais a “sustentabilidade da civilização humana no planeta”, se tornando “insustentável” (p. 53).  As contradições crescentes do capitalismo, agora baseado em dominância financeira, aprofundam a crise climática, não havendo, por outro, uma opção sistêmica (socialista) colocada no horizonte, isso por conta da vitória obtida pelo capital sobre as grandes revoluções ocorridas no século XX, especialmente a destruição da URSS e a adesão da China a um tipo de capitalismo.

Os elementos críticos colocados nos levam ao texto principal da pequena grande obra oferecida por Eleutério Prado, a possibilidade colocada enquanto hipótese de uma “nova era catastrófica”. O autor trabalha com a economia marxista clássica para tratar da dinâmica de crise capitalista baseada no declínio secular da taxa de lucro e a conformação de superprodução que desorganiza progressivamente o sistema na sua totalidade.

Eleutério Prado (p. 48) observa que o “capitalismo é bipolar: depois dos períodos de euforia (…) vêm período recessivos ou mesmo depressivos”. A lógica do sistema vai no sentido de buscar soluções imediatas ou de curto prazo para suas crises, porém em diversos momentos se torna impossível soluções desse tipo, sendo que daí advém períodos longos de irracionalidade, como aquele que caracterizou a primeira era catastrófica tratada por Eric Hobsbawm.

Não podíamos deixar de concluir essa breve resenha sem referenciar três pontos que nos parecem chaves no texto do autor e que nos coloca enorme responsabilidade enquanto geração construtora do atual século:

(a) O primeiro aspecto refere-se a perda de racionalidade que o capitalismo do século XXI desenvolve. A lógica do ganho de curto prazo, próprio das condições de financeirização e da ideologia neoliberal estabelecem um sistema baseado em “empresas-zumbis”, com o sistema apresentando “uma tendência latente estagflacionária”, algo que o autor desenvolve mais detidamente em um apêndice baseado nos trabalhos de Shaikh. [2]

(b) Da mesma forma o capitalismo do século XXI caminha para um padrão crescentemente autoritário, sendo que o regime democrático burguês vai aos poucos cedendo espaço para formas autocráticas, mais adequadas a manutenção do neoliberalismo e ao sistema de “Elysium” [3] que caracterizam as regras dos super ricos da neofinanceirização.

(c) Por fim, temos a definitiva questão da ruptura metabólica com a natureza imposta pelo “desregramento do capital”. A questão ecológica e os limites críticos da relação humana com a natureza em permanente modificação sugeriam a Karl Marx o crescente agravamento da “falha metabólica” [4] impulsionada pelas relações de produção capitalistas, algo que se chega nos limites críticos e, talvez, de um ponto de um não retorno nesta terceira década do século XXI. Por todos esses aspectos e pela clareza do texto vale muito a leitura de Capitalismo no século 21.

 José Raimundo Trindade é professor do Instituto de Ciências Sociais Aplicadas da UFPA.

Referência

Eleutério F. S. Prado. Capitalismo no século 21: ocaso por meio de eventos catastróficos. São Paulo, CEFA Editorial, 2023, 116 págs.

Bibliografia

Eric Hobsbawm. Era dos extremos: o breve século XX (1914-1994). São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

John Bellamy Foster. A ecologia de Marx: materialismo e natureza. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.

José Raimundo B. Trindade. Crítica da economia política da dívida pública e do sistema de crédito capitalista. Curitiba: CRV, 2017.

Karl Marx e Friedrich Engels, Manifesto Comunista. São Paulo: Boitempo, 2010.

Lauro Campos. A crise da ideologia keynesiana. São Paulo: Boitempo, 2016.

Notas

[1] Sobre as finanças do Estado capitalista e dívida pública numa interpretação marxista conferir Trindade (2017).

[2] Prado (2023, p. 97) se utiliza do modelo desenvolvido por Shaikh (2016) que mantém a regra marxista clássica de que “o ponto de partida de uma compreensão da inflação contemporânea deve se assentar ainda na tese de que a lucratividade comanda a acumulação de capital”. A demonstração feita estabelece uma projeção de estagflação de longo prazo para o capitalismo do século 21.

[3] No filme “Elysium”, que se passa em um futuro capitalista distópico temos uma burguesia que vive em uma estação espacial, que dá o título ao filme, enquanto o resto da população mora em uma Terra arruinada.

[4] Para uma compreensão detida da falha metabólica e do pensamento ecológico de Marx conferir Bellamy Foster (2011).

 

 

 

Poderá a globalização nos livrar do capitalismo? Paulo Fleury

0

Em crise profunda, os neoliberais contorcem-se, mordem o próprio rabo e adotam um protecionismo tacanho. Nos EUA, os magnatas já exercem o poder diretamente. Mas, em seu impulso de integração, talvez a humanidade já tenha encontrado uma alternativa

Paulo Fleury Teixeira, Médico e Filósofo – OUTRAS PALAVRAS – 28/03/2025

Os bilionários no poder nos EUA e o sentido desta mudança

No curso da grande crise econômica em que estamos mergulhados, era previsto que a ideologia liberal se radicalizasse em sua origem e condição de classe, e que redobrasse suas apostas na concentração de riqueza nas mãos dos capitalistas, em detrimento da população trabalhadora em geral. A ideologia, neste momento, apela ainda mais para “o espírito animal” do empresário, aumentando a ideia de valor e poder dos líderes empresariais vitoriosos na competição do mercado. Nada pode ter mais valor ideológico para o capitalismo do que a visão do vitorioso, os líderes empresariais, vistos como condutores natos da produção e, portanto, da vida social. Isso parece natural, no sentido de que, seja como for, tiveram o suposto mérito de vencer no cenário da mais intensa competição.

Existem muitas razões para que seja assim. Estamos em processo de socialização da produção e da vida social como um todo. Todas as grandes certezas do liberalismo ou, mais objetivamente, do capitalismo liberal, foram derrotadas na história. Porém os processos históricos não são lineares – mas desenvolvem-se em ondas. Podemos, portanto, reconhecer um processo histórico de socialização no sistema que, no entanto, tome, em alguns momentos, o sentido oposto: o da acentuação do liberalismo na economia, na vida real, no mundo todo. Estamos justamente no fim de um destes momentos de acentuação do capitalismo em sua essência.

Neste momento, os capitalistas e seus representantes, no que toca à distribuição da riqueza e do poder, redobram a aposta na liberdade e poder ilimitados do mercado, dos capitalistas e de seus líderes. É realmente peculiar que agora sejam os próprios capitalistas a exercer diretamente o poder nos EUA. Nada mais evidente. Estamos no ápice da crise e os atores principais não podem e não querem mais deixar o poder nas mãos de seus representantes profissionais. Acumularam tanto poder e estão tão ligados ao Estado americano que não precisam e não querem mais ocultá-lo.

A crise já se arrasta pelo menos desde 2007 – e o que fazem? Apostam em maior concentração de riqueza e poder para dar solução à crise que foi causada por maior acúmulo e concentração de riqueza e poder. Correlativamente, produzem empobrecimento, relativo e até mesmo absoluto, das massas trabalhadoras nos grandes países da economia ocidental, da Europa e dos EUA.

A necessidade econômica, por seu lado, indica que teremos que superar esta onda, que promoveu a intensa concentração das riquezas, no mundo todo, dos EUA à China. E, de fato, já estamos andando neste sentido. A desigualdade parou de crescer desde 2014 na China. E, recentemente, tínhamos alguma tendência positiva nos próprios EUA. No entanto, agora, Washington optou por guinada liberal extrema. Estão dispostos a fazer a massa trabalhadora aceitar, temporariamente, ainda mais perda de serviços e de renda, de recursos e de dignidade. Vão tomar recursos das classes médias e das já empobrecidas, enxugando ainda mais os serviços públicos e adotando medidas de proteção à indústria local, em detrimento da competição e da integração produtiva mundial. Isto, com certeza, aumenta as pressões inflacionárias e de desaceleramento da economia, nos EUA e mundo afora.

A guerra comercial que os EUA lançaram contra a China e que agora se intensifica, com grandes aumentos de tarifas de importação, é característica deste período de grande crise econômica e de grande mudança na hegemonia, no centro de poder capitalista mundial.

Em qualquer outra situação teríamos justamente o inverso, o centro do poder no sistema capitalista mundial deve ser expansivo e liberalizante; deve fazer o que for necessário, incluindo levar adiante guerras, em favor da liberdade de comércio e empreendimento, mas não impor-lhes barreiras e restrições. As guerras do ópio do século XIX foram realizadas para liberalizar o mercado da China para o comércio inglês. Já a guerra do ópio atual, a guerra do fentanil, que por enquanto ainda é apenas comercial, está sendo realizada para fechar o mercado americano para os produtos chineses. É um longo ciclo que se fecha. Em ambos os casos o ópio era e é apenas uma marca, um pretexto emblemático, para se abrir ou fechar mercados.

O liberalismo, chegado neste extremo da crise, vai negar de bom grado todos os seus dogmas, como já fez antes, vai defender o protecionismo, vai defender as restrições ao livre comércio e a expansão da integração econômica mundial, vai se tornar nacionalista e vai, ao fim, buscar a guerra como solução. Só um dogma não pode ser contestado pelo liberal, o ideal do livre exercício do poder econômico capitalista. Até o limite de tentar tomar, diretamente em suas mãos, o poder político do estado, como está acontecendo agora nos EUA.

A demonstração de que o planejamento precisa se impor à cegueira dos mercados

Mais empobrecimento, mais imperialismo e mais guerra ou desenvolvimento humano global?

Tudo isto já aconteceu antes na história do sistema capitalista contemporâneo.

A onda liberal atual, iniciada na transição dos anos 1970 para os 80, chegou ao seu limite e está em crise desde a segunda metade da primeira década deste século. A resposta é, como foi antes, redobrar a concentração de riqueza e poder nas mãos dos capitalistas e numa correspondente visão e atuação imperialista mais explícita no cenário mundial.

O sentido de paz com que os EUA acenam hoje para o caso da Ucrânia é circunstancial. O direcionamento dos EUA para a guerra será inevitável, na medida que a crise se aprofunde e ela só pode se aprofundar com o aprofundamento da receita liberal.

É até curioso e realmente absurdo que hoje sejam a Inglaterra, a França e outros países da Europa (os que mais perderam economicamente com o conflito, depois da própria Ucrânia) que defendam aguerridamente a continuidade da guerra. Mas basta olhar para os índices de crescimento econômico destas economias para termos uma pista de por que estão tomando decisões tão enlouquecidas. A crise econômica está atrás destas sandices, assim como na resposta muito disfuncional à pandemia, no mundo ocidental. Quando nada mais anda, fazer andar a economia da guerra, da destruição e da morte pode parecer um ótimo negócio para políticos e setores empresariais. É assim que pensam hoje os poderes nos grandes países da Europa, acreditando que vão pelo menos manter, pelo terror, parte do seu poder imperial no mundo, que, obviamente, decai a cada dia.

Não podemos tomar qualquer estágio da evolução histórica como um parâmetro preciso para os períodos seguintes, mas podemos reconhecer, na estrutura de um sistema, em sua dinâmica histórica, as ondulações que se repetem com certa regularidade. Do contrário, não poderíamos analisar os processos históricos, apenas narrá-los.

Pode-se reconhecer pelo menos duas tendências expansionistas evidentes, dentro do desenvolvimento histórico do sistema capitalista mundial. A tendência à expansão dos empreendimentos e do mercado; à mundialização do comércio, da finança e da produção e, reciprocamente, do consumo, da cultura, a integração mundial e, por conseguinte, a mundialização das pessoas e do próprio mundo. E a tendência ao desenvolvimento da produção em massa e da ciência produtiva em todas as áreas, sempre revolucionando a si mesma.

Obviamente, estas e outras grandes tendências estão interligadas e são interdependentes. É razoável dizer que a partir da revolução industrial estas características e tendências se mostraram tão vitoriosas, tão dominantes no mundo em geral, que vivemos todos, desde então, em um sistema capitalista mundial.

Estas forças são maiores que todas as contratendências do próprio capitalismo. A história mostrou, até agora, que não existe limite econômico absoluto para a reprodução da economia capitalista; e também parece ter mostrado que o proletariado industrial não é o condutor histórico da superação do sistema capitalista. Ao ponto, nas últimas décadas, ele ter perdido boa parte do seu grande papel político anterior, com o desenvolvimento inevitável e progressivo dos sistemas automatizados de produção.

O mundo anda por caminhos surpreendentes, o desenvolvimento tecnológico e a integração mundial continuarão. Isto está no cerne da lógica “cega” do sistema capitalista e também no cerne da evolução consciente, planejada, do socialismo. Estamos em uma encruzilhada extrema, onde o principal país socialista do mundo tem a economia de mercado mais florescente do mundo, enquanto aqueles que defendiam a liberalização da economia mundial voltam-se para a visão regressiva, imperialista e fascista, de defesa da economia e do Estado nacional autárquico

Seria inteligente que os anarquistas, os comunistas, os socialistas até mesmo os social-democratas assumíssemos fortemente estas duas tendências expansionistas como nossas bandeiras, nossos ideais imediatos e diretos, corrigindo assim alguns erros históricos. Quem quer o contínuo desenvolvimento e a expansão da ciência e da tecnologia, a integração da produção e da vida social em todo o mundo somos nós. Capitalismo e capitalistas podem apenas serem instrumentos, relativamente cegos, relativamente estúpidos e perversos, destes desígnios e escolhas.

Essa é a condição e a situação atual do socialismo na China. Dos anos 1980 para cá o país viveu um desenvolvimento econômico e social acelerado. Este desenvolvimento foi acompanhado por algo pouco conhecido: lá surgiram mais bilionários que em qualquer outro país nas últimas décadas. Mas, ao mesmo tempo, a China foi o país que mais prendeu, ou colocou em reformatórios, os seus bilionários. O sistema financeiro continua sob controle direto do governo e o desenvolvimento da economia atende a um “planejamento estratégico” público e não apenas às forças do mercado e ao poder dos ricos. Houve desenvolvimento social intenso, porque o desenvolvimento econômico foi acelerado e porque o poder público dirigiu a economia no sentido da melhora consistente da qualidade de vida das massas.

Na Europa em geral, e nos EUA, o aumento da desigualdade progrediu apesar da crise e continuou crescendo desde 2007, até pelo menos o período da pandemia. De lá para cá não existe uma tendência consistente ainda, mas podemos antever uma nova rodada de perda para os trabalhadores locais, com as ações protecionistas atuais dos EUA e com aumento dos gastos militares na Europa.

A grande crise econômica do sistema capitalista no século passado começou em 1913 e só foi se resolver a partir de 1945. Neste período ocorreu uma grande depressão econômica mundial e, também, duas grandes guerras “mundiais” e uma pandemia que resultaram em mais de 150 milhões de mortes, em uma população de 2 bilhões. A melhora, absoluta e relativa, da renda, dos recursos e serviços, em geral, nas mãos das classes trabalhadoras e médias marcou o fim dos anos 1940 e das três décadas seguintes. A social-democracia emergiu como a principal força política e ideológica do pós-guerra, até encontrar seus limites e ser superada pela nova onda liberal no começo dos anos 1980 do século passado.

A crise atual começou em 2007 e, até agora, só não se manifestou com o mesmo terror do século passado porque foi sabiamente contida com os recursos contracíclicos largamente utilizados, com trilhões e trilhões de dólares jogados nos mercados e nas mãos da população, para manter a economia em funcionamento. Mas, sem a redistribuição da riqueza esta crise está condenada a persistir, protraída, controlada, mas sempre aí, mordendo os calcanhares e os bolsos das classes médias e pobres.

Estamos no ápice da crise. Ainda teremos algumas décadas nesta etapa derradeira da onda neoliberal. Neste período a tendência à solução pela guerra, absurda e alucinante, jamais estará ausente ou distante. Continuará na ordem do dia por longos anos.

Uma grande depressão econômica e guerras mundiais são inevitáveis?

A grande crise econômica do sistema capitalista mundial está sendo controlada por mecanismos anticíclicos limitados e sob constante pressão. Esta crise coincide com o fim de uma grande hegemonia no sistema capitalista mundial. Em função da ascensão chinesa, estamos no fim do império e da grande aliança mundial de poder estabelecida pelos EUA.

A simples afirmação de que estes são processos capitalistas, do sistema capitalista mundial, já significa que são, inerentemente, muito violentos e irracionais. Isto é parte da própria lógica do sistema econômico operado pelo mercado.

O processo de socialização chinês mantém os capitais privados sob planejamento e controle públicos fortes. Define a distribuição dos recursos sociais, financeiros e materiais entre os diversos setores e classes da economia, permitindo que a empresa privada funcione “livremente” apenas dentro de marcos e limites estruturais socializados.

Se os indicadores atuais se mantiverem, tudo indica que a China já colocou foco no aumento do consumo das massas, com ganho relativo de renda para estas. E não parece haver qualquer questionamento ao sistema de planejamento estratégico público da economia socialista no país. Contudo, a ideologia liberal tem penetração na sociedade chinesa atual e o conflito em torno do controle do sistema financeiro e produtivo estará sempre em jogo nos próximos anos e décadas – tanto lá como aqui.

No entanto, continuaremos, por tempo relativamente longo, sob alto risco de grandes guerras mundiais, por estarmos na confluência de dois grandes movimentos histórico-sociais no sistema capitalista mundial – a crise de fim da onda neoliberal e a crise do fim da hegemonia norte-americana. Ambosmovimentos são costumeiramente acompanhados de grandes guerras e crises sociais no interior das nações.

O simples, no entanto, de se tratar de um sistema mundializado e muito mais integrado do que há 100 anos, nos protege da fatalidade de termos que repetir os mesmos processos da crise anterior, ainda que estejamos sob as mesmas pressões.

A integração da economia mundial torna mais difíceis e irracionais as grandes guerras. Sua absurda destrutividade mostra-se tanto mais inaceitável quanto mais o mundo estiver integrado produtiva socialmente. Parece mais irrazoável, agora, destruir o sistema mundial para não ceder parcelas do poder econômico e político, nacional e empresarial. Vamos ser levados, contudo, ao limite.

O fato da grande potência emergente ser a China socialista é ao mesmo tempo um resultado e uma providência dos processos históricos. A China tem sido seguramente, entre os países poderosos, o mais disciplinado e aderente às decisões e ao sentido geral do sistema ONU; e o que mais tem investido na transição energética. Não é de se estranhar, dada a convergência de princípios do socialismo com o internacionalismo e o desenvolvimento da consciência, da inteligência, da segurança e da governança mundiais. Isto é tranquilizador, quando sabemos que ela será a nação mais provocada e atacada pela aliança norte-americana nos próximos anos e décadas.

É improvável que o aprendizado histórico seja completamente inútil agora, permitindo que as grandes catástrofes econômicas e sociais das crises passadas se repitam. Ainda que muitos sinais e tendências neste sentido estejam presentes, eles parecem ser, ao fim, mais fracos do que os mecanismos regulatórios e de proteção social que já foram postos em movimento.

A solução será socializante, como no século passado. No cenário mundial, novas estruturas de decisão, organização e governança terão que ser desenvolvidas mais intensamente do que no século passado, correspondendo ao nível mais desenvolvido da economia mundial e da sociedade mundiais. Certamente precisaremos avançar muito além dos limites e das contradições do sistema das Nações Unidas e de Bretton Woods, rumo a uma verdadeira governança global.

Os EUA mostram reconhecer sua perda relativa de poder e reagem a isto violentamente, tentando resgatar seu império. Tudo isto ocorre tardiamente, quando um movimento econômico e social real já solapou as bases da hegemonia decadente. Tudo o que então se faça, em nome de preservar e restabelecer esta hegemonia, termina por ajudar a conduzir ao seu fim. Toda tentativa de demonstração de força por parte do império termina por revelar a sua verdadeira fraqueza. Exemplos categóricos são a derrota da OTAN na guerra da Ucrânia e o resultado, nulo, ou inverso, das sanções impostas à Rússia e à China. Certamente estão acelerando a superação do poder da aliança constituída em torno dos EUA, em vez de fortalecê-la. As forças econômicas e sociais já se desenvolveram e transformaram neste sentido, a ponto de não ter mais retorno. A hegemonia e o imperialismo dos EUA no sistema capitalista mundial terminará e levará junto consigo os resquícios coloniais do imperialismo europeu que persistem ainda hoje.

Algo central neste processo de aprendizado e desenvolvimento histórico é que as medidas, as ações, as intervenções sociais que anteriormente foram adotadas apenas depois do pior, agora devem ser tomadas antes. Antes das grandes crises catastróficas, como foi a depressão mundial dos anos 1930, as medidas anticíclicas e de proteção social já estão, em parte ao menos, em jogo. Precisamos avançar, ainda mais decidida e intensivamente, no sentido da socialização do sistema econômico mundial. E, antes das grandes guerras mundiais, precisamos da reconstituição e desenvolvimento dos sistemas de decisão e governança mundiais.

É um processo que demorará tempo e se realizará com grande dificuldade. Imagine, por um minuto, como será custoso eliminar todas as bases militares internacionais dos EUA. São mais de 800 e continuam aumentando. O mundo é ocupado militarmente pelos EUA. Isso terá que ser eliminado ou submetido a uma verdadeira governança mundial. Será um processo longo e difícil. Enquanto isto, podemos reivindicar a ideia de cidadania mundial. Ainda que ela esteja, do mesmo modo, distante no horizonte atual, é certamente o que nos interessa, correspondendo à integração do sistema produtivo social mundial. Somos mundiais e queremos ser mundiais.

 

Trump põe as polícias nas ruas, por Luiz Francisco Carvalho Filho

0

Mascarados, agentes do governo fizeram até sequestro de aluna de doutorado

Luiz Francisco Carvalho Filho, Advogado criminal, é autor de “Newton” e “Nada mais foi dito nem perguntado”

Folha de São Paulo, 29/03/2025

É aterrorizante a cena de prisão da estudante turca Rumeysa Ozturk, 30 anos, por agentes mascarados do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos, captada por câmera de vigilância urbana, em Massachusetts.

A mulher é submetida a sequestro-relâmpago por homens que não se identificam. É suspeita de ser favorável a palestinos de Gaza e desfavorável ao governo de Israel, o que significaria, segundo autoridades migratórias, antissemitismo. Muçulmana e bolsista de prestígio no programa de pós-graduação da Universidade Tufts, tem o visto de permanência cassado.

Não é caso isolado. Trump põe as polícias nas ruas, persegue delitos de opinião e ambiciona instituir uma dinâmica política de limpeza étnica e ideológica nos campos universitários.

Com fundamento em lei de 1798, editada para tempos de guerra e nunca utilizada em tempos de paz, que permite deportar cidadãos de “países inimigos” sem garantias do devido processo legal, Trump avança contra venezuelanos que supostamente pertencem a gangues e a grupos criminosos. Convênio sinistro de colaboração totalitária, o governo de El Salvador faz a gentiliza remunerada de acolher presos dos EUA em suas gigantescas prisões. É a terceirização da violência e do abuso de poder.

Nas fronteiras, não se pronuncia a palavra “não”. Turistas são atingidos. Com base em “suspeita razoável” e sem mandado judicial, agentes dos órgãos de imigração encontram meios de invadir, em busca de informações sensíveis ou comprometedoras, a privacidade de telefones e computadores de quem viaja a passeio para Nova York ou para a Disney.

Ordens executivas de controle ideológico atingem escritórios de advocacia com histórico de patrocínio de causas contrárias ao que se convencionou chamar de pensamento trumpista. Não resistem pelo temor de perder a clientela para a concorrência.

Instituições museológicas e de pesquisa como o Smithsonian são acusadas de ideologia imprópria. Cientistas patrocinados pelo governo norte-americano estão impedidos de participar de encontros internacionais que discutem temas inoportunos, como clima, vacinação.

A resistência é pífia. Como mostra o jornalista Guga Chacra, em O Globo, a capitulação é geral. Não há mais vozes dissonantes no Partido Republicano como havia no primeiro mandato. O líder da minoria democrata no Senado a nada se opõe. A venerável Universidade Columbia sucumbe para não perder fundos federais de financiamento e admite restrições à liberdade acadêmica. A covardia e o oportunismo se espalham como fogo.

Muito além da guerra tarifária, o presidente dos Estados Unidos quer anexar a Groenlândia e intimidar países vizinhos. Aparece como chefe de uma polícia planetária e corrupta, pronta para agir, o que, no Brasil, dá ânimo para a famiglia Bolsonaro de criminosos políticos e para seus agregados de sempre, os golpistas silenciosos.

Ambicioso, o autocrata não tem limites. Trump ameaça com impeachment juízes que eventualmente criem embaraços judiciais para atos que violam a Constituição.

Os Estados Unidos, a despeito das suas guerras e da arrogância diplomática, têm tradição profunda de liberdades civis, que, agora, escorre como água pelos dedos.

A América está de ponta-cabeça.

 

Trumponomics é maquiagem para uma política problemática, por Martin Wolf

0

Como os tecnocratas esperam que os ajustes macroeconômicos necessários ocorram?

Martin Wol, Comentarista-chefe de economia no Financial Times, doutor em economia pela London School of Economics

Financial Times/Folha de São Paulo, 25/03/2025

Na semana passada, questionei o que alguns condenam como a tentativa de minimizar as radicalidades das políticas econômicas internacionais de governos Trump.  Em outras palavras, perguntei se poderia haver lógica e evidências subjacentes ao que membros de sua administração, notavelmente Stephen Miran, presidente do conselho de assessores econômicos, argumentam.

O professor de Berkeley, Brad DeLong, contrapõe que isso é irrelevante: “Para fazer acordos, você precisa que suas contrapartes o considerem um cumpridor de acordos. Donald Trump demonstra, todos os dias, que não é.” Eu concordo —e disse isso.

No entanto, ainda é possível se perguntar se questões políticas significativas podem ser vistas aqui e, em caso afirmativo, o que se poderia fazer a respeito delas. Assim, Scott Bessent, secretário do Tesouro, argumentou no início deste mês que, além de fornecer segurança global, “Os [EUA]… fornecem ativos de reserva, servem como consumidor de primeira e última instância e absorvem o excesso de oferta diante da demanda insuficiente nos modelos domésticos de outros países. Este sistema não é sustentável.”

Da mesma forma, Miran argumenta que o dólar tem sido cronicamente supervalorizado, o que “tem pesado fortemente no setor manufatureiro americano enquanto beneficia setores financeiros da economia” em benefício dos americanos mais ricos.

O ponto de partida de Miran é o argumento de Robert Triffin dos anos 1960, de que a demanda por reservas de moeda estrangeira criou a supervalorização e os déficits comerciais e de conta corrente associados. No entanto, essa não é a única maneira de os países acumularem reservas de moeda.

Como Maurice Obstfeld, ex-economista-chefe do FMI, argumenta em um blog para o Peterson Institute for International Economics, os estrangeiros poderiam substituir outros ativos estrangeiros por participações nos EUA. Nem as reservas são a única razão para os estrangeiros comprarem ativos dos EUA. Como Paul Krugman observa, eles podem simplesmente querer ativos dos EUA.

No entanto, a demanda por reservas tem sido em alguns casos um fator importante no balanço de pagamentos global. Seu valor total saltou quase sete vezes de 1999 a 2014. Isso foi impulsionado em grande parte pelo desejo das economias emergentes de se protegerem de futuras crises financeiras.

Mas, no caso da China, o maior detentor individual, também foi causado pelo desejo de encontrar uma saída para suas economias excedentes e gerar crescimento manufatureiro liderado por exportações. Enquanto isso, a zona do euro um dos outros alvos de Trump, aumentou suas reservas em apenas US$ 72 bilhões (R$ 410,3 bi) entre o final de 1999 e o final de 2024.

Forças mais fundamentais do que o desejo de acumular reservas também estão em ação. Estas são diferenças nas propensões a poupar e investir. Alguns países têm excedentes de poupança sobre investimento e, portanto, terão superávits em conta corrente e déficits em conta de capital correspondentes —e vice-versa.

Isso não é necessariamente problemático. Mas problemas podem surgir. Um deles é que o sistema de intermediação de capital em todo o mundo gera crises. Os únicos países que podem gerenciar com segurança tais crises são aqueles cuja moeda doméstica também é uma moeda de reserva confiável. Essa tem sido uma boa razão pela qual os formuladores de políticas em países emergentes frequentemente buscam ter superávits em conta corrente.

Outra razão é que, se um país tiver tais superávits, também produzirá excedentes de bens e serviços comercializáveis sobre o consumo doméstico e vice-versa. Portanto, não é por acaso que economias com altas taxas de poupança, como China, Alemanha e Japão, têm setores manufatureiros relativamente grandes, enquanto os EUA e o Reino Unido estão na posição oposta (embora outro fator para estes últimos seja que são bons em produzir serviços exportáveis, o que então reduz as exportações manufatureiras).

Em geral, então, países obcecados com a manufatura tendem também a ser mercantilistas obcecados por superávits. Assim, os mercantilistas nesta administração, incluindo Trump, não estão errados: se os EUA tivessem um superávit em conta corrente, seu setor manufatureiro seria de fato maior. Mas estão completamente errados ao acreditar que isso se resume apenas a reservas. Eles também não abordam adequadamente as condições necessárias para tal reequilíbrio.

Se os EUA quiserem eliminar seu déficit em conta corrente sem sacrificar o investimento, precisarão aumentar sua taxa de poupança em pelo menos 3% do PIB (ou cerca de US$ 850 bilhões ou R$ 4,8 tri). Isso seria quase metade do déficit fiscal.

Acontece que, de acordo com Kimberly Clausing do Peterson Institute of International Economics, uma tarifa de 50% maximizada em receita poderia gerar US$ 780 bilhões (R$ 4,4 tri) por ano. Além disso, tal tarifa poderia também melhorar os termos de troca dos EUA, ao reduzir os preços relativos das importações. Mas seria regressiva e teria efeitos negativos na atividade econômica global e doméstica, incluindo prejuízo a exportadores competitivos dos EUA. De qualquer forma, Trump parece incuravelmente desinteressado em tal política abrangente.

Então, a grande questão permanece: como os tecnocratas de Trump esperam que os ajustes macroeconômicos necessários ocorram? As propostas que fizeram são mal elaboradas. Planos para conversão forçada da dívida pública externa e depreciação não fazem sentido, a menos que o objetivo seja usar o imposto inflacionário. Os EUA tentaram isso nos anos 1970: terminou mal!

Mais importante, para que serve isso? Sim, se o déficit em conta corrente pudesse ser eliminado, o setor manufatureiro seria um pouco maior. Mas as partes que importam para a segurança ou qualquer outro propósito mais profundo não seriam necessariamente as que cresceriam. Além disso, nada pode impedir um declínio de longo prazo na participação do emprego na manufatura. A manufatura está seguindo o caminho da agricultura: a produtividade crescente prevalecerá.

Mesmo em sua forma mais sofisticada, então, a Trumponomics é irrelevante e incoerente. A versão da vida real é pior.

 

 

40 anos de incertezas por Marcos Paulo Pereira Filho

0

Marcos Paulo Pereira Filho – A Terra é Redonda – 27/03/2025

Com a ascensão dos movimentos de extrema direita, estamos diante de uma crise civilizacional que expressa o fracasso da Nova República de instaurar uma modernização com inclusão social

“Oito horas e danço de blusa amarela / Minha cabeça talvez faça as pazes assim / Quando ouvi a cidade de noite batendo as panelas / Eu pensei que era ela voltando pra / Minha cabeça de noite batendo panelas / Provavelmente não deixa a cidade dormir / Quando vi um bocado de gente descendo as favelas / Eu achei que era o povo que vinha pedir / A cabeça dum homem que olhava as favelas / Minha cabeça rolando no Maracanã / Quando vi a galera aplaudindo de pé as tabelas / Eu jurei que era ela que vinha chegando” (Chico Buarque, Pelas Tabelas).

Introdução

No meio da ebulição dos movimentos autoritários de extrema direita que buscam ejetar o sistema democrático da sociedade brasileira, a Nova República e, portanto, a redemocratização, fizeram seu quadragésimo aniversário nesse mês de março.

Em inúmeros jornais físicos e virtuais, a celebração do período democrático mais longo que o país já conheceu vem carimbado com as análises dos “avanços”, “retrocessos” e “desafios” que o Brasil enfrentou desde a posse de José Sarney. Para além de qualquer compreensão maniqueísta do processo social, é significativo para um país constituído pelo trabalho escravo a organização de uma sociedade de classes lastreada no voto popular.

Do jeitão brasileiro, seus arcaísmos continuaram a se combinar com seus aspectos modernos. Que venha a democracia! Mas parcelada, com anistia aos torturadores “do passado”; Que o povo trabalhe! Mas parcialmente, com metade da força de trabalho afundada na informalidade e nos ilegalismos do cotidiano.

A construção da Nova República, apesar de seus significativos avanços políticos e sociais, se caracteriza, no geral, pelo fracasso da tentativa de resolver os problemas da formação nacional de um país na periferia do capitalismo. A busca pela organização de um Estado nacional fundado na democracia de massas, característico dos países centrais no pós-guerra, foi suspenso pelo arranjo entre proprietários nacionais e as novas lógicas de reprodução do capitalismo globalizado.

O problema da formação nacional

Durante a segunda metade do século XX, parte importante da intelectualidade nacional estava preocupada em buscar compreender as particularidades da formação nacional na periferia do capitalismo. Partindo de um método de comparação com o desenvolvimento das forças produtivas nos países centrais, a dúvida girava em torno do por que não atingimos o nível de sociabilidade capitalista característico desses.

O problema da formação estava posto como resposta ao problema nacional. Desde sua criação como colônia, o país se estabelece pelo uso do trabalho escravo em uma economia agrário-exportadora associada ao desenvolvimento do capitalismo em escala mundial, servindo como produtora de valor que seria realizado externamente, nas metrópoles europeias. Aí, Caio Prado Jr., com seu sentido da colonização, e, posteriormente, Fernando Novais, complementando sua leitura, apresenta as origens do “atraso” brasileiro.

O uso do trabalho cativo no período colonial dificultava a formação de um mercado interno nos moldes clássicos de cisão entre campo e cidade. Se na realidade europeia a utilização do trabalho livre forjou uma sociedade baseada nos princípios da divisão social do trabalho industrial, com a substituição gradual da mais-valia absoluta pela mais-valia relativa, aqui a mão de obra escravizada condenava o país às suas características agrícolas fundamentadas na baixa mecanização do trabalho.

Com as transformações na acumulação capitalista mundial a partir do século XIX e sobretudo durante a primeira metade do século XX, a formação social brasileira passou por transformações que reorganizaram seu tecido produtivo. Se até meados da década de 1930 a produção agrícola voltada para exportação servia para formação das divisas internacionais que realizaria o pagamento das manufaturas importadas, a partir das transformações políticas ocorridas na época, o país inicia um processo modernizador que buscava, ao estimular a produção industrial interna, alcançar os padrões de consumo e infraestrutura da Europa e Estados Unidos.

O desenvolvimentismo, versão latino-americana do desenvolvimento capitalista fordista-keynesiano, foi a chave que impulsionou a modernização periférica no Brasil que buscava superar sua condição de subordinado para administrador do sistema mundial produtor de mercadorias.

Francisco de Oliveira, na década de 1970, no seu ensaio Crítica à razão dualista, entretanto, apresentou como esse período de modernização conservou o caráter periférico da sociedade brasileira. Para ele, o regime de acumulação determinado pela indústria, que intensificou a produção manufatureira no Brasil, pode se realizar exatamente pela associação do “atraso” com o “moderno”, com esse estruturalmente repondo aquele e vice-versa. A reprodução capitalista brasileira se determinaria por uma altíssima concentração de renda e por particularidades em relação ao modelo clássico, europeu, de desenvolvimento capitalista.

Aqui, a regulação dos fatores de produção, notadamente a formação do trabalho assalariado, seriam induzidos pelo Estado ditatorial varguista que buscava impulsionar uma acumulação industrial, formalizando os trabalhadores dentro de uma carta trabalhista e dessa maneira regulando o exército de reserva que permitiria uma dada acumulação. Para além disso, a associação entre produções realizadas pelos trabalhadores para seu autoconsumo levariam a diminuição dos custos da reprodução da sua força de trabalho.

Dentre elas, se caracterizaria a autoconstrução, na qual os operários, mediante mutirões, construíram suas próprias casas, retirando dos custos do salário a necessidade de se acessar a moradia urbana. O padrão de acumulação da indústria também demandava uma agricultura extensiva, que permitiria o rebaixamento dos salários urbanos, pelos custos baixíssimos de reprodução da força de trabalho na agricultura, proporcionando alimentos baratos que seriam consumidos pelos novos proletários. A agricultura, também, serviria como constante exército de reserva, pelas levas de migrantes que se amontoavam na cidade buscando acessar o trabalho industrial. Nesse sentido, para o sociólogo, o capitalismo no Brasil se reproduziria de forma anômala, seria um ornitorrinco, aquele que é moderno, mas não possui as qualidades deste.

A retomada da democracia

Com o esgotamento do modelo desenvolvimentista no começo da década de 1980 e as transformações na economia mundial, o regime ditatorial militar foi substituído, de maneira gradual e tutelada, pelo regime democrático que tinha sido suspenso pelos militares em 1964. Com as mobilizações populares das Diretas Já! e depois dos movimentos sociais durante a escrita da Constituição Cidadã promulgada em 1988, houve uma animação em torno da construção de um Estado de Bem-estar na periferia do capitalismo. Passados quarenta anos desde esse período, o estágio atual que se encontra os arranjos sociais e econômicos do país nos traz reflexões sobre as dificuldades da tentativa de formar uma sociedade coesa em torno dos princípios democráticos e cidadãos.

A Nova República surgiu com políticas adotadas durante o regime civil-militar brasileiro que foram intensificadas nos últimos anos e atualmente se apresentam na forma de crise. Durante a década de 1970, por exemplo, os militares possuíam um projeto de ocupação autoritário da região Norte do país que se revelava estar despreocupada com os processos ecológicos próprios do bioma amazônico e que nos trazem atualmente diversos conflitos fundiários e ecológicos que transformaram a Amazônia em uma região de ilegalidades de todos os tipos: garimpo ilegal, grilagem de terras, extração ilegal de madeira e rota para o tráfico de drogas.

Podemos pensar também nos projetos de transformação do Centro-oeste em uma grande extensão de lavouras de soja que contou com apoio de companhias de colonização, isenções fiscais e pesquisas públicas que serviram para o quadro de reprimarização da economia que nos encontramos atualmente. Nesse sentido, alguns setores de nossa crise atual estão relacionados com a administração territorial, econômica e política dos militares brasileiros.

Mas para além da herança dos militares, existe um cruzamento entre as transformações no capitalismo globalizado e as políticas adotadas durante os governos democráticos que generalizaram o caráter de crise e colapso na qual se encontra o Brasil atualmente.

A crise do trabalho no mundo ocidental, ocasionada pelo processo de desindustrialização causado tanto pela transferência de fábricas para Ásia quanto pela substituição do capital constante pelo capital variável, fez com que parte do trabalho assalariado passasse a transitar entre exército de reserva e população supérflua. Os novos sujeitos monetizados sem dinheiro que começaram a se enclavar nas periferias dos centros urbanos mundiais passaram a ter uma nova socialização que deixou de ser pautada pelos processos de valorização característicos da sociedade industrial – que agora está em crise – para novas formas de trabalho pautados pela desregulamentação dos direitos trabalhistas e sujeitos autônomos.

No caso brasileiro, o processo de desindustrialização alicerçado com a reprimarização da sua economia levou para uma organização produtiva pautada pelo consumo interno e não mais pelas inovações tecnológicas que permitiriam o aumento da capacidade produtiva instalada no país. O crescimento da economia brasileira não se dá a partir do aumento da produtividade da força de trabalho, mas pelos estímulos fiscais que fazem com que se aumente o consumo sem estar combinado com a complexificação produtiva.

As cifras bilionárias advindas das exportações de commodities servem para que o país tenha uma balança comercial superavitária com reservas internacionais que permitam o aumento da importação de certos produtos manufaturados que são demandados pelo aumento do consumo das famílias brasileiras. No tecido produtivo interno, entretanto, não se enxerga a qualificação da força de trabalho como força motriz para o desenvolvimento das suas forças produtivas.

Os governos democráticos percebendo a impossibilidade da superação da crise do trabalho, fizeram um acordo nacional que buscasse impedir com que houvesse uma explosão da miséria ao longo do território nacional. A criação de inúmeros programas de transferência de renda, apesar de sua inegável importância na possibilidade que milhões de brasileiros tenham a mínima dignidade, serviram como administradores da pobreza que mantiveram o caráter periférico da formação social brasileira.

Junto com isso, aqueles que continuaram regularmente no mercado formal de trabalho tem em sua grande maioria no horizonte apenas o setor de vendas que suscita no país quando existe um aumento dos valores dos programas de transferência de renda ou aumento real do salário-mínimo.

Quando analisamos as pesquisas mensais do Novo CAGED podemos observar esse fenômeno de perto. Durante os meses de janeiro e junho de 2024, dos 1,300,065 empregos formais gerados, 716,909 foram no setor de serviços não complexos, isto é, ligados às vendas, com salários que giram em torno de 2,230 reais e que demandam apenas o ensino médio completo.[i] Enquanto que cada mês, na média, 100 mil empregos com apenas o ensino médio completo eram gerados, apenas 5.000 tinham algum curso de graduação. Esses dados mostram como o tecido produtivo brasileiro está organizado em torno do trabalho precarizado que amplia as desigualdades sociais brasileiras.

Castelos de papel

A sociedade brasileira atual apresenta um caráter de crise que pode ser observado de qualquer ângulo econômico, social ou político. A crise do trabalho na sociedade mundial produtora de mercadorias modificou as estruturas produtivas e intensificaram o apartheid social nos países capitalistas. No nosso caso, a tentativa da construção de um Estado social veio de encontro com a petrificação das nossas condições periféricas, agora atualizadas para nova lógica globalizadora que busca desregulamentar qualquer tentativa de mínima proteção social dos trabalhadores e da classe média.

Se durante os governos tucanos e petistas houve uma tentativa frustrada de integração nacional[ii] que ocultaram a lógica de colapso presente em nosso país-ornitorrinco, atualmente, com a ascensão dos movimentos de extrema direita, estamos diante de uma crise civilizacional que expressa o fracasso da Nova República de instaurar uma modernização com inclusão social. Criamos castelos de papel que estão sendo tragados pelos movimentos autoritários que buscam mobilizar a sociedade para a barbárie.

Marcos Paulo Pereira Filho é graduado em geografia pela USP.

 

A financeirização da velhice, por Edson S. Moraes

0

Risco de transformar longevidade em negócio é alto; bancos, empresas de assistência e seguradoras já fazem do medo do futuro uma opção lucrativa

Edson S. Moraes, Mestrando em ciências do envelhecimento, é consultor de estratégia e conselheiro empresarial.

Folha de São Paulo, 27/03/2025

O Brasil envelhece rapidamente, e o que deveria ser motivo de celebração se tornou uma preocupação. A longevidade, um dos maiores avanços da humanidade, passou a ser vista como um problema econômico. Em vez de garantir segurança e bem-estar às pessoas idosas, o mercado financeiro as transforma em oportunidades de lucro, explorando sua vulnerabilidade.

A financeirização da velhice ocorre quando serviços essenciais, como saúde, Previdência e moradia, deixam de ser direitos garantidos e se tornam produtos caros. Isso afeta a todos, inclusive os mais jovens, uma vez que o sistema previdenciário enfrenta desafios com a queda na taxa de natalidade e o aumento da expectativa de vida. Se nada for feito, cada aposentado dependerá de um número menor de trabalhadores, levando à promoção de planos privados e crédito consignado. O problema? A grande maioria dos brasileiros não consegue pagar por isso.

As pessoas idosas, que deveriam ser protegidas, tornam-se alvos fáceis. Bancos, seguradoras e empresas de assistência transformam o medo do futuro em um negócio lucrativo. Muitas recorrem a planos de saúde privados por desconfiança no SUS, mas os reajustes constantes as forçam a escolher entre pagar pelo plano ou cobrir despesas básicas.

Para complementar a renda, boa parte opta pelo crédito consignado, que, apesar dos juros abaixo da média de mercado, podem gerar um ciclo de endividamento, especialmente quando usado para ajudar familiares. Já as instituições de Longa Permanência para idosos (Ilpis), popularmente conhecidas como “casas de repouso”, passaram a ser tratadas como negócios lucrativos, tornando-se acessíveis apenas para uma parcela privilegiada da população.

Se essa lógica continuar, será impossível envelhecer com dignidade sem grandes investimentos individuais. Isso reforça a ideia de que a velhice é um problema econômico e não uma conquista social, abrindo espaço para políticas que reduzem direitos e ampliam desigualdades. Precisamos encarar o envelhecimento não como um fardo, mas como um desafio que exige soluções sustentáveis e justas.

Para isso, é essencial fortalecer políticas públicas, garantindo que as pessoas idosas não dependam exclusivamente do setor privado. Melhorar o SUS, ampliar programas sociais e promover a educação financeira desde a juventude são passos fundamentais para evitar dívidas desnecessárias e planejar melhor a velhice. Também é preciso regular o mercado financeiro, impedindo abusos em planos de saúde e crédito consignado, além de garantir a efetividade da Política Nacional de Cuidados, oferecendo uma rede de suporte acessível e de qualidade. O governo já trabalha para implementar essa política, buscando assegurar que o direito ao cuidado seja efetivado de forma justa e igualitária.

Se não enfrentarmos a financeirização da velhice agora, todos pagaremos o preço no futuro. Envelhecer faz parte da vida, e garantir que isso aconteça com dignidade é uma responsabilidade coletiva. O lucro não pode estar acima do direito de envelhecer com segurança. Afinal, se envelhecer é um privilégio, não deveria ser um peso financeiro.

Paraíso Fiscal

0

Na sociedade brasileira percebemos o crescimento das discussões referentes a tributação e a reforma tributária, assuntos sempre desconhecidos para a grande maioria da população, principalmente para os mais pobres, atualmente observamos alguns ruídos para que o assunto volte à tona, embora uma pequena parte de abastados e endinheirados usem seus poderes monetários e financeiros para evitar uma discussão estrutural, afinal são eles os grandes ganhadores do sistema tributário nacional.

Somos uma nação marcada por grandes desigualdades sociais, econômicas e políticas, carecemos de uma educação mais consistente, necessitamos de um setor de saúde mais eficiente e serviços públicos mais qualificados para atenderem as demandas cotidianas da sociedade, ainda mais num mundo marcado por grandes transformações tecnológicas e movimentações geopolíticas e econômicas. Todos os cidadãos brasileiros sabem que temos inúmeros problemas estruturais que remontam a nossa independência, existem algumas medidas que devem trazer ganhos maiores para a sociedade e impedir que os indicadores degradantes de renda aumentem crescentemente, neste cenário, faz-se necessário uma verdadeira reforma tributária progressiva, onde os que ganham mais proporcionalmente deveriam pagar mais, evitando que se perpetuem uma situação tributária que se aproxime de um verdadeiro paraíso fiscal.

O sistema tributário é fundamental para alavancar o crescimento econômico, retirando recursos da economia para incrementar os serviços sociais, melhorando a infraestrutura e capacitando os sistemas econômicos e produtivos para gerar empregos de qualidade, melhorando as condições de vida da população e levando a nação ao tão sonhado desenvolvimento econômico.

No Brasil, percebemos uma situação chocante e assustadora, vivemos num país que isenta os grandes milionários e bilionários, donos do capital, isentando-os de pagarem dividendos estrondosos, com altas isenções fiscais e regimes especiais para pagamentos reduzidos e, erroneamente, tributando fortemente o consumo das classes mais empobrecidas e a chamada classe média que respira artificialmente à décadas, uma classe em extinção, empobrecida, dona de empregos precários e marcada pelo endividamento gerado por taxas juros escorchantes, uma das maiores da economia internacional, que remunera os privilégios de uma elite improdutiva, corrupta e que se define, falsamente como nacionalista.

Num momento de possíveis discussões tributárias, críticas crescentes nas questões fiscais, os grupos mais organizados e dotados de grandes recursos monetários usam seus poderes financeiros para perpetuarem seus ganhos escorchantes, fortalecendo suas isenções fiscais e tributárias e preservando seus ganhos num sistema fortemente regressivo e usam seus canais de comunicação para gritar contra os gastos elevados do governo, mas se “esquecem” de suas responsabilidades tributárias e perpetuam um sistema tributário regressivo que patrocina e perpetua uma desigualdade estrutural da sociedade.

A sociedade internacional está passando por grandes transformações, uma verdadeira mutação está em curso no mundo contemporâneo, neste momento esperamos medidas efetivas, consistentes e urgentes para avivar a esperança da coletividade, precisamos rever privilégios crescentes para poucos privilegiados, reduzir penduricalhos daqueles que se acreditem iluminados, além de taxar grupos que pouco pagam, concentrar isenções para grupos que trazem ganhos substanciais para a sociedade, criando parâmetros racionais e evitando interferências políticas, neste momento precisamos ter a coragem para favorecer a grande maioria da população em detrimento dos interesses mesquinhos e imediatistas que sempre extraíram recursos nacionais e canalizaram investimentos para os verdadeiros paraísos fiscais, garantindo a pecha de um dos países mais desiguais da comunidade internacional.

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário.

 

 

Economia: o financismo segue no comando, por Paulo Kliass

0

Governo acerta ao mudar Imposto de Renda mas país sofre, na mesma semana, três choques em sentido contrário: a nova alta da taxa Selic, a informação de que a despsa de juros cresceu 32% em um ano e um empréstimo consignado a gosto dos banqueiros;

Paulo Kliass, Doutor em Economia e membro da carreira de Especialistas em Políticas e Gestão Governamental do governo federal.

OUTRS PALAVRAS – 25/03/2025

As notícias divulgadas ao longo do mês de março a respeito da política econômica infelizmente confirmam uma tendência que já vinha se manifestando antes mesmo da posse de Lula, em 1º de janeiro de 2023. Caminhando na direção contrária das expectativas geradas pela importante vitória em outubro de 2022 na disputa eleitoral contra Jair Bolsonaro, a delegação conferida a Fernando Haddad para conduzir a economia tem se revelado um desastre.

O Ministro da Fazenda parece ter incorporado o espírito do bom mocismo desde o início de sua missão, sempre em articulação com os interesses da Febraban e das instituições do sistema financeiro. Assim foi com a sugestão de que não fosse simplesmente revogado o teto de gastos, que havia sido introduzido por Michel Temer lá atrás em 2016. Haddad propôs a Lula que a emenda constitucional da austeridade absoluta só tivesse sua vigência interrompida quando o Congresso Nacional aprovasse uma lei complementar tratando do Novo Arcabouço Fiscal. E aí estamos sofrendo com as amarras da Lei Complementar nº 200/2023.

Além disso, Haddad conseguiu transformar sua obsessão com a redução das despesas orçamentárias em estratégia central do governo, colocando obstáculos para a retomada de políticas públicas nos níveis necessários para a maioria da população e impedindo a construção de um programa de desenvolvimento social, econômico e ambiental para o País. A meta de zerar o déficit primário e a tentativa de obter até mesmo saldo positivo nas contas públicas compromete qualquer projeto de mudar a qualidade do processo de crescimento da economia.

No que se refere à política monetária, a segunda reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) sob a presidência de Gabriel Galípolo sacramentou um novo aumento de 1% na SELIC. Sob a desculpa de ser obrigado a obedecer a “guidance” recomendada por Roberto Campos Neto em sua despedida do cargo, a nova direção do Banco Central (BC) nada mais faz do que dar continuidade ao arrocho da gestão anterior. O ex-Secretário Executivo de Haddad mantém, no comando do BC, o ritmo de elevação da taxa oficial de juros. Com a elevação para 14,25%, o país segue oferecendo aos operadores do financismo global uma das maiores rentabilidades reais no planeta.

Juros na estratosfera!

A decisão do Copom nada mais significa do que referendar os desejos da elite do sistema financeiro, que se manifesta semanalmente por meio da pesquisa Focus realizada pelo próprio BC. A enquete é realizada junto a pouco mais de uma centena de dirigentes de instituições do universo das finanças e funciona como uma espécie de profecia autorrealizada. O Copom sempre justifica suas decisões de promover elevações descabidas na Selic com base na necessidade de atender às expectativas do chamado “mercado”. Ocorre que tais informações são obtidas neste seleto grupo de empresários, cujo perfil pertence exclusivamente ao universo do parasitismo rentista.

Outra informação divulgada pelo BC refere-se ao volume de despesas realizadas pelo governo com o pagamento de juros da dívida pública. Por se tratar de gasto financeiro, ele é classificado como “não primário”. Assim não existe limite, corte ou contingenciamento para tais despesas. Ao contrário do esforço fiscal para reduzir as rubricas orçamentárias que recebem o carimbo de primárias, o dispêndio com o pagamento de juros tem crescido de forma sistemática e em valores e percentagens muito acima das demais despesas.

O ano de 2024 foi encerrado com um volume de gastos de R$ 950 bilhões a esse título. Com a divulgação dos dados relativos a janeiro de 2025, o total dos últimos 12 meses sofreu uma pequena redução para R$ 910 bi. De qualquer maneira, o total dos juros pagos cresceu 32% na comparação com 2023. Trata-se da rubrica do Orçamento que recebeu o maior aumento de um exercício para outro. Curiosamente, em nenhum momento se menciona nas declarações oficiais a necessidade de reduzir esse tipo de gasto para ajudar na responsabilidade fiscal. Todo o foco do ajuste permanece sobre contas de natureza social, a exemplo de saúde, previdência social, educação, assistência social, salários de servidores, segurança pública e outras.

Outro aspecto que confirma a hipótese de que o financismo segue no comando da agenda política econômica do governo pode ser identificado na recente divulgação do modelo de crédito consignado para os trabalhadores com carteira assinada. Ao se inspirar na prática já existente para os aposentados e pensionistas do INSS e para os servidores públicos, a equipe de Haddad construiu uma proposta também para os assalariados no regime da CLT. Com a desculpa de um elevado grau de endividamento existente no interior da maioria das famílias brasileiras, o sistema mantém o grau de dependência e vinculação dos indivíduos em relação ao sistema bancário e financeiro.

Crédito consignado: armadilha do financismo.

De acordo com o modelo proposto, será possível que os endividados deste novo universo negociem novos empréstimos com taxas de juros de juros mais baixas. Afinal, a proposta do Ministério da Fazenda oferece como garantia de eventual inadimplência os recursos do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). Assim, trata-se da mais completa deturpação dos propósitos iniciais do referido fundo. Ele foi concebido para operar como financiador da habitação para população de baixa renda e para atuar como refúgio temporário para os trabalhadores que tenham sido demitidos de seus empregos.

Apesar do flagrante baixo risco envolvido, o governo se recusou em estabelecer um teto para os juros a serem aplicados aos empréstimos desta nova modalidade. Assim, segue-se o mesmo modelito de favorecimento dos bancos, uma vez que a prática espoliadora também se verifica em empréstimo de risco ainda mais reduzido, quase inexistente. Esse é o caso de aposentados e servidores públicos, quando os bancos cobram um spread injustificável para tais modalidade.

Enfim, trata-se apenas de três exemplos recentes que comprovam a importância que o governo confere para as demandas do sistema financeiro quando da definição das políticas públicas no domínio da economia.

Celso Amorim diz que Trump é o interesse ‘nu e cru’ e que Brasil tem que se reorganizar

0

Ex-chanceler e assessor especial de Lula, ele afirma que mundo passa por uma das maiores mudanças desde a queda do muro de Berlim e que país tem o desafio de não virar colônia

Folha de São Paulo, 23/03/2025

Desafiando a ordem mundial até então vigente e renegando a condição de superpotência, o atual presidente defende exclusivamente os interesses de seu país, “de forma deslavada”, e é preciso se reorganizar diante de novos desafios.

Questionado se Trump poderia aderir à tese bolsonarista de que o Brasil vive sob uma ditadura judicial, Amorim afirma que Jair Bolsonaro (PL) “ficou pequeno diante das grandes questões do mundo” e que o presidente norte-americano respeita o poder, e não quem “fica lá querendo adular”.

TRUMP

O mundo parece estar mudando de maneira célere. A governança pós-Segunda Guerra Mundial passa por um desmonte. O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, diz que não é mais normal termos uma potência unipolar e que rumamos para um mundo multipolar. Como o Brasil se insere neste novo contexto?
Nós estamos vivendo, de certa maneira, a hora da verdade.

Os EUA e a Rússia foram os principais vitoriosos [da Segunda Guerra], mas os EUA tinham muito mais influência. E construíram um mundo à imagem e semelhança do que desejavam —com diferenças com a União Soviética e, depois, com a China.

Na letra, essa era a ordem internacional vigente.

Havia conflitos. Mas, de alguma maneira, havia uma defesa dessas regras internacionais.

O primeiro grande abalo nessa ordem foi a queda do muro de Berlim [em 1989] e a dissolução da União Soviética, algo que ninguém imaginava que poderia acontecer.

O mundo também muda de forma inesperada.

A minha geração passou por duas transformações estruturais imensas. A primeira foi o fim da União Soviética. E agora temos outra enorme mudança, imensa, com os americanos renegando a ordem que eles mesmos criaram.

Desde a queda de Berlim até agora, os EUA atuavam como uma potência praticamente incontrastável. O que mudou?
Havia, de certa maneira, a aceitação de que os EUA eram a única potência remanescente. Mas eles procuravam, sempre que possível, conduzir [as políticas internacionais] pelo multilateralismo.

Faziam isso pela ONU. Quando não dava certo, faziam pela Otan. Raramente agiam sozinhos nos grandes problemas internacionais.

O Trump atual não quer saber [dessas estruturas multilaterais]. Ele não esconde o autointeresse.

É uma atitude de absoluta franqueza. Não há hipocrisia. Ele quer a Groenlândia não porque é bom para a paz, mas por causa do minério do país. Diz isso a propósito da Ucrânia também.

Eu acho que o Trump olha para a extensão imensa da Rússia, um país que tem 12 fusos horários, e imagina as possibilidades de investimento. Não quer ficar totalmente brigado com a Rússia.

Em sua declaração, Marco Rubio disse “não queremos uma Rússia que seja totalmente dependente da China. E também não queremos que eles fiquem inimigos a ponto de ameaçar com uma guerra nuclear”. É uma declaração surpreendentemente sensata.

Por que o senhor diz que chegou a hora da verdade?
Porque é o interesse nu e cru, que não é disfarçado. E isso pode até servir para alguma coisa positiva

Na conversa com [o presidente da Ucrânia, Volodimir] Zelenski [no fim de fevereiro, na Casa Branca], que foi muito rude, Trump disse uma coisa interessante: “Ele [Zelenski] quer a vitória. Eu quero a paz”. E é verdade também.

Trump fala em desnuclearização. E não faz isso porque é bonzinho. Faz porque sabe que o custo para manter a paridade [de armamentos] com a Rússia é enorme. Para diminuir o gasto militar, ele tem que ter paz, primeiro com a Rússia, depois com a China.

O multilateralismo tem um pouco de teatro, e Trump está acabando com ele?
O [francês François de] La Rochefoucauld dizia que a hipocrisia é uma homenagem que o vício presta à virtude. Ela às vezes vale a pena, porque é civilizatória.

Quando há soluções compatíveis com as regras, a situação sempre melhora. Os EUA acabavam aceitando as regras. Não vejo isso acontecer com o Trump.

É a verdade nua e crua.
É a verdade nua e crua. Ele não faz parecer que defende a Ucrânia porque defende a democracia no mundo, o que era discutível: os EUA defendiam a democracia quando interessava.

Essa política, digamos assim, um pouco missionária [dos EUA] não existe mais. Ele [Trump] vai defender os interesses dos EUA de maneira deslavada, e nós temos que nos reorganizar diante disso.

EUROPA

Como a Europa também está sendo obrigada a fazer?
Os europeus estão desorientados. Eles se acostumaram a viver sob o guarda-chuva americano moral, militar e econômico. Quando de repente chega um presidente americano e diz “eu vou cuidar do meu interesse, vocês que se virem”, eles ficam totalmente perplexos, impactados.

A Europa, se fosse esperta e menos apegada a certos conceitos, assinava  o acordo Mercosul-União Europeia. Seria importante. Mostraria que ela ainda tem uma presença no mundo, que atua independentemente.

O Brasil sempre teve a pretensão de ser a ponte entre o Ocidente e o sul global, e agora isso está virando de ponta-cabeça. Como fica o país nesse novo contexto?
O Sul Global não virou de ponta cabeça. O Sul Global está se fortalecendo.

O senhor acredita que os EUA vão mesmo renegar o seu papel de única potência mundial?
A percepção de que eles não são mais a única potência é correta. É um fato. A China já ultrapassou os EUA em muitas questões, no PIB, no poder de compra, até em número de estudantes que fazem doutorado.

MUNDO MULTIPOLAR

E o Brasil agora?
Nós temos que aprender a viver nesse mundo multipolar. Brasil, Índia, não somos todos iguais. A gente tem que saber jogar com alianças variáveis, temos que ser capazes de ter amizades com vários países

É difícil porque existe muita diversidade, mas nós temos que fortalecer a América do Sul. E, ao mesmo tempo, nos relacionarmos de maneira inteligente com as superpotências —que são duas do ponto de vista econômico [EUA e China] e três do ponto de vista militar [as duas e mais a Rússia]. Em seguida vem a Europa. Temos que saber jogar com isso.

Há analistas que acreditam que Donald Trump, dos EUA, Xi Jinping, da China,  e Vladimir Putin, da Rússia, vão se entender e dividir o mundo, embora muitas partes dele não caibam nessa divisão. O senhor acha que isso vai acontecer?
Eu não posso dizer que essa é a visão do presidente Trump, porque eu não sei. Ele não falou isso. Mas às vezes dá a impressão de que é isso.

[Nesse contexto] O Brasil pode ser uma potência grande, que será mais forte se estiver unida com a América do Sul. Mas o Brasil fez uma opção de não ter arma nuclear, então isso, de certa maneira, muda…

Nos enfraquece?
Eu não sei se nos enfraquece porque podemos ter mais meios de negociar.

Por que a China não lançou sozinha a proposta de seis pontos pela paz na Ucrânia? Porque ela precisa do soft power, que o Brasil tem, e muito. É um país pacífico, que tem fronteiras com dez países e está há 150 anos sem guerra. Eu não quero valorizar demais o soft power, mas ele dá credibilidade.

Nós temos que ter uma relação muito forte com a China.

Mas já temos, não?
Sim, mas ela tem que se fortalecer. Temos que jogar com as três [superpotências]. E com a Europa. Se ela se associa à América do Sul, já seremos uma massa maior de países.

Está claro que a Europa, por exemplo, vai ter que se reinventar…
[interrompendo] A Europa vai ter que se libertar da obsessão de que vai ser invadida pela Rússia. Eu até entendo que a Polônia, os países ali fronteiriços [tenham essa preocupação]. Mas quando eu vejo dizerem que a Rússia tem um DNA expansionista, eu penso: foi Napoleão que invadiu a Rússia [em 1812], ou foi o contrário?

E a França tem a força da dissuasão da bomba nuclear, certo?
[O general e ex-presidente da França Charles] De Gaulle não tinha essa obsessão, e na época dele a União Soviética era muito mais forte.

Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, o que sempre criticamos, muitos [países] disseram “vamos destruir a Rússia”.É impensável. E seria desastroso. A Rússia unificada é também um fator de estabilidade para o mundo e para a Europa.

BRASIL NO MUNDO

O senhor diz que o fortalecimento da América do Sul é importante, mas o continente hoje está dividido. Argentina e Venezuela, por exemplo, estão distantes do Brasil.
Eu concordo. Sempre digo que o primeiro mandato [de Lula, em 2002] era um mundo de oportunidades. Agora, é um mundo de desafios.

É claro que há casos extremos [de comportamentos de países] que fogem a qualquer regra. Mas acho que, a médio prazo, a maioria dos países da América do Sul vai voltar a se unir.

Na votação da OEA [Organização dos Estados Americanos], o candidato [à presidência da entidade] que foi lá tirar fotografia com o presidente Trump, por exemplo, não foi aceito [foi derrotado na eleição].

A gente não pode ficar… o meu temor com relação aos EUA não é que eles vão invadir [algum país do continente sul-americano]. [É com o fato de que] Os trumpistas falam muito em Western Hemisphere [Hemisfério Ocidental]. A visão deles é a de que “aqui é nosso”.

Essas coisas não ficavam tão claras antes do Trump?
Não. Porque os democratas eram mais educados. Muitos deles são nossos amigos, tiveram um papel importante aqui na transição [do governo Bolsonaro para o de Lula], a gente sabe disso.

Mas o nosso grande desafio, resumindo, qual é?
O nosso grande desafio é, nessa divisão do mundo, não ser colônia de ninguém.

O senhor não acha que deveríamos fazer um esforço maior de aproximação com Trump? Vê possibilidade de ele aderir à tese bolsonarista de que vivemos sob uma ditadura judicial?
Trump está com o foco em outras questões. Eu acho que agora, com as tarifas [de importação que o governo norte-americano está impondo ao Brasil], a gente vai ter que falar um pouco mais com o governo dele. Vamos ter que agir da maneira normal, que é a da reciprocidade.

Mas o Brasil tem força para isso? A reciprocidade não pode trazer mais prejuízos do que benefícios para o Brasil?
Acho que não.

Você não pode dar um tiro no pé, colocar taxa em um produto essencial para o país, como o carvão siderúrgico, por exemplo. Mas há áreas no setor de serviços, de propriedade intelectual, de remessa de lucros, que, se o Brasil morder, eles vão pensar duas vezes antes de botar tarifa contra nós.

BOLSONARISMO

O ministro Alexandre de Moraes tem afirmado que a soberania brasileira corre risco pelo fato de as big techs estarem partindo para o tudo ou nada, desrespeitando inclusive a jurisdição de outros países que não os EUA. O senhor concorda com ele?
O Alexandre de Moraes está fazendo um trabalho muito importante.

Os americanos sempre tiveram a visão da extraterritorialidade da lei americana. Mas agora eles têm a possibilidade técnica para [efetivar] isso.

E as big techs estão no coração dos EUA. A posse de Trump, com os donos de diversas delas, como Elon Musk, mostrou isso, não?
Em algum momento pode haver algum choque. São egos muito grandes ali. Eu acho que vai acabar havendo uma diferença entre as big techs, que têm um interesse puramente econômico, e a política.

Há avaliações, inclusive no Supremo Tribunal Federal (STF), de que os bolsonaristas estão pegando carona em uma briga maior, que é a das big techs contra o nosso Judiciário. O senhor concorda com elas?
O Bolsonaro ficou pequeno diante das grandes questões do mundo hoje.

Há alguns anos, certamente ter um governo de extrema-direita no Brasil era importante. Hoje é um pouco diferente.

[Sobre as big techs] Elas estão mais ou menos entendendo que o jogo é complexo, que o Brasil não vai abrir mão de sua soberania. Se quiserem atuar aqui, têm que ser de acordo com as nossas regras, que não são arbitrárias. São para todos, são para proteger os cidadãos. A Europa tem uma visão parecida com a nossa.

O senhor acha que para o Trump tanto faz se o presidente é Bolsonaro ou Lula?
Eu não sei se tanto faz. Mas hoje em dia não tem mais sentido você dizer “sou contra ele porque ele é comunista”. Não tem mais isso. É o interesse [que prevalece]. Essa coisa muito ideológica do bolsonarismo eu acho que talvez se esvazie.

Trump respeita o poder. Pessoas que são capazes de agir. Ele acaba de dizer que gosta do Putin. E pode até não gostar, mas ele respeita o Putin. Respeita o Xi Jinping.

Agora, se ficar lá querendo adular, como [fizeram] o Zelenski e alguns europeus, ele não respeita.

 

Reforma do Imposto de Renda é boa, por Celso Rocha de Barros

0

Quem ganha muito bem vai ter que se sacrificar um pouco para ajudar a professora e o PM

Celso Rocha de Barros, Servidor federal, é doutor em sociologia pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e autor de “PT, uma História”

Levou 40 anos, mas a democracia brasileira finalmente produziu uma proposta para tornar o Imposto de Renda mais justo.

Na semana passada, o governo Lula divulgou sua proposta de reforma de Imposto de Renda. É um passo moderadíssimo, cautelosíssimo, mas na direção certa.

A reforma deu isenção completa de Imposto de Renda para quem ganha menos que R$ 5.000 por mês. Entre R$ 5.000 e R$ 7.000 por mês, o cidadão também vai ter desconto, maior se estiver perto do cinco, menor se estiver perto do sete.

A isenção atinge a classe social mais debatida pelos analistas políticos nos últimos anos: quem já escapou da vulnerabilidade extrema, mas ainda está longe do padrão de consumo da classe média “tradicional”. É muita gente: o governo estima que a reforma beneficiará cerca de 10 milhões de pessoas.

Como tudo tem um preço, o governo calcula que vai deixar de arrecadar R$ 25,84 bilhões por ano com a mudança. Para compensar esse rombo, o governo vai aumentar o Imposto de Renda dos ricos.

Para isentar os 10 milhões, vai aumentar o imposto de cerca de 140 mil brasileiros, duas vezes o público da final do Campeonato Carioca que deu o título de 2025 ao Mengão. Essa turma paga, hoje em dia, uma alíquota média de Imposto de Renda de 2,5%.

Quando Haddad anunciou a reforma no ano passado, naquele pronunciamento que tanto furdunço gerou, o plano era mais ambicioso: fazer com que quem ganhasse mais que R$ 50 mil por mês fosse obrigado a pagar ao menos 10% de Imposto de Renda.

Isto é, Haddad queria que os ricos pagassem pelo menos a mesma porcentagem que um policial militar paga hoje em dia (nas contas do governo, 9,8%).

A proposta foi responsável por parte do aumento do dólar na época. Afinal, o motivo dos ricos pagarem tão pouco Imposto de Renda é que muitos investimentos disponíveis no mercado financeiro são isentos (LCA, LCI, dividendos etc.). Se houver uma alíquota mínima para os ricos, ao menos parte dessa renda será tributada, o que tornaria esses investimentos menos atrativos. Na dúvida, o pessoal correu para o dólar (e lá encontraram o Trump, mas isso é outra história).

Na nova proposta, vários desses investimentos continuarão isentos. E o governo agora só vai exigir que o sujeito pague a mesma alíquota do PM se ele ganhar mais que R$ 100 mil por mês. Entre R$ 50 mil e R$ 100 mil haverá uma alíquota mínima, mas ela começará bem pequena e crescerá conforme a renda chegue perto dos R$ 100 mil.

Todo mundo sabe que isso é certo. A proposta de tornar os impostos brasileiros mais progressivos estava até no programa da Arena, o partido que apoiava a ditadura militar. Mas ninguém tinha feito até agora.

Segundo Guilherme Klein, do Núcleo de Pesquisa sobre Macroeconomia das Desigualdades (Made) da USP, atualmente, os impostos brasileiros são progressivos –isto é, quem ganha mais paga uma alíquota maior– até o 1% mais rico, quem ganha mais que R$ 30 mil por mês. Daí em diante, tornam-se regressivos: quanto mais rico o rico for, menor a alíquota.

A reforma não elimina essa regressividade no topo, mas deve reduzi-la consideravelmente.

Enfim, um pessoal que ganha muito bem vai ter que se sacrificar um pouco para ajudar a professora e o PM. Eu acho bom.

 

Pé-de-meia reduz 25% do problema da evasão escolar, por Laura Muller Machado

0

Proposta brasileira está em linha com os resultados mundiais, mas pode ser fortalecida com melhoria na educação

Laura Muller Machado, Mestre em Economia Aplicada pela USP, é professora do Insper e foi secretária de Desenvolvimento Social do Estado de São Paulo

Folha de São Paulo, 22/03/2025

O Pé-de-Meia, a partir de um incentivo financeiro-educacional mensal e de uma poupança condicionada para os jovens, tem como objetivo promover a permanência e a conclusão escolar de alunos matriculados no ensino médio público. O programa prevê o pagamento de uma bolsa de estudos com menos de meio salário-mínimo per capita a inscritos no cadastro único.

Os pagamentos são de 10 parcelas mensais de incentivo de R$ 200, que podem ser sacados em qualquer momento desde que comprovada a frequência de 80%, além de três depósitos de R$ 1.000 ao final de cada ano concluído, que só poderão ser retirados da poupança após a conclusão do ano letivo. Os valores chegam a até R$ 9.200 por aluno ao longo do ensino médio, desde que o estudante frequente e seja aprovado em todas as etapas.

Sabemos, a partir do estudo “Consequências da violação do direito à educação”, de Ricardo Paes de Barros, que os jovens que não concluem a educação básica irão incorrer em uma perda de R$ 395 mil ao longo da vida toda devido a perdas, não apenas envolvendo remuneração, mas também longevidade, externalidades econômicas e episódios de violência.

Isso quer dizer que, a cada cinco jovens que não evadem, deixamos de perder R$ 2 milhões. O custo da não conclusão da educação básica é muito alto, tanto para quem deixa a escola como para toda a sociedade brasileira.

Espera-se que uma bolsa de estudo seja um instrumento mais eficaz quando a razão para a evasão é a falta de renda para frequentar a escola, e menos eficaz em casos nos quais o jovem tem condições, mas não percebe a escola como um investimento produtivo para seu tempo.

Uma bolsa de estudo deve ter mais impacto quando o motivo da evasão é a pobreza e a necessidade de trabalhar do que a baixa qualidade da educação oferecida. O Pé-de-Meia será um bom instrumento para combater a evasão por motivo de ausência de recursos financeiros. Mas para ser mais impactante, o programa precisa de um complemento: a educação de qualidade.

A partir de dados da Pnad e do Inep de 2019, o Centro de Evidências da Educação Integral do Insper desenvolveu um simulador, uma avaliação ex-ante, para estimar seu impacto. O resultado mostra que, considerando todas as séries, a taxa de evasão no ensino médio para os beneficiários do programa sem o Pé-de-Meia é da ordem de 28%, enquanto com o Pé-de-Meia, de 21%, uma redução de 7 pontos percentuais. Portanto, o programa é capaz de equacionar um quarto da evasão.

Muitos países têm programas como o brasileiro. Foram publicados em torno de 104 estudos sobre esses incentivos educacionais ao redor do mundo. A literatura aponta para um impacto de redução de evasão de 2 a 9 pontos percentuais em programas similares. Portanto, a proposta brasileira está em linha com os resultados mundiais.

Apesar de promissor, fica evidente que a bolsa não é a solução completa do combate à evasão, um dos maiores desafios do ensino médio. Em especial, a ciência indica que o programa será enriquecido quanto mais robusto for a educação.  No Canadá, por exemplo, o incentivo equivalente é disponibilizado em conjunto com um plano de aperfeiçoamento de educação na escola beneficiada.

Sem dúvida, estamos todos gratos e animados com a bolsa de estudos para os mais vulneráveis poderem estudar. No entanto, sabemos que o Pé-de-Meia poderia alcançar resultados maiores e ser mais potente em um cenário de melhoria da qualidade da educação.

 

Adeus ao mundo eurocêntrico? Entrevista com Walden Bello

0

Um pensador destacado do altermundismo sustenta: o poder do Ocidente nunca foi tão frágil. É possível esperar um novo Sul Global? Por que a China é muito diferente da antiga URSS? Que esperar dela numa nova ordem mundial?

Walden Bello, entrevistado a Néstor Restivo, em Tektónicos 

Tradução: Antonio Martins – OUTRAS PALAVRAS – 13/09/2024

A primeira vez que encontrei Walden Bello foi no verão de 2001, em Porto Alegre. Por ocasião do primeiro Fórum Social Mundial (FSM), há mais de duas décadas, esse sociólogo das Filipinas, ex-membro do parlamento de seu país viajou para o sul do Brasil como tantos ativistas, líderes e acadêmicos ou pesquisadores que esperavam que esse fórum, e os que o seguiram por vários anos, se consolidasse como uma tribuna internacionalista de resistência ao neoliberalismo – então em seu momento de expansão – e, ao mesmo tempo, uma plataforma para ideias alternativas. Bello, pouco conhecido na América do Sul, já era presença importante nos movimentos “altermundistas”. Dirigia uma rede de organizações sul-asiáticas denominada Focus on the Global South, cujo nome me chamou atenção.

O termo “Sul Global” apareceu pela primeira vez em 1969, quando o professor e ativista norte-americano Carl Oglesby escreveu um artigo sobre a Guerra do Vietnã no qual mencionou a “dominação do Norte sobre o Sul Global” — causa, segundo ele, de uma “ordem social intolerável”.

“Certamente não fomos os inventores nem os pioneiros em falar do ‘Sul Global’””, diz Walden Bello na Casa de las Madres de Plaza de Mayo, no inverno de 2024 em Buenos Aires, uma cidade que ele está visitando pela primeira vez. Ele conta que a Focus on the Global South foi estabelecida em Bangkok, Tailândia, em 1995, acrescentando: “de qualquer forma, adotamos esse nome, sintonizando-nos no momento certo com o que estava começando a acontecer no mundo”.

Walden Bello visitou à capital argentina (e não deixou de observar com perplexidade tudo o que emerge do governo de Javier Milei) a convite do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (CLACSO) e da Fundação para a Pesquisa Social e Política (FISYP). Palestrou sobre o “Impacto e oportunidades da crise da hegemonia dos EUA” e conversou com a Tektónikos sobre esse tema.

O que o Sul Global significa para você hoje?

– O que chamamos de países em desenvolvimento, subdesenvolvidos ou colonizados costumava ser chamado de “Terceiro Mundo”. Mas a União Soviética e a Europa Oriental entraram em colapso, entre 1989 e 91. Isso pôs fim à ideia de que havia um “segundo mundo”, um mundo comunista. Ficou difícil manter estes termos. Então, o termo Sul Global, que já havia sido inventado, ressurgiu como uma ideia na década de 1990, sob a premissa de reivindicar o fim de sua dominação.

Quais foram os principais desafios — e quais ainda são agora — nesse novo mundo em formação?

Continuam a ser o fim da dominação econômica e política dos Estados Unidos e de suas potências aliadas no Ocidente. São forças estruturais que dominaram o mundo por 500 anos, um cenário que, no entanto, está sendo questionado neste século XXI. Isso se dá principalmente por causa do surgimento de um grande ator como a China. Isso criou algum espaço para que o Sul Global pudesse se distanciar do Ocidente, tramar seu próprio desenvolvimento, ensaiar políticas autônomas – e não continuar a ser dominado por uma força ocidental liderada pelos Estados Unidos. A disputa da União Soviética com os EUA abriu espaço de manobra para o Terceiro Mundo. Mas a diferença é que agora a China possibilita outro cenário: é uma grande potência econômica e política de uma forma que a URSS não era – ou era apenas militarmente, mas não em outros níveis. Em outras palavras, agora a China tem grandes recursos econômicos e pode cooperar muito melhor com o mundo em desenvolvimento. Essas são condições muito diferentes daquelas da Guerra Fria.

Qual é o papel do BRICS?

É uma nova formação importante, hoje já com 10 países que se juntaram ao chamado BRICS+. Isso significa que não apenas os quatro e depois cinco fundadores do início (Brasil, Rússia, Índia, China e depois África do Sul), mas agora o dobro de nações (Egito, Irã, Etiópia, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos se juntaram desde 2024). Além disso, outros países querem aderir. Em outras palavras, agora temos um nível maior de recursos que podem ser usados para o desenvolvimento do Sul Global. Em segundo lugar, e talvez o mais importante, temos a China novamente, não apenas como uma potência econômica, mas oferecendo um modelo bem-sucedido de desenvolvimento liderado pelo Estado, em contraste com o que o FMI ou o Banco Mundial vêm defendendo há décadas, com seu foco no mercado como condutor. E, em terceiro lugar, o peso político dos BRICS é muito importante para fornecer recursos, espaço e margem de manobra, além de crédito para o Sul Global. Os BRICS também oferecem diversidade, pois em muitos aspectos os parceiros são diferentes uns dos outros (Brasil da Arábia Saudita ou Rússia do Irã etc.). Ainda assim, o importante é que o grupo agora ampliado não pode mais, devido ao seu tamanho e peso, ser dominado pelas potências ocidentais.

E quanto ao papel da China em particular, sendo a mais poderosa desse grupo?

É claro que a China lidera o grupo, é a principal fornecedora de recursos e impulsionadora dos bancos de desenvolvimento que estão sendo criados nesse ambiente, dos fundos de contingência, que têm formatos e exigências diferentes dos esquemas do FMI (o que mostra uma alternativa em potencial à ordem multilateral existente). A liderança da China é muito interessante. Pequim forneceu uma quantidade impressionante de recursos aos países do Sul Global e é um modelo, insisto nisso, em que o Estado controla as forças de mercado. Cada vez mais países estão olhando para isso como uma alternativa às economias orientadas pelo mercado. E, por fim, há o peso político e militar da China, embora ainda seja muito menor do que o dos EUA. A China tem muito cuidado para não se apresentar como um substituto dos EUA e disse explicitamente que bancos como o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) ou o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB) não querem substituir o sistema de Bretton Woods. Entretanto, os EUA afirmam que a China é uma potência revisionista e ambiciosa, que quer ser a número um, substituir tudo, não se integrar ao capitalismo e que representa um desafio. Na verdade, essa é uma tentativa de justificar o primeiro objetivo dos EUA, que é conter a China com uma postura muito agressiva, presente em especial no governo Biden, que está saindo.

A guerra interna imperial

O Ocidente está inevitavelmente entrando em guerra ou há setores que querem negociar algum tipo de transição?

Acho que a Europa está sendo arrastada pelos EUA nesse objetivo de conter a China. Ela foi fortemente influenciada e isso levou à expansão da OTAN para o leste e para a Ásia. Por meios econômicos, diplomáticos e militares, os EUA têm procurado conter a China durante todos esses anos e o Partido Democrata (PD) deu sinais muito claros aos seus militares de que é isso que eles querem em relação à China. O número de missões e bases dos comandos militares dos EUA no Pacífico foi aumentado e as forças armadas receberam sinal verde para isso. O comandante da Força Aérea, Mike Minihan, chegou a ser citado como tendo falado sobre a possibilidade de entrar em guerra contra a China em 2025.

A posição da extrema direita e do Partido Republicano em geral nos Estados Unidos é menos clara, você não acha?

Vamos examinar isso com atenção. A candidata democrata Kamala Harris e os líderes democratas gostariam de manter o papel do “livre comércio”, a hegemonia dos EUA, o uso de órgãos multilaterais que controlam e o fluxo “livre” de capital. Mas basicamente essa é a velha ordem. O presidente Biden e outros disseram que os EUA são os únicos capazes de preservar tudo isso, as instituições do domínio ocidental em seu conjunto, etc. Eles também acreditam que o desafiante republicano, Donald Trump, não faria isso. Com relação a Trump, acho que ele não está tão interessado em expandir o poder econômico dos EUA no Sul Global — nem no fluxo de capitais, nem na promoção de uma economia global ou transfronteiriça. Pense que, em seu primeiro governo, uma das ações imediatas de seu governo, em janeiro de 2017, foi retirar-se da Parceria Transpacífica (TPP). Isso é muito diferente do que o Partido Democrata quer. A mesma coisa aconteceu com a forma diferente de lidar com a ocupação do Afeganistão durante a mudança de governo de Trump para Biden. Acho que Trump está basicamente interessado em trazer o capital de volta para os EUA, o chamado reshoring, porque ele acusa as corporações de levar empregos para fora do país. Toda essa ideia de colocar os “Estados Unidos em primeiro lugar” é seu ponto de apoio. E seus apoiadores odeiam as grandes empresas de tecnologia do Vale do Silício e de Wall Street. Embora o próprio Trump seja obviamente um grande capitalista, ele explora esses sentimentos contra o grande capital. Entretanto, sua ideia não é tanto expandir os EUA, mas priorizar o mercado doméstico.

Será que o trumpismo se posiciona como completamente alheio aos problemas globais?

Eu diria que, em geral, sim, embora obviamente preservando o poder unilateral em questões mundiais. Ele é claramente anti-imigração. Em termos militares, eu o vejo mais comprometido e interessado em ter um país poderoso em si mesmo novamente, não um país de alianças como a OTAN, pois ele não gosta disso. Em resumo, vejo uma perspectiva diferente da dos democratas. Há diferenças reais entre os dois candidatos e os dois projetos. A pergunta que faço é se nós, no Sul Global, devemos escolher uma dessas duas opções. Minha resposta é que não precisamos fazer isso, não temos interesse na ordem liberal ou na ordem “América em primeiro lugar”. Mas precisamos prestar atenção em qual das duas posições prevalece e tentar tirar proveito dessas contradições.

Olhando das Filipinas, qual é o papel do Sudeste Asiático na reconfiguração global em andamento?

Há muitas contradições. O Vietnã e as Filipinas são muito críticos em relação à China pelo mesmo motivo: a disputa de limites no Mar do Sul da China, onde a China assumiu unilateralmente uma posição. É um mar com seis países reivindicantes e a China estabeleceu unilateralmente que 90% dele lhe pertence. Pode-se entender que a razão chinesa não é expansionista, mas defensiva – porque o Sudeste Asiático está muito próximo do núcleo industrial da China (Xangai, Guangzhou, suas áreas adjacentes etc.) e a ideia é que ela precisa proteger ou impedir um ataque dos EUA à sua infraestrutura produtiva. Em um cenário de guerra, isso é fundamental para a China, e os norte-americanos têm muitos ativos militares na área. Isso é compreensível do lado chinês, o que não é compreensível foi seu método unilateral de dizer “isso é nosso e, por ser nosso, vamos desenvolvê-lo de tal maneira”. A China deveria ter negociado isso com os outros países. Então, talvez fosse possível avançar na desmilitarização da área. É por isso, entre outros motivos, que o Vietnã critica a China nesse ponto. O país tem uma política externa independente. Como você sabe, já lutou no passado contra os norte-americanos e os franceses e exerce neutralidade diplomática.

E quanto ao seu país?

As Filipinas são diferentes. São totalmente aliadas militarmente aos EUA com o atual presidente Ferdinand Marcos Jr. Os norte-americanos têm nove bases militares e Marcos não tem nenhum senso de nacionalismo. Ele não se importa, só se preocupa com a fortuna de sua família, seu grupo central de pessoas próximas, a dinastia, seus investimentos milionários nos EUA e em outros países ocidentais, que podem ser facilmente expropriados se ele não fizer o que Washington quer. O governo de Marcos está completamente vendido aos EUA e não tem controle sobre a política de defesa.

E quanto ao cenário global, o restante das nações do Sudeste Asiático?

O restante da ASEAN, a associação que integra todas essas nações, é diversificado, mas a maioria da população tem uma opinião melhor sobre a China do que sobre os Estados Unidos, especialmente na Tailândia, no Camboja, na Indonésia e na Malásia. A maioria prefere a China como parceira aos EUA, de acordo com relatórios recentes. Os únicos dois países que se opõem a isso são, não surpreendentemente pelo que expliquei, embora por motivos diferentes, o Vietnã e as Filipinas. Essa é a situação atual na região, que se tornou decisiva no tabuleiro de xadrez global.

 

A Europa se prepara para a guerra, por Flávio Aguiar

0

Flávio Aguiar – A Terra é Redonda – 18/03/2025

Sempre que os países da Europa prepararam-se para uma guerra, a guerra aconteceu. E este continente propiciou as duas guerras que em toda a história humana ganharam o triste título de “mundiais”

Há sinais de fumaça no horizonte de que os países europeus preparam-se para a guerra. Que guerra? Contra a Rússia.

Tomemos a Alemanha como exemplo.

Primeiro exemplo: a Volkswagen, empresa que há quase um século está vinculada à identidade nacional alemã, vai fechar três de suas fábricas, devido à crise econômica que assola o país e o continente. Mas há uma empresa interessada na compra das três. Qual? a Rheinmetall, uma das principais produtoras de armamentos na Alemanha. Por quê? Porque seus diretores prevêem uma margem de lucro considerável, graças ao anúncio, por parte da presidenta da Comissão Europeia, Úrsula von der Leyen, de que a União vai investir 800 bilhões de euros em armamentos para incrementar a defesa do continente.

Exemplo 2: paradoxalmente, o diretor de uma das agências do serviço secreto alemão, Bruno Kahl, do Bundesnachrichtendienst, manifestou, em entrevista à Deutsche Welle, em 03/03/2025, a preocupação com a possibilidade de que a guerra na Ucrânia tenha um “fim rápido”. Por quê? Segundo ele, porque isto liberaria a Rússia para ameaçar o restante da Europa antes de 2029 ou 2030, isto é, antes de que os outros países do continente estejam preparados para enfrentar o “inimigo”. A afirmativa, que provocou indignação em Kiev, mostra que há uma estratégia pensada a respeito da possibilidade e previsão da guerra.

E a indústria da guerra parece ser um dos vetores mais importantes para a recuperação econômica da Alemanha e do continente.

A Alemanha ocupa o quinto lugar entre os maiores exportadores de armas do mundo. São eles, em ordem crescente, segundo o Instituto Internacional de Investigação para a Paz, sediado em Estocolmo: Israel, Coreia do Sul, Espanha, Reino Unido, Alemanha, China, França e Rússia praticamente empatadas, e Estados Unidos.

Há duas enormes discrepâncias entre estes países. Primeira: de Israel à China, o percentual de participação nas exportações mundiais de armas fica em um dígito, de 1 a 5%. Com Rússia e França, o índice dá um salto, para 10,5 e 10,9%, respectivamente, sendo que a França superou a Rússia porque as exportações desta caíram, graças à guerra com a Ucrânia e os aliados que a apoiam.

Com os Estados Unidos, o salto é maior ainda: o índice de sua participação é de 40% do mercado mundial.

Segunda discrepância: nos últimos dez anos o valor destas exportações caiu, em oito dos dez países. As duas grandes exceções são a França e os Estados Unidos. No caso destes, o aumento foi de 24%.

Das 100 maiores empresas g“`privadas de produção de armamentos, 41 são norte-americanas, e 27 europeias, excluindo-se a Rússia, que tem apenas 2 empresas entre elas.

Invertendo-se a perspectiva, verifica-se que o país que mais importa armas no mundo é a Ucrânia, com quase 9% do setor. E seus principais fornecedores são os Estados Unidos, a Alemanha e a Polônia.

Assinale-se uma curiosidade: nenhum país da América Latina figura entre os principais exportadores ou importadores de armas.

Aqueles números acima mostram que, como no passado, infelizmente a guerra ou sua perspectiva permanecem sendo um bom negócio para afastar o fantasma de recessões econômicas para quem produza armas, não para quem suporte seus efeitos.

Como afirmei no começo, há sinais de fumaça no horizonte apontando na direção de uma guerra. Sabe-se que onde há fumaça, há fogo. Sempre que os países da Europa se prepararam para uma guerra, a guerra aconteceu. E este continente propiciou as duas guerras que em toda a história humana ganharam o triste título de “mundiais”.

Flávio Aguiar, jornalista e escritor, é professor aposentado de literatura brasileira na USP. Autor, entre outros livros, de Crônicas do mundo ao revés (Boitempo).

 

Paulo Francis anteviu em 1972 cisão nos EUA que levaria a Trump, por Gabriel Trigueiro

0

Reportagens compiladas em livro trazem valiosas lições a políticos e eleitores democratas

Gabriel Trigueiro, Doutor em história comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro

Folha de São Paulo, 23/02/2025

Paulo Francis publicou em 1972 o livro “Nixon x McGovern: As Duas Américas”, reunião de reportagens sobre a eleição nos EUA naquela mesmo ano. Lido agora, na volta de Trump à Presidência, a obra soa profética ao antecipar a virada populista na direita americana, a divisão profunda entre as elites culturais e econômicas e a “maioria silenciosa”, a idealização provinciana de uma “América real” e as estratégias de comunicação para descredibilizar as instituições e toda espécie de crítica.

Em 1972, durante as eleições presidenciais dos EUA, a melhor cobertura não foi feita por um americano, mas sim por um brasileiro: o jornalista e crítico cultural Paulo Francis. Em sua obra “Nixon x McGovern: As Duas Américas”, cada capítulo foi escrito durante um momento diferente da campanha, o que deu urgência e dinamismo à sua análise.

Mesmo quem não se interessa em acompanhar a vida política norte-americana pode se divertir com a leitura do livro, já que o texto de Francis é escrito à moda de um thriller político com leveza e ritmo ágil. Seu estilo tinha algo de Bernard Shaw: frases curtas e economia de conectivos, deixando o leitor quase sem fôlego no virar da página.

Publicado no início dos anos 1970, “Nixon x McGovern” nos dá perspectivas sobre algumas disputas políticas norte-americanas contemporâneas. Os dois principais partidos, Republicano e Democrata, são duas máquinas de arrecadação e propaganda. É nesses termos que devem ser compreendidos.

“Nixon x McGovern” é um livro que anteviu o trumpismo. Traçando a origem de algumas estratégias utilizadas por Donald Trump, especialmente no âmbito da comunicação, encontraremos suas raízes na virada populista que Richard Nixon imprimiu na década de 1970 ao movimento conservador.

Afinal, Nixon foi eleito pelos descontentes com a “contracultura” e “os hippies”, da mesma maneira como o atual presidente dos EUA foi eleito ao se contrapor à “cultura woke” e à “esquerda radical”: termos imprecisos e vagos, mas úteis na elaboração de seu discurso como um “americano comum”. E como construir esse representante da “América real”?

Política populista x política aspiracional

No sucesso da campanha de Nixon para a Presidência americana em 1972, foi proveitoso o conceito de “maioria silenciosa”: uma expressão antiga popularizada com um novo sentido pelo seu redator de discursos, Patrick Buchanan.

Foi vendida a ideia de que qualquer posição crítica aos EUA (normalmente associada à esquerda, intelectuais e a grupos como negros, gays etc.) não representava a “América real”, nem o “americano médio”. Embora pertencesse a um grupo majoritário, esse “americano médio” estaria em silêncio e sem a representatividade institucional adequada. Nixon tinha a pretensão de falar por essa América sem voz.

Esse é um momento de virada nos EUA: a ascensão do populismo, uma corrente antiga no país, mas que desta vez estava adaptada às novas formas de comunicação, e fazia oposição a uma tradição aspiracional e quase aristocrática da política norte-americana. Francis constrói uma radiografia precisa dessa guinada.

Ambas as escolas de pensamento, definindo-as aqui como “populista” e “aspiracional”, existem nos EUA e disputam o poder pelo menos desde a independência do país.

A diferença é que durante o processo eleitoral de 1972 esse negócio ganhou uma roupagem contemporânea, irrigada com grana do “big business”, verba publicitária nababesca e o uso inédito de meios de comunicação como TV e rádio.

A diferença das duas escolas fica mais evidente quando pensamos em John f. Kennedy e Richard Nixon, que disputaram a Casa Branca em 1960. Segundo Francis, o primeiro exibia “a sofisticação da Costa Leste (centro financeiro e intelectual dos EUA), o sotaque Boston e Harvard”. Foi, por definição, um modelo aspiracional da América educada, de sangue azul e dinheiro antigo. No entanto, isso vinha com um custo alto: “o povo admirava Kennedy, mas o sentia acima das respectivas cabeças”.

Já Nixon “é o que inúmeros americanos são e têm vergonha de ser: o careta preconceituoso, aquisitivo, isento de imaginação e ideias, tão inseguro de si próprio que recebe qualquer crítica aos EUA como uma ofensa pessoal”.

No entanto, a cada vez que gente como Nixon ou, hoje em dia, alguém como Trump, se torna o saco de pancadas da classe intelectual, essa ofensa jamais fica circunscrita ao objeto da crítica: o político conservador da vez. Ela é coletivizada.

O ofendido passa a ser agora o grosso da população, que, repare, não se identifica, e jamais se identificou, com códigos de comportamentos cosmopolitas. Até porque são códigos que podem soar arbitrários, elitistas, exagerados e autoritários.

O partido do rei

Hoje a política norte-americana assumiu a seguinte configuração: o Partido Democrata comporta alas socialistas, passa por liberais, liberais-conservadores, até chegar a conservadores moderados. A orientação partidária Democrata é, no fundo, conservadora —não em questões sociais e de costumes, claro, mas no sentido de que ela é refratária a mudanças e tem uma estrutura interna rígida, hierarquizada e comandada por oligarquias e caciques.

O Partido Republicano, em contraste, virou o partido do rei. É composto por gente que acredita, ou finge acreditar, que Donald Trump é uma espécie de imperador que teve o seu “direito de sucessão” usurpado por falsos postulantes, e que agora tem o dever de restaurar as glórias perdidas da antiga América, corrigindo os excessos liberais e constitucionais de uma República em decadência.

Muitos analistas, inclusive eu mesmo nesta Folha, subestimaram a capacidade de adesão radical à ideologia trumpista. O fato é que o Partido Republicano se tornou, pelo menos desde 2016, o que os britânicos do século 17 chamariam de “loyalist” —sua agenda está subordinada à vontade do rei. É como se Trump reiteradamente dissesse: “O partido sou eu”. E todo mundo comprasse a ideia.

Em 1972, Francis declarou: “A diferença entre as convenções democrata e republicana é a democracia para ditadura. Toda a gama de opiniões nos EUA apareceu com os democratas. Louvaminhas a Nixon consumiram tudo na republicana. Esta parecia um congresso do PC stalinista, onde o líder é o ‘deus ex-machina'”. Já estava lá o alerta para esse modo de operar totalitário que Nixon estabelecia dentro do partido.

“Certos animais comem o próprio vômito”

Durante as eleições de 2016, Trump era considerado uma figura política desagregadora, que iria fraturar não apenas o seu partido, mas o próprio movimento conservador. No entanto, tão logo foi eleito, e mesmo após sua derrota de 2020, houve uma reconfiguração de forças: um processo revolucionário envolvendo a máquina Republicana e os intelectuais que a orbitavam, com a pretensão de se tornarem conselheiros e amigos do rei.

Gente como Marco Rúbio, ex-senador pelo Estado da Flórida e atual Secretário de Estado desse segundo mandato presidencial, bem como o próprio vice J.D. Vance —ambos foram quadros políticos e intelectuais que no início se opuseram com veemência à ascensão de Trump, mas que logo em seguida já estavam na fila para lhe bajular.

Acompanhando a eleição de 1972, Francis destacava o adesismo de Nelson Rockefeller a Nixon. “Nelson Rockefeller, a quem Nixon venceu e humilhou em 1960, 1964 e 1968, fez o discurso de saudação ao candidato. Certos animais comem o próprio vômito. Certos humanos também, pelo visto.” Nada de novo sob o sol, repare.

O ataque à “mídia liberal”

Na campanha de Nixon, seu discurso parecia vindo da linguagem publicitária criada para a TV. Francis escreve: “Nixon é um admirador profundo das técnicas de vendas de detergentes, mata-ratos, pastas de dentes, sprays vaginais e outros produtos que infestam o vídeo americano. Constantemente, usa slogans reminiscentes dos ditos em discursos eleitorais”.

Não custa lembrar que Trump obteve fama nacional como figura midiática associada um reality show televisivo, “O aprendiz”. Durante os quase 15 anos em que esteve no ar, aprimorou o tino para uma linguagem que se comunica com públicos amplos e aprendeu o alfabeto das métricas de audiência.

Se Trump observou Nixon com o caderninho de anotações em mãos, certamente notou que seu vice, Spiro Agnew, atacava aquilo que, anos depois, recebeu o apelido entre os conservadores de “liberal media”. E estabeleceu desse modo o tom da maioria dos políticos de direita subsequentes, até que isso culminasse na sua versão mais predatória: o trumpismo. Não custa lembrar da declaração, ainda na primeira coletiva de seu primeiro governo, em 2017, de que a imprensa seria tratada como “o partido de oposição”.

Ataques à imprensa eram uma estratégia de apelo popular, porque eram baseados na ideia de que os comentaristas da TV e os editores desses jornais fossem um bando de intelectuais elitistas, apartados do resto da sociedade e do americano médio em gostos e costumes.

Mas Francis arrematou: “Para um político matuto como Agnew, a linguagem de Times e Post, ou da CBS, deve soar elitista. Certamente é superior ao nível de Jararaca e Ratinho a que ele está habituado”.

Francis percebia que descredibilizar os veículos de jornalismo era uma tática de longo prazo que visava criar desconfiança em qualquer informação apurada e publicada e, portanto, borrar as fronteiras do que são fatos ou apenas narrativas inventadas. Se remete a alguma técnica empregada em 2025, não é mera coincidência.

Alguns nomes da nova direita brasileira gostam de invocar Paulo Francis como um antecedente intelectual e uma genealogia respeitável de seus próprios argumentos e posição política. O Francis a que se referem é o defensor da alta cultura, o antipetista antes de isso ser modinha, o autor que sempre tinha à mão algum deboche sobre a esquerda.

No entanto, a realidade é mais complexa. Foi o sujeito, afinal, que argumentou que “(…) o liberalismo americano, se deseja fazer justiça ao nome, precisa evoluir para uma forma de socialismo, democrática e em outros respeitos compatíveis com as tradições do país”.

Voltando aos EUA, de lá para cá liberais e democratas não parecem ter aprendido muita coisa. Não lhes faria mal ler o livro desse brasileiro escrito no distante ano de 1972, mas com uma ou outra lição valiosa a ensiná-los sobre a política de seu próprio país.

 

O império da lei sob ataque, por Oscar Vilhena Vieira

0

Suprema Corte terá a resiliência demonstrada pelo STF?

Folha de São Paulo, 21/03/2025

Oscar Vilhena Vieira, Professor da FGV Direito SP, mestre em direito pela Universidade Columbia (EUA) e doutor em ciência política pela USP. Autor de “Constituição e sua Reserva de Justiça” (Martins Fontes, 2023)

Subjugar o Poder Judiciário é um passo essencial na cartilha do populismo autoritário. Foi assim na Venezuela, de Chávez, na Rússia, de Putin, na Hungria, de Orbán, e na Turquia, de Erdogan. Em todos esses países a erosão do império da lei passou por ataques ao sistema de Justiça, seguidos da captura e subordinação dos tribunais pelo poder político.

A escala de ataques a juízes federais nos Estados Unidos não é um bom presságio. O atual governo está não apenas seguindo a malfadada cartilha populista como ampliando o seu repertório ao ameaçar escritórios de advocacia que estejam patrocinando ações contrárias aos interesses do governo, alerta Steven Levitski, autor de “Como as Democracias Morrem”.

A partir de uma interpretação cesarista das prerrogativas do Poder Executivo, ideólogos do presidente têm proposto uma verdadeira subversão do sistema de freios e contrapesos estabelecido pela Constituição, buscando afastar do legislador e, sobretudo, dos juízes a competência para controlar os atos do Executivo.

As ameaças de impeachment têm sido empregadas como um instrumento de intimidação dos magistrados, não apenas pelo presidente. Elon Musk lançou uma campanha pública e fez doações para membros do Congresso dispostos a promover o impeachment de juízes que se oponham ao governo. Isso levou o recatado e conservador John Roberts, presidente da Suprema Corte, a emitir nota afirmando que “o impeachment não é uma resposta apropriada quando se discorda de decisões judiciais”.

Difícil prever se o Judiciário norte-americano, tido como um dos mais independentes e poderosos do mundo, terá a resiliência demonstrada pelo Supremo Tribunal Federal brasileiro ou pela Suprema Corte de Israel, que sobreviveram às investidas de Bolsonaro e Netanyahu.

Como nos lembra Alexander Hamilton, um dos pais fundadores da Constituição norte-americana, o Judiciário não tem nem a bolsa nem a espada para se impor. Conta apenas com a autoridade de suas decisões e com a lealdade dos atores políticos e cidadãos para sobreviver.

Se é verdade que o eleitor tradicionalmente tende a punir políticos que descumpram decisões judiciais ou ameacem a independência dos tribunais, a última eleição norte-americana pode estar estabelecendo um novo paradigma na medida em que o confronto com o Judiciário constituiu parte explícita da agenda premiada pelo eleitor.

Essa nova dinâmica incorporada ao projeto de subversão do Estado de Direito tem levado algumas democracias, como a alemã, a fortalecerem as barreiras de proteção aos seus tribunais.

No Brasil, onde os ataques também têm escalado, é imperativo que o próprio sistema de Justiça reduza suas vulnerabilidades, aumentando a eficiência, a integridade e a imparcialidade na aplicação da lei, assim como reduzindo privilégios corporativos inaceitáveis.

Na esfera do Supremo, o mais urgente seria reduzir radicalmente as decisões monocráticas. O emprego abusivo dessas decisões cria enorme instabilidade e grave insegurança jurídica. O Supremo também precisa adotar um código de conduta que contribua para a preservação de sua autoridade e integridade. O STF também tem o desafio de não errar no julgamento daquele que quis subjugá-lo.

A cartilha do populismo autoritário, atualizada por Trump, certamente inspirará políticos ambiciosos e oportunistas a aumentar os ataques ao Judiciário ao redor do mundo.

Não há por que acreditar que aqui será diferente.

 

Donald Trump conseguirá fortalecer os Estados Unidos? Paulo Nogueira Batista Júnior

0

Paulo Nogueira Batista Júnior – A Terra é Redonda – 21/03/2025

O slogan MAGA é revelador do que está acontecendo com os EUA: uma perda progressiva de expressão relativa, em termos econômicos, populacionais e políticos

Donald Trump conseguirá fortalecer os Estados Unidos? Conseguirá, pelo menos, deter o seu declínio relativo? Ou irá acelerar a decadência do Império? Transcorridos apenas dois meses desde a sua posse, falta evidentemente a famosa perspectiva história. Mas questões candentes nunca esperam essa perspectiva. Para elas, vale sempre o ante mortem, não o post mortem.

Feita essa ressalva, antecipo a conclusão do artigo: Donald Trump não só será incapaz de deter o declínio dos EUA, como irá apressá-lo. Em vez de Make America Great Again (MAGA), ele deve Make America Weaker Still (MAWS). (Em vez de fortalecer os EUA, deve torná-los mais fracos.)

O seu slogan MAGA é revelador do que está acontecendo com os EUA: uma perda progressiva de expressão relativa, em termos econômicos, populacionais e políticos. O plano trumpista é restabelecer a hegemonia americana no mundo, custe o que custar.  Mas isso é mais um sonho do que um plano realista, como tentarei argumentar.

Em primeiro lugar, a herança geopolítica que o novo governo americano recebe é altamente problemática. Superestimando o próprio poder e subestimando o de outros países, os americanos se meteram em uma guerra em três frentes.

Pareceu-lhes uma boa ideia hostilizar simultaneamente a Rússia e a China, o que aproximou esses dois gigantes como nunca. A guerra econômica e tecnológica contra a China atrapalhou, mas não conseguiu parar o avanço chinês. A guerra na Ucrânia e as sanções econômicas e financeiras aplicadas contra a Rússia não tiveram o efeito pretendido. Apesar delas e do apoio maciço do Ocidente à Ucrânia, a Rússia vem levando a melhor no campo de batalha.

Para completar o quadro, os EUA carregam o peso econômico e moral de apoiar o genocídio praticado por Israel. A força do lobby judaico converteu o Império americano num instrumento dos planos israelenses, o que desmoraliza por completo os valores humanitários proclamados pelos EUA e demais países do Ocidente.

Como Donald Trump pretende lidar com essa herança? Em relação a Israel, a sua política consegue ser uma versão piorada do que já vinha sendo feito por Joe Biden, uma vez que proporciona apoio ainda mais enfático aos crimes de Israel. E pior: ele dá sinais de que pretende ser mais agressivo com o Irã, não descartando uma guerra aberta contra o país. Em vez de pacificar uma das três frentes herdadas de Joe Biden, Donald Trump pretende ao que parece aprofundar o conflito no Oriente Médio. Só um país se beneficia disso: Israel.

Todos os esforços iniciais de Donald Trump se concentraram em uma tentativa arrojada de encerrar a guerra na Ucrânia e pacificar a relação com a Rússia. Terá sucesso? Cedo para dizer, evidentemente, mas alguns pontos parecem claros. A pacificação implica reconhecer a vitória da Rússia, que terá suas principais reivindicações atendidas, entre elas o reconhecimento de que algo como 20 a 25% do território ucraniano serão parte permanente da Rússia e a neutralidade da Ucrânia, que será obrigada a abandonar qualquer intenção de entrar para a OTAN.

Donald Trump afirma, com razão, que a guerra na Ucrânia não é obra sua. Permanece, entretanto, o fato de que a vitória da Rússia representa uma derrota para os Estados Unidos e seus aliados europeus. Derrota para o Ocidente; vitória para o mundo multipolar.

Quanto à China, os planos de Donald Trump ainda não estão totalmente claros. Mas uma hipótese bem plausível é que ele pretende redobrar os esforços de conter a ascensão da China, tentativa que tem amplo apoio bipartidário nos EUA e que vem sendo perseguida em todas as administrações desde o final do governo de Barack Obama, inclusive de modo vigoroso no primeiro governo de Donald Trump. A pacificação com a Rússia teria como objetivo quebrar, ou pelo menos enfraquecer, a aliança entre russos e chineses.

Outra indicação desses planos anti-China talvez sejam as relações cordiais com a Índia e o Japão, tradicionais adversários da China na Ásia. A boa-vontade com a Índia, aliás, ajuda a enfraquecer os BRICS, na medida em que reforça as tradicionais resistências de Nova Dehli a avanços do grupo, em especial no que tange à desdolarização, tema que desperta, como se sabe, a fúria do novo presidente dos EUA.

Donald Trump poupa a Índia e o Japão da sua metralhadora giratória, mas não alguns outros dos aliados históricos dos EUA, notadamente os canadenses e os europeus, inclusive a Inglaterra. Faz isso de duas formas. Exclui os europeus das fases decisivas da sua negociação com a Rússia. E aplica tarifas de importação pesadas sobre produtos europeus e canadenses, algo especialmente problemático para o Canadá, cuja economia por razões geográficas e históricas é profundamente integrada à dos EUA.

Esses países parecem ter sido pegos de surpresa pela agressividade do novo governo americano. Já contavam com relações mais difíceis, mas como antecipar um movimento de tanta hostilidade contra aliados tradicionais? Aliados, não. Talvez seja melhor referir-se a eles como satélites. O Canadá e o Reino Unido, em especial, têm sido leais vassalos dos EUA desde a Segunda Guerra Mundial. Que sentido faz atacá-los econômica e politicamente? Difícil entender de que maneira isso colabora para a estratégia de fortalecimento mundial dos EUA.

Repare, leitor, que Donald Trump não só não resolve vários dos problemas internacionais herdados de Joe Biden, como os agrava em sua maioria. E abre novas frentes de conflito, aprofundando provavelmente a tendência de isolamento dos EUA. Distancia-se dos parceiros tradicionais do Atlântico Norte e piora a situação no Oriente Médio, radicalizando a política pró-Israel e ameaçando o Irã. E deve aumentar as pressões sobre a China.

Os planos de intensificar a confrontação com a China dificilmente alcançarão o seu objetivo estratégico. Parece tarde demais para bloquear a ascensão econômica e comercial da China, que se tornou a fábrica do mundo à custa da desindustrialização de vários países, inclusive os EUA e o Brasil. O máximo que se conseguirá é desacelerar o crescimento economia e do comércio exterior da China, não sem pagar o preço de gerar tarifas retaliatórias e perder mercados para os exportadores americanos.

O que se quer, fundamentalmente, é deter a perda de expressão econômica dos EUA e refazer a indústria o país. O objetivo é válido por vários motivos, inclusive porque, no longo prazo, não há segurança nacional e poder militar sem base industrial no país. Contudo, as medidas econômicas iniciais não convencem.

A aplicação mais ou menos indiscriminada de tarifas de importação é uma faca de dois gumes. Por um lado, pode reforçar a produção industrial no país e trazer indústrias de volta; pode, também, forçar outros países a abrir mais espaço para as exportações americanas. Por outro lado, gera aumento da inflação para os consumidores e custos mais elevados para setores que usam insumos importados. E provocam tarifas retaliatórias em mercados tradicionais dos EUA.

Com essa inevitável ambiguidade, é pouco provável que as tarifas de importação tenham o impacto salvador com que sonha Donald Trump. Além disso, a deportação em massa de imigrantes e restrições severas à sua entrada nos EUA diminuem a oferta de trabalhadores menos qualificados e solapam a competitividade de empresas mais intensivas em mão-de-obra. Por sua vez, os cortes drásticos de gastos e fechamentos de agências do governo podem desarticular a atuação do Estado americano.

Por esses e outros motivos, a economia dos EUA deve continuar a trajetória de declínio relativo que marcou as décadas recentes, não se devendo excluir a possibilidade de que esse declínio venha a se intensificar com as políticas adotadas pelo novo governo.

A melhora nas relações com a Rússia, se acontecer de fato, não deve provocar distanciamento real entre a Rússia e a China. Vladimir Putin, um estrategista muito superior a Donald Trump, a Joe Biden e a qualquer outro presidente americano recente, tira partido das iniciativas de paz dos EUA e está, tudo indica, interessado na paz.

Mas alguém acredita, em sã consciência, que ele irá romper, ou mesmo enfraquecer, as suas relações estratégicas com Xi Jinping? Os americanos, inclusive o errático Donald Trump, merecem confiança? Putin certamente não esqueceu as diversas ocasiões em que a Rússia foi enganada, desde o colapso da União Soviética, por gestos e promessas do Ocidente, sempre liderados pelos EUA. Deve continuar colocando o grosso das suas fichas na aliança com a China.

“Nunca interrompa seu inimigo enquanto ele estiver cometendo um erro”, dizia Napoleão Bonaparte. Os chineses observam cuidadosamente as trapalhadas dos EUA e, com a sua típica paciência estratégica, vem se preparando para a tempestade que se avizinha. Preferem a paz e a continuação da sua ascensão econômica pacífica, mas estão se armando, com sucesso até agora, para a confrontação econômica e tecnológica com os EUA. E não descartam nenhum tipo de guerra com os americanos, como disse recentemente um porta-voz do governo chinês. Não serão intimidados.

Em suma, pelo que se pode depreender desses dois primeiros meses de governo, Donald Trump não conseguirá interromper a decadência dos EUA. Ele próprio, grosseiro e prepotente, despreparado e arrogante, é um sintoma dessa decadência. Como nas tragédias gregas, as tentativas de escapar do destino leva a comportamentos que aceleram a sua realização.

O que temos é MAWS,e não MAGA.

Paulo Nogueira Batista Jr. é economista. Foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS. Autor, entre livros, de Estilhaços (Contracorrente)

 

Sobre os críticos de “Ainda estou aqui”, por Lúcio Verçoza

0

Lúcio Verçoza – a Terra é Redonda – 05/03/2025

A capacidade do cinema de Walter Salles de adentrar os raquíticos fios do debate público no Brasil – ou da opinião publicada

O filme Ainda estou aqui circula. Prossegue circulando. E sua circulação não é como a de um ventilador de padaria: que gira, gira e permanece no mesmo lugar – soprando pouco vento. O começo da circulação da película se deu, sobretudo, na pele e nos pelos das pessoas que saíram de casa para ir ao cinema.

O segundo circuito de circulação, que é um desdobramento do primeiro, está na capacidade do cinema de Walter Salles de adentrar os raquíticos fios do debate público no Brasil – ou da opinião publicada. Logo, nessa segunda esfera da circulação, não tardou para que os autores de resenhas alimentassem os blogsYouTubeInstagramTikTok e páginas da grande mídia – tanto com análises elogiosas, quanto implacáveis.

Dentre as críticas mais duras, gostaria de sublinhar o texto de Raul Arthuso, divulgado recentemente no jornal Folha de S. Paulo. O escrito tem sua relevância, pois desloca a discussão para o campo da estética. Porém, no afã de sustentar a tese na qual o filme de Walter Salles seria um passo atrás no contexto do cinema nacional contemporâneo, o autor contorce o argumento, rebaixando o peso político de Ainda Estou Aqui.

Numa rápida análise, é possível destacar trechos nos quais Raul Arthuso carrega excessivamente nas tintas – fazendo com que o filme analisado pareça outro: “sua ênfase está na narrativa íntima, na memória, nas relações pessoais em detrimento da história e da realidade social, mesmo que isso esteja presente como pano de fundo difuso.” “[…] a realidade política é só um detalhe na trama.” “[…] não consegue construir um mundo ficcional que diga algo para a nossa realidade.” “[…] produzir efeitos de emoções, sem agredir ou tensionar questões locais”.

Toda essa linha argumentativa leva à construção de um retrato de filme que seria politicamente minúsculo e quase irrelevante: “que pouco tem a dizer sobre a nossa realidade”; no entanto, se trata do inverso: pela via da estética do detalhe íntimo, Walter Salles conseguiu atar um nó que liga o passado ao presente – fazendo o espectador sentir o passado como algo que diz respeito ao que está em nossa frente. E esse traço, de conseguir reavivar a memória por meio da arte, tem uma enorme potência política.

Tanto os críticos que gostariam que o filme fosse algo próximo de um panfleto (a exemplo das análises de viés excessivamente programático de Jones Manoel, ou do Chavoso da USP), quanto os que exigem uma estética de vanguarda, desconsideram que o forte impacto político do longa decorre de uma abordagem que toca na grande política pela chave da sutileza do detalhe e da micro-história.

A obra forma uma espécie de nó artístico – sem adotar uma linguagem explicitamente herdeira do Cinema Novo dos anos 1960, nem das vanguardas recentes do mangue ou dos sertões nordestinos –; um nó que não escreve um tratado da política econômica dos governos da ditadura militar, nem da luta sindical (como reivindicaram os críticos programáticos).

Todavia, é um nó ainda mais arguto, pois liga a ponta do passado à do presente em frente aos olhos e ouvidos do grande público: dando um tapa simbólico no rosto e na máscara do bolsonarismo. E, faz isso, sem dizer explicitamente o que faz. E faz isso construindo uma estética que sintoniza muito bem a forma ao conteúdo – sem pertencer às vanguardas da forma, e sem conceder a patrulha estreita dos que exigiram um filme-panfleto.

Talvez o grande acerto do filme esteja justamente nisso: em captar uma forma de pertencer a um tempo pelo 3×4 de uma família. E o faz sem a pretensão de lançar um tratado. E o faz demonstrando que uma linguagem aparentemente simples (em termos de inovação) pode ser sutil e profunda. A plateia, por diferentes caminhos, sacou o que estava na tela e sentiu, por alguns minutos, o sentimento do mundo. E o sentimento do mundo é ambíguo: carregado de choro, fúria, esperança, aplauso e memória.

Lúcio Verçoza é professor de sociologia na Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

 

Confusão e ameaças

0

Nos últimos sessenta dias a comunidade internacional vem passando por grandes controvérsias econômicas e políticas, com confusões variadas e preocupações crescentes, motivadas pelas políticas equivocadas implementadas pela nova administração dos Estados Unidos da América, espalhando críticas imediatas na comunidade internacional, aumentando o ódio e o ressentimento entre adversários e, pasmem, até mesmo estas políticas estão afetando os aliados, criando pânico, revolta e desconfiança.

Neste período, o governo norte-americano vem adotando políticas fortemente unilaterais, impondo tarifas comerciais e medidas protecionistas para todos os parceiros, apresentando desejo de anexar territórios externos, gerando preocupações para toda a comunidade internacional, impactando sobre acordos comerciais assinados anteriormente, prejudicando as estratégias de empresas nacionais e internacionais e criando um clima de insegurança, incertezas e preocupações sobre os rumos dos negócios na economia internacional.

Das medidas destacamos os confrontos crescentes com aliados históricos dos Estados Unidos, como a Europa Ocidental, levando seus governos a alterarem suas políticas de defesa nacional e, desta forma, a União Europeia está se preparando para uma verdadeira escalada militar, num projeto ambicioso e orçado em quase 1 trilhão de euros, recursos inexistentes atualmente no bloco e que tendem a criar novos descontentamentos com a população, servindo de um verdadeiro combustível para o crescimento da extrema direita. Neste cenário de grandes incertezas na União Europeia, onde os governos nacionais europeus vão levantar recursos para a indústria da defesa? A pergunta é intrigante e urgente, mas a resposta passa pelas políticas do Estado do Bem-estar Social que devem minguar para financiar os fabulosos gastos bélicos e militares, contribuindo efetivamente para espalhar em toda a região, misérias, pobrezas e indignidades.

As políticas implementadas pelo governo norte-americano estão gerando calafrios para os aliados do norte da América, levando países como o México e o Canadá a estudarem e, posteriormente, adotarem como forma de defenderem seus setores produtivos e seus interesses nacionais, protegendo as suas empresas e toda economia, defendendo seus trabalhadores e garantindo seu mercado interno. 

As medidas implementadas pelo governo de Donald Trump estão criando novos constrangimentos na comunidade internacional, levando inúmeros países a recorrerem a Organização Mundial do Comércio (OMC), buscando a mediação de organismos mundiais para evitar o crescimento do protecionismo global, cujos impactos tendem a ser devastadores para o comércio global, levando as nações a aumentarem o isolacionismo.

Numa sociedade centrada no imediatismo, no individualismo, no narcisismo e na busca frenética pelo lucro monetário, onde os atores econômicos e produtivos olham apenas para o curto prazo e pelos ganhos imediatos, os confrontos crescem fortemente na seara do comércio internacional e na geopolítica tendem a se espalhar para todas as áreas da comunidade global, aumentando as tensões entre as nações, com o incremento dos investimentos bélicos e militares e a redução sistemática dos gastos sociais e das políticas públicas que beneficiam a maioria da população, desta forma, estamos caminhando a passos largos para uma destruição total e inimaginável, atuando como seres humanos irracionais e individualistas, nos distanciando rapidamente do comportamento daqueles que chamamos de animais.

Ary Ramos da Silva Júnior, Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Especialista em Sociologia do Trabalho e Exclusão Social, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário.

 

Como vai a Europa pagar por sua própria defesa? por Rui Tavares.

0

Problema nunca foi de falta de recursos, mas de vontade política; quando é para sobreviver, a vontade política aparece

Rui Tavares, Historiador, deputado na Assembleia da República de Portugal e ex-deputado no Parlamento Europeu; autor de ‘Agora, Agora e Mais Agora’

Folha de São Paulo, 19/03/2025

A opinião convencional dominante nos dias que correm parece ser que a Europa deixou de cuidar da sua defesa após a Segunda Guerra Mundial, delegando essa função aos Estados Unidos e praticamente não gastando dinheiro em armamento. A mesma opinião sustenta agora que a Europa ficou desorientada perante a guinada geopolítica de Donald Trump e que não terá chance de defender-se perante Vladimir Putin.

Essa opinião convencional está errada.

A Europa nunca gastou propriamente pouco em defesa. O Reino Unido e a França são potências nucleares, e os gastos acumulados dos países-membros da União Europeia foram no ano passado bem superiores a € 300 bilhões, não tão longe da Rússia e da China.

A questão na Europa nunca foi gastar pouco em defesa, mas antes gastar sem visão de conjunto e comprando grande parte do seu material dos EUA. É isso que vai mudar agora. Trump conseguiu quebrar os laços de confiança entre europeus e americanos e com isso deu um novo foco estratégico à Europa, e em particular à UE.

A União Europeia irá com toda a probabilidade avançar para a compra conjunta de armamento, repetindo o mecanismo que provou ser um grande sucesso com a compra de vacinas pelo bloco, assegurando ganhos de escala e baixando custos. E o material será produzido na Europa, para ajudar na reindustrialização do continente e para evitar a utilização de caríssimo armamento dos EUA (como os famosos caças F-35) que se suspeita que possa ser desativado à distância.

Além disso, há países-membros da UE que têm capacidade para gastar mais, e o caso mais relevante agora é o da Alemanha, que já aprovou alterações à sua legislação para possibilitar mais gastos em defesa.

Mesmo assim, há investimentos iniciais que precisarão de somas mais avultadas nos primeiros anos. Têm feito debate aqui no continente as declarações do secretário-geral da Otan, Mark Rutte, que sugeriu que os europeus deveriam ter de prescindir do seu estado social para investir na defesa.

A União Europeia pode lançar os chamados eurobonds, títulos de dívida emitidos em nome da União como um todo, não dos seus Estados-membros. A dívida da UE, bem como o seu orçamento, representa pouco mais de 1% do PIB da União. Há espaço mais do que suficiente para emitir dívida, há interesse dos mercados globais em comprá-la, e o momento é o mais oportuno, num momento em que Trump lança a economia dos EUA na turbulência e os investidores procuram outros portos seguros.

Em segundo lugar, a União Europeia (ou apenas os Estados que o desejarem) pode lançar um imposto comum de apenas 2% sobre fortunas acima de € 1 milhão. Nos cálculos do economista Gabriel Zucmán, isso daria mais de € 60 bilhões por ano.

Em terceiro lugar, há € 300 bilhões em ativos russos congelados, que podem ser confiscados e usados na reconstrução da Ucrânia.

O problema da Europa nunca foi de falta de recursos, mas de falta de vontade política. Quando é para sobreviver, a vontade política aparece.

 

Liberou geral? por Candido Bracher

0

Estaríamos agindo como o personagem da música ‘E o Tal do Mundo Não Se Acabou’, interpretada por Carmem Miranda?

Candido Bracher, Administrador de Empresas formado pela FGV. Foi executivo do setor financeiro por 40 anos.

Folha de São Paulo, 16/03/2025

A leitura da seção de Clima e Meio Ambiente dos jornais internacionais nos últimos dois meses certamente causaria surpresa e desconforto às mentes cartesianas acostumadas a estabelecer relações lógicas entre os fatos.

Além da confirmação de que 2024 foi o ano mais quente já registrado, o leitor encontraria manchetes como: “Janeiro mais quente já registrado choca cientistas” (Financial Times, 6/2), “Janeiro mais quente já registrado intriga cientistas do clima” (The Guardian 6/2), “Este foi o janeiro mais quente já registrado, segundo cientistas” (The New York Times, 6/2).

A leitura dos artigos explicaria que a surpresa decorre da permanência de temperaturas recordes, a despeito do resfriamento do oceano Pacífico, decorrente do fenômeno La Nina.

Outras manchetes teriam o mesmo tom: “Renomado cientista do clima adverte que o objetivo de (limitar o aquecimento a) 2ºC está morto” (The Guardian 4/2), “Geleiras da Europa encolheram 40% desde 2000” (Financial Times, 20/2), “Califórnia enfrenta seca agravada, apesar de temporais recentes” (The Guardian, 24/2), “No estado do hóquei, mudanças climáticas reduzem o número de ringues de patinação” (The Washington Post, 24/2), “A corrida de trenós puxados por cães mais famosa do mundo está com falta de neve” (The Wall Street Journal, 4/3).

No mesmo período e nos mesmos jornais, outras manchetes diriam: “Earth Fund com US$ 10 bilhões de Jeff Bezos corta vínculos com agência de clima” (Financial Times, 6/2), “UE exagera nas regras verdes, alerta chefe da Siemens Energy” (Financial Times, 12/2), “Suspensão de regra da SEC é presente antecipado para os apoiadores de Trump do setor de óleo e gás” (The Washington Post, 17/2), “Big Techs aprendem a compartilhar o entusiasmo de Trump pelos combustíveis fósseis” (The Washington Post, 23/2), “Eleições alemãs mostram o quanto a onda verde recuou na Europa” (The Guardian 24/2), “BP deve abandonar meta de renováveis e voltar a focar em combustíveis fósseis” (The Guardian 24/2), “Bancos rebaixam cargos de sustentabilidade” (Financial Times, 24/2), “Como Trump sabotou a política climática americana” (The New York Times, 2/3) e “Autoridades do governo Trump destroem proteções climáticas e consideram ocultar descobertas-chave sobre gases de efeito estufa” (Guardian, 13/03).

Procurando ater-se à racionalidade, esse leitor poderia supor que tais retrocessos decorrem da descrença honesta de certas pessoas nas projeções científicas, acreditando que as “mudanças climáticas” são uma farsa engendrada pela esquerda.

Afinal, não seria a primeira vez que previsões apocalípticas se mostrariam infundadas. Gosto da definição de Idade Média que Rui Tavares oferece em seu admirável “Agora. Agora e Mais Agora”: “Cerca de mil anos em que o fim do mundo estava para breve”.

Outras previsões também falharam: o cometa Halley, em 1910, a crise dos mísseis em Cuba, em 1962, a previsão de Nostradamus para 1999 e mesmo a pandemia de Covid, em 2020. Não seria assim inverossímil que pessoas bem-intencionadas manifestassem uma descrença atávica em teorias de colapso.

Nosso leitor cartesiano poderia, porém, achar improvável que pessoas bem formadas, com vasto acesso a informações, simplesmente desconsiderem a abundância de evidências científicas do aquecimento global e todas as suas consequências desastrosas.

Nesse caso, poderia atribuir a intensificação da exploração e uso de combustíveis fósseis ao fenômeno, que também tem precedentes históricos, da adoção de atitudes tresloucadas diante da certeza do ocaso.

Como ilustração, em vez de recorrer à história, prefiro lembrar a música “E o Tal do Mundo Não Se Acabou”, interpretada por Carmem Miranda, na qual a personagem diz: “Acreditei nessa conversa mole/pensei que o mundo ia se acabar/e fui tratando de me despedir/e sem demora fui tratando de aproveitar”.

Uma última hipótese a considerar seria a de que os responsáveis pelo aumento de emissões de carbono, embora não desacreditem das previsões científicas, creiam que algo acontecerá —uma nova tecnologia, possivelmente— de modo a evitar o apocalipse.

Nosso leitor, porém, duvidaria da honestidade dessa crença, por ser demasiadamente autoindulgente, e a enquadraria juntamente com a simples indiferença egoísta diante do destino da humanidade. Irracional, porém humano.

Seja como for, esse comportamento deletério, além dos efeitos diretos sobre o aquecimento, tem consequências ainda mais graves. Refiro-me ao desalento resultante da percepção de uma situação de “liberou geral”, de “passagem da boiada”, diante da qual é inútil resistir.

É importante termos presente que será nesse cenário conflagrado que em novembro se realizará a COP 30, em Belém. Não devemos nos sentir desestimulados por isso, ao contrário, mas deixar de reconhecer dificuldades nunca foi bom método para as superar.

Caberá à coordenação da reunião, em vez de ceder às pressões contrárias, usá-las como elemento promotor da união entre países e agentes privados comprometidos com o combate ao aquecimento.

Entre os objetivos a serem perseguidos, podemos enumerar a costura de uma aliança entre países interessados em desenvolver um mercado comum de carbono; redobrar esforços para atingir a meta de financiamento de US$ 1,3 trilhão; avançar na discussão sobre uso da terra, tão relevante para a agricultura e para a promoção dos biocombustíveis; buscar estabelecer critérios globais para a mensuração do conteúdo de carbono dos diversos produtos e estimular a China a ocupar o espaço deixado pelos EUA.

Sabemos que nossa equipe, chefiada pelo embaixador André Corrêa do Lago, já está empenhada na articulação de diversos desses objetivos; sabemos também que a tarefa é extremamente árdua e desafiadora.

É importante termos presente que o combate ao aquecimento global é um processo longo e descontínuo; uma maratona, não uma corrida de 100 metros. Cada passo dado é importante, ainda que o efeito seja apenas o de fazer uma profissão de fé e denunciar aqueles que sabotam o esforço.

A verdade dessa afirmação pode ser aferida ao pensarmos no papel singular que teve a anticandidatura de Ulysses Guimarães, em 1974, no também longo processo do Brasil em direção à democracia. Em seu discurso diante do Colégio Eleitoral que confirmou a vitória do general Ernesto Geisel, tomou emprestada de Fernando Pessoa a frase que designa o combate pelas boas causas, que agora aplico também à resistência que a COP30 exercerá contra um cenário adverso: “Navegar é preciso, viver não é preciso”.